“Não!” Coelhão exclamou. “Não! Cuidado com as flores!” Ele reclamou e suspirou aliviado quando o Yeti mudou de direção. “Eu devia saber que isso iria acontecer...” Ele apertou os dedos sobre os olhos. “Aqui, deixa que eu coloco no lugar...” Ele girou a pata, afastando o Yeti e tomando o lugar desse.

Parte de Coelhão estava feliz que Jack não estava por perto, sem ter a mínima vontade de ouvir as piadas que o rapaz faria durante as preparações para o casamento. Mas, ao mesmo tempo, ele se sentia um pouco preocupado com a ausência do garoto.

Como normalmente acontecia, a Marmota estava correta: ele não tinha visto sua sombra e a primavera chegou cedo no hemisfério norte.

Coelhão nunca tinha sido fã da Marmota, e, por muito tempo, seu desagrado vinha do simples fato dele não ter uma boa relação com o Espírito do Inverno. Coelhão sempre se mantinha atento para as previsões da Marmota, se preparando para saber se a caça aos ovos aconteceria enquanto neve ainda estava presente ou não. E, sempre que a Marmota via sua sombra, o Pooka rangia os dentes, irritado, ao saber que ele podia ter a chance de dar de cara com Jack Frost durante o período da Páscoa – algo que acontecia muitas vezes.

As coisas tinham mudado nesses últimos anos, mas Coelhão ainda não gostava da Marmota – e, sim, uma boa parte disso era só culpa de seu orgulho, mas ele não gostava de falar sobre aquilo.

“Aqui.” Coelhão instruiu quando depositou um dos bancos em uma área longe das flores. “Daí é só seguir em fileira...” Ele explicou e os Yetis assentiram, se colocando a trabalhar.

O Pooka suspirou.

Era um fato que Jack não gostava de ficar enfurnado ou parado em um só lugar por muito tempo, ele sempre precisava sair para “esticar as pernas e abrir as asas” como ele mesmo tinha descrito uma vez. Então não era incomum para Coelhão não ter o rapaz por perto a maior parte do dia; e, de qualquer modo, Coelhão prezava seu tempo sozinho, então não era um problema para ele. Os dois gostavam daquela rotina.

Mas o que fazia aquilo estranho dessa vez era o simples fato de que não era época de frio. Com a Primavera começando – já supreendentemente quente esse ano, aliás — o Outono começou a tomar conta do hemisfério sul. Não seria uma surpresa para Coelhão saber que Jack estava passando um tempo no sul junto com Amber, o Espírito do Outono, mas durante aquela época do ano tinha se tornado mais comum para Jack ficar mais tempo dentro na Toca.

Dessa vez, porém, ele parecia estar passando muito mais tempo lá fora. E os instintos de Coelhão estavam lhe avisando que algo estava errado. O que? Ele ainda não tinha muita certeza.

Pelo menos ele tinha certeza de que Jack sempre retornaria para a Toca mais vezes que nunca, normalmente de tarde.

A noite já tinha caído tanto fora quanto dentro da Toca mágica, quando Coelhão sentiu o cheiro familiar de seu noivo.

“Está tarde.” Ele disse, sem desviar o olhar do jantar que estava preparando.

Dois braços pálidos e frios – mais frios que o normal – envolveram sua cintura e Coelhão pôde sentir o leve volume da barriga do garoto de gelo contra suas costas.

“É, eu sei.” Jack murmurou, afundando o rosto no pelo espeço do outro. “Foi mal, eu dei uma passada na Antártida.” Dava para ouvir o sorriso em sua voz. “É engraçado brincar com os pesquisadores.”

“Imagino.” Coelhão bufou, rindo baixinho.

Jack soltou o Pooka e girou o cajado, se erguendo para sentar em cima da mesa. Ele ficou em silêncio por um momento e Coelhão se voltou para ele. Ele conseguiu ver uma expressão diferente no rosto do rapaz, com as sobrancelhas unidas e os lábios em forma de bico, que ele sabia significar que Jack estava pensando fundo sobre alguma coisa; mas a expressão só durou alguns segundos, sumindo quando o Pooka se voltou para ele. Jack sorriu, se inclinando contra o cajado.

“Então... Como vão os preparativos?” Ele perguntou.

“Está tudo praticamente pronto.” Coelhão disse, um tanto confuso tanto com a expressão quanto com a pergunta. Jack tinha entrado por uma das entradas principais, que passava perto de onde as cadeiras estavam posicionadas, assim como o arco enfeitado com ásteres. Como ele não tinha visto? “Você quer-”

“Nah.” Jack disse rapidamente e abriu a boca em um bocejo grande. “Tô cansado.” Ele sorriu, dando uma piscadela. “Que tal jantar no ninho, hein?”

Coelhão disse não, tendo de sorrir com o reclamar alto do rapaz. Pelo resto da noite, ele não deixou de pensar na expressão de Jack.

-G-

Coelhão notou que realmente havia alguma coisa errada.

Jack continuava evasivo, passando a maior parte do tempo fora da Toca e quase sempre mudando de assunto ou ignorando qualquer conversa sobre os preparativos para o casamento, ou o casamento em si. Depois de um tempo junto, Coelhão já tinha aprendido a entender melhor o que se passava pela cabeça do Espírito do Inverno; ele tinha aprendido a ver o que havia por trás da faixada brincalhona e sem preocupações do rapaz, tinha descoberto sobre todos os medos e as ansiedades desse e tinha decidido que o ajudaria a lidar com elas, caso Jack quisesse ou não.

E pelo jeito, aquele era outro momento em que Coelhão precisava ser mais firme que o normal.

“Okay, então eu tô saindo, até mais tarde, canguru!” Jack disse com um sorriso, falando rápido, de um modo que Coelhão acreditava ser deliberado, para dar pouco tempo para o outro Guardião reagir em tempo.

Mas Pookas tinham reflexos rápidos.

“Espere aí, Frostbite.” Coelhão agarrou a ponta inferior do cajado de Jack o impedindo de flutuar para longe.

“O que foi?” O rapaz de gelo perguntou ao plantar seus pés descalços no chão mais uma vez. Por um momento apareceu um leve brilho nervoso em seus olhos que ele tentou esconder com um de seus sorrisos matreiros. “O que eu fiz dessa vez?”

Coelhão ignorou aquela pergunta se focando exatamente naquele brilho nervoso.

“Você está bem?” Ele perguntou, seu tom sério, mas ainda gentil, deliberando que tipo de abordagem usar.

“Sim... Por que não estaria?” Jack perguntou em tom confuso.

Certo, se Jack queria ser evasivo e vago, Coelhão podia ser assim também.

“Você anda estranho.” Ele disse e sentiu algo estranho, sabendo que já tinha dito aquilo para o Guardião da Diversão antes.

“Hum...” E era claro pela expressão de Jack que o rapaz tinha notado aquilo também. Ele sorriu, um azulado claro tomando conta de suas bochechas pálidas e Coelhão não pôde deixar de encarar; o rapaz ficava bonito daquele jeito. “Uau, déjà vu, ha...” Jack disse, novamente fazendo piada.

“Jack.” Coelhão forçou.

“O que?!” Jack perguntou no mesmo tom, o tipo de reação que ele sempre tinha quando se encontrava acuado, literal e metaforicamente falando. “Tá tudo bem!”

“Não, claramente não está.” Coelhão sibilou, decidindo seguir a abordagem mais séria. “Eu te conheço, moleque.”

“Ah, é?” Jack retrucou em tom de afronta.

“Sim, você não costumava sair tanto durante essa época do ano.” O Pooka esclareceu.

“Eu decidi mudar um pouco a rotina! Isso é um crime?” O Espírito do Inverno revirou os olhos, apertando os dedos em volta do cajado, como se estivesse prestes a ergue-lo e voar para longe dali.

E isso era exatamente o contrário do que Coelhão queria que ele fizesse. Certo, ele tinha de mudar a abordagem mais uma vez, mas era sempre tão fácil perder a paciência com alguém tão teimoso – o Pooka tentou não pensar em como outros descreviam a experiência de discutir com ele com as mesmas palavras. Ambos eram teimosos, ele sabia, talvez fosse por isso que eles acabaram sendo um bom par...

Mas o que Coelhão mais queria fazer era chegar ao fundo daquilo tudo, entender o que se passava pela mente de seu noivo. Ele devia isso à Jack.

“Jack...” Ele disse em um tom mais gentil, estendendo a pata e tomando a mão livre de Jack. Ele se inclinou levemente, de modo a ficar um pouco mais no nível do rapaz. “O que foi? O que está acontecendo nessa sua cabecinha pálida, hein?”

Jack piscou seus grandes olhos azuis, emoldurado por bochechas quase da mesma cor. Ele mordeu o lábio e desviou o olhar, talvez pensando em como responder à pergunta, talvez tentando decidir como evitar fazer tal coisa. Coelhão ergueu a outra pata e cutucou a testa do rapaz de gelo, arrancando um bufar baixo desse, mas Jack sorriu enquanto empurrava a pata felpuda.

“Jack?” Coelhão repetiu quando nenhuma resposta ainda tinha sido dada.

“Ugh...” O Guardião da Diversão suspirou, revirando os olhos de modo teatral e se inclinando contra o cajado. “Só pensando em um monte de coisas...” Jack deu de ombros, como se não fosse nada, mas ele conhecia bem seu noivo e era claro que estava esperando pelo que o outro iria dizer.

“Ah, é?” Coelhão disse simplesmente, duas palavrinhas apenas para incitar o outro a continuar.

Jack suspirou mais uma vez e se inclinou para frente dessa vez. Coelhão deixou que ele escondesse o rosto contra o pelo de seu ombro, e o envolveu com os braços.

“É, sobre o casamento e a gravidez e tudo o mais...” Ele disse.

“Nós podemos cancelar as coisas se você preferir, você sabe disso, né?”

“O que? Não, não!” Jack se afastou do abraço, lançando um olhar descrente para o Pooka, só para encontrar Coelhão o observando de modo calmo e compreensivo. Ele revirou os olhos. “Eu não quero isso! Eu só tô... Nervoso, tá bom?”

“Sei.” Coelhão assentiu, erguendo a pata para brincar com os cabelos brancos do rapaz, sabendo que isso o ajudava a se acalmar. Jack se inclinou contra o toque.

“E eu estou tentando não ficar.” Ele suspirou. “Eu ouvi dizer que nervosismo faz mal pro bebê.” E sua mão livre deslizou para sua barriga, como tinha se costumado a fazer com mais e mais frequência.

“E você não está realmente acostumado a ficar nervoso desse jeito.”

“Exatamente!” Jack exclamou como se finalmente tivesse sido compreendido, mas a reação exagerada só fez o coelho rir.

“Vem cá.” Ele disse balançando a cabeça e o rapaz rapidamente soltou o cajado, deixando que Coelhão o encostasse contra a parede enquanto envolvia o Pooka em um abraço. “E o que está te deixando mais nervoso?”

“Sei lá... Tudo...?” Jack murmurou, a voz abafada no pelo felpudo de seu noivo. Ele deu de ombros para mostrar que realmente não saberia indicar o que estava o deixando mais ou menos nervoso.

Coelhão assentiu simplesmente.

“É por isso que você está passando tanto tempo lá fora?” Ele decidiu perguntar e nem precisou olhar para saber que o gelo azulado tinha se espalhado ainda mais pelo rosto do menor.

“Ah, bem...”

“Por que você fica mais nervoso quando vê os preparativos pro casamento?” Coelhão adivinhou.

“É, isso mesmo...” Jack assentiu, inclinando a cabeça para trás, de modo a apoiar o queixo no outro. Coelhão virou o olhar para baixo, encontrando um par de olhos azulados o observando. “Falando sério? Parte de mim quer, sabe, fazer parte disso tudo, mas...” Ele deu de ombros, suspirando e fazendo um bico, dessa vez de genuíno desapontamento, como se ele não conseguisse entender bem o que se passava em sua cabeça e estivesse incomodado com isso. “Eu sei lá. É como se pensar nisso faz tudo ficar mais real.”

“E pensar em quão rápido o dia está chegando, deixa você ainda mais nervoso.” Coelhão continuou adivinhando, decidindo que era melhor fazer isso: deixar que o próprio rapaz colocasse tudo para fora.

“É...” O jovem Guardião murmurou, mordendo o lábio, parecendo sem jeito. Ele desviou os olhos mais uma vez, como se não tivesse coragem de encarar o outro enquanto falava: “Eu fico pensando... Se as coisas vão mudar depois que a gente se casar? Sabe, de algum modo...” E então observou o outro de soslaio ao terminar de falar.

Coelhão sorriu, tentando manter o ar relaxado da conversa. Não importava quanto tempo tinha se passado, Jack ainda era do tipo que preferia “sofrer em silêncio” ao invés de falar sobre o que estava pesando em sua mente. No final das contas, especialmente sobre esse tópico, Coelhão entendia por que alguém teria medo.

“Eu não sei por que mudariam.” Ele disse simplesmente. “A única coisa que vai mudar é que vamos ter essa pequena criaturinha para cuidar...” Ele deslizou a pata dos ombros do rapaz para a barriga desse, sentindo como sua curvatura tinha aumentado desde o último mês.

Uma pequena mão pálida pousou sobre seus dedos peludos.

“É, é disso que eu estou falando...” Jack suspirou.

Coelhão se inclinou para trás, o gesto servindo de sinal para que o garoto explicasse.

“Eu fico voando por aí, eu ouço histórias, eu vejo as pessoas...” Jack explicou. “E, você pode dizer o que você quiser, sobre como as coisas não vão mudar. Mas tudo isso é uma mudança.” Ele afagou a barriga sem perceber que fazia tal coisa. “Cuidar de uma criança não é fácil... Principalmente quando é sua primeira vez fazendo isso...” Ele adicionou de modo quase tímido, como se tivesse vergonha daquilo. Coelhão franziu o cenho, mas não ousou falar nada, deixando que Jack continuasse com o que tinha a dizer. “E às vezes isso pode causar problemas. Por que a nossa rotina vai mudar, a gente não vai mais ter tempo só um pro outro... E eu só não quero que...” Ele ficou mais azulado, olhando em volta como se não tivesse coragem de encarar seu novo. “Sabe, eu não quero que cause problemas... Entre a gente...”

Coelhão ficou em silêncio por um momento, tentando decidir o que dizer. Ele entendia o medo de Jack, e sabia que ele tinha motivo para pensar daquele jeito. Mas Coelhão estava decidido a não deixar tal coisa acontecer. Todos as suas antigas relações continuaram fortes até o fim, mesmo com vários filhotes correndo entre suas pernas, ele não deixaria aquela relação ser de algum modo danificada por aquilo. Mas ainda assim, o Pooka também não pôde deixar de se sentir um pouco nervoso ao pensar sobre aquilo; já fazia tanto tempo desde aquela época...

Ele envolveu o garoto de gelo com os braços e o segurou por um momento.

“Você anda passando tempo demais lá fora.” Coelhão quebrou o silêncio. “Olhando por janelas e assistindo novelas...”

“Vá se ferrar.” Jack sibilou, dando uma cotovelada no outro, mas tudo o que ele arrancou do Pooka foi uma risada e ele teve de rir também.

“Deixe-me te contar uma coisa, Frostbite...” Coelhão disse contra os cabelos brancos do rapaz. “Eu também estou nervoso.”

“Uhum, sei...” Jack bufou.

“Estou falando sério.” Coelhão disse, se afastando para poder olhar Jack nos olhos, sua expressão mostrando que falava a verdade. Jack prestou atenção. “Só por que eu tenho experiência com tudo isso, não quer dizer que não estou nervoso.” Ele balançou a cabeça. “Fazem milhares de anos desde minha última experiência em um relacionamento, ainda mais com paternidade!” E riu em tom de descrença, como se não pudesse acreditar que o que ele falava era a mais pura verdade, quer ele queira ou não. “Pela Lua, Jack, a primeira vez que eu interagi com uma criança em mais de um século foi alguns anos atrás!”

Coelhão se sentia um pouco envergonhado sempre que se lembrava do fato de que ele, um dos Guardiões da Infância, mal se lembrava como era interagir com uma criança até aquele fatídico dias, anos atrás, em que Sophie Bennett acabou em sua Toca. Mas ele não podia deixar de sorrir ao se lembrar da garotinha, de guia-la pela mão pelos corredores da Toca, carrega-la em suas costas como se fosse sua montaria, e acalentá-la em seus braços...

Por um momento ele se lembrou de como tinha feito aquilo muitas vezes antes, milhares de anos no passado, antes mesmo da Terra ser redonda... E agora ele imaginava fazer aquilo de novo, com mais um filhote seu.

Quando Coelhão voltou de seus devaneios, Jack estava sorrindo, um leve azul ainda pintando suas bochechas pálidas.

“É, pensando desse jeito...” O Guardião da Diversão assentiu.

Coelhão sorriu, se lembrando do quão tenso e nervoso ele tinha ficado quando viu Sophie em sua casa, e como fora Jack e seus poderes que o ajudaram a relaxar e a retornar a ser um pouco mais como o Coelhão que ele tinha sido anos atrás. De fato, Jack conseguia trazer à tona o melhor que existia nas pessoas. E só pensar nisso o fazia quase transbordar de amor pelo rapaz.

“E, de qualquer modo, isso vai ser uma experiência nova para nós dois.” Ele disse, inclinando a cabeça e sorrindo torto. “Eu nunca tive filhotes com alguém não Pooka antes.”

“E eu nunca tive filhos antes!” Jack retrucou, dando de ombros. “Não vivi tempo o bastante para isso em minha outra vida, ha!” Ele fez piada, como costumava fazer quando mencionava coisas de sua curta vida humana, mas ao invés de rir, ele viu os olhos de Coelhão se suavizarem. Jack sentiu seu rosto esfriar ainda mais. “Não olha pra mim assim, isso foi uma piadinha!” E então ele suspirou. “Mas, tá, eu entendi onde você está querendo chegar...”

“Por favor me conte quando você começar a se sentir nervoso.” Coelhão disse gentilmente, afagando os braços do rapaz, de seu ombro para seus pulsos delicados. Ele se inclinou para frente, apertando a testa contra a de Jack. “Vamos cuidar disso juntos.”

A esse ponto o rosto do rapaz de gele estava praticamente brilhando em azul.

“Tá bom, tá bom...” Ele revirou os olhos e sorriu torto. “Canguru sentimental... Todos os Pookas eram assim?”

“O que? Emocionalmente saudáveis?” Coelhão bufou.

“Você? Emocionalmente saudável?” O Espírito do Inverno riu alto, a risada falsa e forçada, e Coelhão revirou os olhos. “Ah, Coelhão! Você levaria jeito como o Guardião da Diversão, sabia...?”

“Ora, cale-se.” Coelhão deu um empurrão no rapaz, que só riu em resposta, uma risada de verdade dessa vez, antes de sua expressão ficar mais suave.

“Hm... Então...” Jack murmurou e suspirou, admitindo: “Honestamente eu estou morrendo de vontade de ver como as coisas estão ficando.”

“Tem certeza?” Coelhão perguntou, só para se assegurar.

“Sim!” Jack assentiu, um sorriso largo e genuíno em seu rosto, que fazia suas bochechas azuladas se iluminarem ainda mais. Ele girou o cajado, agarrando o pulso do Pooka e puxando. “Vem!”

“Tudo bem, tudo bem.” Coelhão seguiu atrás de Jack, que logo soltou sua pata e voou à frente, sempre impaciente.

Eles chegaram à área da Toca onde o arco de flores havia sido colocado pouco tempo atrás, sendo uma das últimas coisas que Jack tinha visto pronto. Bloom havia coberto os ares de metal do arco com ásteres como o rapaz de gelo tinha apontado, com as flores sendo posicionadas de forma a criar um degradê com suas cores variadas, das mais claras às mais escuras. Em frente ao arco haviam fileiras de bancos, poucos e enfeitados, mas que tinham sido feitos especialmente para o casamento por Norte; Coelhão disse para ele não colocar nenhum enfeite que significasse algo apenas Pascoal, uma vez que aqueles bancos podiam ser usados mais tarde no casamento do bom velhinho, e Norte concordou, decidindo então adicionar detalhes originários de Papoff Noelen, e o Pooka tinha de admitir que tinha ficado bonito.

Não era grande coisa. Coelhão nunca tinha participado de um casamento de Papoff Noelen, mas tinha ouvido falar sobre, tinha visto pinturas e lido sobre, e ele tinha certeza de que eles tinham muito mais enfeites e brilho que o que havia na Toca no momento, mas ele não comentou tal coisa para Jack, especialmente quando o rapaz se inclinou contra o cajado e disse em um tom suave:

“É... Bem simples...”

“Sim.” Coelhão assentiu, pousando uma pata no ombro do rapaz. “Isso é bom?”

“É perfeito.” Jack sorriu, um sorriso brilhante que fez o coração de Coelhão saltar mais forte. “Essa era a ideia, não é? Algo simples.”

Mesmo com o tom normal e o sorriso no rosto, Coelhão conseguia ver através do garoto de gelo.

“Sim. Apenas amigos... Família.” Ele disse e Jack ergueu os olhos para ele, percebendo que Coelhão tinha percebido. Como sempre. “Você literalmente não tem nada pra provar pra ninguém. Todos só querem te ver feliz. Nos ver feliz.” Ele envolveu os ombros de Jack com um braço felpudo. “Assim como eu.”

“É...” Jack assentiu, desviando o olhar para o arco de flores novamente. Ele estendeu o dedo e tocou uma das pétalas gentilmente e sorriu.

Coelhão teve de sorrir também, se inclinando para beijar a têmpora do rapaz. Ele tinha passado milhares de anos sozinho, ele não iria perder sua nova família e essa nova chance de ser feliz, nunca; ele prometeu para Jack em silêncio.