A Gota Púrpura
1 Prólogo
Percy sabia que estava sonhando. Mas aquele era um sonho de semideus.
Sonhos que supostamente poderiam mostrar o futuro ou o que acontecia em outro lugar naquele momento, mas Percy não queria tê-los. Sua própria realidade já era caótica o suficiente. Mesmo assim, o sonho continuou. Já acontecia há uns dias. Aquele intruso.
Começava com o barulho do mar. Sempre começava com o barulho do mar. Então vinha a pancada. Um golpe seco contra algo que Percy não sabia o que era, e era aí que ele finalmente abria os olhos. No sonho, claro.
Ele via grama. Uma grama alta, disforme e espinhosa, por um longo campo ao seu redor. Percy estava deitado sobre ela, tonto, cansado e sentia o corpo tremer involuntariamente. Ele olhava para frente, para cima, como das outras vezes, e via seu braço esquerdo esticado para longe dele, segurando alguma coisa. Suor pingava de sua testa e sua visão era turva.
Havia gosto de sangue em sua boca, e algo molhado em sua mão esquerda. Mas não era sangue. Era alguma coisa púrpura que escorria entre seus dedos. Por algum motivo estranho, ardia segurar aquilo em sua mão. Mas Percy já sabia que, se esperasse alguns segundos, algo curioso acontecia.
Duas mãos se aproximavam suavemente dele e retiravam o que quer que seja que ele segurava. A dor passava. E ele apagava. Não sabia o porquê. Aliás, não sabia o motivo de nada daquilo. Considerou contar o sonho a Quíron ou a Annabeth diversas vezes, mas parecia bizarro e ele se sentiria um tolo.
E quem se importava que o sonho continuasse? Sob todo o estresse que estava, parecia natural que suas noites fossem tão pouco tranquilas quanto seus dias eram. De qualquer forma, o sonho era curto e terminava pacífico.
Mas não naquela noite.
Naquela noite, o sonho durou mais alguns segundos. Em vez de acordar alerto e suado em uma noite fria de novembro, como das outras vezes, Percy permaneceu no sonho. Permaneceu sentindo a brisa do mar, a grama espinhosa e o gosto de sangue nos lábios.
Descobriu que a dor que sentia não era suficiente para matá-lo. Ele ainda estava vivo. Seu coração estava acelerado e um cansaço recaía sobre seus músculos. E aí, ele via. Ele via quem pegava de sua mão esquerda o que quer que houvesse nela.
Era um par de olhos negros, profundos, parcialmente cobertos por cabelos igualmente escuros. Tinha uma pele azeitonada, jeito de menino. O conjunto todo parecia quase fantasmagórico, mas o fantasma lhe sorriu. Um fantasma sorridente.
Percy acompanhou enquanto ele colocava suas mãos ao redor das do príncipe, e Percy sentia o ardor diminuir. Mas já não prestava atenção em sua própria mão esquerda, apenas nos olhos negros. Tentava reconhecê-los de algum lugar. Queria descobrir quem o estava ajudando.
O sorriso ficava reluzindo para ele, balançando da esquerda para a direita, apagando. Quando o ardor enfim cessou, Percy acordou.
Tudo de novo: olhos totalmente abertos, coração acelerado, cabelos molhados grudados em suas têmporas, respiração sem ritmo. Como em ritual, ele sempre olhava para a esquerda e a encontrava lá. Annabeth dormia ao seu lado, alheia ao seu pesadelo. Percy não sabia como alguém de sono tão leve não percebia seu sono perturbado, mas logo concluía que esse sonho deveria ser apenas para ele.
Diferente das outras vezes, em que apenas enxugava a testa e voltava a dormir, Percy continuou sentado, vendo diante de si os olhos negros. Pareciam ainda mais definidos agora do que no sonho. Eram tão característicos que ele tinha a sensação de que os reconheceria se os visse no mundo real.
Olhou para a mão esquerda. Analisou-a e a apertou diversas vezes. Estava tudo bem. Tudo bem. Tudo silencioso. Então, tentou ouvir o próprio coração. Havia começado a se acalmar. O quarto era envolto em um escuro profundo, e o único som audível era o da respiração tranquila de Annabeth. Sob esse doce sinfonia, Percy ficava revivendo o sonho. Não fazia sentido algum.
Então a sinfonia foi substituída por passos. Passos apressados pelo corredor, aos poucos se aproximando da porta de seu quarto. Percy encarou a porta na escuridão. Era quase capaz de enxergar a mão do mensageiro se aproximando da madeira para dar três toques. Antes que o fizesse, porém, Percy levantou e correu em sua direção.
Ele esteve esperando por essa notícia. Não tinha mais como atrasá-la. Então, que viesse de vez. Agarrou a maçaneta da porta e a abriu, encontrando Caleb do outro lado. Naquele momento, nenhuma palavra era realmente necessária.
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