Notas iniciais
Ola de novo gente! Desculpe a demora! Mas aqui está mais um capítulo!

O Guardião da Diversão sentia que estava sério demais para fazer justiça ao seu nome, mas não conseguia mudar seu humor, não importa o quanto tentasse.

“Jack, relaxe.” Dentiana disse pelo que devia ser a milésima vez. “Você está tão nervoso que está congelando a grama por onde passa.” Jack desviou o olhar para baixo e viu que a fada tinha razão.

Ele grunhiu e se dirigiu para uma pedra oval menor, escondida ao lado das grandes rochas enfeitadas que escondiam do resto dos convidados, que já estavam tomando seus lugares, esperando para o começo da cerimônia. Em qualquer outro momento, Jack teria rido, achando clichê o fato de que estava nervoso com um casamento, mas ele no momento ele não conseguia encontrar o humor na situação.

“Não dá para relaxar!” Ele reclamou, se voltando para Emma quando essa pousou em seu ombro. “Alguma notícia da Bloom ou da Saori?” A fadinha deu de ombros, balançando a cabeça e fazendo um som baixo. Jack só respondeu com outro grunhido, escondendo o rosto com as mãos. “Bloom nunca está atrasada pra nada! Mas agora ela decide se atrasar? É isso, ela quer arruinar o dia como retribuição de todas as vezes que eu joguei neve na Primavera.”

“Ora, Jack...” Dentiana revirou os olhos, mas riu, sabendo que Jack não estava falando sério, só estava fazendo piada para se sentir melhor. Ela tinha aprendido aquilo sobre o rapaz nesses últimos anos. “Aposto que elas estão a caminho.”

“É bom…” Ele disse e suspirou, desviando o olhar.

A Fada dos Dentes e suas fadinhas trocaram um olhar. Ela voou até o rapaz, pousado ao lado desse e descansando uma mão em seu ombro – ele estava bem mais frio que o normal.

“Jack, isso tudo são nervos ou…” Ela perguntou gentilmente. “Ou outra coisa está te preocupando mais?”

Jack não respondeu de imediato.

“Eu não sei.” Ele disse por fim, dando de ombros, e Dentiana afastou a mão, dando espaço para o rapaz de gelo. “Eu passei tantas semanas me preocupando com tudo isso, mas… A sensação é um tanto diferente agora.”

“Diferente como?”

“Sei lá…” Jack repetiu mais uma vez, soando um tanto exasperado e a fada lhe lançou um olhar. Ele desviou os olhos com as bochechas azuladas. “Eu… Eu estou feliz, mas, ao mesmo tempo, eu… Sinto como se algo não estivesse certo.” O Guardião mais novo parou, mordendo o lábio, e então suspirou, erguendo o olhar para a fada, como se procurasse alguma coisa em seus olhos de ametista. “Pro Coelhão…”

“Como assim?” Dentiana perguntou, um tanto confusa.

Jack ergueu a cabeça, tentando ver por cima das pedras altas que o separava do resto da campina verde. Os convidados já estavam em seus lugares, mas alguns ainda não tinham chegado, ele notou; o lugar para o Homem da Lua ainda estava vazio. Jack sentiu sua barriga se embrulhar. Não era como se ele esperasse que o homenzinho rechonchudo não fosse aparecer, ele tinha respondido ao convite dizendo que viria, mas, ainda assim, o rapaz não podia deixar de se lembrar do modo como ele, anos atrás, tentava conseguir alguma resposta da lua, mas não ouvia nada.

Ele se encolheu em cima da pedra, abraçando os joelhos e tentando afastar aqueles pensamentos, já que outros o remoíam ainda mais.

“Se ele devia mesmo se casar comigo…” Ele admitiu por fim, em uma voz baixa.

Emma fez um som baixo, recebendo um olhar triste de Dentiana. A pequena fadinha voou até o irmão, pousando em seu joelho e gentilmente afagando as mechas brancas que caiam sobre sua testa.

“Por que você pensaria assim, Jack?” A Guardiã das Lembranças disse de modo gentil, oferecendo-lhe um sorriso. “Foi Coelhão quem fez o primeiro pedido, não foi? E ele fez questão de que, se era para ser assim, então você merecia um casamento como um humano.” Ela riu baixinho e Jack lhe lançou um olhar, recebendo um revirar de olhos. “Diga Jack, você realmente acha que Coelhão não quer casar com você… Ou isso é só nervos?”

Jack parou por um momento e sorriu, um tanto sem jeito, suas bochechas esfriando consideravelmente.

“É, é mais nervos mesmo…” Ele admitiu.

“É claro.” A fada dos dentes assentiu e as demais fadinhas fizeram o mesmo. E então ela riu, levemente empurrando o ombro de Jack com o seu. “O quão nervoso você acha que Coelhão está agora?”

Aquilo claramente animou o rapaz. A imagem de Coelhão, andando para lá e para cá como ele fazia quando nervoso, os braços cruzados e batendo o pé contra o chão de um modo rítmico o fez sorrir; ele podia ver com clareza a cara enfezada de seu noivo, as sobrancelhas grossas unidas e o lábio inferior um pouco para frente, fazendo um bico que Jack gostava de mencionar só para incomodar o outro.

“Aquele canguru nervosão?” Ele bufou com uma risada. “O que você acha?”

“Exatamente.” Dentiana assentiu. “Ele está nervoso, tão animado para ver você quanto o contrário.” E inclinou a cabeça de um modo similar a um pássaro. “Isso não deixa você feliz?” Emma soltou um trinado baixo, concordando com a fada e olhando para Jack do mesmo modo.

Jack sentiu seu rosto esfriar um pouco mais. Pensar em Coelhão, escondido não muito longe de onde ele estava, esperava para vê-lo com o mesmo nível de ansiedade que ele fazia seu coração frio bater mais forte. Algum tempo atrás, ele se sentiria bobo por pensar daquele jeito, por se deixar acreditar em tal coisa, mas agora ele sabia bem, depois de tanto tempo junto, que ele tinha mais chances de estar certo do que errado.

“Sim…” Ele admitiu. “Muito.” E sorriu para Dentiana e suas fadas. “Obrigado.”

No mesmo instante, uma voz com um forte sotaque britânico se aproximou.

“Yoo~hoo~!” Bloom cantarolou enquanto pousava na grama não muito longe de onde os Guardiões estavam. “Olá, amores! Ah… Está tudo bem?”

“Não! Vocês estão atrasadas!” Jack retrucou com uma irritação falsa.

“Mil perdões.” Saori disse calmamente, se aproximando com passos lentos e parando ao lado do Espírito da Primavera. “Eu estava adicionando os últimos detalhes para a sua roupa.”

“Ótimo! E onde está o vestido?” Dentiana sorriu, batendo palminhas e as fadas a acompanharam.

“V-vestido?! Não! Nada de vestido!” Jack retrucou, sentindo seu rosto esfriar ainda mais. As garotas riram, o que fez ele acreditar que elas só estavam pegando em seu pé, mas, ainda assim, ele só queria ter certeza de que elas não tinham planejado nada. “Ela fez um terno para mim, não é?”

“Honestamente, Jack, eu ainda acho que você devia usar um vestido.” Bloom comentou com um biquinho. “Você ficaria tão lindo~”

“Não, obrigado.” O rapaz de gelo disse rapidamente, se sentindo um tanto sem jeito com toda aquela conversa.

“Tem certeza?” Dentiana perguntou e Emma fez um som que soava como uma pergunta similar.

“Sim, eu tenho!” Jack retrucou mais uma vez, lançando um olhar para a irmã que só riu e ele tentou, mas não pôde segurar um sorriso próprio. “E de qualquer modo não tem nenhum vestido pronto para eu usar, tem?” Ele riu. “O que você quer que eu faça? Um vestido de gelo?”

“Não seja bobo!” Bloom revirou os olhos e então parou por um momento, seus olhos brilhando com interesse. “Espera, isso é possível?”

Jack não respondeu, ele apenas revirou os olhos. Sim, era possível, ele se lembrava bem de ter visto outra pessoa com poderes de gelo fazer aquilo, uma rainha antiga, prima de uma conhecida que há muito tempo não passava de uma princesa num conto de fadas.

“Está tudo bem, Bloom está brincando.” Saori se pronunciou com um sorrisinho, e o rapaz se surpreendeu com o alívio que o percorreu no mesmo instante. “Nós trouxemos a sua roupa.”

“Ah, graças à Lua.” Jack se calou por um momento, se lembrando que o Homem da Lua era um dos convidados e sem ter certeza se falar daquele modo poderia chamá-lo ali ou coisa do tipo. “E cadê?”

Saori se virou de lado de um modo estranho e, pela primeira vez, Jack notou a forma em que a Jorogumo estava – ele até se perguntou como não tinha notado aquilo antes. Embora do torso para cima ela fosse uma mulher, usando um kimono bonito e detalhado, para baixo ela apresentava o corpo de uma aranha, com pernas longas e um abdômen arredondado. Ele desviou o olhar, tentando ignorar o leve arrepio que sentiu.

Ela se virou, revelando um saco enfeitado que carregava amarrado ao abdômen de aranha e, lá de dentro, ela retirou as peças de roupa azuladas que Jack tinha experimentado algumas vezes antes.

“Aqui.” Ela sorriu entregando ao rapaz, se inclinando levemente de modo educado.

“Ah, uau…” Jack tomou os pedaços de tecido com cuidado, admirando os detalhes, do tecido que parecia brilhar, aos flocos de neves bordados com cores frias, todos criando uma perfeita harmonia que Jack não entendia bem, mas que seus olhos admiraram de qualquer modo. “Eu vou sempre ficar espantando com todos esses detalhes. Você é incrível, Saori.”

Arigatou.” A Jorogumo disse com uma risadinha baixa, suas bochechas pálidas se tornando levemente rosadas.

Dentiana e Emma rapidamente empurraram o rapaz para perto do espelho que havia sido colocado contra uma das pedras, o mais escondido possível de quaisquer outros olhares, e empurraram as garotas para longe para dar espaço para o Guardião mais novo.

Jack lentamente trocou de roupa, se lembrando das várias outras vezes em que tinha experimentado as versões não terminadas até Saori dizer que já era o bastante e tudo o que ele podia fazer desde então era esperar até ver o trabalho final.

Como esperado, cada peça lhe caiu como uma luva e ele sorriu, confortável com o azul do tecido escolhido, gostando do modo como os flocos de neve enfeitavam as mangas e as pernas das calças. Ele colocou a camisa branca e o terno e finalmente se olhou no espelho.

Uau.

Era um tanto estranho se ver vestido daquele modo. Jack já tinha usado várias roupas diferentes em seus trezentos anos de vida, mas ele sempre tinha escolhido coisas mais relaxadas, confortáveis, ele nunca tinha sido do tipo de usar roupas chiques; muitas vezes as roupas que ele usava eram literalmente tiradas de pilhas dedicadas para o lixo, que ele mesmo costurava.

Ele nunca tinha usado um terno de verdade e se sentiu um pouco sem jeito colocando as peças, mas agora, se olhando no espelho, ele até que gostava do que via. Era estranho, diferente, mas ele gostava. Combinava com ele. Sem contar que Saori tinha feito aquilo especialmente para ele e para mais ninguém.

Até mesmo com sua barriga, já um pouco maior que o normal, uma curva discreta, ficava bem, envolvida confortavelmente pela roupa feita para ele.

Jack mordeu o lábio, por um momento se perguntando o que Coelhão acharia daquilo tudo, de vê-lo daquele jeito.

Ele ouviu o som de um guincho baixo, chamando por ele.

“Já estou pronto.” Ele disse e as garotas se juntaram a ele novamente.

Elas arfaram em conjunto.

“Oh, Jack!” Dentiana disse com um sorriso, suas bochechas tomando uma leve coloração rosada. “Você está incrível!”

“É, você se superou, Saori!” Bloom comentou para a outra que só sorriu em resposta.

Tudo o que Jack conseguiu fazer foi sorrir e corar diante dos comentários.

Emma flutuou até o irmão, carregando consigo uma flor. Jack piscou, notando que era uma áster e tentou ignorar a onda de emoção que caiu sobre ele com aquele gesto apenas. Ele sorriu, ficando parado para que a irmã pudesse colocar a flor no pequeno bolso sobre seu peito esquerdo. A fadinha ajeitou a pequena áster em seu lugar e se afastou, admirando o irmão mais velho com um sorriso.

Ela fez um guincho baixinho e Jack notou que seus olhos coloridos estava levemente molhados.

“Naw, não chora, Emma.” Ele riu erguendo as mãos para que a irmã pudesse pousar nelas. “Você vai me fazer chorar também.” A fadinha riu, deixando que o outro afastasse os olhos com o polegar.

Bloom suspirou teatralmente.

“Eu ainda acho que você ficaria ainda mais bonito com um vestido!” Ela comentou com um bico. “Imagine só~ Um vestido lindo, azulado, cheio de flocos de neve, que é o tipo de coisa que você gosta. Especialmente com essa barriguinha sua.”

Jack revirou os olhos, sua mão automaticamente descendo para sua barriga.

“Vocês nunca vão me deixar em paz em relação ao vestido, vão?”

“Não.” Bloom deu de ombros. “Mas tem uma coisa que eu acho que você deveria usar…” E dizendo isso, ela se dirigiu para a sacola nas costas de Saori.

“Por favor, nada de sapatinhos de cristal.” Jack murmurou, fazendo Dentiana e Emma rirem.

Bloom não respondeu, ela só se voltou para o rapaz de gelo com algo em mãos.

“Que tal?”

“Ah…” Demorou um pouco para Jack compreender o que ele estava olhando. “Bom… Eu sei lá? Isso é coisa de mulher, não é?” Ele falou sem jeito, sabendo que aquilo era de algum modo simbólico em alguns lugares e para algumas pessoas, mas sem entender muito daquelas coisas.

“Por que você não experimenta, Jack?” A Fada dos Dentes perguntou e as fadinhas assentiram.

Hai, veja como combina com a sua roupa.” Saori adicionou.

“Hm, está certo, mas sem promessas!” Jack revirou os olhos, pegando o tecido oferecido. Ele o rolou por entre seus dedos, sentindo a textura suave e suas bochechas brilharam em um belo azul, quase combinando com seu terno.

-G-

Coelhão suspirou, inspecionando à si mesmo no espelho inclinado contra as pedras em forma de ovo. Fazia tanto tempo que ele não usava aquelas roupas, ele até tinha se perguntando se elas ainda caberiam nele, mas não era como se ele tivesse mudado muito desde a última vez que as tinha usado – talvez ele tivesse perdido um quilinho ou outro, mas nada excepcional.

Ele não podia mentir, ele estava bonito, mas era estranho se ver novamente com aquelas cores, aqueles detalhes… Ele tinha implementado alguns daqueles detalhes em seus bumerangues, cintas e suas braçadeiras, mas fazia tempo que não usava algo enfeitado com tantos detalhes diferentes.

Coelhão sentiu um leve aperto no coração, mas então sorriu.

Ele não se importava em se vestir daquele jeito para aquele dia, um dia especial. Seu casamento. Pela Lua, ele nunca pensou que voltaria a fazer parte de algo como aquilo, mas cá estava ele.

O Guardião sorriu e balançou a cabeça, tentando não ficar emotivo.

Mas foi só lembrar quem se juntaria a ele dali a alguns minutos e ele sentia a emoção retornando.

Jack Frost…

Quem diria que ele iria acabar amarrado àquele rapaz, de todos os espíritos do mundo… Há alguns anos ele acharia aquilo uma loucura, mas agora Coelhão mal podia imaginar sua vida sem aquele moleque.

“Coelhão?” A voz forte de Norte tirou o Pooka de seus pensamentos. O cossaco se aproximou com um largo sorriso no rosto. “Ack, olhe só pra você! Ah, eu me lembro quando você sempre usava essas roupas!”

“Você ainda tinha cabelos pretos, eu me lembro, Norte.” Coelhão retrucou, arrancando uma risada alta do Guardião das Maravilhas.

Um pigarreio chamou a atenção dos dois e ele se voltaram para Ombric, que sorria levemente, embora seu rosto continuasse com aquela mesma expressão séria de sempre, carregada de rugas de vários anos e várias experiências.

“Tudo pronto?” O Pai do Tempo perguntou. “A lua já está a pino.”

“Sim, claro.” Coelhão assentiu, de repente um pouco nervoso. Ele balançou a cabeça. Não sabia exatamente de onde aquele pensamento estava vindo, mas ele deixou que o sentimento passasse por ele, substituindo-o por outro enquanto ele caminhava para fora da área em que se escondera esse tempo todo.

Ombric se colocou em baixo do arco de flores no final do corredor feito pelos bancos enfeitados. Ele se curvou para o convidado recém-chegado e fez sinal para os Iétis, que começaram a tocar a música.

“Boa sorte, amigo.” Norte disse com um sorriso, dando um tapinha nas costas de Coelhão antes de se sentar.

Coelhão revirou os olhos e deu alguns passos para frente, mas parou por um segundo quando viu Jack, de repente se sentindo sem fôlego e admitindo que o comentário do amigo era bem-vindo naquele momento.

-G-

“Pronto, Jack?” Dentiana sorriu para o rapaz que só sorriu em resposta. A Fada do Dente afagou-lhe o ombro mais uma vez e Emma deu-lhe um beijinho no rosto e as duas acompanharam Bloom e Saori até seus lugares.

Jack respirou fundo uma, duas vezes, e acompanhou a música, se dirigindo para um dos finais do corredor de bancos enfeitados. E ele sentiu a respiração prender na garganta ao ver Coelhão vir em sua direção.

Ele não podia mentir, era um tanto estranho ver o Pooka usando roupas, mas ao mesmo tempo vê-lo daquele jeito, por algum motivo, fez o coração de Jack bater mais rápido. Ele tinha esperado por tanto tempo para ver Coelhão em suas vestes Pookanas, e agora aqui estava ele.

Parecia ser uma toga verde e enfeitada de modo tão intricado que Jack sentiu como se pudesse ficar tonto se a encarasse por muito tempo; as mangas eram longas, enfeitadas em dourado e a gola era alta, circulando o pescoço grosso do Pooka em um vermelho vívido, com botões de ouro em forma oval; e a curva de sua cintura fina era intensificada com um cinturão roxo que quebrava o padrão, mas que só adicionava mais ao todo.

Era um tanto engraçado de ver, especialmente com os botões em forma de ovos, mas, ao mesmo tempo, parecia combinar perfeitamente com Coelhão, as cores vívidas contrastando com seu pelo cinza azulado. O verde da toga Pookana especialmente fazia os olhos verdes de Coelhão se intensificarem de algum modo, e Jack quase se sentiu sem fôlego.

O rapaz não sabia, mas Coelhão compartilhava aqueles sentimentos enquanto se aproximava dele.

Jack estava lindo, com o terno azul-claro, enfeitado de flocos de neve que pareciam brilhar como neve de verdade, quando a luz refletia nela cedo de manhã; e ele não pôde deixar de se demorar no modo como o terno envolvia a barriga já mais saliente de Jack, emoldurando-a adoravelmente. Uma pequena áster arroxeada enfeitava seu peito, logo ao lado da lapela esquerda, adicionando mais cor à roupa, e Coelhão quase riu, ao notar que era praticamente a mesma cor do cinturão que ele usava; era como se eles estivessem combinando. E, para adicionar àquela visão, a cabeça branca de Jack estava enfeitada com um véu fino, praticamente invisível aos olhos, que emoldurava seu rosto azulado de um modo gentil.

Eles se encontraram na metade caminho e tomaram um momento só para olhar um para o outro.

Coelhão sorriu para Jack e o rapaz sorriu em resposta, seus olhos azuis brilhando. O Pooka estendeu a pata para o espírito e, de mãos dadas, eles seguiram por entre os bancos e os convidados, se dirigindo para o altar como a tradição de Papoff Noelen mandava.

A cerimônia estava cheia, Jack notou e ele sentiu um reboliço de alegria em sua barriga. Ele sabia que seus amigos viriam, mas, ainda assim, ver todos ali quase o fazia se sentir emotivo. Era ainda estranho saber, depois de tanto tempo, que ele não estava mais sozinho.

Amber e Warrend, os Espíritos do Outono e do Verão, estavam ali – e Jack sabia que Wrrend só tinha vindo para fazer Amber feliz, o que era adorável e o Espírito do Inverno teria certeza de se lembrar de usar aquilo para mexer com o esquentadinho mais tarde. Jamie e Sophie também tinham vindo, para a surpresa de Jack, assim como outros amigos que ainda acreditavam; como uma garotinha humana que Jack tinha conhecido fazia pouco tempo, que tinha se tornado grande amiga de Sandman e estava sentada ao lado desse. E, não muito de onde sentavam os Guardiões das Maravilhas e das Memórias, estava o Homem da Lua, sorrindo com seu rosto rechonchudo e brilhando com intensidade.

Jack tentou afastar as lágrimas sem chamar a atenção, sem vontade de chorar em seu próprio casamento, só por que era clichê demais. Ele sorriu para Coelhão, notando o brilho nos olhos desse, sabendo que o Pooka também segurava as lágrimas.

Os dois pararam frente a Ombric, que sorria para eles.

“Caros amigos…” Ele começou, erguendo o cajado e o Iétis pararam a música. “Estamos reunidos aqui para a união, não só de dois grandes e poderosos Guardiões, mas também de dois corações: Coelhoberto Áster Pascoal, Guardião da Esperança…” Jack sorriu para o Pooka, de repente sentindo uma onda de energia correr por seu corpo, que se intensificou ainda mais ao ver a expressão levemente sem jeito de Coelhão. Finalmente! “E Jackson Frost, Guardião da Diversão.”

Coelhão se moveu e Jack o imitou até os dois estarem se encarando novamente. O Espírito do Inverno sorriu, bobo, ao ver as lágrimas começando a aparecer nos olhos do Pooka, e esse só sorriu em resposta.

“Jack e Coelhão, vocês prometem amar e proteger, não só o amor que possuem, mas também a cada um, em uma união de almas e corações, por enquanto viverem?” Ombric disse de modo solene.

“Prometo.” Os dois falaram, praticamente ao mesmo tempo, e a esse ponto ambos sentiam as bochechas doendo de tanto sorrir, mas, ainda assim, continuaram sorrindo.

“E junto, como Guardiões, prometem guardar e proteger todas as crianças do mundo como um time, unido até o fim?”

“Prometo.” Eles disseram com seriedade e honestidade, sabendo sem precisar dizer, que juntos eles eram mais fortes.

“Os braceletes, por favor.”

Emma e outras fadinhas voaram até o altar, carregando uma cesta enfeitada. De dentro dela, Ombric tirou dois braceletes enfeitados. Jack sorriu, sentindo as bochechas ficarem mais geladas; de acordo com a tradição, Jack tinha feito o bracelete para Coelhão, enfeitando-o – o melhor que conseguia fazer – com desenhos de coisas que lembravam o Pooka; ele sentia que tinha feito um bom trabalho, mas nunca tinha sido lá muito bom com aquele tipo de coisa, tudo o que ele esperava era que Coelhão gostasse. Ao mesmo tempo, ele encarou o outro bracelete, aquele que o Pooka havia feito para ele, animado para ver o que ele tinha feito.

“Que esses braceletes, feitos por suas próprias mãos, simbolizem a união de suas diferenças, existindo em harmonia e paz.” Dizendo isso, Ombric entregou o bracelete azul para Coelhão e o verde para Jack.

Coelhão foi primeiro, tomando a mão pálida de Jack e gentilmente deslizando o bracelete no pulso do rapaz. Jack admirou o objeto por um momento. Como esperado, o trabalho do Pooka era mil vezes melhor que o seu, com lindos desenhos de flocos de neve, nuvens e até mesmo o seu cajado curvado.

Jack fez o mesmo, deslizando o bracelete que tinha feito no pulso de Coelhão. O verde que ele tinha usado para pintar o fundo combinava com o verde da roupa Pookana, e as flores e os ovos coloridos que ele tinha desenhado pareciam brilhar mais quando perto do pelo cinza azulado desse.

O rapaz sorriu ao ver o outro admirar o bracelete como ele tinha feito, um sorriso gentil em seu rosto que fez seu coração bater mais forte.

“Aqui, diante de amigos e de família, a sua união é testemunhada e para sempre guardada.” Ombric disse com um sorriso, erguendo as mãos e o cajado como que para abençoá-los. “Pelo poder investido a mim pelo Tsar Lunanoff, o Homem da Lua…” O tal Tsar sorriu de seu lugar. “Eu os declaro, enfim, um casal.”

Jack não esperou mais, sentindo como se estivesse prestes a começar a pular no lugar enquanto os segundos se esticavam. Ele estava segurando a vontade de beijar Coelhão desde o momento que o tinha visto; e, a julgar pelo modo como Coelhão o agarrou, o Pooka devia estar pensando o mesmo.

Os dois se beijaram como se fosse a primeira vez, Jack envolvendo o pescoço de Coelhão com os braços, enquanto Coelhão abraçava sua cintura. Os dois ouviram os convidados se levantar, aplaudindo, e a música recomeçar, animada e alta, mas continuaram perdidos um no outro até que ar se tornou um problema.

Eles se afastaram, mas não conseguiram desviar os olhos um do outro, azul e verde, conectados para sempre.

-G-

Embora Coelhão tivesse dito que uma festa não seria necessária, como o esperado, Norte não lhe deu ouvidos. Logo todos os convidados foram levados para o Polo Norte através de portais, onde comida, bebida e música, os esperava para celebrar.

A pedido de Bloom, Jack jogou um buquê de rosas vermelhas – conjurada no lugar pelo próprio Espírito da Primavera – para um grupo de espíritos, assim como mandava a tradição de alguns casamentos. E o Espírito do Inverno quase riu ao ver que quem tinha pego as flores tinha sido ninguém mais, ninguém menos que Amber, que parecia ter feito aquilo por acidente a julgar pelo modo como suas bochechas ficaram vermelhas.

Jack sorriu ao ver Dentiana e Norte dançando juntos a um certo ponto, mesclando danças cossacos e hindi de um modo surpreendentemente harmonioso. E, mesmo sem saber dançar, Jack puxou Coelhão para a pista de dança. Coelhão, mesmo tenso e sem jeito, satisfez o desejo do rapaz, sorrindo enquanto Jack ria em seus braços.

Os jovem humanos e os mais novos se divertiram por um tempo limitado, antes de terem de voltar para casa. Nenhum ousou ir embora sem dizer pelo menos um tchau e desejar o melhor para o casal. Sophie se demorou em um abraço com Coelhão, antes de apertar Jack com a mesma força.

A um certo ponto, Jack se dirigiu até as bebidas, se inclinando contra uma das grandes vigas enfeitadas do salão e admirando a festa de longe. Ele podia estar só no início de sua gravidez, mas ele se sentia cansando mais fácil, e toda aquela agitação já tinha drenado boa parte da energia que ele tinha armazenada.

Mas ele estava feliz, como não estaria?

Jack sentiu uma pata conhecida pousar em seu ombro e sorriu ao sentir os bigodes de Coelhão fazendo cócegas contra sua têmpora.

“Que tal arranjarmos um canto mais sossegado?” O Pooka ofereceu em voz baixa.

“Pensei que nunca iria perguntar.” O rapaz riu, deixando que o outro o guiasse em outra direção, para longe do salão aberto, tentando não chamar muita atenção. Se alguém os viu se afastando, não ousou os interceptar, deixando que os dois tomassem um tempo sozinhos.

Os dois continuaram até a sacada de uma das enormes janelas da oficina. Jack respirou fundo ao sentir o frio gélido do Polo Norte cair sobre ele, deixando para trás o calor abafado do grande salão. Ele tentou não rir ao ver as orelhas do Pooka tremerem levemente.

Jack pulou com facilidade para poder se sentar na beirada da mureta.

“Cuidando para não cair, Snowflake.” O Guardião da Esperança disse ao se aproximar, passando os braços em volta da cintura do outro.

“Não precisa ter medo.” Jack disse, envolvendo a cintura do outro com suas pernas antes de deslizar as mãos pelos ombros fortes do Pooka, o mantendo preso no lugar. “Eu tenho você aqui para me segurar…” Os dois se inclinaram um para o outro, dividindo um beijo curto, e ele sorriu torto quando se afastaram. “Não é… Coelhoberto Áster Pascoal?”

Coelhão revirou os olhos e riu baixo.

“Faz anos que não uso esse nome.” Ele comentou.

“Eu pensava que você só estava escondendo um sobrenome esquisito, não que o seu primeiro nome era diferente.” Jack disse. “Mas eu gosto.”

“É?” Coelhão bufou, inclinando-se para apertar o focinho contra o pescoço do rapaz.

“É…” Jack riu, inclinando a cabeça para o lado para dar mais espaço para o outro, sorrindo ao sentir os lábios desse beijando suavemente a sua pele.

“Eu posso dizer o mesmo, Jackson.” Coelhão comentou.

“Pela Lua, não…” Jack revirou os olhos, sentindo o rosto esfriar, mas ele teve de rir. “Emma disse que meu nome completo devia ser Jackson Overland Frostison. Você acha que já é estranho demais ou eu devia colocar ‘Pascoal’ no fim para chegar a ‘super’ estranho?”

“Soa bom, na minha opinião.” O Pooka mencionou, erguendo a cabeça para apertar o focinho contra o cabelo brando do rapaz, inalando seu perfume.

“Fala aquele cujo nome é ‘Coelhoberto’.” Jack riu. Ele inclinou a cabeça para trás para poder ver o outro melhor e Coelhão ergueu uma sobrancelha. “Hm… Coelhoberto Áster Frostison?”

O Guardião revirou os olhos, bufando baixo, mas Jack podia jurar que ele devia estar corando em baixo do pelo.

“Não.” Ele disse simplesmente.

“E que tal colocar um hífen?” Jack propôs. “Pascoal-Frostison? Frostison-Pascoal?”

“Nada disso.” Coelhão disse e riu alto. Ele se inclinou, tomando os lábios do rapaz nos seus como que para fazê-lo se calar. Quando ar se tornou um problema, eles pararam, mas não ousaram se afastar, mantendo focinho e nariz a centímetros de distância; Jack até podia sentir os bigodes do outro cutucando suas bochechas. “O seu nome é o seu nome. É parte de quem você é. E eu quero você assim, todo.”

“C-Coelhão…” Jack murmurou, de repente sem ar.

O Pooka realmente sabia exatamente o que dizer para mexer com ele, era incrível. Coelhão sorriu, satisfeito consigo mesmo e Jack corou, agarrando-o pela toga verde e o puxando para mais um beijo profundo.

As patas de Coelhão começaram a descer pela cintura do outro, enquanto Jack deixou suas mãos apertarem contra o peito coberto do Pooka. O tecido da toga Pookana era suave e deslizava de modo gostoso contra o tecido do terno do rapaz, e era claro que, com o passar dos segundos, ambos estavam ficando cada vez mais quentes em baixo daquelas camadas de roupas.

Eles se afastaram, respirando em lufadas.

“Que tal a gente sair de fininho e voltar para a Toca?” Jack perguntou.

“Pensei que nunca ia perguntar…” Coelhão sorriu, fazendo o rapaz rir.

Sem pensar duas vezes, o Pooka bateu com o pé no chão e um portal se abriu.