A Guerra Olimpiana
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Fiquei assustada ao ver a guerra se desenrolando na minha frente.
Havia milhares de pessoas ali, e mesmo sendo de proporções colossais a guerra era extremamente silenciosa. Ouvia-se apenas o leve tilintar de espadas e de vez em quando uma explosão aqui e ali.
Levantei a espada e segui em frente. No meio do caminho Dylan me puxou pelo braço, fazendo com que eu parasse bruscamente. Olhei para ele, confusa.
—O que foi?
—Cuidado, não é tão fácil!
—Por quê? É só tomar cuidado para que nada nem ninguém nos atinjam.
—Não é tão simples, há uma proteção, uma barreira, ao redor da guerra. Ela impede que os mortais possam entrar na guerra. Olhe! — Ele atirou uma pedra em direção a guerra. Antes mesmo de tocar o chão ela se desintegrou, virou uma coluna de chamas e desapareceu.
Olhei novamente para Dylan, boquiaberta.
—Obrigada. Como vamos passar?
—Não sei, a única entrada é a do lado dos titãs, em frente ao castelo. Iríamos cruzá-la hoje se não tivéssemos causado aquela pequena confusão. Depois que você escapou eu fui pego. Eles me amarraram e chicotearam minhas costas, como punição. Mas depois me soltaram. Peguei minha mochila e fui te encontrar.
—Me desculpe, a culpa é minha, eu devia ter ido para o meu quarto no momento em que deu o toque de recolher. Mas deve haver uma do lado dos deuses também, a passagem por onde mandam seus heróis à guerra.
—Sim, provavelmente, mas não faço ideia de onde está o monte dos deuses.
—Também não sei, mas deve ser em algum lugar naquela direção — Levantei a mão apontando o horizonte — Está o Olimpo.
***
Depois de várias horas de caminhada e muitas paradas de descanso chegamos a um lugar onde passava um rio, o Flegetonte. Ele é um dos cinco rios que passam do mundo inferior direto ao Tártaro. Em alguns lugares — Muito raros — eles aparecem na superfície. O Flegetonte não possui água, ele é apenas fogo líquido. É muito extenso e infelizmente estendia-se à nossa frente, sem nenhuma brecha por onde poderíamos passar sem sermos incendiados.
—Como vamos passar? — Perguntou Dylan.
—Não sei, se atravessarmos nadando seremos carbonizados e para contorná-lo levaríamos meses, talvez até anos.
—Clary, reze para sua mãe.
—O que? —Perguntei, quase gritando.
—Por favor, reze para Atena.
Ele disse aquilo com tanta confiança que tentei. Fiz uma pequena e silenciosa oração para Atena, abri os olhos e vi Dylan encarando-me com esperança nos olhos. Esperamos alguns instantes, mas nada aconteceu. Senti lágrimas queimando em meus olhos, ansiando por serem derramadas. Atirei-me no chão. Dylan olhou para mim e sentou-se ao meu lado. Ficamos olhando o horizonte em silêncio.
—Clary, olhe. —Ele apontou para o céu.
Sentei-me e olhei para onde ele apontava. Algo se aproximava rapidamente, algo grande e voador. Logo percebi que era um hipogrifo. Era um hipogrifo! Era branco, mas suas asas brilhavam em um tom dourado. Seus olhos eram azul-cinzas e suas asas tinham aproximadamente dois metros cada uma. Ele pousou a alguns centímetros de mim. Dylan escondia-se atrás das minhas costas. Ele não tinha medo de Urano, mas se escondia de uma coisinha tão fofa.
Assim que meu momento de confusão passou percebi o que era aquela coruja. A ajuda. Atena.
—Vem Dylan! Minha mãe! É o presente da minha mãe! — Falei com entusiasmo, pulando de alegria.
—Eu não vou andar nessa coisa! — Ele disse dando um chilique.
—Vamos lá, ela é boazinha! — Dylan percebeu que era uma fêmea — E é a nossa única opção. Além de que foi você que me convenceu a pedir ajuda para minha mãe!
—Okay, vamos logo...
Montamos em Nymeria, — sim eu dei um nome pra ela — e voamos em direção à nossa salvação.
***
***
Sobrevoamos a guerra por alguns minutos e por todo o percurso eu conseguia sentir a tensão nos braços de Dylan que se segurava cada vez mais forte em minha cintura.
Voar em Nymeria era reconfortante. Depois de toda a tensão, o medo, agora finalmente podíamos experimentar aquela sensação de liberdade.
—Clary! — Dylan gritou por cima do barulho do vento, e pude notar um quê de esperança em sua voz.
—O que foi? —Perguntei-lhe.
—O Olimpo. —Ele apontava para o monte que se erguia à nossa frente.
Olhei admirada para aquele monte. Mesmo estando no verão o monte inteiro brilhava com uma leve camada de neve brilhante, que ia desde sua base até onde podíamos ver. Todo o monte irradiava um poder que fazia minha pele formigar. Havia ali uma gravidade própria, convidando-me para chegar mais perto. Era como se ali fosse o centro do mundo.
Nossa coruja começou a baixar voo até sentirmos o chão roçando nossos pés. Pousamos com um solavanco em uma estrada de terra logo a frente do monte. Ao nosso redor estendiam-se montes menores e incontáveis árvores de copa verde e frutos de várias cores, pássaros brancos, azuis e cor de rosa, pousados em seus galhos mais baixos. No chão era possível ver alguns animais. Cobras, javalis, onças, pavões e uma infinidade de outras espécies.
Seguimos alguns metros pela estrada e avistamos um lago. Paramos na margem.
—Acho que podemos tomar um banho. — Dylan disse com animação.
Pulamos no rio, de roupa mesmo, deixando Nymeria para trás. Mergulhei e senti a água na minha pele.
O fundo do lago era lindo. Peixes coloridos nadavam ao nosso lado, algas estendiam-se pelas paredes do lago e a água parecia mudar nas cores do arco-íris. Quando perdi o fôlego voltei à superfície.
—Melhor irmos, o sol já está se pondo.
Um pouco relutante, assenti.
—Okay, vamos.
Apoiamo-nos na beira do lago e começamos a sair. Senti uma mordida no meu pé. Olhei para baixo, mas não vi nada. Continuei saindo, era muito difícil manter-me equilibrada e a água parecia puxar-me para baixo. Outra mordida, desta vez mais insistente. Novamente olhei para baixo e tudo que pude ver foi a água límpida estendendo-se abaixo até a parede de algas. O lago era extraordinariamente fundo, não podíamos ver até onde ele estendia-se.
—Sentiu isso, Dylan? — Perguntei hesitantemente.
—Não senti nada. — Respondeu normalmente, sem preocupação.
Ignorei o fato e saí da água. Dylan ainda não havia saído então estendi a mão para ajudá-lo. Foi quando vi um vulto aproximando-se rapidamente na nossa direção. Estreitei os olhos e esperei, agora segurando a mão de Dylan.
—Dylan, rápido! — Gritei. Mas para meu desespero ele escorregou. Escorregou! E caiu água adentro.
Era tarde demais. O vulto se aproximou dele e dividiu-se em dois, envolvendo-o. Eram peixes coloridos. Aqueles que eu havia observado ao mergulhar no lago pela primeira vez. Mas ao se dividir, as cores mudaram. Suas escamas tingiram-se de preto e seus pequeninos olhos brilharam em um vermelho mortífero.
Todo o lago pareceu escurecer com a presença daqueles animaizinhos, mas poderia ser apenas o pânico do momento enganando meu cérebro e provocando esse tipo de ilusão. Antes que eu pudesse sequer mergulhar e lutar o cardume nadou escuridão abaixo, deixando-me sozinha.
Sentei-me na beira do lago e chorei. Chorei como nunca havia feito antes. Já não sabia mais se valia a pena todo o sofrimento que tive apenas para ajudar os deuses. Será que eles são mesmo tão melhores que Urano ou qualquer titã?
Nymeria se aproximou como se sentisse que eu estava triste e me cutucou amorosamente com a pata.
— O que foi garota? — Pergunto entre soluços, acariciando seu focinho.
Ela ronronou e apontou com a cabeça para o monte. Levantei-me enxugando as lágrimas e montei em Nymeria. Ela voou até a metade do caminho e parou. Desci e imediatamente ela voou para longe, deixando-me sozinha novamente. As lágrimas ameaçaram cair novamente, mas contive-as e segui em frente. Agora eu estava por conta própria. Fiquei ali observando o lento por do sol.
Talvez fosse apenas a perda recente enevoando meus pensamentos, mas o sol parecia mais brilhante, como um último adeus ao filho de Apolo.
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