A Guardian's Diary 3 - Seasons of Love
10 Uma celebração e uma visita
Notas iniciais
"Denti?" Jack bateu com o cajado contra o pilar enfeitado ao seu lado, para ter certeza de que podia entrar ou não.
"América do Norte, setor dois… Ah, oi, Jack." Dentiana sorriu para o rapaz de gelo só por um segundo, antes de voltar ao que fazia, diligentemente trabalhando junto à suas fadinhas, para ter certeza de que a coleta de dentes não seria afetada.
"Sério? Até no seu casamento?" Jack riu, balançando a cabeça. Ele girou o cajado, chamando o vento para o levar mais próximo da fada dos dentes. “Denti, as suas fadinhas vão cuidar bem de tudo.” Ele pousou uma mão no ombro de Dentiana, fazendo suas penas se arrepiarem, como se ela tivesse se esquecido que ele estava ali. “Não é garotas?” Jack sorriu para as fadinhas que assentiram, falando a seu modo que podiam manter tudo sob controle.
“Ah, eu sei disso.” Dentiana riu baixinho. Ela passou as mãos pelas penas que enfeitavam sua cabeça, as puxando para baixo e criando com elas a ilusão de que tinha cabelos. "Mas é sempre bom saber das coisas que estão acontecendo por aí…"
Jack a observou. Embora continuasse voando para cada canto da área central do palácio, a Guardiã das Lembranças parecia calma, agindo como sempre agia todos os dias.
"Eu pensei que estaria mais nervosa hoje…" Comentou, sentindo suas bochechas esfriarem ao se lembrar do quão nervoso ele tinha ficado durante a sua cerimônia de casamento.
“Está brincando, Jack?” Dentiana riu, mais alto dessa vez, para a surpresa de Jack. “Eu estou nervosa!”
“Você está?” Jack notou como ela repetiu o movimento anterior, puxando as penas para baixo e vez ou outra deslizando as mãos para a barriga saliente, como se não soubesse o que fazer com suas mãos.
“Acho que a personalidade agitada dela meio que neutraliza o nervosismo quando ele aparece.” A voz de Bloom interrompeu a conversa e os dois Guardiões se voltaram para as recém-chegadas.
“Bloom! Saori! Aí estão vocês!” Dentiana voou até as duas e, pela primeira vez, Jack notou o modo como as penas da fada se eriçavam vez ou outra, explicando por que ela ficava as puxando para baixo. “E então?”
Saori sorriu, erguendo o embrulho que carregava consigo. Dentiana nem hesitou, rapidamente abrindo o papel de estilo japonês, e um arfar alto a escapou, suas penas erguendo novamente. Jack girou o cajado, descendo para se juntar às outras, olhando por cima do ombro da fada com curiosidade. O tecido estava dobrado, mas ainda assim Jack podia ver que era feito de cores vibrantes, até parecia brilhar…
“É lindo...” Dentiana comentou, baixinho e deslizando os dedos sobre o tecido como se fosse algo delicado e precioso. Jack notou que haviam lágrimas em seus olhos. “Obrigada, Saori...”
“Me agradeça apenas após colocá-lo.” Saori disse, ainda mantendo o sorriso pequeno. E então ela se virou para o único espírito masculino. "Jack. Por favor."
"Hã?" O rapaz piscou, demorando um momento para entender o que ela queria dizer. Suas bochechas ficaram azuis mais uma vez. "Ah, claro, claro!" Ele quase riu, afinal, Dentiana estava coberta de penas e praticamente não usava nada a maior parte do tempo, mas ele não iria ficar por perto caso aquilo incomodasse a fada ou os outros espíritos. Ele sorriu para Dentiana mais uma vez e a rainha das fadas correspondeu ao sorriso. "A gente se vê lá fora."
E, dizendo isso, ele deixou as garotas para trás, flutuando na direção dos bancos, mais precisamente para a primeira fileira, onde Coelhão o esperava. Jack sorriu ao ver seu marido, usando o robe Pookano mais uma vez, a pedidos de Jack e de Norte, afinal era um momento especial! Ele ainda tinha feito um teatro inteiro sobre aquilo que só arrancou risadas do Guardião das Maravilhas e rolares de olhos afetuosos do Guardião da Diversão.
“Como ela está?” O Pooka perguntou.
“Linda e nervosa.” Jack sorriu, descansando o cajado ao seu lado ao se sentar junto a seu marido. “E o Norte?”
“Adivinha.” Coelhão bufou e Jack teve de rir.
Os dois se calaram quando Ombric pigarreou, e o resto dos convidados fez o mesmo.
Assim como tinha acontecido no casamento de Jack e Coelhão, os dois Guardiões entraram ao mesmo tempo, seus rostos se iluminando ao ver o outro. Jack inclinou a cabeça contra o ombro de Coelhão por um momento, sem realmente tirar os olhos do casal, e se perguntando se era assim que os dois tinham parecido naquele dia.
Norte e Dentiana se encontraram na metade do caminho e o Guardião das Maravilhas estendeu a mão para a Guardiã das Lembranças, que a aceitou com um sorriso, pousando sua mão diminuta sobre os dedos grandes de seu companheiro. E, juntos, ele se moveram até o "altar".
O vestido de Dentiana era incrível. Na opinião de Jack parecia similar a um sari, mas era também diferente, com algumas partes mais parecidas com a forma e construção de um chakraphat, claramente feito para acomodar a barriga já mais saliente da Fada dos Dentes. Cada peça brilhava em vermelho com detalhes dourados que Jack jurava serem feitos de ouro de verdade, além de um rosa poderoso que enfeitava a peça principal.
Jack tentou ignorar o leve gelo em suas bochechas. Comparado às roupas que ele tinha usado em seu casamento, Dentiana aprecia uma rainha; até lembrava Jack um pouco do roupão Pookano de Coelhão. E, ao pensar no modo como Dentiana tinha reagido ao vê-la, ele se perguntou se tinha algum significado a mais para ela…
Norte, por sua vez, estava usando uma roupa que lembrava um pouco a clássica roupa de Papai Noel que o resto do mundo conhecia, com um casaco longo e vermelho, forrado com uma camada de pelo branco por dentro e fechado por uma faixa escura que envolvia sua cintura larga, parecendo um cinturão, de onde pendiam duas longas espadas embainhadas. Ele até mesmo usava sua papakha!
Fadinhas voavam ao redor do casal, piando baixinho e suas penas brilhando na luz do sol. Emma voou até o ombro de Jack, sorrindo para esse, antes de voltar os olhos para a rainha e seu noivo.
No fim do caminho, o Pai do Tempo pigarreou, olhando de modo sério para o cossaco e erguendo uma sobrancelha branca. Norte rapidamente removeu seu chapéu, segurando-o em baixo do braço, com o rosto levemente rosado. Dentiana riu baixinho e o sorriso de Norte se alargou.
“Caros amigos…” Ombric começou, assim como tinha feito no casamento de Jack e Coelhão. “Estamos reunidos aqui mais uma vez, para a união dos corações dos dois primeiros Guardiões da Infância: Nicolau São Norte, Guardião das Maravilhas… Meu antigo pupilo.” Ele adicionou com um sorriso para o Papai Noel que riu alto, sendo acompanhado por outros convidados e sua noiva. “E Dentiana, Guardiã das Lembranças e rainha das fadas de Punjam Hy Loo…”
“Que bonito...” Uma voz nova interrompeu o Pai do Tempo. Todos se entreolharam, e Jack notou o modo como as penas de Dentiana se arrepiaram. “Então convidar a família não é mais importante em dias como esse, não é?”
Todos ergueram os olhos para encontrar a dona da voz. Era uma mulher coberta de penas, assim como Dentiana, mas sua coloração era de um cinza escuro, o padrão vez ou outra interrompido por penas longas, roxas e pretas; com garras similares à de um pássaro, ela se agarrava em um dos pilares horizontais mais baixos do palácio e mais próximos dos jardins, se empoleirando ali e olhando para todos de cima.
“Taítara!” Dentiana sibilou, ao mesmo tempo surpresa e irritada, um tom não exatamente raro, mas incomum. Suas penas ainda estavam arrepiadas, da cabeça à cauda.
“Olá, Dentiana.” Taítara disse simplesmente e era possível ver dentes afiados em sua boca.
“Como você entrou em Punjam Hy Loo?” Dentiana questionou e suas fadinhas acompanharam a pergunta com guinchos baixos, compartilhando os sentimentos de sua rainha. Até Emma tinha se unido a elas, circulando Dentiana em formação.
Jack lançou um olhar para Coelhão, notando que o Pooka tinha as orelhas levemente abaixadas, seus olhos presos na recém-chegada. Um dedo felpudo estava enganchado na abertura de um de seus bolsos, preparado, e Jack já sabia sem precisar ver que haviam ovos explosivos dentro deles; Coelhão era sempre assim, um pouco paranoico, e nunca saia da Toca sem eles; até mesmo quando ia para um casamento, pelo jeito. Jack se inclinou para seu cajado, se preparando para qualquer coisa.
“Eu sou uma Irmã do Voo. A última, além de você.” Taítara estalou a língua, falando com veneno. Ela pulou de onde estava encarrapitada, pousando não muito longe do casal de Guardiões, mantendo distância. “Tenho mais direito de estar aqui que qualquer um desses ‘visitantes’.” Ela gesticulou de modo desgostoso e Jack notou que, diferente de Dentiana, que tinha múltiplas asas translúcidas presas às sua costas, os braços de Taítara lhe serviam de asas, cobertos por penas escuras e sem mãos, apenas com o que parecia ser uma garra dourada na dobra de seu cotovelo.
“O que você quer?” Foi Norte quem perguntou dessa vez, sua voz grave e poderosa, capaz de fazer qualquer um tremer nas bases. As penas da recém-chegada se eriçaram levemente, mas sua expressão continuou impassível.
“Queria ver se era verdade.” Os olhos vermelhos de Taítara examinaram o Guardião das Maravilhas da cabeça aos pés e ela faz uma cara azeda, enojada. “Então você realmente está se casando com o cossaco…” E então lançou um olhar estranho para a Fada dos Dentes, que parecia carregar consigo algo antigo, difícil de decifrar, pelo menos por aqueles que não soubessem o que ele escondia. Todos podiam ver, porém, que ela se demorou na barriga de Dentiana. “Seguindo os passos de sua mãe, não é, Dentiana?”
“Não ouse…” Dentiana sibilou, um som de aviso, suas mãos diminutas apertadas em punhos.
“Vai deixar suas asas em seguida também, acredito?” Taítara continuou como se a rainha das fadas não tivesse se pronunciado. Seus olhos roxos, similares, mas diferentes dos de Dentiana, desceram até as asas dessa, as examinando com uma expressão que carregava raiva, mas também um pouco de melancolia, um tipo de tristeza antiga. “Você as odiou por um tempo, então não me surpreenderia…”
“Segure sua língua, bes!” Norte trovejou, dando passos para se colocar mais entre sua noiva e a outra, mas Taítara não parecia afetada. “Você não foi convidada! Saia daqui antes que seja forçada!”
“Não se preocupe, eu já vou.” Taítara sibilou batendo as grandes asas uma vez só, e Jack sentiu o ar dançar ao seu redor com a força delas. “Só queria ver minha querida sobrinha mais uma vez, e a nova geração do Voo. Mesmo que metade deles venham de um qualquer…” E seus olhos se prenderam em Dentiana mais uma vez, com um ar de desdem. “Não que isso seja algo novo…”
“Eu disse…” Num movimento rápido, Dentiana arrancou uma das espadas da cintura de Norte, a erguendo com surpreendente facilidade em sua mão pequena e a apontando diretamente para Taítara. “Não ouse! Não ouse insultar meu marido ou meus filhos! Ou os meus pais!” Dentiana ergueu a voz de um modo que Jack nunca a tinha ouvido fazer antes, nem mesmo depois de Breu ter capturado todas as suas fadinhas, seu tom era tão poderoso quanto o de Norte, até ainda mais; ela não soava apenas como uma Guardiã, mas sim como realeza, com poder infinito e inquestionável; mas havia emoção em seus olhos, como se estivesse lutando contra lágrimas. “Pelo menos minha mãe morreu com dignidade, enquanto você foi banida. Se você realmente fosse uma Irmã do Voo você não seria mais que madeira hoje!”
Pela primeira vez Taítara reagiu, se afastando com algumas batidas fortes de suas asas, penas se eriçando o máximo que conseguiam, a fazendo parecer maior. Mas seus olhos continuavam duros, tão frios como antes, mas com raiva ardendo dentro deles como chamas.
E então ela relaxou sua expressão e ergueu uma asa. A garra dourada se prendeu na lâmina da espada de Norte e a afastou levemente.
“E o que isso faz de você?”
E então Dentiana girou a espada. Taítara se afastou, rebatendo a lâmina com as garras. Era claro que a espada era pesada demais para Dentiana fazer bom uso dela, mas ela ainda a moveu com todas as forças que tinha em seus braços finos, soltando um grito de guerra que colocava os de Norte no chinelo.
Uma mão pálida de repente agarrou o pulso da Fada dos Dentes, a impedindo de desferir outro golpe.
Dentiana se virou, os olhos ametistas arregalados, pronta para lutar contra qualquer um que tentasse a impedir de… ela congelou ao ver quem era, as penas arrepiadas se abaixando.
“Já chega.” O Homem da Lua interveio, lançando um olhar sério, mas ainda assim gentil para Dentiana. As bochechas da fada tomaram uma coloração rosada, e ela desviou os olhos, envergonhada.
Norte se aproximou de sua noiva sem dizer nada, pousando uma mão em seu ombro e gentilmente tirando a espada de sua mão.
O Homem da Lua se voltou para Taítara e não precisou dizer ou fazer coisa alguma, para fazer a mulher de penas cinzentas cambalear lugar, suas penas se encolhendo diante do olhar duro e pesado do homem pequeno e rechonchudo (mesmo esse sendo só um "holograma" do homenzinho, que ainda estava na lua, como sempre).
“Por favor.” Seu tom de voz era tão calmo quanto seu olhar, mas carregava a mesma força de antes. “Vá embora. Você não é bem-vinda aqui.”
Taítara sibilou baixinho, o lábio se erguendo e revelando seus dentes pontiagudos mais uma vez e, mesmo com a cabeça baixa, ela lançou mais um olhar raivoso na direção de Dentiana. A rainha das fadas retribuiu o olhar só por um segundo, raiva e tristeza se misturando em seus olhos de ametista, antes dela os desviar, seus dedos diminutos agarrando a manga felpuda do casaco grande de seu noivo.
E, sem dizer mais nada, a mulher alada abriu as asas cinzentas e alçou voo. Um grupo de fadinhas seguiu atrás dela como uma escolta, para ter certeza de que ela iria embora. Um silêncio estranho pairou no ar enquanto todos presente viam a figura escura desaparecer no céu azulado.
Os Guardiões se aproximaram da Fada dos Dentes.
"Denti?" Jack chamou, tentando conseguir alguma reação de Dentiana, que mantinha o olhar abaixado.
"Milaya?" Norte tentou o mesmo, erguendo uma mãozorra até o rosto de sua noiva e a fazendo erguer o olhar. As lágrimas que ela tinha tentado lutar contra tinham começado a se mostrar.
"Eu… eu estou bem." Dentiana respirou fundo uma ou duas vezes, afastando as lágrimas. Ela voltou a atenção para o resto dos convidados, seu rosto avermelhado de vergonha ao encontrar todos os olhos voltados para ela com preocupação. "Eu sinto muito… por tudo isso…"
"Não, minha querida." Todos se voltaram para o Homem da Lua, ouvindo com atenção. Ele se aproximou, tomando uma das mãos de Dentiana na sua, a segurando como se fosse algo precioso, e sorriu para a rainha das fadas. "Taítara procurava machucar você e arruinar seu dia. Não deixe que ela tenha sucesso." E dizendo isso, ele a guiou de volta para o altar.
Coelhão e Sandy começaram a bater palmas, e logo o resto dos convidados fez o mesmo, aliviando os ares e fazendo a rainha das fadas sorrir novamente. Jack sorriu para o Pooka que piscou para ele.
Com Norte e Dentiana de mãos dadas novamente, Ombric pigarreou e reiniciou a cerimônia sem nenhum pestanejo. Aos poucos, os sorrisos do casal se alargaram, se tornando mais genuínos, deixando para trás toda a tensão e a emoção de antes e dando espaço novamente apenas para amor e alegria.
Assim como Jack e Coelhão tinham feito antes, eles fizeram mais uma vez seu juramento para com as crianças do mundo, e entre si. As fadinhas trouxeram os braceletes simbólicos e risadas baixas soaram entre os convidados e os próprios noivos com a diferença de tamanho entre os dois braceletes; o de Norte brilhava em vermelho e branco, com detalhes intrincados, similares aos que enfeitavam Punjam Hy Loo e as roupas que Dentiana usava agora; enquanto o de Dentiana brilhava com verdes, azuis e amarelos, um brilho arroxeado e de aparência mágica o atravessava cada vez que o sol brilhava sobre ele.
E, com as últimas palavras de Ombric, a celebração foi consolidada.
Dentiana não hesitou antes de se lançar contra Norte, envolvendo o pescoço poderoso desse com seus braços pequenos e apertando os lábios contra os dele, um beijo que foi retribuído com o mesmo fervor.
E, enquanto os convidados batiam palmas e celebravam os dois, Dentiana sorria, como se nada tivesse acontecido.
-G-
Se havia uma coisa que Norte fazia bem, eram festas, e sua festa de casamento não iria ser diferente! Ainda assim, qualquer um que conhecia bem o Guardião, podia ver que ele estava tentando fazer tudo ainda mais animado que o normal, claramente para ajudar sua esposa a esquecer totalmente o que tinha acontecido durante a cerimônia.
Mas em certo ponto durante a festa, Jack viu Dentiana se afastar das celebrações, voando sozinha e silenciosamente para outra direção nos incontáveis jardins de Punjam Hy Loo. Jack hesitou por um momento. Talvez ela quisesse tomar um tempo sozinha…? Depois do que tinha acontecido, ele totalmente entendia.
Norte estava conversando com um grupo de espíritos, um sorriso largo em seu rosto, mas de acordo com o que o Pooka tinha dito, o velho guerreiro estava tão afetado pelo que tinha acontecido quanto sua esposa. Norte claramente sabia que Dentiana tinha deixado a festa, talvez ele até tivesse dito para ela fazer aquilo; ele podia ser um tanto obtuso sobre várias coisas, mas não aquele tipo de coisa.
"Então…" Jack comentou para Coelhão. "O que aconteceu?"
"Longa história…" O Pooka suspirou, girando a bebida em seu copo. "Problemas de família."
"É, eu adivinhei com tudo aquilo de 'sobrinha' e tals…" O espírito do inverno assentiu e esperou. Coelhão parecia mais focado em seu drinque do que em qualquer outra coisa e Jack revirou os olhos. "Você não vai me contar, não é?"
"Não é minha história para contar." Coelhão dão de ombros, oferecendo um sorriso torto, mas um tanto melancólico para o rapaz. Jack suspirou, mas concedeu que Coelhão estava fazendo o certo, seria rude falar sobre a fada dos dentes pelas costas dessa.
Depois de um tempo, porém. notando que Dentiana ainda não tinha voltado, Jack decidiu que não faria mal dar uma checada nela. Ele flutuou na direção que tinha visto a fada ir, sendo interceptado por um piado baixo.
"Ei, Emma…" Ele sorriu para a irmã. "Você viu a Denti?" Emma hesitou, desviando os olhos para o alto, e Jack entendeu. "É, eu imaginei que ela precisava que um tempo sozinha… Mas já faz um tempo, sabe? Eu só queria ver como ela está."
Emma suspirou e sorriu para o irmão, piando baixinho e fazendo sinal para que ele a acompanhasse.
Com a ajuda do vento, Jack voou para o alto, mais alto que ele já tinha ido ao visitar Punjam Hy Loo, para além do nível mais alto do palácio e para o topo da montanha que o envolvia, o escondendo do resto do mundo.
Jack parou por um momento quando seus pés pousaram sobre o que parecia ser uma área de pouso natural. A área lembrava um pouco os jardins na base do palácio, mas havia algo de diferente no ar ali, e Jack sentia que devia ter algo a ver com as "árvores" que enfeitavam o lugar. Estavam posicionados em círculo, com galhos longos que se entrelaçavam e formavam um dossel de folhas verdes acima dele; mas o mais interessante — e um tanto assustador — era que, em todos os troncos, Jack podia ver a forma de pessoas, reconhecendo as curvas de corpos, braços e asas fechadas, todos os rostos eram bonitos, delicados mas com um ar de força e poder, todos com os olhos fechados, como se dormissem um sono profundo e eterno.
E, em baixo do dossel verde, deitado em uma cama de grama alta, verde e brilhante, dormia um Elefante Voador, maior que os outros que Jack já tinha visto, além de parecer bem mais velho.
Sentada diante do elefante, estava Dentiana.
Mesmo sendo literalmente no topo da montanha, o lugar era estranhamente silencioso, como se as árvores formassem uma proteção sonora, fazendo o uivo dos ventos fortes não passarem de um assobio baixo.
Jack hesitou por um momento, lançando um olhar para Emma. A fadinha fez sinal para que fosse em frente.
“Denti…” Jack chamou, anunciando sua chegada.
Dentiana ergueu a cabeça, virando-a para o rapaz de gelo.
“Ah, oi, Jack.” Ela lhe ofereceu um sorriso melancólico, sua expressão parecia cansada.
Por um momento Jack se lembrou mais cedo, quando ele visitou Denti antes da cerimônia, pensando no quão agitada ela estava antes. Era incrível como o ambiente tinha mudado desde aquela mulher…
“Tudo bem?” Ele se aproximou.
“Sim…” Dentiana assentiu, inclinando a cabeça um pouco, seus olhos se voltando para o elefante adormecido. “Só precisava de um momento sozinha.”
“Ah, eu posso ir embora se você quiser…” Jack disse rapidamente, parando de se aproximar.
“Não, por favor, pode ficar.” Dentiana sorriu para o Guardião mais novo fazendo sinal com a mão pequena.
Jack se juntou à ela, setando à seu lado na grama. Os dois ficaram em silêncio por um momento e Jack notou como o assobio do vento se mesclava ao respirar lento e calmo do elefante gigante.
"Qual é a do elefante dorminhoco?" Ele não pôde mais segurar a pergunta.
"Esse é o grande Elefante Voador, o mais velho de todos." Dentiana sorriu com a escolha de palavras, exatamente o que ele queria que acontecesse. "Ele é quem guarda a magia da lembrança que existe nos dentes de todos no mundo."
"Sei… Elefantes têm boa memória, não é?" Jack sorriu quando Dentiana moveu a cabeça de modo afirmativo. "Pensei que você e as fadas cuidassem disso…"
"Nós coletamos e protegemos os dentes." A fada dos dentes explicou. "O elefante é quem têm o poder de manter as lembranças vivas."
"Ah, faz sentido…" Jack assentiu. Ele desviou os olhos para as árvores, sentindo um leve arrepio ao encarar os rostos adormecidos nos troncos. Aquela não era a primeira vez que ele via alguma coisa que ele sabia que muitos descreveriam como estranho ou assustador (depois de 300 anos, ele já tinha viso muita coisa), mas havia algo de diferente naquelas árvores que ele não saberia explicar. E ele não sentia se devia ou não perguntar sobre. “E o que é tudo isso…?”
“As outras Irmãs do Voo.” Dentiana disse simplesmente e não elaborou. Seu tom de voz era diferente dessa vez.
“Quer dizer… esculturas delas ou…?” O espírito do inverno não continuou, sentindo que seria melhor parar ali antes que acabasse tocando num assunto delicado demais, mas sua curiosidade o manteve falando.
“Não, são elas mesmas.” As asas de Dentiana começaram a bater e ela se levantou.
Jack a acompanhando rapidamente, sem saber o que ela iria fazer em seguida. Devagar, ela voou até o fim do semicírculo de árvores com o espírito a seus calcanhares, mantendo-se em silêncio, apenas ouvindo.
“As Irmãs do Voo eram tão conectadas que, caso uma delas morresse, as outras morreriam também.” Ela continuou explicando, seus olhos estudando cada árvore pela qual passava. Jack sentiu mais um arrepio, entendendo agora por que se sentia estranho naquele lugar. “Quando meus pais morreram para me salvar… Elas acompanharam minha mãe. E se transformaram nessas árvores.” Dizendo isso, ela passou a mão delicada por um dos galhos de um modo gentil, deslizando os dedos por entre os galhos mais finos como se entrelaçando os dedos com os de uma pessoa.
Os dois continuaram para além das árvores, onde pedras se erguiam de modo protetor, assim como faziam ao pé do palácio das fadas. Haviam pinturas ali, assim como lá em baixo, e, embora Dentiana não tivesse explicado nada, Jack conseguiu entender o que eles significavam.
Eram, em sua maioria, pinturas de mulheres aladas, muitas delas voando em batalha segurando espadas, arcos e flechas, ou estudando as estrelas, ou voando ao lado de Elefantes Voadores e outros animais que haviam por ali. Mas em uma das pedras havia uma pintura diferente: Um casal de perfil, voltados um para o outro e segurando as mãos, um homem com um turbante e uma mulher com roupas enfeitadas e brilhantes, sem asas, mas com um rosto familiar; voando acima deles estava ninguém mais que Dentiana, os braços e as asas abertas de modo quase acolhedor.
“E esses são os seus pais?” Jack adivinhou.
“Haroom e Rashmi.” Dentiana sorriu, erguendo a mão e a deslizando sobre as imagens de seus pais com a mesma delicadeza de antes, e ele não pôde deixar de sorrir um pouco. Ela claramente os amava.
Mas seu sorriso caiu ao pensar naquela outra mulher alada. Ela não era só diferente de Dentiana, Jack tinha notado, mas também era diferente de todas as Irmãs de Voo que ele tinha visto nas pinturas, o que o deixava ainda mais confuso e curioso.
“Mas então aquela…? Hã…” Jack fez uma careta.
“Taítara.” Dentiana ofereceu com um suspirou, o ar a escapando de um modo mais tenso. “Minha… Tia. De um modo ou de outro.” Ela revirou, como se achasse tudo aquilo ridículo, e aquilo só deixou o rapaz mais curioso.
“Eu nunca ouvi falar dela…”
“Você já ouviu falar das Irmãs do Voo antes de me conhecer?” Dentiana sorriu torto.
“Hã, é, não…” Jack riu, sem jeito, trocando um olhar com Emma que riu baixinho também. “Mas qual é a dela?”
“Ela… Bem…” A Guardião suspirou. “Quando minha mãe conheceu meu pai, a maioria das Irmãs do Voo foram a favor dos dois, mas algumas eram contra. Taítara era quem mais desaprovava, principalmente quando minha mãe perdeu as asas e as penas depois que se apaixonou.” Seu rosto era difícil de ler enquanto falava. “Com o passar do tempo as Irmãs que desaprovavam começaram a respeitar meu pai, mas quando eu nasci, sem asas nem penas, Taítara ficou mais incomodada. Eu era ainda um bebê então não me lembro de nada… Mas os Elefantes Voadores me contaram sobre como, irritada, Taítara roubou os meus primeiros dentes de leite quando esses caíram, e as Irmãs tiveram o bastante.” Raiva apareceu em seu rosto por apenas um momento, antes dele tomar um ar mais tristonho “Ela foi banida, tocada pela magia dos Elefantes ela ficou… Bem, daquele jeito… Uma vez que não era mais digna de ser uma Irmã do Voo por seu coração duro.”
“Uau…” Jack murmurou, sem saber o que dizer.
“É, uau.” Dentiana repetiu, balançando a cabeça. Emma voou até ela, pousando perto de seu ombro. A fada sorriu para ela, inclinando a cabeça levemente, de modo que suas penas roçassem juntas. “Fazia anos que eu não a via. Mas sabia que devia estar por aí.”
“Por que?”
A fada ergueu os olhos e o espírito do inverno tremeu como se estivesse com frio. A expressão de Dentiana era séria, fria e dura, e Jack se perguntou se tinha exagerado nas perguntas, mas ele logo notou que a irritação naqueles olhos de ametista não eram para ele.
“Você já notou como algumas pessoas não possuem memórias de infância?”
“Sim...” Jack assentiu, conectando os pontos. “Espera, ela...?”
“Minhas fadinhas já viram algumas das fadas dela roubando dentes.” Dentiana confirmou. “Conseguimos resgatar vários, mas às vezes elas saiam ganhando não importa o quanto tentássemos impedi-las...” Ela se abraçou e desviou o olhar, como se tivesse vergonha. “Infelizmente eu nunca consegui descobrir exatamente onde ela os esconde...”
Jack, assim como antes, não sabia como reagir de imediato. Ele trocou um olhar com Emma que parecia tão incomodada com aquela situação quanto sua rainha.
“Isso...” E ele se lembrou de como tinha passado 300 anos sem memórias. Nenhuma outra pessoa no mundo passaria por aquilo, seria impossível, mas ainda assim, pensar que outras pessoas no mundo podiam viver com furos em suas memórias antigas só por que uma pessoa tinha roubado seus dentes o enchia de irritação. Ele entendia bem agora por que Dentiana tinha reagido daquele jeito com a visita indesejada. “Que vadia.”
“Jack!” Dentiana retrucou e Emma piou.
“Desculpa...” Jack ergueu as mãos em sinal de inocência, porém sorriu torto. “Mas você estava pensando a mesma coisa.”
“Bem, sim.” Dentiana riu, sendo acompanhada por Emma também e Jack sorriu, como Guardião da Diversão, era sempre bom fazer outros rirem.
Dentiana voltou os olhos para a pintura mais uma vez e Jack fez o mesmo, estudando a imagem dos pais da amiga. Haroom parecia uma pessoa normal, um mortal qualquer, mas havia algo na imagem dele que mostrava que ele era especial, de algum modo; enquanto Rashmi parecia uma princesa em sua roupa rosa e vermelha e dourada…
Jack sorriu. Por isso Dentiana tinha se emocionado quando viu o seu "vestido" de casamento, ele tinha sido feito para parecer com as vestes de sua mãe.
“Sinto muito que ela arruinou o casamento...” Ele comentou.
“Hum, eu não diria que ela o arruinou.” Dentiana disse, seu sorriso mais calmo, mas também mais genuíno dessa vez. “Eu ainda casei com o amor da minha vida.” E, dizendo isso, seus olhos ametista brilharam e suas penas eriçaram por um momento.
Jack gostou de ver aquilo.
“Exatamente! E o dia ainda não acabou!” Ele girou o cajado e se curvou diante da rainha das fadas. “Como Guardião da Diversão é meu dever ter certeza de que você se divirta em sua festa de casamento! Então...” E sorriu, estendendo a mão.
Dentiana riu e tomou a mão de Jack.
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