A Guardian's Diary 2 - The rise of Jack Nightmare
5 Capítulo 4 - Esse não é você
Notas iniciais
Com a violência do seu pulo e o fato de que ele não estava sozinho, Coelhão foi incapaz de manter seu equilíbrio, então ele caiu. A queda foi rápida e nada confortável. Coelhão manteve as patas seguras na cintura de Jack enquanto os dois rolavam pelo túnel, até que ele finalmente fincou os pés no chão. Jack rolou para longe das patas do Pooka, caindo sentado e batendo a cabeça na parede de terra.
"Ai..." Ele murmurou, tocando a parte de trás da cabeça. Os olhos vermelhos piscaram uma vez, duas vezes, e se focaram no Guardião da Esperança. Uma sombra pairava sobre eles, mas Jack sorriu. "Essa doeu, Coelhão..." Ele murmurou de modo brincalhão, se levantando lentamente.
Jack quase nem teve tempo de reagir, quando duas patas foram colocadas paralelas à sua cabeça, o prendendo com a parede de terra à suas costas e Coelhão à sua frente.
"O que está acontecendo com você, Frostbite?" Coelhão sibilou por entre os dentes. "Você é um guardião! Deve proteger crianças, não raptá-las!"
Jack encarou Coelhão por um momento, como se não soubesse o que falar. E então ele piscou os olhos mais algumas vezes, seu olhar se tornando vago. Ele balançou a cabeça como se estivesse tonto, apertando as sobrancelhas escuras. Ele ergueu o olhar mais uma vez.
"Coelhão...?" Jack murmurou, sua voz fraca, como se ele não a usasse a muito tempo.
"Jack...?" Coelhão notou a mudança. Ele examinou o rapaz com os olhos.
"O que... O que aconteceu...?" O garoto de gelo olhou em volta, confuso. "Onde a gente está...?"
"Em um túnel..." Coelhão respondeu cautelosamente. Uma das patas se afastou da parede, descansando na bochecha do rapaz, que tremeu levemente. "Ei... Você está bem?"
"Eu... Eu acho que sim..." Jack murmurou, aos poucos se inclinando contra o toque da pata quente em seu rosto. Ele suspirou, sua respiração gelada contra os dedos de Coelhão fazendo o Pooka se arrepiar levemente. "O que aconteceu? Porque estamos aqui?"
"Você... Estava agindo estranho..." Coelhão disse, seu corpo naturalmente relaxando com o modo como o garoto estava agindo. Ainda assim, ele se manteve atento a qualquer sinal de que algo estava errado.
"Estranho...?"
"Você tentou raptar Jamie." O Pooka explicou e aqueles olhos vermelhos se arregalaram. Coelhão se sentiu mal pelo desconforto que aquelas orbes vermelhas o faziam sentir. "E não só Jamie, de acordo com ele você levou Sophie. E... Acreditamos que você tenha a ver com o desaparecimento de outras crianças..."
"Sophie? Outras crianças?" Jack repetiu e Coelhão pode sentir quando o rapaz começou a tremer em baixo de suas patas. Ele segurou Jack com mais força, mantendo as mãos nos ombros do garoto para ter certeza de que as pernas desse ainda pudessem o suportar. "Como? E-eu nunca faria isso!" Ele ergueu os olhos, sua voz se tornando mais alta, desesperada, agarrando tufos de pelo do peito do maior. "Você sabe que eu não faria isso! Coelhão...!"
"Eu sei! Eu sei, Jack!" Coelhão disse, incapaz de se segurar e rapidamente envolvendo os ombros do rapaz, o puxando contra seu peito. Ele afagou os cabelos do garoto, sentindo que esse ainda tremia em seus braços. Ele já conhecia bem Jack, já sabia que devia esperar esse tipo de reação, mas ver seu namorado daquele jeito ainda doía. "Calma Jack..."
"Eu não fiz isso..." Jack murmurou contra a fronte felpuda do Pooka, o fazendo tremer levemente. As mãos geladas do rapaz envolveram seu peito, agarrando tufos de pelo das costas desse. "Você... Você não acha que eu fiz isso, acha?"
Coelhão hesitou. Ele gostaria de acreditar que Jack não tinha feito nada, mas eles se lembrava do modo como o rapaz tinha agido, das coisas que ele tinha dito apenas alguns minutos atrás. E de qualquer modo, desde o momento que o rapaz tinha acordado, ele sentia que havia algo de errado. Ele ainda não tinha ideia do que estava acontecendo, mas tinha que aceitar que a possibilidade de Jack estar relacionado aos desaparecimentos era muito grande.
"Não, claro que não..." Ele se ouviu dizendo, afagando os cabelos do rapaz, feliz ao notar como esse aos poucos parou de tremer. Coelhão suspirou, apertando o focinho no topo da cabeça de Jack, mas aquilo apenas o fez se sentir desconfortável, uma vez que, novamente, ele não conseguiu sentir o aroma típico do rapaz, aquele cheiro de baunilha e neve, sendo substituído por aquele cheiro diferente que ele tinha sentido antes.
O Guardião tomou aquele momento para examinar o que ele sentia. Ele nunca tinha cheirado algo do tipo, mas ao mesmo tempo ele conseguiu sentir algo familiar, que ele não tinha cheirado a muito tempo... Enxofre...?
De repente, uma dor estranha tomou a mente de Coelhão. Ele soltou um exclamar alto, sentindo como se suas costas estivessem queimando, mas era uma queimação estranha, diferente do que a sensação de chamas em sua pele — algo que ele já tinha sentido algumas vezes, durante sua longa vida. As "chamas" continuaram descendo por seu ombro esquerdo e então seu braço, até sua pata, praticamente deixando seu braço inteiro dormente.
Coelhão se afastou de Jack com um sibilar alto, sentindo o seu lado esquerdo doendo com o movimento. E quando ele olhou para baixo, ele pôde ver que, do ombro à pata, seu lado esquerdo estava totalmente envolto em gelo; o gelo era completamente transparente, mas parecia ter um tipo de sombra sob sua forma e, em baixo dele, Coelhão notou como seu pelo não era mais cinza-azulado, mas preto cor da noite.
"Ugh..." Jack murmurou. "Tão perto..."
Coelhão se voltou para o rapaz. A mesma expressão que ele tinha visto em Burgress estava ali de novo, todo o medo e desespero que o rapaz mostrava antes tinham sumido. Jack desviou aqueles olhos cor de sangue dos de Coelhão para o braço congelado desse, parecendo satisfeito consigo mesmo, mesmo depois do comentário.
Coelhão não sabia o que dizer ou o que fazer, demorando para processar. Ele fincou as garras da pata direita contra o gelo, tentando quebrá-lo, mas sem sorte. Era como se o gelo fosse impenetrável!
“Não adianta nem tentar, canguru." Disse. "Você não vai conseguir se livrar disso... Nem de mim.”
"Era tudo uma farsa..." Coelhão sibilou, ignorando o rapaz e tentando mais uma vez. "Você sabe muito bem o que fez."
"Sim. Sei sim." Jack disse simplesmente, jogando a mão nos bolsos como o rapaz costumava fazer. Ele ainda sorria. "E você quase caiu como um patinho."
"O que aconteceu com você?" O Pooka praticamente rosnou, sentindo suas garras doendo ao conseguir fazer sulcos diminutos no gelo, mas sem mais sucesso do que isso. Ele se voltou para Jack, examinando com os olhos a figura à sua frente; da pose às feições parecia o Jack que ele sempre conhecera, até mesmo o sorriso parecia o mesmo, mas era só encarar aqueles olhos que Coelhão já sentia a diferença. Dizem que os olhos são as janelas da alma, e Coelhão podia ver que a alma por trás daquela janela, não era a de Jack. "Esse não é você..."
"Ah, que bom, você entendeu." Jack assentiu, rindo levemente, como se tivesse ouvido um elogio ou algo do tipo — suas bochechas até se tornaram levemente azuladas. "Tem razão, eu não sou Jack Frost. Meu nome é Jack Nightmare." E deu uma passo em direção do Pooka e esse deu um passo para trás. "Não se preocupa, Coelhão. Não vou machucar você... Isso é, se não me der motivos para fazer isso."
"Quem é você...?" Coelhão sibilou, se preparando para se defender caso fosse preciso. "O que fez com Jack?"
"Eu já disse que eu sou." Jack revirou os olhos. "Jack Nightmare. Um Jack muito mais forte, mais poderoso..." E sua expressão ficou triste de repente. Ele se aproximou e Coelhão se afastou mais uma vez, mas duas mãos pálidas pousaram sob o braço congelado do Guardião. "Mas também... Muito sozinho..." O rapaz suspirou, erguendo os olhos novamente, por um momento se parecendo com Jack Frost mais uma vez, quando o espírito do inverno olhava para o Pooka de modo nervoso. "E eu não quero ficar sozinho..."
Ele ergueu a mão em direção do rosto do Guardião, mas essa foi rapidamente segurada pela pata livre do Pooka.
"Não. Ouse." Coelhão sibilou. O aperto no pulso do garoto se intensificou e Jack fez uma pequena careta de dor, mas Coelhão não o soltou. "Escute aqui." Ele puxou Jack, o forçando a encará-lo nos olhos. "Eu não sei quem você é ou o que fez com o Jack. Mas eu vou descobrir. E vou fazer com que você devolva esse moleque pra mim."
Os olhos de Jack se tornaram duros, o vermelho de algum modo se tornando mais profundo.
"Não." Ele disse apenas.
"Ah!" Coelhão sentiu gelo começar a se formar em volta da pata que segurava o pulso do rapaz, mas a puxou para longe antes que ficasse ainda pior. Jack pulou em sua direção, as mãos estendidas para tocar o peito do Pooka, mas esse foi mais rápido, mesmo com o braço dormente pesando ao seu lado. Ele se afastou do rapaz, rapidamente dando a volta até se colocar atrás desse e ergueu um de seus bumerangues. "Me desculpe por isso, Jack."
"O que--?" Jack estava se virando para encarar o Pooka mais uma vez. Mas Coelhão já estava batendo na cabeça dele com a ponta de seu bumerangue mágico.
—G–
Jack se remexeu, sentindo como se o mundo estivesse girando ao seu redor antes mesmo de abrir os olhos. Ele piscou uma, duas vezes, até que seus olhos pudessem ver mais do que borrões coloridos. Ainda assim, demorou um tempo para ele processar o que estava vendo.
"Uh... Ei...?"
Os quatro outros Guardiões examinavam Jack por de trás de uma grade de metal; Norte com os braços cruzados, o encarando com uma expressão pesada; Dentiana ao seu lado, apresentava um olhar triste, assim como as fadinhas que voavam à seus ombros; Sandy parecia preocupado, as mãos unidas em sua frente como se ele não soubesse o que fazer com elas; e, por fim, Coelhão, escorado contra a parede com os braços cruzados e o olhar voltado para o chão.
"Ah, enfim você acordou." Norte falou, quebrando o silêncio tenso no ar.
"Galera? O que foi?" Jack se colocou sentado, sibilando quando o mundo girou ao seu redor com o movimento. "O que está acontecendo?" Ele olhou em volta, só agora processando que as grades estavam ali porque ele estava dentro de uma cela, ou algo do tipo. "Vocês... Vocês me prenderam aqui?"
"Você não se lembra de ontem, Jack?"
"Me lembrar do que...?" Ele levou a mão até a cabeça, ainda se sentindo tonto, quase enjoado. "Ai... O que que me acertou...?"
"Foi o único jeito de te fazer parar de lutar, Frostbite." Foi Coelhão quem respondeu. Suas orelhas estavam abaixadas e ele ainda desviava o olhar, como que envergonhado. "Desculpe se foi forte demais. A magia devia ter aliviado..."
"Você bateu em mim...?" Jack não pode ignorar a leve irritação ao ouvir aquilo, mas o que realmente tomava sua mente no momento era confusão. "Mas o que aconteceu? Eu fiz alguma coisa?"
"Não temos certeza ainda..." A Fada dos Dentes disse de modo apaziguador.
"Você tentou raptar Jamie." Norte continuou, sua expressão ainda séria, seus olhos perfurantes, mesmo que um ar triste os envolvesse. Jack tremeu levemente, tanto com o olhar quanto com o que ele tinha ouvido. "E já raptou não só Sophie, mas também outras crianças através do mundo."
Demorou um tempo para Jack processar aquilo.
"E-eu o que...?" Ele murmurou. "N-não... Não pode ser..." Ele balançou a cabeça, ignorando a dor ainda presente. "Mas porque? Como? P-porque eu faria isso?" Jack se levantou, se aproximando das grades, se sentindo cada vez mais claustrofóbico dentro daquela cela. "Não pode ter sido eu! Eu nunca faria isso!" Ele olhou de um Guardião para o outro, esperando que eles acreditassem nele. Seus olhos se prenderam em Coelhão, mas esse continuava olhando para longe, e foi só então que Jack notou o estado do braço de seu namorado. Só tinha uma pessoa que poderia ser culpado por aquilo.
"Não sabemos de nada ainda." Dentiana disse. "Mas tudo indica que foi você." Ela se aproximou um pouco das barras, Norte se moveu um pouco ao seu lado. Jack notou o movimento e sentiu seu peito apertar, doía ver seus amigos tomando cuidado ao se aproximar dele. "Você realmente não se lembra de ontem?"
Jack balançou a cabeça.
"É que nem..." Ele começou. "Quando eu dormi por todo aquele tempo..." Jack tentou pensar, tentou revirar seu cérebro até encontrar suas últimas memórias antes de acordar naquele lugar. "Eu estava... Eu estava voando... Eu estava em Paris, parei para ver Amber, e então... Acordei aqui..."
Um silêncio tenso tomou o ar entre os Guardiões. Jack tentou refazer seus passos em sua cabeça, se lembrando que tinha voado da Finlândia para a França, encontrando o Espírito do Outono, já que esse residia por lá. Os dois tinham passado o dia juntos e Jack se lembrava de ter ido dormir no alto da Torre Eiffel. Mas aquilo era tudo.
Ele desviou os olhos para Coelhão novamente, examinando o gelo no braço desse. Era estranho que o gelo ainda estava ali, e Jack notou as marcas de garras, como se o Pooka tivesse tentado arrancar aquilo incontáveis vezes, sem sucesso; Jack tinha até certeza que algumas das marcas não eram de garras, mas sim de lâminas, talvez das espadas afiadas de Norte.
Foi o Guardião das Maravilhas que quebrou o silêncio, suspirando pesadamente.
"Bem, como você é o mais provável culpado no momento..." Ele disse com um tom desgostoso, mostrando que não estava feliz com aquilo. "Decidimos que é melhor que fique aqui."
"Preso...?" Jack murmurou, desconfortável.
"Para a segurança das crianças." Dentiana disse com um olhar consolador, as fadinhas soltaram arrulhos baixos.
Jack suspirou, se encolhendo em volta de si mesmo. Pensar que ele era um perigo para as crianças que ele tinha jurado proteger era difícil de aceitar.
"Jack, nós só..." A Fada começou a dizer, pelo jeito notando o estado do rapaz.
"Não, vocês tem razão." Jack interrompeu, assentindo. Ele olhou de um Guardião ao outro, notando que Coelhão havia finalmente erguido os olhos, aquelas orbes verdes presas no garoto de gelo. Dessa vez foi Jack que se sentiu incapaz de manter contato visual. "É melhor eu ficar por aqui, se sou o responsável por isso. É mais seguro."
Os Guardiões se entreolharam, tão desconfortáveis em deixar o rapaz ali quanto o garoto se sentia por ficar naquele lugar. Mas todos aceitaram que era o melhor a fazer, por enquanto.
"Phil vai ficar de olho em você." Norte disse, acenando para o yeti parado do outro lado da porta. "Se precisar de alguma coisa, é só pedir para ele." Jack ergueu o olhar para Phil, assentindo para Norte e oferecendo ao Guardião algo que devia ser um sorriso. Norte suspirou. "Sinto muito, Jack."
A Fada dos Dentes se aproximou um pouco mais, ainda sob o olhar atento de Norte, e sorriu gentilmente para o garoto.
"Vai ficar tudo bem." Ela disse.
Baby Tooth se afastou do grupo de fadinhas, voando até o garoto de gelo. Ela planou frente ao nariz de Jack, guinchando baixinho, e pousou uma das mãozinhas diminutas na ponta do nariz desse; Jack sorriu para ela, observando enquanto essa acompanhava a rainha das fadas para fora da sala.
"Não deixe que ele saia." Jack pôde ouvir Norte sussurrar para Phil antes de sair.
Sandman também se aproximou das grades, sorrindo para o garoto do mesmo modo que a Fada dos Dentes havia sorrido. Ele fez um objeto desconhecido com um pouco de areia do sono, e o lançou na direção de Jack. Jack ergueu a mão instintivamente, pegando a bolinha de areia em sua mão, ela circulou seus dedos antes de desaparecer, deixando uma sensação suave de calor em sua pele.
"Valeu, Sandy..." Ele disse para o Guardião dos Sonhos que, com um aceno seguiu atrás dos outros Guardiões.
Os únicos que sobraram na sala eram Jack, Coelhão e Phil, à porta. O Pooka ainda estava inclinado contra a parede, seus olhos agora presos no garoto. Jack notou o modo como era encarado, com um ar de preocupação e cautela, que ainda assim se mesclava com o amor que claramente emanava deles. Jack encarou o braço congelado de Coelhão mais uma vez.
"Coelhão..." Ele disse. "Eu não sei o que aconteceu, mas... Me desculpa..."
Coelhão ficou em silêncio por mais alguns segundos, antes de inclinar a cabeça para Phil.
"Pode nos dar um momento, amigão?" Perguntou.
Phil olhou de um Guardião para o outro, antes de dizer alguma coisa em sua língua de yeti, e sair da sala. A porta continuou meio aberta, mas agora os únicos na sala era o casal. Os dois ficaram em silêncio por um momento. Jack se moveu, como que para ficar de pé de novo já que a tontura havia sumido, e ele notou o modo como o corpo do Pooka ficou tenso; seu estômago se contorceu ao ver aquilo.
"Está tudo bem, Jack..." Coelhão começou a dizer finalmente.
"Não, não tá tudo bem, Coelhão." Jack retrucou. "Você está com medo de mim, isso não tá certo."
"Não estou com medo de você!" Coelhão disse. Ele suspirou, balançando a cabeça, e finalmente se afastou da parede; seu braço congelado, uma vez não sendo segurado no lugar pelo outro braço, caiu de lado, congelado e sem movimento. "Estou sendo cauteloso."
"O que aconteceu?" Jack perguntou e apontou. "Eu fiz isso?"
"Sim..." Coelhão assentiu. "E é por isso que estou sendo cauteloso..." Ele explicou para o rapaz, contando para esse a conversa que eles tinham tido no túnel, sobre o modo como Jack havia agido, falsamente fingindo ter retornado ao normal antes de voltar à personalidade nova.
Jack ouviu tudo, incapaz de tirar os olhos de Coelhão. Ele notou o pelo escuro em baixo do gelo.
"Eu realmente não me lembro..." Murmurou.
"Eu entendo." O Pooka disse.
"Se eu realmente raptei essas crianças..." Só dizer aquilo deixava Jack desconfortável. "Eu queria tanto poder lembrar onde elas estão..."
"Nós vamos descobrir, Jack." Coelhão afirmou.
Jack sorriu para seu namorado. Ele já conseguia ver através do Pooka sem muita dificuldade, ele sabia que Coelhão não estava tão confidente, mas ele estava determinado.
"Eu acredito em você." O garoto de gelo assentiu. "Você é o Guardião da Esperança. É difícil não ter esperanças em você." E, para sua alegria, Coelhão sorriu com aquelas palavras. Ele desviou os olhos para o braço congelado desse mais uma vez, sentindo culpa queimando em sua garganta. "Eu posso...?"
Coelhão hesitou, olhando das mãos do rapaz para seu lado envolto em gelo. Ele ergueu os olhos para os de Jack e, dessa vez, mesmo com olhos vermelhos cor de sangue, ele conseguia ver aquela luz especial que ele costumava ver nos olhos de seu namorado, do Jack Frost que ele conhecia e amava bem.
Ele ergueu o braço com dificuldade, utilizando a outra pata para fazer a maior parte do trabalho, deixando que seu pulso caísse sob as mãos do garoto. Jack sorriu para ele, um sorriso apaziguador. O gelo brilhou, aos poucos perdendo o tom turvo que possuía, e das marcas das garras surgiram quebras longas e profundas; em pouco tempo o gelo caiu, pedaço por pedaço, estatelando no chão, e liberando o braço esquerdo do Pooka. O pelo negro retornou à sua coloração cinza-azulado como se nunca tivesse mudado.
Coelhão moveu o braço e o pulso com movimentos cuidados, sibilando ao sentir a circulação retornar ao normal, uma dor suave ainda tomava seus músculos, mas ele conseguia aguentar. Ele se voltou para Jack mais uma vez, o garoto o olhando com uma expressão que era um misto de alegria e vergonha. Coelhão ousou erguer aquela pata mais uma vez, pousando-a na bochecha de Jack. O Espírito do inverno suspirou, praticamente se derretendo ao sentir o toque do outro.
O Guardião da Esperança se lembrou de como o rapaz havia feito o mesmo antes, mas vendo o verdadeiro Jack fazendo aquilo, ele se perguntou como havia caído na farsa do outro Jack. A diferença entre os dois era palpável, ele até se sentia envergonhado em pensar que tinha visto os dois como a mesma pessoa mesmo que só por alguns minutos.
"Não se preocupe, Jack." Coelhão afirmou, determinado, e aqueles olhos brilhantes se abriram, focando nele. "Vamos resolver isso."
Jack assentiu.
"Eu vou tentar..." Ele disse. "Vou tentar lembrar o que aconteceu... Onde as crianças estão... Mas não sei se--"
"Eu acredito em você." Coelhão assegurou, inclinando a cabeça para mais perto da do garoto. “Você é um guardião, Jack. Vai se lembrar." Ele afastou as lágrimas que tinham começado a se formar nos olhos do rapaz, e afagou-lhe os cabelos. "Shh... Está tudo bem, Snowflake..."
Coelhão desviou os olhos para a porta, suas orelhas captando algum som.
"Eu tenho que ir ver os outros agora." Ele disse.
“Tudo bem...” Jack suspirou, mas sorriu. “Você vem me avisar caso descobrirem onde estão as crianças?”
“É claro.” O Pooka assentiu, bagunçando novamente os cabelos do outro. “Até mais tarde, Jack.”
“Até...” Jack acenou, se prendendo contra as grades como que se tentasse passar por elas. Ele ainda podia sentir o toque do outro em seu cabelo... "Coelhão..." O outro, já à porta, se virou para ele. Jack hesitou, se perguntando de onde aquilo tinha vindo. "Eu te falei... Alguma coisa sobre... Jack Nightmare...?"
O corpo de Coelhão ficou tenso, o pelo erguendo levemente e as orelhas se abaixaram; ele desviou os olhos por um momento, antes de voltá-los para o garoto mais uma vez. Jack se afastou um pouco das grades. Uma sombra havia caído sob os olhos esverdeados do Pooka, escurecendo-os de um jeito que Jack nunca tinha visto antes.
"Sim." Ele disse, sua voz séria, pesada. Por um momento o rapaz se lembrou daquele momento, sete anos atrás, quando Coelhão quase o atingiu com um soco, quando a Páscoa havia sido arruinada e Jack havia traído os Guardiões. "Mas foi tudo muito... Confuso..." Ele suspirou, seu olhar perdendo a força, se tornando ao invés nervosa. "Eu acho... Que só você entende o que isso quer dizer..."
"Eu..." Jack começou, mas não sabia o que queria dizer.
O silêncio se estendeu por mais um tempo.
E Coelhão saiu da sala. Phil entrou, fechando a porta e ficando de guarda ao lado dessa, os braços cruzados e os olhos treinados no garoto de gelo.
Jack suspirou, se afastando das barras e se sentando na cama que havia no canto da sala.
"Jack Nightmare..." Ele murmurou. O nome parecia familiar, mas também desconhecido. "Quem é... Jack Nightmare...?"
“Quem você acha?”
Era como se Jack Frost tivesse sido atingido por um raio.
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