A Guerra Do Amor
13 O bosque branco
Notas iniciais
Capítulo 13 – O bosque branco
Fazia quinze dias desde o incidente do rio e três semanas que eu não via meu pai, minha única família restante, ou meu noivo. E agora eu estava nos grandes portões de ferro do castelo esperando a chegada deles. Sir Mason estava ao meu lado como sempre. Estávamos nos tornando bons amigos, já que passávamos a maior parte do tempo juntos, tínhamos tempo de falar sobre nós. Mason me disse que fora escudeiro do meu pai antes de se tornar cavaleiro, e que vinha de uma família nobre de terras distantes. Ele veio para tão longe de casa porque estava em busca de méritos e prestígios, e que pretendia voltar para sua família assim que a guerra terminasse.
Eu não precisei esperar muito, logo avistei um cavaleiro carregando um estandarte vermelho e amarelo, cores da casa Mazur. Meu pai e noivo vinham logo atrás, cercados de guardas. O que eu não esperava era ver uma carruagem real. Quem poderia ser?
Saldei os cavaleiros em sinal de respeito assim que passaram por mim. Quando me viu, meu pai abriu um sorriso e desceu do cavalo o entregando para seu novo escudeiro.
– Minha filha! Como é bom ver seu lindo rosto novamente. – Ele se aproximou e me puxou para um abraço. Eu senti falta do seu cheiro almiscarado.
– Oi pai. Eu senti sua falta. – me afundei mais em seus braços.
– Creio que teremos pouco tempo para matar a saudade, ficarei apenas duas noites. – ele disse se afastando e me olhando.
– Por que tão pouco tempo?
– Estou aqui apenas para conseguir alguns suprimentos que estão em falta. E para te trazer uma companhia. – ele sorria misterioso.
– Quem? Adrian? – disse olhando para o meu noivo que estava conversando com Mason.
– Não, precisamos dele no acampamento. Porque não vai até a carruagem e descobre.
Eu não me lembrava a ultima vez que meu pai havia me feito uma surpresa. Provavelmente quando minha mãe ainda era viva. Depois de sua morte ele tinha ficado amargurado e frio. Eu não pensei que o veria sorrir assim novamente. Afinal, a guerra poderia trazer coisas boas em tudo. Caminhado até a carruagem eu abri a pequena porta e fui arremessada para trás quando braços finos envolveram meu pescoço com força.
– Rose! Eu senti sua falta. Nem acredito que estou aqui novamente.
– É bom ver você também Lissa. – eu respondi quando consegui afastá-la um pouco. Era bom saber que eu teria uma amiga presente agora. – Como Daniela permitiu sua vinda?
– Eu sei, eu também não acreditei quando vieram me dar a notícia. Eu acho que foi Adrian que a convenceu dizendo que você deveria estar se sentindo sozinha. – olhando para a multidão eu encontrei o rosto sorridente de Adrian olhando em minha direção. Eu precisava agradecê-lo mais tarde.
– Eu realmente estava. – era parte da verdade. A companhia de Dimitri fazia maravilhas para os meus dias.
Lissa ficaria mesmo quando os homens partissem. E Christian seria o responsável por sua segurança. Eu não pude deixar de sorrir quando vi seus olhos brilhando com a notícia.
Eu também estava feliz por finalmente ter alguém na enorme mesa de carvalho durante as refeições. Era no meio do dia quando estávamos todos sentados e apreciando a deliciosa comida.
– Como estão as coisas no acampamento? – eu perguntei para Abe, mesmo esperando que a resposta viesse vaga.
– A situação não continua boa, mas está estável. Redobramos a guarda nas fronteiras e vilarejos. Não houve mais ataques imprevistos. – aproveitando que eu estava conseguindo respostas, continuei.
– Mas houve ataques?
– Sim. Estamos em guerra Rose. Qualquer chance de derrubar o inimigo é válida e muito bem apreciada. Temos espiões em toda região leste.
– Quando isso vai acabar? – Adrian me deu um olhar de pena.
– Pequena princesa, eu não acho que essa guerra vai acabar tão cedo. É apenas o começo.
O assunto terminou e ficamos em silêncio, mas as palavras de Adrian ainda pairavam sobre todos nós.
Durante a tarde, com a desculpa de ir dormir eu fui me encontrar com Dimitri. Treinamos arco e flecha e cavalgada. Eu estava realmente me tornando muito boa, mas eu não esperava menos de Dimitri. Eu sentia meus músculos muito mais fortes e desenvolvidos. Minhas pernas com certeza agradeciam. Hoje Dimitri estava um pouco sério, o que eu estranhei.
– Você está bem?– eu me aproximei dele montada em seu cavalo. Eu tinha acabado de completar pela primeira vez o circuito de alvos que ele tinha elaborado nas árvores do bosque, mas ao invés de encontrá-lo com um sorriso orgulhoso, o encontrei sentado na pedra do rio com um olhar distante.
Quando ele não me respondeu, desci do cavalo e deixei o arco e a aljava de lado, me abaixando em sua frente e tentando chamar sua atenção com as mãos.
– Hey, Dimitri? – Finalmente ele pareceu acordar do seu transe. Eu franzi a testa. – Está tudo bem?
– Nada para se preocupar. – ele demorou a responder e eu sabia que ele estava mentindo. Ele estava preocupado com alguma coisa.
– Eu conheço você melhor do que isso. – disse levando as mãos para os quadris e lhe lançado um olhar de reprovação.
Ele sorriu e me puxou pela cintura para sentar em seu colo de frente para ele.
– Me desculpe, eu deveria saber melhor antes de tentar omitir algo de você Roza. Só estou preocupado com a minha família, isso é tudo. – eu sabia.
– Deveria voltar para eles. – me doía dizer isso, mas eu não seria egoísta a ponto de fazê-lo ficar. Sua família era importante demais para ele.
– Você precisa de mim aqui agora. – ele disse determinado.
– Assim como sua família precisa de você. Eu vou ficar bem aqui, tenho Mason. Ele daria sua vida pela minha.
– Rose, elas estão a cinco dias de distâncias. Longe de qualquer disputa direta, e eu confio na segurança do castelo. Elas estarão seguras. Eu apenas me preocupo porque não tenho notícia nem as vejo a um longo tempo. – ele disse colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
– Você sempre pode ir vê-los para matar a saudade. – encorajei.
– Está tentando me mandar embora? – ele soou divertido. Quase de volta ao normal.
– Não. – disse rápido demais, fazendo seu sorriso aumentar. – Claro que não. Eu gosto de você aqui. Só não quero me intrometer entre sua família e você.
– Não sabe o quão importante você é para mim Roza. Enquanto eu não tiver certeza da sua segurança, não estou indo a lugar nenhum. – seu sotaque estava mais forte que o comum, sorrindo eu o beijei docemente.
Mal era um beijo, era mais como um roçar de lábios. Nos últimos dias eu sentia nossos beijos carregados de sentimentos e promessas, e isso estava me assustando. Quando nos tocávamos uma corrente passava por todo o meu corpo, me fazendo arrepiar e desejá-lo. Eu poderia dizer que ele sentia a mesma coisa, porque sempre que isso acontecia comigo eu sentia seus músculos se contraindo, assim como os meus. Eu poderia estar apaixonada por Dimitri Belikov? Eu nunca tinha compartilhado esse sentimento com ninguém e não sabia identificá-lo. O que eu sentia por Dimitri era forte. E tomava conta da minha mente o tempo todo. Seu jeito de me fazer sorrir ou me acalmar, mesmo quando tudo parecia perdido, a forma como ele me tocava com tanto carinho, a admiração que ele tinha pela sua família e a honra que ele colocava em primeiro lugar, esse era Dimitri, o homem que estava roubando parte do meu coração. Parando o beijo lentamente eu me afastei para olhá-lo e resolvi tirar uma dúvida antiga. Eu precisava saber.
– Por que você saiu de casa? – ele me olhou profundamente antes de responder.
– Victor e eu nunca nos demos muito bem. Temos ideologias contrárias. – ele respirou fundo. — Ele traia a minha mãe, eu o via levando suas concubinas para uma das suítes do castelo toda noite. Ela sabia disso, e eu via como aquilo a machucava, porque mesmo sem eu entender ela o ama. Quando ela foi questioná-lo, ele levantou a mão contra ela. Eu não aguentava ver aquilo, perdi todos os sentidos e bati nele. – meus olhos provavelmente estavam arregalados agora.
– Você bateu no seu pai? No seu rei?
– Eu faria tudo de novo se fosse preciso. Mas é claro que isso trouxe consequências. Ele me mandou para um acampamento de treinamento de guerreiros. Eu fiquei longe da minha família por seis anos, só as via algumas vezes no ano. O único que ainda estava ao meu lado era Ivan, que me acompanhou no acampamento por vontade própria. – ele sorriu com a lembrança. — E também foi onde eu conheci Tasha e sua família. Eles ajudavam no acampamento.
– Quantos anos você tinha quando bateu nele? – No fundo eu senti um pouco de ciúmes sobre ele conhecer Tasha há tanto tempo, mas não comentei nada.
– Quatorze anos. Eu só voltei quando tinha vinte. Eu vi que as coisas não tinham mudado. Victor continuava traindo a minha mãe, só que agora ela não falava nada com medo de apanhar novamente. Eu não suportava assistir aquilo e não poder fazer nada. No meu país lealdade e honra é o que faz um homem.
– Foi por isso que você saiu?
– Isso faz parte dos motivos. Quando eu fiz 21 anos, Victor queria me encaminhar para sua política. Mas não era essa a política que eu queria seguir. Estando fora do castelo durante o treinamento eu vi a realidade da população. Pessoas passando fome, frio, sem devidas condições de higiene ou cuidados médicos. Ficar no castelo significava assistir a tudo e não poder fazer nada. Eu sou o príncipe herdeiro, mas não posso passar por cima das ordens do rei. E sabendo o quanto minha mãe o ama... O que me restou foi sair, antes que eu fizesse algo que eu me arrependesse mais tarde. Desde então Ivan e eu temos andando por todas essas terras. O que são por três anos agora.
Eu levei um momento para absorver toda a história. Agora eu sabia o porquê dele ter tanta raiva do pai.
– Você tem um bom coração Dimitri. Fez a coisa certa. – eu o invejava, mesmo não querendo admitir, internamente eu sabia que fazia. Sendo homem ele tinha escolhas que eu não tive. Liberdade. Era tudo o que eu queria.
– Eu não tenho tanta certeza Rose. Eu abandonei minha família quando elas mais precisavam de mim. Fui um covarde.
– Não os abandonou. Você se preocupa e pensa nelas o tempo todo. E você é tudo menos covarde, pelo contrario, é o homem mais corajoso que eu já conheci. Você enfrentou seu próprio pai e rei para defender a honra da sua mãe. Nunca se arrependa do que fez.
Ele sorriu e me puxou para seu peito.
– Eu não sei o que eu faria sem você Roza. – eu me deixei levar pelo conforto de seus braços.
Os outros dois dias se seguiriam da mesma forma. Passava o dia com meu pai e noivo e durante a tarde encontrava Dimitri. Apesar da nossa conversa, eu o achei meio distraído esses dias, mas não o questionei novamente. Eu sabia que tinha algo a ver com a segurança da sua família. Hoje de manhã, meu pai e Adrian haviam partido de volta para o acampamento, levando suprimentos médicos, comidas, bebidas e mais alguns homens. Eu sentia um pedaço do meu peito sendo arrancado ao vê-los sair pelos portões e irem em direção à guerra. Apesar de ser contra meu casamento com Adrian, eu tinha desenvolvidos sentimentos por ele. Ele era como um amigo, e eu me preocupava pela sua vida. Enquanto eu voltava para o interior do castelo, depois de todas as despedidas cerimoniais aos cavaleiros, eu avistei Christian e Lissa caminhando bem próximos e parecendo ter uma conversar muito satisfatória. Eu sorri, eles estavam se dando muito bem nos últimos dois dias.
Vendo que eu estaria sem companhia por um tempo, me sentei em um dos bancos de mármore do grande pátio. Fiz um gesto para Mason se sentar ao meu lado, relutante ele sentou-se.
– Precisa de algo princesa? – sempre com formalidades.
– Mason, já falamos sobre as formalidades. Eu não sou diferente de ninguém.
– Desculpe Rose, é o costume. – suas bochechas rosadas se tingiram de vermelho.
– Não deve ter sido fácil ser escudeiro do meu pai. – eu brinquei.
– Rei Mazur é um homem muito corajoso e leal. É uma honra servi-lo.
– Aposto que seguir a filha dele por ai é que deve estar sendo uma tarefa um tanto difícil.
– Claro que não Rose. Estar na sua companhia é como estar de volta em casa. Você não é nem de perto parecida com todas as donzelas da realeza, é fácil estar ao seu lado. Confortável. – eu sorri agradecida. – Adrian é um homem de sorte. – por culpa eu desviei o olhar do dele. Eu não estava feliz pelo que eu fazia com Adrian. Traí-lo com o nosso inimigo ainda por cima. Mas tinha algo sobre Dimitri que me fazia quebrar todas as regras apenas para estar ao lado dele. Era como se eu perdesse completamente o senso e seguisse apenas o que o meu coração mandava. Eu sabia que não poderíamos estar juntos para sempre, isso duraria até o meu casamento, daqui a mais três semanas.
Se Mason percebeu meu desconforto, ele escondeu muito bem. Eu gostava desse lado dele, que sempre me dava o espaço que eu precisava. Aproveitando o silêncio, mudei de assunto.
– O que você acha da aproximação daqueles dois? – apontei para Christian e Lissa que sorriam um para o outro se afastando cada vez mais.
– Isso é realmente inesperado. Eu imaginei que a duquesa Dragomir nunca se aproximaria de um simples cavaleiro.
– Lissa não é assim. Ela é a pessoa mais generosa que eu conheço. E além do mais, Christian não é um simples cavaleiro. Ele é herdeiro do Forte de Altroz. Ele será o Marechal das defesas sul do reino. – Mason sorriu olhando para os dois cruzando os dedos em um gesto carinhoso.
– Eles formam um belo casal. – eu concordei sorrindo. – Espero que a rainha e o rei de Menfis aprovem a união, caso haja uma.
– Eu também espero. – na verdade eu tinha certeza de que Daniela tinha algo mais adequado para o futuro da última Dragomir do que um simples Marechal. Mas se Adrian e eu fossemos os governantes, a decisão estaria em nossas mãos.
Mason e eu passamos um longo tempo apenas falando sobre coisas desnecessárias. Eu percebi que o vento gelado tinha parado de soprar meus longos cabelos negros. E quando olhei para o céu em busca da brisa senti algo gelado e úmido pousar sobre o meu nariz. Acompanhando meus movimentos Mason sorriu.
– Vejo que você pegou o primeiro floco de neve deste inverno.
Olhando para ele observei pequenos pontos brancos se destacando em seu cabelo vermelho. Seus olhos estavam mais azuis do que de costume. Levantei-me, abrindo as palmas das mãos para cima, deixando os diferentes flocos se acumular ali.
– Está nevando. – confirmei o obvio.
Quando minhas mãos estavam sobrecarregadas eu lancei a neve para cima, fazendo-a cair como pequenos cristais à minha volta. Mason tinha um sorrido branco na minha direção enquanto eu brincava com a recém-neve caída.
– Parece que alguém nunca brincou na neve antes. – eu o empurrei com o ombro sorrindo. A verdade era que meu pai nunca me deixava sair do castelo, e minha experiência com a neve não passava disso.
Durante a refeição do meio dia decidi interrogar Lissa. Estávamos sentadas na grande mesa de carvalho, sendo aquecidas pela lareira.
– Lissa. – eu a chamei para ter em resposta o silêncio. Ela tinha um sorriso bobo no rosto e suas bochechas estavam coradas. Sua sopa mal havia sido tocada, ela apenas brincava com a colher de prata. – Christian, o que está fazendo aqui? – Lissa soltou a colher na mesa de forma brusca e se virou para a entrada do salão para o encontrar vazio.
– Christian? Onde ele está? – eu tive um ataque de riso e quase me engasguei com a torrada seca. – O que você estava tentando fazer Rose?
– Eu tentava chamar sua atenção. Parece que essa é a única forma. – lancei um olhar malicioso para ela e tive o prazer de vê-la tornar-se roxa.
– Christian tem sido um exemplar cavaleiro ao meu lado. – ela tentou soar séria.
– Eu posso imaginar. Mas, diga-me, o que vocês falavam mais cedo no pátio? A conversa parecia... Interessante.
– Ele me convidou para um passeio de cavalos durante essa tarde. – eu sorri.
– E qual foi sua resposta?
– Bem, eu não vejo mal em um simples passeio. – ela se voltou para a sua sopa, evitando meu olhar questionador.
– Vamos Lissa, eu vejo nos seus olhos o quanto você já gosta dele. – ela ia abrir a boca para protestar, mas antes eu completei. – E eu não estou falando como amigos.
– É que nós nos entendemos. Ele perdeu a mãe e eu perdi minha família. Eu sei exatamente como ele se sente. – Christian tinha se tornado muito fechado, ele falava abertamente apenas comigo porque nos conhecíamos há muito tempo. Sua mãe havia sido morta na fogueira, acusada de bruxaria. Tinham sido tempos difíceis. Era bom vê-lo falando sobre sua mãe com outra pessoa. Especialmente com Lissa.
– Ele precisa de você mais do que imagina Lissa. Seja boa com ele. Ele é como um irmão para mim.
– Eu serei Rose. Eu realmente estou gostando da companhia dele. Mas eu tenho medo de confundir as coisas, a rainha Daniela nunca permitiria que nada acontecesse.
– Da rainha eu cuido. – pisquei para ela. – Apenas busque o que te faz feliz. – eu vi seus olhos brilharem e ela sorriu agradecida.
– Eu sei que você pode fazer o impossível, virar possível. – a conversa se seguiu bem até ela entrar em um tópico que eu não queria falar. — Tem visto o russo ainda? – ela perguntou com desgosto. Eu sabia que ela não aprovava a ideia de eu trair Adrian. Eu apenas concordei com a cabeça. – Rose, você sabe que isso tem que parar. E já. Eu ajudei daquela vez porque você disse que vocês iriam conversar, eu imaginei que seria para por um fim nessa história.
– Lissa, não é tão simples assim. E eu ainda nem estou casada.
– Por Deus Rose, você não está casada, mas tem um compromisso com meu primo. Ele te ama e você o apunha-la pelas costas? – meus olhos ardiam com vontade de chorar.
– Lissa, eu não pedi para nada disso acontecer. Adrian sabe que eu estou me casando contra minha vontade e eu realmente gosto do Dimitri. Eu não sei o que fazer, est...
– Você está apaixonada por ele. – seus olhos eram de puro horror. – Como pôde deixar isso ir tão longe Rose? Como você consegue olhar no rosto do Adrian sabendo que o está enganando dessa forma? Você é igual qualquer prostituta sem coração. – Isso foi como um tapa. Onde estava a Lissa generosa? Minha culpa foi toda revertida em raiva.
– Prostituta? É isso que pensa de mim? Eu não esperava que um dia você fosse me julgar dessa forma Lissa. Essa foi a primeira vez que eu fui egoísta. A primeira vez que eu pensei em mim antes dos outros. Por que só você pode buscar o que te faz feliz?
– O que está acontecendo aqui? – na entrada do salão estavam Mason e Christian com suas espadas em mãos em busca de qualquer perigo. E só agora eu percebi que estava gritando a plenos pulmões.
– Alguém precisa de um banho de lealdade. – Lissa disse se levantando e puxando Christian com ela. Seus olhos não mostravam nada além de raiva.
Mason se aproximou e me abraçou. Eu engoli a vontade de chorar, eu não choraria na frente de ninguém.
– Quer falar sobre o que aconteceu? – ele perguntou gentilmente.
Eu pensei sobre isso. Eu confiava em Mason, mas não estava pronta para falar com ninguém ainda. E se ele me julgasse prostituta, assim como Lissa havia? Eu estava apaixonada por Dimitri, agora eu sabia a verdade, e decidi que a próxima vez que eu visse Adrian eu falaria com ele. Apesar de tudo, Lissa tinha razão em uma coisa. Eu estava dando falsas esperanças para Adrian. E mesmo que eu fosse me casar com ele em três semanas, ele merecia saber a verdade.
– Obrigada Mason. Mas eu só preciso ficar sozinha.
Ele se afastou e eu subi para o meu quarto.
...
Depois de colocar uma túnica de lã azul clara por cima da calça de couro, joguei uma capa preta de pelos por cima no propósito de afastar o frio que a neve trouxe. Coloquei Excalibur no cinto de couro que Dimitri havia me dado e desci pela trepadeira de jade. Agora que estava coberta por neve, os troncos da planta estavam escorregadios e eu redobrei o cuidado. O chão teve pelo menos uns vinte centímetros de neve acumulada, já o céu, tinha um aspecto cinza e escuro. Quando passei pela passagem esperava encontrar Dimitri encostado em algum tronco e sorrindo na minha direção, mas tudo que encontrei foi um bosque completamente branco.
Dimitri nunca tinha se atrasado. Andei por entre as árvores próximas em busca de qualquer sinal dele. Nada. Depois de esperar por um tempo, decidi seguir até a cachoeira por conta própria. Eu precisava de espaço e só de pensar em voltar para o castelo e enfrentar Lissa me revirava o estômago em culpa. Meus passos estavam sendo comprometidos por toda a neve, eu caminhava lentamente. Quando já me aproximava da clareira eu ouvi cavalos. Cavalos? Não era meu Dimitri. Olhei em volta e tudo que eu tinha para me esconder eram os troncos das árvores. Escolhi a maior delas e me coloquei de costas puxando o capuz da capa para cobrir parte do meu rosto. Minha respiração fazia nuvens no ar e eu tentei controlar meus batimentos acelerados.
– Tem certeza de que o riacho era por aqui? – um homem com uma voz grossa perguntou a distância.
– Tenho certeza, mas provavelmente já está congelado. – outro respondeu.
– O capitão nos mandou achar água. E estamos fazendo isso. – uma terceira voz disse. Isso não era bom, havia pelo menos três deles aqui.
– O capitão não vê que o inverno chegou? Não conseguiremos água facilmente. – as vozes estavam se aproximando. E por instinto minha mão foi para o cinto puxando Excalibur para fora do couro lentamente.
– Vamos achar o riacho, se estiver congelado arrumaremos água no vilarejo do castelo. – a voz grossa voltou a dizer.
– Faz mais de três semanas que estamos aqui e não conseguimos nada. Com esse inverno vamos morrer de frio e fome em breve. Não vamos conseguir a princesa, ela está sobre forte segurança. – Os cavaleiros passaram ao meu lado, e percebi que na verdade eram quatro. Lentamente comecei a dar a volta no tronco.
– Imagine os méritos que receberemos se voltarmos com a princesa. O próprio rei nos escolheu para essa missão e...
Uma coruja saiu voando da árvore onde eu estava e eu congelei.
– Tem alguma coisa ali. – o homem da voz grossa disse. Em seguida eu ouvi o som de botas esmagando a neve e se aproximando. O som de metal sendo puxado se seguiu. Meu coração estava descontrolado.
Eu já estava do lado contrario do tronco, olhei para todos os lados em busca de um novo esconderijo, mas não houve tempo porque na minha frente apareceu o maior homem que eu já havia visto. Cabelos negros na altura dos ombros e olhos tão negros quanto. No seu rosto havia uma cicatriz que saia do seu olho direito e se perdia abaixo do maxilar quadrado, o deixando com um aspecto assustador.
– O que temos aqui? – sua voz era como um trovão. E soou divertida.
– Rurik, o que você encontrou? – uma nova voz disse. Eu reconheci o nome, era o homem que me procurou no rio dias atrás. Logo em seguida outro homem apareceu. Ele não era tão alto, mas era muito musculoso e carregava na cintura no mínimo três espadas.
– Pareci que temos nossa diversão para a noite rapazes. – Rurik disse tentando me tocar. Eu me afastei do seu toque e tirando a espada escondida atrás de mim o acertei no rosto, ao lado contrario ao da cicatriz. Ele murmurou algo em russo, levando a mão até o corte que sangrava. Eu corri aproveitando a adrenalina, mas não fui longe. Novas mãos me pegaram. Eram os dois outros homens. Tentei me soltar, mas era inútil. Suas mãos pareciam ferro nos meus pulsos e cintura. Eu gritava de frustação e raiva. Eu não deveria ter me afastado do castelo sem Dimitri.
Rurik me pegou pelo pescoço e me fez olhar em seus olhos em chamas.
– Eu vou te matar sua vadia. – Eu vi que na sua outra mão sangrenta havia um punhal que foi rapidamente pressionado contra a carne fria da minha bochecha exposta. Com dois homens ainda me segurando eu estava sem saída.
– Espere Rurik. – Uma mão o impediu de apertar ainda mais o punhal. – Primeiro vamos ver se vale a pena matá-la sem aproveitarmos dela antes. – o homem das muitas espadas disse.
Relutante ele me soltou, mas não sem antes me dar um forte empurrão, me fazendo cair para trás, no chão branco, cobrindo-me de neve.
– Tire o capuz. – Rurik disse, e quando não o fiz ele gritou. – Agora.
Lentamente eu abaixei o capuz, e o que se seguiu foram suspiros.
– É a princesa.
– Eu não posso acreditar na nossa sorte.
Os homens não perderam tempo e novamente me pegaram pelo braço me levantando bruscamente do chão. Rurik tinha um olhar mortal na minha direção.
– Parece que você não vai poder me matar grandão. As ordens são para me levarem com vida até o acampamento. –assim que eu disse as palavras ele tentou avançar para cima de mim com o punhal na mão, mas o seu amigo das espadas o impediu.
– Sabe quais são as ordens Rurik. – Ele se acalmou, mas não desviava os olhos de mim. Seu rosto estava todo ensanguentado do corte que eu havia feito.
– Eu não posso matá-la princesa. Mas o rei não disse nada sobre não tocá-la. – ele se virou e montou no cavalo. Eu senti um arrepio passar por todo o meu corpo e de repente o frio me incomodava. – Vamos levá-la para o capitão.
–Eu fico com isso princesa. — o homem das espadas tinha minha espada em mãos e a colocou no cinto junto das demais. Ele foi até o cavalo e voltou com uma corda marrom. – Juntem as mãos dela.
Os homens que me seguravam fizerem o que ele disse enquanto ele amarrava minhas mãos juntas. Eu tentava lutar contra eles o tempo tudo, mas parecia um trabalho inútil. Ele apertou tanto que eu sentia a corda me cortando.
– Tudo isso é medo que eu fuja? Eu sou apenas uma princesa. – eu provoquei. Eu não ia me deixar intimidar por esses homens.
Ele segurou meu queixo com força e aproximou seu rosto do meu. Eu podia sentir seu hálito batendo no meu rosto e seus olhos cinza tinham um olhar vazio e impiedoso.
– Princesa, eu sugiro que se comporte. Você já tem a fúria do Rurik direcionada a você, não vai querer ter a minha também. – Com isso ele me soltou e me empurrou em direção ao seu cavalo.
– Ande logo com isso Mikhail. – Rurik resmungou do seu garanhão negro.
Então esse era o nome do homem das espadas. Ele me jogou no lombo do cavalo amarrando a ponta da corda das minhas mãos na cela. Montou e seguiu caminho pelo bosque branco. Eu estava perdida.
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