Jack acordou sozinho no ninho, enrolado nos cobertores e sentindo sua pele pálida suar, mesmo sem o calor de seu noivo ali com ele… Não, “noivo” não, seu “marido”. O rapaz sorriu, se sentindo bobo, enquanto um frio confortável tomou suas bochechas. Ele rolou para o lado em que Coelhão normalmente deitava, se aconchegando nos travesseiros desse.

Quando abriu os olhos, ele se viu encarando dois braceletes enfeitados em cima do criado-mudo de formato oval ao lado do ninho, e as memórias do casamento retornaram para ele. A imagem de Coelhão acompanhando-o de mãos dadas até o arco de flores continuava vívido em sua mente.

Ele riu baixinho. Sim, Jack tinha achado um tanto engraçado ver o outro vestido daquele modo, principalmente com roupas como aquelas – ele sempre acharia os botões em forma de ovos uma gracinha e continuaria fazendo piada sobre eles, só para ver o outro revirar os olhos – mas, ainda assim, ele tinha ficado tão lindo daquele jeito e até que combinava com ele – Jack se perguntava se a roupa tinha sido feita especialmente para ele, como o seu terno de casamento.

O rapaz se lembrava ainda melhor da textura dos tecidos coloridos, suave e fino, entre seus dedos, e de como foi remover cada peça que Coelhão usava assim que eles retornaram para a Toca. Eles mal esperaram para chegar à casa de pedra, mas Jack sabia que Coelhão tinha fechado as entradas assim que eles retornaram, só para ter certeza de que não seriam interrompidos.

Jack recordava também o modo como Coelhão o ajudou a se livrar do terno azulado, sendo cuidadoso com as peças, e descendo sua pata para a barriga do rapaz, já levemente mais arredondada. Seu rosto esfriou ainda mais e o rapaz mordeu o lábio, sentindo seu corpo de repente mais quente, e não por causa dos cobertores.

Se aconchegando ainda mais, o Guardião se perguntou onde seu marido devia estar e por que o havia deixado sozinho no ninho…

“Jack.” Como se tivesse ouvido os pensamentos de Jack, a voz de Coelhão veio de outro canto da casa. “Eu sei que está acordado.”

“Então venha me dar bom-dia, meu querido marido~” Jack disse e teve de rir com aquelas palavras, ouvindo o Pooka rir também.

Logo, Coelhão retornou para o quarto. Ele não usava mais as suas roupas Pookanas, o que fazia sentido, estava de volta só usando suas braçadeiras enfeitadas. O garoto não pôde deixar de encarar enquanto esse se aproximava.

“O que foi?” O Pooka perguntou.

“Nada.” Jack disse com um sorriso. “Só pensando em como eu acabei de casar com um canguru.”

Coelhão revirou os olhos, mas não pôde se impedir de dar um sorrisinho torto. Ele se sentou no ninho, ao lado do rapaz, e esse rapidamente se remexeu no lugar, se erguendo levemente contra os travesseiros e encarando o outro com expectativa.

“Imagine eu.” Ele disse por fim, se inclinando sobre Jack. O rosto do Espírito esfriou ainda mais em baixo do outro, tanto sua mente quanto seu corpo se recordando da noite anterior mais uma vez. Coelhão claramente notou isso, pelo modo como se inclinou mais sobre Jack, deixando sua pata acompanhar a linha de uma das pernas do rapaz, escondida pelos cobertores. “De todos os espíritos no mundo, me casar com Jack Frost?”

“Pois é, né? Que loucura…” Jack comentou, se sentindo quase como uma animalzinho encurralado em baixo do Guardião maior.

“É…” Coelhão assentiu, descansando uma pata contra a parede para suporte, enquanto se inclinava mais em direção de Jack. A mão que subia pelo torso do rapaz agarrou-lhe o queixo, segurando seu rosto azulado e o forçando a encarar seus olhos verdes. “E eu não poderia ter escolhido alguém melhor.”

Jack sentiu seu coração pular com mais força em seu peito e ele teve de forçar as lágrimas para longe.

Coelhão finalmente desfez os últimos centímetros de distância entre os dois, apertando seus lábios juntos em um beijo doce. Jack não esperou, envolvendo o pescoço forte do Pooka e o puxando para a cama.

Os dois riram, se embolando nos cobertores mais uma vez.

E se a vida de casado era para ser assim, ambos estavam bem felizes com suas escolhas.

-G-

Jack se observou novamente no espelho de corpo inteiro que ficava no canto do quarto, tentando ver melhor, de vários ângulos diferentes, as mudanças em seu corpo. Ele estava entrando na metade do quarto mês e já podia notar bem como as coisas tinham mudado: sua barriga estava, como esperado, um pouco mais saliente, além de suas coxas.

Para sua surpresa, os sintomas mais indesejados da gravidez pareciam ter desaparecido. E ele agradecia cada dia por isso! A pobre Dentiana, infelizmente, estava sofrendo tudo o que ele tinha deixado para trás. Mas a própria Fada dos Dentes tinha dito que cada pessoa tinha uma experiência única com tudo aquilo. Enquanto se contava com sorte, ele ainda se sentia mal por ela.

Jack fez uma careta, desviando os olhos para os pés. Era uma sorte que ele não gostava de usar sapatos por que seus pés estavam começando a inchar um pouco...

O rapaz se surpreendeu ao sentir dois braços fortes e felpudos envolvendo sua cintura e ele riu.

“Se admirando um pouco, Frostbite?” Coelhão perguntou, apertando o focinho contra os cabelos do rapaz. Jack sorriu, lembrando que o outro tinha dito que seu cheiro, seja lá qual fosse, tinha se intensificado desde o começo da gravidez.

“Alguém tem que, né?” Jack fez piada e ouviu Coelhão bufar acima dele. “Só vendo as mudanças.” Ele se inclinou levemente para o lado, levando o outro com ele. “Eu estou perdendo a cintura.”

Coelhão se afastou um pouco, só para ver melhor e examinou o Espírito do Inverno dos pés à cabeça, tanto no espelho quanto de verdade, se demorando, Jack notou, na parte de baixo.

“Você está lindo, Jack.” O Pooka disse por fim, beijando a bochecha do garoto, o fazendo rir.

“Você é suspeito, dizendo essas coisas.” Jack mencionou, puxando o outro para baixo com uma mão em seu ombro, para que os dois pudessem dividir um beijo de verdade.

Jack sentiu quando as patas de Coelhão deslizaram pela sua cintura, gentilmente afagando a barriga de modo doce. Ele mordeu o lábio por um momento, tentando afastar alguns dos pensamentos que ainda atravessavam sua cabeça.

“Qual é o problema, Jack?” A voz de Coelhão tirou o rapaz de seus pensamentos e Jack notou como sua expressão havia mudado, refletida pelo espelho diante deles.

O Espírito do Inverno quis dizer que não tinha problema algum, mas ele já conhecia bem o outro, e sabia que ele não aceitaria aquilo como resposta.

“Só… Sabe, gravidez, crianças, ser pai, coisas do tipo…” Ele deu de ombros, sabendo que aquelas palavras serviam para resumir tudo o que lhe preocupava no momento. “Eu sei que a gente já conversou sobre isso, sobre não ter experiência e tudo o mais, mas…”

Ele parou por um momento e seus olhos se focaram nas cicatrizes que enfeitavam sua barriga, e que tinham começado a se esticar enquanto sua barriga crescia. Ele se lembrava bem de quando foi ferido, da dor e da sensação. As marcas eram claras contra sua pele pálida, eram até difíceis de notar, mas estavam ali.

E ele pensou em quem tinha lhe causado aquelas marcas, Sheila, e a pessoa que ela aparentemente “amava”, Breu.

E então pensou em todas as outras crianças do mundo e como, por anos, os Guardiões trabalharam duro para manter todas em segurança, ironicamente passando tanto tempo fazendo as coisas às escondidas que acabaram perdendo todas as habilidades que um dia tiveram de lidar com crianças.

Levando tudo isso em conta, ele só se perguntava se…

“A gente pode realmente dar a essa criança o que ela precisa…?” Jack se pegou falando em voz alta.

Coelhão não respondeu de imediato e Jack sentiu seu rosto esfriar, ele desviou o olhar. Por um momento ele pensou no que tinha acontecido antes, quando Breu ergueu suas forças alguns anos atrás, o modo como os Guardiões quase perderam todos seus poderes e desapareceram por completo, como Sandy foi destruído pelas areias negras do Bicho Papão; e então Sheila, um demônio, literalmente o possuiu, quase o matando no processo.

Era assustador…

Depois de entender o verdadeiro trabalho de um Guardião da Infância, Jack percebeu que era muito mais que fazer ovinhos coloridos e entregar presentes, que deixar moedinhas em baixo de travesseiros e levar sonhos para o mundo, ou alegrar o dia de alguém com um punhado de neve. Ser um Guardião era um trabalho sério, difícil e perigoso. Jack ainda se lembrava da dor de acreditar que Sandy havia desaparecido para sempre…

Ele se preocupava se era assim que adultos como bombeiros se sentiam quando saiam de casa, chamados para cuidar de uma emergência, sem saber se voltariam para casa ou se acabariam pegos pelas chamas… Por um momento ele pensou em super-heróis e como muitos deles escondiam suas identidades exatamente para ter certeza de que sua vida de civil estivesse segura.

Mas ele não era um super-herói e não tinha uma identidade secreta, ele era plenamente Jack Frost, Guardião da Diversão. Ele não gostava de admitir, mas tinha um pouco de medo, e aquele medo tinha se intensificado desde que notou quanto sua barriga crescia a cada mês; e se acontecesse alguma coisa com ele? Com Coelhão? Ou os outros Guardiões? O que seria daquele pequenino?

Jack ouviu um leve sibilar na voz de seu marido e piscou, voltando à realidade. Ele corou em azul ao notar que tinha sem querer criado um pouco de gelo em baixo de seus pés, o frio tocando as patas longas de Coelhão. Ele tentou fazer o gelo sumir, mas aquilo parecia ser o bastante para o Pooka compreender seu nervosismo.

“Jack…” Coelhão disse e o rapaz sentiu um arrepio confortável correr por suas costas, ele gostava quando o Pooka falava seu nome assim suavemente. Uma pata forte e quente pousou em seu ombro e Jack virou o rosto para encarar o outro. “Sim, nós podemos.” Coelhão lhe ofereceu um sorriso gentil. “Nossa missão é para com todas as crianças do mundo, e a nossa faz parte disso.”

O rapaz suspirou, assentindo. Ele sabia que Coelhão falava a verdade, mas ele ainda não podia deixar de se preocupar um pouco. Ainda assim, Jack confiava nos outros Guardiões, e nos outros Espíritos, assim como no poder das crianças do mundo inteiro, que acreditavam nele. Eles ficariam bem, seu bebê ficaria bem…

Jack sorriu para o Pooka, inclinando a bochecha contra a pata felpuda desse. Ele se sentia um tanto mais confortado em relação àquilo, então decidiu que era melhor deixar aquilo de lado. Porém, fazer isso apenas fez outra coisa retornar à sua mente, algo que tinha passado por seus pensamentos uma ou duas vezes e que sempre o deixava sem saber o que sentir.

“É…” Ele murmurou, quase sem jeito. “Mas tem algumas coisas que… Eu ainda não tenho a mínima ideia de como eu vou fazer…”

“Como assim?” Coelhão perguntou, daquele modo que mostrava que ele era todo ouvidos – ha!

“Sabe, coisas menores…” Jack murmurou, lançando um olhar para o Pooka, esperando que ele entendesse.

Coelhão só o encarou, arqueando uma sobrancelha, ainda no escuro. Jack revirou os olhos, sentindo seu rosto esfriar ainda mais ao pensar em como explicar do que estava falando. Ele se sentia bobo de ter vergonha de falar sobre aquilo com Coelhão, literalmente o seu marido e quem já o tinha visto dos modos mais embaraçosos imagináveis em apenas sete anos juntos!

O rapaz voltou sua atenção para seu reflexo sem camisa e o Pooka fez o mesmo, como que tentando entender o que o outro via que ele não via. Não demorou muito para o Pooka entender.

“Ah.” Coelhão disse e não pôde segurar uma risada alta, o que só fez o rosto de Jack ficar ainda mais azul, quase brilhando. “Bem, quem sabe o que vai acontecer? Talvez você cresça-”

E, dizendo isso, Coelhão ergueu as mãos das cinturas do rapaz para seu peito, mas Jack as interceptou ali.

“Nem ouse!” Ele sibilou, lançando um olhar para o Pooka. “Nem ouse falar uma coisa dessas! Quem sabe que estrela cadente pode estar passando agora mesmo-!”

“Como se elas tivessem poder em minha Toca.” Coelhão revirou os olhos e, com facilidade, se soltou das mãos de Jack, agarrando-lhe o peito e arrancando um exclamar alto do rapaz.

-G-

Jack estava um tanto incomodado quando retornou à Toca, mas ele sentiu um pouco da irritação derreter ao sentir o ar da campina mágica. Não era quente, mas também não era frio, era só uma temperatura confortável que raramente mudava a não ser pelo desejo do Guardião da Esperança. Para Jack, qualquer coisa era melhor do que o calor atualmente tomando conta do hemisfério norte.

Porém, a irritação continuou presente enquanto ele voava pela Toca, tentando encontrar o Pooka.

“Coelhão?” Ele chamou enquanto procurava pelos cantos que ele conhecia, mas sem sucesso. Jack já tinha explorado a Toca de Coelhão múltiplas vezes, mas ele ainda sabia que havia cantos daquele lugar que ele. Jack quase sentia como se, a cada dia que passasse, mais a Toca se expandia, sem fim. “Alô?”

“Aqui, Jack.” A voz de Coelhão falou, vindo de cima.

O rapaz se surpreendeu, erguendo o olhar, só para ver que o Pooka estava sentado em cima de uma estátua alta, com o formato de um ovo Jack ergueu uma sobrancelha. O Pooka tinha medo de altura, por que ele estaria lá em cima?

“Ei, onde você estava?” Jack perguntou, flutuando para se juntar ao outro. “Essa é a minha segunda visita hoje porque você não estava aqui cedo…” Ele mencionou, esperando ter respostas.

“Estava fazendo umas coisas…” O Pooka deu de ombros, desviando o olhar para longe e Jack notou que ele parecia estar escondendo alguma coisa.

“Que coisas?” O rapaz perguntou, interessado, se aproximado levemente no espaço pequeno que havia entre os dois.

“Coisas que não importavam para você naquele momento…” Coelhão disse com um sorriso torto, lançando um olhar para o outro.

Jack não se surpreendeu com o comentário, já estava acostumado a ouvir coisas daquele tipo, e era claro pela expressão do Pooka que ele estava brincando, mas, ainda assim, ele não pôde deixar de sentir como se aquilo só tivesse intensificado a irritação que estava sentindo no momento. Jack nem poderia explicar exatamente por que se sentia tão exaltado assim, talvez fosse, como tinha ouvido de Dentiana, os hormônios de gravidez, ele não sabia.

“Oh, uau!” Ele disse, cruzando os braços. “Rude!” E ele teve de morder o lábio ao ouvir Coelhão rir, derretendo um pouco daquela irritação estranha.

“Mas agora importam.” E, dizendo isso, Coelhão se esticou para o outro lado da estátua. Jack se moveu para ver melhor e se sentiu sem ar ao ver o que o Pooka tinha mantido escondido até então.

“Ah…” Foi só o que ele conseguiu dizer, o ar escapando seus lábios entreabertos e flutuando no ar por um momento.

Era uma tela, um quadro, mas não um quadro qualquer: era uma pintura de Jack! Jack, sentado em um dos ovos sentinelas, descansando a cabeça contra os braços cruzados e o cajado, olhando distraído para o nada com um pequeno sorriso no rosto. Era incrível, Jack podia ver os detalhes de cada pincelada para criar o seu cabelo branco, assim como cada pressão do pincel que Coelhão tinha usado para desenhar os flocos de neve e o gelo que enfeitava suas roupas.

A pata do Pooka em seu ombro arrancou o rapaz de seus pensamentos. Ele piscou, como se tivesse só agora acordado e olhou de seu marido para a pintura, e de volta para seu marido.

“Coelhão…” Foi só o que ele conseguiu dizer.

“Você gostou?” Coelhão perguntou, inclinando a cabeça para o lado. E Jack mal podia acreditar que conseguia ver um pouco de incerteza nos olhos do Pooka! Como ele poderia esperar que Jack não gostasse de algo como aquilo?!

“Sim! É claro que sim!” Ele exclamou sorrindo de orelha a orelha e não hesitou em envolver a cintura do Pooka com um braço, o apertando para perto. Coelhão riu baixinho, descansando um braço em volta do ombro de Jack e o segurando ali; o rapaz sorriu ao sentir o modo como esse relaxou no abraço.

Ele desviou os olhos para a pintura novamente. Jack nunca foi do tipo que comentava muito sobre sua aparência, ele nunca se achou lá muito atrativo, mas naquela pintura…

Ele sentiu seu rosto esfriar. Então era assim que Coelhão o via…?

Seu coração bateu mais forte.

“Uau… Isso é incrível…” Ele comentou, sem saber exatamente o que dizer. Então tudo o que ele fez foi puxar Coelhão para baixo e apertar seus lábios contra os dele.

-G-

“Mas eu quero dizer, Sandy… Olha-! Olha só isso!”

Sandy olhou, ao mesmo tempo segurando uma risada e um bocejo. Nas mãos do rapaz estava um pequeno retrato, só um pouco maior que a palma de sua mão. De acordo com o Guardião da Diversão, aquele era só um dos retratos que o outro Guardião havia pintado para ele. E era bonito, muito bonito, de fato. Sandman já conhecia os talentos de Coelhão, ele os admirava, mesmo que visse pouco deles.

“Ele fez pinturas pra mim! Pinturas de mim! Ele até fez uma pequena assim por algum motivo!” Jack balbuciou, do mesmo modo que Sandy criava imagens com rapidez sobre sua cabeça quando estava animado. E ele não pôde deixar de sorrir ao ver o garoto sorrir para a pequena pintura em suas mãos. “Talvez eu nem devesse estar com ela agora, ele deve ter feito isso só pra si mesmo, mas…” Ele deu de ombros e riu, sendo acompanhado pela risada silenciosa do outro. “Ninguém nunca fez uma pintura de mim…” Ele mencionou, soando quase nostálgico. “Nem quando eu era um mortal, a minha família não tinha dinheiro pra isso.”

Sandman assentiu, mostrando que estava ouvindo, embora estivesse focando em fazer descer suas areias de sonhos para a cidade escurecida abaixo deles. Demorou só um momento para o Guardião dos Sonhos notar que o outro tinha se calado completamente.

Sandy se virou para o amigo, encontrando Jack encarando o retrato em suas mãos, suas sobrancelhas escuras unidas. O homenzinho dourado fez uma careta, confuso. Ele se aproximou, chamando a atenção de Jack e fazendo um sinal que o rapaz já conhecia como uma pergunta.

“Não, não tem problema algum, Sandy, é só que…” Jack disse rapidamente, dando de ombros. “Eu sinto que eu devia fazer alguma coisa, sabe? Pra agradecer? Quero dizer… Criar alguma coisa, sabe?” Ele especificou e Sandman esperou, sabendo que ele tinha mais a dizer. “E eu não sei exatamente o que fazer. Estava pensando em uma escultura de gelo. Eu sei que eu posso manter a escultura por quanto tempo eu quiser e o Coelhão pode fazer alguns dos encantos Pookanos dele, mas… Eu sei lá…” Ele fez uma expressão pensativa e sorriu torto. “Sim, talvez eu devesse fazer uma escultura. Só pra ver a cara dele.”

Sandy balançou a cabeça com uma risada silenciosa e voltou a fazer imagens sobre sua cabeça. Jack demorou em responder, processando o que o outro queria dizer e sentindo suas bochechas esfriarem consideravelmente.

“É, tem razão, Sandy. Daí eu posso dar para ele uma coisa mais… Sincera…” O rapaz assentiu. “Talvez…” E então Sandy notou que ele teve uma ideia, seus olhos azuis brilhando e o sorriso aumentando. “Bem, eu aprendi uma coisa ou duas com Cupcake e com o Norte…” Ele se lançou de pé na nuvem de areia do sono, surpreendendo o outro Guardião. “Isso! Páscoa, chocolate! Sandy, isso é perfeito!”

E Jack pulou da nuvem, sem notar que Sandman estava tentando chamar sua atenção, um grande xis flutuando acima de sua cabeça. Por fim, o Guardião dos Sonhos suspirou, vendo o rapaz de gelo desaparecer ao longe, sendo levado pelo vento. Ele deu de ombros, voltando ao seu trabalho.

-G-

Coelhão estava sentado em uma pedra, rabiscando em um caderno. Ele sorriu, examinando os nós e floreios coloridos que tinha criado (era sempre bom trabalhar em vários designs para as Páscoas futuras) quando suas orelhas captaram o som de pequenos flocos de gelo se chocando no ar.

“Coelhão!” Jack chamou.

O Pooka ergueu o olhar do caderno, vendo o rapaz flutuar em sua direção, e ele notou que Jack parecia esconder alguma coisa atrás de suas costas.

“Frostbite.” Ele disse simplesmente, curioso.

“Como vai? Alguma pintura nova?” Jack perguntou ao pousar ao lado do Pooka, pelo jeito tentando dar uma de inocente.

“Apenas tendo ideias.” Coelhão mencionou, inclinando as páginas para que o rapaz pudesse vê-las. Ele inclinou a cabeça para o lado, desviando os olhos para baixo e depois para cima novamente e arqueando uma sobrancelha. “E você? O que está planejando?”

“Nenhum truque! Eu juro!” Jack disse rapidamente e ele ainda sorria de orelha a orelha, seu rosto levemente azulado. “Eu tenho um presente pra você.”

As orelhas de Coelhão viraram com interesse para seu marido.

“Um presente?”

Não era incomum para Jack lhe dar presentes. No começo o Pooka tinha se sentido um tanto sem jeito, afinal, ele não recebia presentes ou mimos de ninguém já fazia uns milhares de anos; Guardiões normalmente não davam presentes entre si, focados demais em fazer aquilo para as crianças. Mas desde que os dois começaram a namorar, ele se encontrou recebendo pequenos mimos do garoto de gelo e em pouco tempo ele começou a retribuir o gesto.

Jack mordeu o lábio ao sorrir e finalmente revelou o que tinha em suas mãos. Era uma caixa retangular pequena envolta em um papel colorido e com uma figurinha em forma de cupcake que Coelhão reconheceu na mesma hora e ele não precisava abrir para saber o que havia lá dentro ao sentir o cheiro.

“Ah, chocolate?” Ele disse simplesmente, sentindo a orelha e os bigodes tremeram. Suas sobrancelhas se uniram enquanto ele se perguntava como explicar…

“É! Mas não chocolates quaisquer!” Jack disse animado. Ele deixou o cajado de lado, usando a outra mão para abrir a caixa, revelando os doces que haviam ali dentro. Eram docinhos, pequenos bombons enfeitados de chocolate branco e ao leite. Coelhão notou como alguns deles eram um tanto tortos, e como um pouco de chocolate enfeitava os cantos da caixa, como se alguém tivesse derrubado um dos doces enquanto os colocava em suas formas de plástico. “Sim, foi a Cupcake que me ajudou a fazer eles e ela me deu a caixa, mas fui eu que fiz!”

Coelhão piscou, erguendo os olhos para Jack, com surpresa. Jack havia feito aquilo para ele? Sua expressão se suavizou.

“Eles parecem ótimos para uma primeira vez, Jack.” Ele elogiou.

“Não, não, só comente depois de experimentar!” Jack disse rapidamente, pegando um bombom e o estendendo para o Pooka.

Coelhão tentou, mas não pôde deixar de hesitar levemente, ainda assim ele abriu a palma de sua pata, deixando que o rapaz depositasse o docinho nela. Coelhão jogou o bombom na boca, sorrindo ao ver Jack o observando com interesse, claramente esperando para ouvir sua opinião. Era gostoso, como um típico bombom daquele tipo, ainda assim, ele não podia ignorar a sensação que teve em seu peito com o simples fato de que aquele doce tinha sido feito por Jack, para ele.

Ainda assim…

“É uma delicia, Snowflake.” Ele comentou, ainda sentindo o chocolate em sua garganta depois de engolir, seu corpo inteiro apreciando o sabor e a textura. Fazia um bom tempo desde a última vez que ele tinha comido chocolate, o que era irônico, para o Coelho da Páscoa.

“Sério mesmo?” Jack perguntou, seus olhos azulados brilhando e o Pooka teve de sorrir.

“Sério.” Ele assentiu, antes de arquear uma sobrancelha. “Você não comeu antes? Ou eu sou sua cobaia?”

“É claro que eu comi!” O Espírito do Inverno bufou, revirando os olhos de modo teatral, o que fez o outro rir. “Mas como eu fiz eles, meio que não dá pra confiar em mim mesmo, falou?” Ele estendeu a caixa de volta pra o Pooka. “Aqui.”

Coelhão sentiu seu corpo ficar tenso.

“Não obrigado, já estou satisfeito.” Ele disse simplesmente, sorrindo para tentar melhorar a situação.

“Ah, qual é? Vai.” Jack estendeu a caixa de volta.

“Não, Jack, eu…” Coelhão começou a dizer, erguendo uma pata para colocá-la entre si e a caixa, e então suspirou. “Eu não posso comer mais que um.”

Houve uma pausa.

“Por que não?” Jack perguntou, as sobrancelhas unidas e um olhar um tanto triste de se ver em seu rosto. Coelhão sentiu seu coração se apertar. “É tão ruim assim?”

“Não, não é ruim.” Ele disse calmamente.

“Então qual é problema?” Assim como tinha vindo rápido, a tristeza sumiu com a mesma rapidez, sendo substituída por uma leve irritação.

“Não tem problema algum é só que-”

“Tem sim!” Jack retrucou e Coelhão parou, deixando que ele falasse. Ele tinha uma ideia de que o rapaz não estava totalmente no controle de suas emoções naquele momento. “Por que quando eu faço alguma coisa pra você, você não quer?”

“Jack, saber que você fez isso pra mim me deixa muito feliz, sério.” Coelhão disse rapidamente, ainda mantendo a voz calma, para tentar acalmar também o rapaz. “Mas eu…”

“Então qual é o problema?!” Jack repetiu, exasperado, e de repente ele arfou, os olhos arregalando.

As orelhas de Coelhão se ergueram em atenção.

“Jack? O que foi?” Ele perguntou, vendo o rapaz levar a mão para a barriga.

Jack não respondeu de primeira, piscando os olhos bem abertos, como se ele mesmo não soubesse o que estava acontecendo.

“Ele chutou…”

“O que?”

“O bebê chutou…” Jack falou baixinho, como se não acreditasse em suas próprias palavras. “Ele está chutando! Aqui!” Ele rapidamente agarrou a pata de Coelhão e a puxou até a sua barriga. Não demorou muito para as orelhas do Pooka se voltaram para a frente em atenção.

O movimento era fraco, e teria sido difícil de notar caso ele não estivesse prestando atenção, mas estava ali. Uma leve pressão, nada mais que isso, mas que ainda assim parecia ser a coisa mais importante do mundo.

Os dois ficaram parados por um momento, esperando por mais alguma coisa. Em pouco tempo eles notaram que o bebê parecia ter decidido que tinha feito o bastante e tinha voltado a dormir.

Coelhão ergueu o olhar para Jack, encontrando o rapaz sorrindo bobo para sua barriga, e ele não pôde deixar de sorrir com a expressão adorável de seu marido.

“Acho que ele ficou incomodado com a discussão.” Ele comentou, feliz em ouvir Jack rir.

“Coitado…” Jack comentou, afagando a barriga, antes de erguer o olhar, oferecendo um sorriso torto para o outro. “Porque você sabe como a gente é…”

“Quem sabe ele vai nos ajudar a mudar alguns hábitos.” Coelhão deu de ombros e Jack riu, antes de abaixar o rosto novamente. O Guardião da Esperança esperou por um segundo, antes de inclinar o rosto do rapaz para cima com uma pata. “Jack?”

“Desculpa, eu não sei por que fiquei tão irritado.” Jack murmurou, seu rosto azulado de vergonha.

“Está tudo bem.” Coelhão disse rapidamente, balançando a cabeça. “Eu sabia que você acabaria assim durante esse tempo.”

“Ah, cale a boca.” O Guardião da Diversão rolou os olhos, empurrando seu marido, e os dois riram juntos. Ele desviou os olhos para a caixa de bombom que ele tinha deixado de lado ao sentir o movimento em sua barriga, por sorte ela tinha continuado fechada e nenhum dos doces tinha rolado para fora. Ele pegou a caixa de volta. “Mas então… Por que você não pode comer mais?”

“Não é que eu não posso, Jack. Eu só…” Coelhão suspirou, desviando o olhar por um momento, pensando. Jack educadamente esperou dessa vez, até o mais velho suspirar. “Aqui, deixe eu te mostrar.”

O rapaz abriu a caixa novamente, deixando que o Pooka pegasse dois outros bombons, e ele assistiu com interesse enquanto esse os mastigava.

E, de repente, Coelhão começou a crescer. Foi rápido, mas, ao mesmo tempo, era como se Jack pudesse ver tudo acontecer em câmera lenta. Em pouco tempo Coelhão ficou cerca de duas vezes maior que o rapaz, seu pelo pareceu crescer um pouco mais, fazendo suas bochechas parecerem ainda mais afiadas e — o mais surpreendente de tudo! – quatro braços surgiram em baixo dos braços já existentes do Pooka.

Os dois se encararam quando a transformação acabou.

“Oh… Uau…” Foi só o que Jack conseguiu dizer.

“É…” Coelhão disse simplesmente, soando um tanto desconfortável.

“Mas como…?” Jack murmurou, gesticulando com a mão, ainda sem saber o que pensar ou como reagir… Àquilo!

“Os Pookas possuem chocolates especiais que nos dão poderes.” Coelhão explicou calmamente, como ele costumava fazer quando Jack perguntava diretamente sobre coisas pookanas e o rapaz ouviu com atenção. “Eu comi tantos no passado que meu corpo totalmente assimilou os poderes especiais criados pelos doces e agora…” Ele gesticulou para os doces e então para si mesmo. “Se eu como vários chocolates eu fico assim.”

Houve uma pausa enquanto Jack processava aquilo, seus olhos azuis descendo e subindo pelo corpo do outro, absorvendo cada detalhe. Coelhão esperou, se sentindo um tanto estranho, não por causa da atenção que estava recebendo, mas simplesmente por estar naquela forma. Fazia anos que ele não fazia aquilo...

“Sei…” Jack enfim disse, mordendo o lábio por um momento. “E quanto dura isso?”

“Algumas horas.” Coelhão disse, notando que o rosto de Jack tinha se tornado azulado. “Por quê?”

“Hm…” Jack murmurou, seus olhos desviando e focando nos seis braços poderosos do Pooka, antes dele os levantar até os olhos verdes de Coelhão. E, mesmo mais alto, Coelhão ainda podia ver o que havia por trás daqueles mares azulados e daquele sorriso torto. “Talvez a gente pudesse, sei lá, levar esses doces para o quarto…?” O rapaz comentou, dando de ombros e jogando um bombom em sua boca.

Coelhão retribuiu o sorriso e, com um movimento rápido, ele tomou Jack em seus seis braços. Jack riu alto, o som sendo abafado por um bombom, que os dedos grandes do Pooka tinham tirado da caixa e levado até seus lábios.