A Guardian's Diary 2 - The rise of Jack Nightmare
6 Capítulo 5 - A Escuridão Cresce
Notas iniciais
Breu estava inclinado nos escombros da grande ponte em seu covil distorcido. Ele desviou os olhos de uma sombra para outra, seus olhos dourado-prateados mostrando um misto de tédio e irritação. Até que algo diferente chamou sua atenção, um suave tilintar que ele já conhecia muito bem.
"Sandman!" Breu se virou com um sorriso de falsa alegria. O Guardião dos Sonhos estava de pé no outro lado da ponte, as mãos fechadas em punhos, preparado para qualquer coisa. "Meu velho amigo, mas que surpresa!" Breu se aproximou de Sandman com passos calmos e lentos, enquanto o homenzinho permaneceu parado no lugar, como uma estátua. "A que devo essa visita? Oh, não me leve a mal, é sempre ótimo tê-lo aqui."
Sandy não estava ali para ouvir comentários sarcásticos do Bicho Papão. Rapidamente ele transmitiu para Breu o motivo de sua "visita".
"Jack Frost? E o que se passa com o moleque dessa vez?" Breu estudou as novas imagens. "Você acha que eu estou fazendo alguma coisa com ele? E com outras crianças?" O Rei dos Pesadelos riu, uma risada sem humor e que quase soava nervosa. "Desculpe arruinar qualquer teoria que tenha formado, baixinho, mas eu não tenho nada a ver com qualquer coisa que esteja acontecendo lá em cima." Ao dizer aquilo sua face se endureceu. "Mas acredite, eu adoraria fazer parte disso, seja lá o que for."
Sandman balançou a cabeça, os dentes cerrados fortemente, ao mesmo tempo irritado com o comentário e nada convencido com a resposta que recebera. Ele flutuou até o espírito maior, ficando ao mesmo nível desse, e Breu deu alguns passos para trás.
"Ora, eu disse que não tenho envolvimento nenhum, Sandman!" Breu ergueu as mãos em um sinal de inocência, seus olhos presos aos de Sandman, tentando mostrar que não estava intimidado pelo menor, embora tivesse se afastado quando esse se aproximou. "Pense bem, Sandy, nesses últimos dias, semanas, meses, quantas vezes você viu meus Pesadelos rondando pelo mundo?"
O Guardião dos Sonhos parou de avançar por um segundo. Sim, ele tinha que concordar com aquilo, de fato já fazia um bom tempo desde a última vez que ele havia sido notificado pelas suas Areias de Sono sobre um Pesadelo. Sandy se lembrou das luzes apagando no globo, nas crianças que haviam sido raptadas; ele não sabia onde elas estavam e não podia mandar sonhos para elas, o que queria dizer que elas estavam em algum lugar, escondidas, talvez perdidas em um sono sem sonhos, ou perdidos em pesadelos.
Sandman confrontou o Rei dos Pesadelos mais uma vez.
"Se eu soubesse onde elas estão e soubesse que estão longe de seu alcance, sim, você tem toda razão em acreditar que eu encheria suas mentes com pesadelos. Mas não." Breu retrucou, irritado com as acusações, e principalmente com o fato de que ele queria fazer exatamente aquilo do que estava sendo acusado. "Eu estive aumentando meus poderes esses últimos anos, aos poucos. Mas alguma coisa mudou... Eu me sinto fraco, meu controle sobre as sombras de meu próprio covil não são os mesmos." Ele acenou em volta, desgostoso. "E meus Pesadelos estão sendo impedidos de sair deste lugar, assim como eu..." E se voltou para Sandman, o encarando nos olhos. "Se há algo lá fora, esse algo não sou eu."
Houve um momento de silêncio entre os dois. E Breu sorriu, vendo a realização cair sobre as feições do Guardião dourado.
"Você sentiu também, não sentiu, Sandman?" O Bicho Papão disse em um tom quase doce. "Sheila."
Sandman não se pronunciou, sua expressão nem mudou, ele apenas sustentou o olhar de Breu.
"Sim, Sandman. Ela sim conhece as criaturas das trevas, não é mesmo?" Breu riu baixo, dando as costas para o homem de areia do sono. "Ela está ainda no mesmo lugar em que foi aprisionada na Idade das Trevas, assim como eu. Se quer respostas sobre isso, é melhor falar com ela. Afinal, eu sou só o Rei dos Pesadelos, enquanto ela... É algo completamente diferente." Ele deu uma espiadela por cima do ombro. "Você se lembra das entradas para o Quinto dos Infernos, não lembra, Sandman? Ou vou ter que guiá-lo até lá?"
Sem oferecer à Breu mais do que um olhar obscuro, Sandman deu as costas para o outro e rapidamente voou para fora do covil sombrio desse, procurando seu novo destino.
—G–
Coelhão corria de um lado para o outro. Sua biblioteca, que ele sempre deixava bem arrumada, estava uma bagunça, como se um furacão tivesse passado por lá. Normalmente o Pooka seria cuidadoso com seus livros e seus pergaminhos antigos, mas no momento ele não se importava com aquilo, tudo o que tomava sua mente era que ele precisava encontrar respostas.
"Droga!" Com um rugido, Coelhão atirou o livro que tinha em mãos para longe. Ele passou uma pata pelo rosto, retirando os óculos com lentes oval que ele usava apenas quando precisava ler.
Ele parou e examinou a pata que tinha erguido, a mesma que tinha sido congelada pelo rapaz — não, não por Jack Frost, mas sim por esse tal de "Jack Nightmare". Coelhão pensou em como o pelo havia ficado negro em baixo do gelo e se lembrou dos cabelos brancos do garoto e como esses acabaram negros. Curiosamente ele ergueu a pata até seu focinho, e seguiu cheirando o braço até o ombro, tentando captar algum cheiro diferente.
Seu corpo ficou tenso.
"Enxofre..." O mesmo cheiro que tinha sentido em Jack no túnel, ele até tinha certeza de que devia de ser o cheiro estranho que tinha percebido logo antes do rapaz sair para voltar a seu trabalho invernal. Ele não tinha tido certeza de que tipo de cheiro era aquele no momento, mas agora não restava dúvidas.
Coelhão pulou por cima de seus livros jogados, ignorando os óculos, e se dirigindo a um outro grupo de livros em sua grande coleção. Ele pulou de prateleira para prateleira, procurando o que precisava, folheando livro atrás de livro.
Suas orelhas tremeram levemente, aquele mesmo sentimento de que algo ruim estava para acontecer, voltando para ele. Coelhão decidiu que ele não tinha tempo a perder. Agarrando um monte de livros e os colocando em baixo do braço, ele bateu uma vez no chão, abrindo um túnel para o outro lado do mundo.
—G–
Coelhão não era o único com um grande arsenal de livros e não era o único tentando encontrar respostas. Norte também estava revirando suas prateleiras, folheando livros e constantemente argumentando com a grande borboleta que o acompanhava para todos os lados.
"Precisamos de respostas, Sr. Qwerty!" O russo retrucou fechando outro livro com força.
Sr. Qwerty tremeu, desconfortável com a violência do homem, o que era de se esperar, uma vez que ele mesmo era um livro, ou um milhão de livros em um só ser. Uma borboleta-livro, como Jack Frost havia descrito ao conhecê-lo por acaso.
"Se pelo menos você tivesse algo mais definitivo." Sr. Qwerty suspirou, ajeitando os óculos e se "sentando" na mesa, ao lado dos demais livros que se provaram aparentemente inútil. "O que estamos procurando?"
Norte parou finalmente, as mãos na cintura e balançando a cabeça.
"Eu não sei..." Ele começou a dizer, desviando os olhos para o cajado do Guardião da Diversão, deitado em uma das mesas de leitura. "Se Jack se lembrasse de alguma coisa..."
De repente Norte ouviu o som de passos rápidos para além das portas da biblioteca silenciosa, mas antes que ele sequer pensasse em ir até lá para abri-las, alguém fez isso por ele. Coelhão, respirando rápido, com livros e pergaminhos quase escorregando debaixo de seu braço.
"Norte!" Ele chamou, ignorando o fato de que estavam em um lugar que normalmente o silêncio devia prevalecer, assim como Norte costumava fazer. Coelhão colocou o que trazia consigo na mesa. "Eu... Acho que sei... O que está acontecendo com Jack..."
"On uveren?!" Norte rapidamente se aproximou do Pooka, examinando o que esse tinha trazido consigo.
"Não é... Nada bom..." Coelhão admitiu.
"Isso é fácil de adivinhar, meu amigo." O outro disse.
Coelhão se voltou para a borboleta-livro que se aproximou com interesse em ser útil.
"Qwerty. Me apresente tudo o que você tem sobre criaturas das trevas." Ele pediu, ou então ordenou. "E enxofre." E, uma vez que Sr. Qwerty se moveu de modo que suas asas, em outras palavras, suas páginas estivessem voltadas para o Pooka, esse se pôs a ler, ignorando o olhar nervoso que recebeu do velho russo.
—G–
Jack apertou as mãos contra as orelhas. Ele não saiba por quanto tempo já tinha ficado naquela cela, mas parecia uma eternidade, e o zumbido estranho em seus ouvidos só piorava as coisas. Ele ainda conseguia ouvir aquela voz em sua cabeça, aquela que em um momento esteve lá, mas de repente sumiu. Ela ecoava por sua cabeça, repetindo aquele nome de novo e de novo e de novo...
Jack Nightmare...
Era como se alguma coisa, ou alguém, estivesse tentando impedir que o rapaz pudesse parar para pensar. Ele desejou fazer exatamente aquilo, tentar vasculhar sua cabeça por informações sobre o que tinha acontecido naqueles últimos dias, semanas, o tempo que fosse. Mas era impossível.
Jack teria achado irônico, se não fosse triste, o modo como ele estava tendo dificuldades para lembrar daqueles acontecimentos assim como ele tinha tido problemas lembrando das memórias de sua vida passada — isso é, antes de encontrar os dentes com Dentiana.
"Droga..." Jack cobriu os olhos. "O que está acontecendo comigo...?"
"Não vai precisar se preocupar com isso por muito tempo."
O garoto se sentou na cama rapidamente. Era a mesma voz de antes, mas dessa vez ela estava falando de novo, falando algo além daquele nome. Jack sabia, de um modo ou de outro, que aquelas palavras estavam vindo de dentro de sua cabeça, mas ele ainda não conseguiu deixar de olhar em volta, procurando por alguém, qualquer um. Mas os únicos na sala era ele e Phil, que o observava da porta com um olhar curioso.
"Não se preocupe. Essa conversa é só entre eu e você."
"Quem... É você...?" O Espírito do Inverno perguntou.
"Eu disse que a conversa é só entre nós. Se ficar falando alto assim a bola de pelos ali vai pensar que você ficou louco."
O nome dele é Phil., Jack retrucou em sua mente.
"Eu sei o nome dele."
Você... Pode ouvir meus pensamentos?, Jack pensou, surpreso.
"Claro. Eu estou aqui com você. O que mais esperava?"
Quem é você?
"Eu já me apresentei."
Jack sentiu como se sua garganta tivesse ficado seca.
"Jack Nightmare..." Ele se ouviu dizendo em um tom rouco, baixo.
"Eu mesmo."
O que você é? De onde você veio?
"Perguntas inúteis. O que importa é que estou aqui para ajudar você."
Ajudar?
"Eles levaram o cajado com eles, tudo o que temos que fazer é encontrá-lo e podemos voar para longe daqui."
Eu não posso fazer isso...!, Jack retrucou. Eu tenho que ficar aqui. Se eu sair quem sabe o que pode acontecer., ele sentiu seu estômago se revirar. Eu raptei a Sophie, eu tentei raptar Jamie... Porque?
"Se sairmos daqui podemos encontrar respostas."
Porque eu não acredito em você?, Jack bufou, ignorando Phil do outro lado da cela.
"Huh." A voz bufou assim como ele tinha feito. "Engraçado você dizer isso. Você soa mais como o Jack Forst que eu conhecia. Aquele que não confiava em ninguém a não ser a si mesmo..."
As coisas não são mais assim., Jack esclareceu, mais irritado do que esperava ao ouvir aquilo. Eu tenho uma família agora! Um namorado e...
"Seu namorado? Aquele que simplesmente concordou em deixar você aqui preso?! Acha mesmo que se ele se importasse com você ele faria isso?"
É claro que sim! Ele sabe que é o certo a fazer!
"Você parece ter bastante fé no Pooka. Mas deveria ter? Ele mal pôde distinguir entre você e eu e você acredita que ele vai fazer alguma coisa que preste?"
Do que está falando?
"Seu grande namorado, se deixando levar pelo abraço de um outro... Você merece algo melhor."
"Não ouse falar mal do Coelhão!" Jack nem percebeu que estava gritando. "Ele está agora procurando um jeito de me ajudar, de resolver tudo isso! Assim como os outros Guardiões!"
"Ah, sim, tudo pelas crianças..."
"Sim! E por mim!" Jack retrucou. "Porque eles me amam."
"Amor..." A voz ficou mais dura então, o zumbido ainda mais alto e Jack sentiu como se sua cabeça estivesse se partindo ao meio. "Deixe-me mostrar o que é amor de verdade, Jack Frost."
E uma dor intensa tomou o peito de Jack, arrancando o ar de seus pulmões. Ele perdeu a força em suas pernas, caindo da cama ao chão com um leve "oof".
Phil se aproximou das grades com cautela, chamando pelo rapaz em sua língua e perguntando se esse estava bem. Jack se levantou aos poucos, como se tivesse acabado de acordar e seus membros não estivessem respondendo muito bem. Ele ergueu o olhar, sorrindo meio sem jeito para o Yeti.
"Ei, Phil... Eu estou bem, não se preocupa..." Ele disse de modo calmo, conversativo, finalmente se colocando sentado no chão, com as costas para a cama. "Phil, pode me trazer um copo de água, por favor? Minha garganta tá meio seca..."
Phil examinou o garoto dos pés a cabeça, antes de assentir de modo lento. E, ao virar as costas, ele não pôde ver o sorriso do rapaz, nem os dentes pontiagudos e nada humanos desse.
—G–
"Coelhão... Você tem certeza disso?" Norte murmurou, um pouco desconcertado com tudo aquilo.
"É a melhor resposta que eu tenho..." Coelhão suspirou, seu corpo ainda tenso enquanto ele folheava as asas de Qwerty uma última vez. "Pelo menos temos algo para usar de base para--" Ele não terminou. Suas orelhas se ergueram e seu pelo se arrepiou, seu focinho tremeu levemente.
"Coelhão?"
Um yeti abriu as portas em um rompante, chamando por seu chefe, praticamente sem fôlego. Tanto Coelhão e Norte notaram que, do ombro ao pulso direito, o yeti estava congelado, assim como tinha acontecido com Coelhão não fazia muito tempo atrás.
"Jack!"
Coelhão não esperou, ele correu para fora da biblioteca descendo na direção da cela. Ele parou no caminho, encontrando os corredores uma vez quentes e coloridos da oficina cobertos de gelo, como se uma nevasca congelante tivesse passado por lá, cada yeti e elfo que estava no caminho tinha sido transformado em uma estátua de gelo. E Coelhão notou como o pelo dos grandes monstros felpudos e os cabelos dos pequenos duendezinhos havia mudado de cor.
Ele ouviu uma risada ao mesmo tempo conhecida e totalmente diferente, vindo do fundo do corredor.
"Jack!"
Ele chegou à cela nos andares mais profundos sozinho, sem ver se estava sendo acompanhado por Norte ou por qualquer outro. Phil estava congelado na parede de fora da cela, seu pelo escuro e seus olhos negros, ele até parecia ser um outro yeti. A cela parecia ser feito de puro gelo e Coelhão notou que, com o frio, as grades de metal tinham sido facilmente quebradas.
Ele nunca tinha visto poder de gelo como aquele, nem mesmo quando Jack usava o máximo de seu poder ele tinha conseguido fazer tamanho estrago. A esse ponto Coelhão já conhecia bem os poderes de seu companheiro, ele sabia que Jack não conseguia fazer mais do que flocos de neve e dar vida a desenhos feitos de gelo; ele aprendeu que o rapaz tinha um pouco de dificuldade com seus poderes de gelo, de focá-los com a força necessária para fazer algo que valesse a pena fazer, por isso ele precisava de algo para ajudar a canalizar os poderes, como seu cajado.
"Pela Lua...!" Coelhão ouviu a voz de Norte se aproximando da cela.
O Pooka correu para fora, agarrando o braço do russo antes que esse pudesse perder tempo entrando no pequeno cubículo.
"O cajado de Jack!" Ele disse. "Nós deixamos ele lá em cima!"
Os dois Guardiões refizeram todo o caminho de volta e ao chegar na biblioteca, ela estava congelada, assim como todos os livros e o pobre Sr. Qwerty, fechado para se assegurar de que suas páginas estavam a salvo. O cajado havia sumido.
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