A Garota e a Fada
2 Jinn
O xaman fazia uma dancinha bem na frente dela, rodopiando em torno de si mesmo com passos pessimamente planejados, quase caindo de vez em quando. Enquanto o fazia, cantarolava estranhamente, como se estivesse murmurando uma série de palavras misteriosas de uma forma tão arrastada que ele gemia ao invés de falar qualquer coisa. Suas tranças pulavam junto com ele, caindo pelo seu tronco magricela e desnudo. Era ridículo, mas também era pavoroso. Totalmente diferente da imagem que obtivera dele logo no início.
A pequena tenda dele fora armada entre as rochas das serras que rodeavam a cidade. Foi uma subida complicada e por muitas vezes precisou parar para tomar ar, cansada. Quando chegou lá, sentia-se exausta. Tão exausta que realmente cogitara simplesmente dar as costas e descer tudo quando o mago gritara para que ela fosse embora. Ele balançava os braços e chiava nervosamente, tentando espanta-la, mas ela já esperava por isso. Na cidade, o homem tinha ganho a alcunha de “Louco da Montanha”, transformando-se numa história contada às crianças mais travessas, para que elas não fossem às serras. Turca não era nenhuma criança.
Mas ela não precisou fazer nada, realmente. Assim que ela e o xaman se viram, sua cobra começou a menear para fora do casaco, vagarosa. Só então, o homem parou de sinalizar, estupefato, as mãos ainda ao alto; foi baixando os braços devagar para os lados do seu corpo. Não pôde se impedir de sorrir para aquilo, achando graça da posição idiota dele. Mas ao mesmo tempo, era estranho. Quando a cobra mostrou-se, ele soube. Ele soube que não era apenas uma cobra, e soube quem era Turca. Também não devia ficar tão surpresa. Afinal, aquele era um homem que lia as chamas, ouvia os ventos, e comunicava-se com os animais. Ele com certeza conseguiria diferenciar uma cobra de um jinn. Achava que o próprio Joque já sabia disso. Era por isso que ele recomendara para que fossem ver aquele homem estranho.
– Vocês querem negociar com a Morte? – O xaman lhes perguntara, como se não tivesse ouvido a sua explicação direito. A essa altura, Joque já tinha assumido sua forma “comum”, flutuando entre eles. Deixava-lhe inquieta o fato dos três poderem se ver. Quase nunca na vida experenciara algo assim. Além do mais, o interior da cabana era minúsculo e abafado, com uma fogueira dourada inflamando entre eles, suas sombras ondulando quase ameaçadoramente nas paredes de pele animal.
– Sim. – Joque disse, sorrindo com casualidade.
– Não é algo simples. – Quando o xaman falou, uma brisa entrou pela tenda, agitando as chamas da fogueira, as sombras chegando a vibrar caoticamente por um instante. Nesse momento, Turca tremeu, tido desejado que não tivesse se despido do casaco. Ela achou que o próprio xaman conjurara aquela ventania, de alguma forma. Suas palavras tinham soado raivosas...
– Mas você pode fazer. – Mais uma vez, Joque quem falou. Ela estava começando a ficar irritada com a sua inatividade na questão, mas também não quis participar. Não saberia o que dizer. Estavam ali por sugestão de Joque, afinal.
– Sim. Mas por quê eu faria isso por vocês? –
– O que você quer em troca? – O xaman sorriu, exibindo a fala de alguns dentes.
– Eu ouvi dizer que os do seu tipo podem conceder desejos. – Ele caçoou.
– Ah, claro. E o que você quer? Um tapete voador? O seu amor verdadeiro? – Joque devolveu, com um tom igualmente brincalhão. Aquilo fez o xaman soltar uma risadinha incômoda.
– Gratidão. – O xaman respondeu antes de se levantar.
O interior da tenda, embora pequeno, parecia o quarto de tralhas daquele casal, empilhando gavetas, sacolas e barris, enquanto um caldeirão ficava ao lado de um colchonete. O chão havia sido coberto com palha, evitando que eles se sentassem na terra batida. Ele abriu uma série de gavetas até que achasse uma pequena caixa preta, que por si só, parecia uma pequena gaveta. Ali, ele tirou pedaços de um cachimbo e duas pedras rosadas. Elas brilhavam e cheiravam bem, parecendo até fora de contexto num lugar como aquele.
Ele guardou aquelas coisas no bolso da calça e juntou um punhado de alguma erva desfiada, logo saindo da tenda. Joque foi atrás dele e Turca seguiu os dois, trazendo o seu casaco enorme consigo, o içando pelo ombro. Ao chegar lá fora, o xaman tinha se desfeito dos trapos que cobriam o seu tronco. Estranhas cicatrizes cruzavam suas costas, mais parecendo complementar do que estragar a tatuagem que cobria a metade superior da parte de trás do seu tronco. Ela mesmo não entendeu o que o desenho era, sendo algo formado de várias frases e símbolos que desconhecia. Além do mais, as longas tranças castanhas dele se distribuíam pelo desenho, dificultando a sua leitura.
Ele inspirou com profundidade, uma longa brisa parecendo acompanhar sua respiração. Turca apertou os braços em torno de si, chacoalhando-se repentinamente. Em seguida, vestiu-se com o casaco. Joque a espiou com um sorriso zombeteiro e ela o encarou com raiva. Voltando-se para o xaman por mais uma vez, viu que ele havia montado o cachimbo. Era um modelo longo, de modo que ele tinha que deixar dois dedos apoiando a fornalha escura enquanto colocava a piteira na boca. Com delicadeza, ele depositou a erva no fundo da fornalha, empurrando os miúdos com o dedo indicador. Curiosamente, quando ele retirou o dedo, fumaça veio junto. Ele acendera o cachimbo com o próprio toque, mas Turca não se surpreendeu com aquilo.
Por minutos, diante de uma brisa contínua, ela e Joque ficaram ali, vendo o xaman fumar. Turca só foi perceber a quantidade de corvos que os sobrevoavam quando ele começou a dançar. Em sua defesa, foi só nesse momento que eles começaram a crocitar. Eles não deviam estar fazendo a esmo, pois pareciam cantar, voando em círculos acima deles. Com eles, também veio o vento. Mesmo enfurnada no seu casaco felpudo azul, ela estremeceu, como se a ventania tivesse a procurado por dentro do tecido. Joque soltou uma risada estranha, quase macabra, as duas mãos esticadas sobre o abdômen musculoso e oscilante.
– Joque... – Sussurrou, mas ele a ignorou, continuando a gargalhar com avidez, de um modo forçado até.
Pelo menos três dúzias de corvos circualvam acima deles, sob um céu meio estrelado, orquestrando com o vento enquanto o xaman contorcia-se espasmódicamente à frente dela. Sua dança parecia menos energética agora, limitando-se a alguns pulinhos repentinos, como se ele fosse uma marionete de um único cordão e uma criança estivesse testando a elasticidade da corda. Suas tranças rodopiavam e ele soltava um hm a cada pulinho. Depois de alguns minutos naquele ritmo bizarro, ele começou a parar, enfim.
O primeiro corvo anunciou a sua queda com um baque molhado. Turca tomou o susto com o barulho e ficou ainda mais aterrorizada ao ver que a ave tinha caído a poucos metros de si. Agora ela era só um punhado negro e sangrento no meio da grama. Então outra caiu, mais perto dessa vez. Ah, não. Um terceiro impacto úmido se fez sentir mais evidente, pois dessa vez, o sangue respingara nas suas pernas. O corvo caíra e morrera bem aos seus pés. Ela correu alguns passos para trás, soltando um gemido enojado e meio desesperado.
Turca levantou a cabeça para ver que uma mancha preta vinha em sua direção. Estúpida, não pensou em sair do lugar, apenas se agachou, protegendo-se com os braços. Teria sido atingida se a ave não tivesse sido parada ainda no ar. Bem acima de si, uma cobra enorme a modiscou, como se alguém tivesse a jogado para si. O corvo foi esmagado com um crunch asqueroso, sangue escuro respingando para os lados, um dos pingos até mesmo atingindo o rosto de Turca. Mas ela estava muito surpresa para poder se importar com aquilo. Até aquele momento, não se dera conta de que Joque parara de rir. Outros corvos tinham começado a cair, e antes que pudesse sequer planejar uma fuga, a cobra enrolou-se ao seu redor.
A cobra era bem maior agora, sendo três vezes o seu tamanho e tendo a grossura até maior do que o corpo da Turca. Suas escamas tinham escurecido, tomando o verde de um mangue, com manchas marrons de lama fazendo fila por toda a extensão do seu corpo escamoso. A única coisa que não havia mudado era a frieza da sua pele. Aquilo ela pôde sentir até mesmo por através do casaco. Quer dizer, não sentir, mas saber. O novíssimo corpo largo de Joque enrolou-se ao seu redor, cobrindo-lhe de todos os lados, até por baixo, deixando-a suspensa num casulo réptil.
Ainda assim, protegida ali, ela pôde ouvir os corvos caindo. Era como estar sob um guarda-chuva. Às vezes, a cobra se remexia, talvez para capturar as aves no ar, alimentando-se. Turca não sentia medo de ser espremida, sabendo que aquilo nunca aconteceria. Joque nunca a mataria. Ainda sentia-se nervosa, porém, por toda a situação. Tentou fechar os olhos, apenas aguardando pelo fim daquilo, mas seu coração ainda batia dolorosamente acelerado no seu peito. Mais do que simplesmente fechar os olhos, ela os apertava, tensa.
Nenhum corvo crocitava, não houve mais nenhum impacto, e nem mesmo o xaman parecia estar fazendo algum barulho. Mas não estavam em silêncio completo, ainda havia um barulho... Um gemido. Algo que naquele dia, se tornara familiar para si. Relutante, Turca relaxou os músculos, permitindo que os olhos se abrissem. Ainda não via nada, sua visão ofuscada pela cobra. Ao menos, Joque já tinha começado a se defasar, voltando à sua forma natural, seu corpo grosso começando a se desfazer em névoa. Assim, antes que pudesse ver, ainda ficou omissa numa nuvem preta, a forçando em mais alguns segundos de espera. Abençoados segundos. Ela deu um pequeno salto assustado, assim que pôde enxergar. Meu Deus.
O xaman parecia arrasado, caído sobre os joelhos, cabisbaixo, as tranças omitindo o seu rosto com uma sombra macabra, enquanto seus ombros subiam e desciam com uma respiração pesada. A noite havia começado a cair, com um tom violeta predominando num céu cada vez mais estrelado. A Lua já brilhava, começando o seu reino noturno. O chão era grama e sangue, os corpos dos corvos se dispondo aleatoriamente ao seu redor. Eram dezenas deles, até mais do que estipulara na última vez que os observara no céu. Não passavam de pastas sanguinolentas agora. Era terrível. E pior do que isso tudo era o gemido... E de quem ele vinha.
No centro de todo aquele cenário horripilante, lá estava ela. Pele azulada, cabelos duros e brancos, o rosto enterrado nas mãos, um gemido assustador de um milhar de vozes atormentadas... A banshee. Mas depois que Turca a viu, ela parou.
E quando parou de chorar, também ergueu a cabeça, olhando diretamente para Turca. Joque flutuava entre elas, mas abriu caminho para a bruxa quando ela começou a andar em sua direção. Seus passos eram feitos sobre pernas fracas que vacilavam o tempo todo, fazendo-a mais cambalear do que andar, como alguém que estivesse muito, muito, bêbado. Seus olhos eram duas bolas brancas afundadas num crânio quase aparente por debaixo daquela pele podre. Seus dentes eram pontiagudos e apodrecidos. Turca manteve-se parada, a observando com medo, mas com certo fascínio.
– Fada da Morte. – Sussurrou. Aquilo fez a monstra a se contorcer.
Quando ficaram frente à frente, próximas o suficiente para se beijarem, Turca percebeu que lágrimas negras ainda rolavam pelos seus olhos. As acompanhou, até que chegassem aos seus lábios deteriorados. Descobriu mais uma coisa, então: com lábios deteriorados, ela sorria. A fada ergueu a mão entre as duas, com o seu jeito trêmulo e decadente. Três dedos gelados tocaram a testa de Turca, mas ela manteve os olhos fixos nos da fada. A monstra soltou um barulho estranho... Rasgado... Como um crocitar. O xaman tinha lhe dado a morte, como prometido. E agora era hora de negociar.
***
– Eu não vou matar ninguém! – Dissera para o xaman, ambos sob o olhar fascinado daquela fada horrenda.
– Vai. – Ele respondeu com um descaso impaciente.
Joque o carregara até dentro da tenda, deitando-o sobre o seu leito modesto. A voz do homem era rouca e cansada e suas pálpebras tremiam, ameaçando fecharem-se para entrega-lo ao sono. Ele parecia ter consciência da presença da banshee, embora mal lhe desse atenção. Aquilo deixara Turca com inveja, a frieza para lidar com criaturas tão assombrosas. Enquanto vivo, seu pai lhe dissera muitas vezes, buscando reconforta-la, que com ela os vendo ou não, os monstros existiriam da mesma maneira. Mas não adiantou. Turca sempre achou que tudo teria sido muito melhor se não tivesse esse dom maldito.
Não foi o xaman quem a convenceu, ao fim das contas, mas Joque. Ele sempre conseguia.
– Olha, não é que eu me importe, mas aquele Ruan vai morrer se você não fizer isso. –
– Então para salvar um inocente, eu tenho que tirar a vida de um inocente?! –
– A Morte funciona aos custos de equilíbrio, garota. É como o bruxinho ali falou. Uma vida por uma vida. –
– Uma vida por uma vida. – Ela lhe sussurrara de volta, aflita.
Agora que tinham deixado o xaman para trás e caminhavam na cidade, ainda não sabia o que fazer. E ao mesmo tempo, não tinha a mínima ideia de quão perto estavam do seu destino. Voltara ao seu casaco enorme, Joque enroscado em seu corpo na sua forma animal. À frente deles, estava a fada. Ela flutuava, o corpo tão molenga que parecia içada por algum anzol invisível que a puxava pela coluna. Seus dedos mal cuidados estavam perto de tocar o chão.
Da mesma forma que queria terminar logo com aquilo, Turca também não queria chegar lá, aonde quer que fossem. Nunca matara ninguém em toda a sua vida. O simples pensamento de que alguém morreria por sua culpa, naquela noite, a fazia tremer. Os tremores eram involuntários e irritantemente intervalados, tornando a sua respiração irregular como a de um doente. Queria chorar. Queria voltar para casa e esquecer daquilo tudo. Queria nunca ter saído de casa naquele dia, quando Samantha a achou na rua. Joque sibilava ao seu lado, tentando acalma-la. Mas não funcionava. Assim, ele calou-se, apenas ficando pendurado no seu corpo. Ele raramente ficava calado e achou que seu silêncio não era em vão.
– Obrigado. – Ela sussurrou.
Houve o momento, enfim, em que a banshee parou de avançar, pairando um instante no ar antes de virar à esquerda, encaminhando-se para dentro de um prédio. Quando Turca alcançou a escadaria que levava à porta-dupla do asilo, a fada já estava do lado de dentro, a olhando com curiosidade. E então? Você ainda pode voltar. Vem mesmo? Ela parecia indagar. A olhou por um instante antes de voltar o olhar para baixo, com os lábios comprimidos de tensão. Uma vida por uma vida. O prédio que a fada escolhera era uma construção antiga, com as paredes compostas por pequenos tijolinhos laranjas. Não havia telhado e o topo era retangular, uma enorme fachada anunciando em letras pretas: ASILO REI STEVE.
– Talvez eu tenha que matar alguém que realmente precise morrer. – Disse com uma animação torturada, antes de subir os degraus até a porta-dupla. Parou antes de abri-la. – Joque. – Ele sibilou em resposta.
Ia matar alguém, então seria ótimo se não fosse vista. Como um ser que pode vagar entre os dois mundos, Joque também podia apagar a sua “existência” de um deles, deixando-a invisível. Usara aquele truque em muitas vezes da sua vida, responsável e irresponsavelmente. Ela entrou. Por dentro, o lugar parecia um prédio residencial qualquer, com uma escadaria ascendendo em espiral em cada lado, um largo balcão entre as duas. Logo atrás desse balcão, um rapaz magrelo e loiro sentava-se preguiçosamente, avaliando as próprias unhas. Turca caminhou até ficar bem em frente a ele. Ele continuou olhando as próprias unhas, totalmente ignorante da sua presença. Como sempre, sorriu para aquilo.
Um par de grandes portas metálicas sinalizavam um elevador, por detrás do balcão, mas a fada escolheu a escadaria da direita e Turca a seguiu. Foram três lances de escadas até eles enfim pararem em um andar. Era um corredor mal iluminado por uma lâmpada de luz amarela, dando um tom doente ao lugar. Algumas portas enumeradas iam de ponta a ponta, fazendo o lugar se parecer mais com um hotel fajuto. Em um dos quartos, havia um cantarolar. Olhou com medo para uma das portas, de onde julgara que o som vinha, mas então percebeu que não fazia a mínima diferença, uma vez que ela estava oculta no mundo de Joque.
Observando o local, nem percebeu que a fada flutuava pacientemente em frente a uma porta. O número quarenta e oito a marcava, numa boa caligrafia. Respirou fundo e começou a caminhar em direção a ela. A fada não precisou abrir a porta. Apenas atravessou-a, como se não fosse feita de qualquer material tangível. Turca a abriu e entrou, fechando-a atrás de si. A banshee havia sumido.
Era um lugar reconfortante. Paredes listradas que variavam entre um verde pantanoso e o bege. Um carpete confortável e marrom cobria o chão. Logo à direita, uma porta levava a um banheiro discretamente localizado. Um criado-mudo sustentava uma televisão pequena e a um metro e meio dessa, numa afável poltrona, sentava-se uma senhorinha de aparência também afável. Ela parecia com a vó que qualquer pessoa esboçaria em cima da palavra vó. Cachos grisalhos, um rosto magro, de aspecto acolhedor. As lentes dos seus óculos eram redondas e reluziam. Era baixa, um pouco corcunda, e dava a impressão de ser muito frágil ao toque. Mas havia algo de incômodo nela. Ou melhor, algo parecia incomodá-la. Suas mãos pequenas apertavam-se nos braços do assento, o pano puxado por debaixo dos seus dedinhos.
– É... É ela? – Turca nunca sentia o peso da cobra em seu corpo, então não sentiu quando Joque voltou à sua forma natural.
– É... Eu já amo essa senhora. – Ele disse, sorrindo com tristeza, as sobrancelhas grossas arqueadas em desapontamento.
Turca estava chocada. Algum jornal passava na televisão, e embora ela estivesse de frente para a TV, seu olhar nervoso parecia estar direcionado para outra coisa. Todos se viraram para trás quando alguém tocou na porta, mas foi a senhorinha que virou-se mais rápido, evidentemente nervosa.
– Toc. Toc. – Uma voz excessivamente carinhosa anunciou, do lado de fora. – Lá vou eu. – A porta abriu-se.
Primeiro, veio um carrinho, daqueles que as camareiras de hotel normalmente trazem. Na parte debaixo, havia uma série de toalhas empilhadas, e na de cima, um modesto banquete havia sido arrumado. Uma tigela de sopa e um suco, com um canudinho rosa dobrável. Por detrás desse carrinho, veio uma moça. Ela era baixa, mais baixa do que Turca. Estava muito acima do peso, mas seu rosto, embora rechunchudo, era bonito. Seus cabelos castanhos estavam sujos e descuidosamente presos. Ela trabalhava ali, pelo jeito, metida num uniforme bege e sem graça.
Assim como na senhorinha, Turca também viu algo de errado naquele seu ânimo. E não era preciso o olho mágico de Joque para enxergar aquilo. Às vezes, o pior do mundo está nas pessoas. Lembrou-se do seu pai ter lhe dito, muito tempo atrás. Num instante, tudo pareceu ligado, o nervosismo da idosa e o ânimo da empregada. Turca compreendeu tudo com uma crescente indignação, os lábios entre-abertos de triste surpresa. A servente passou por si, sem saber que estava ali, indo em direção à poltrona. A senhorinha a esperou, olhando-a com medo e os ombros tensos. Só quando a gorda chegou perto que ela decidiu fugir, tentando se levantar da poltrona. Ainda que lenta, a moça do carrinho foi mais rápida, detendo a idosa pelo braço. Segurou-a com tanta violência que a pobre coitada soltou um gemido, sendo rapidamente puxada de volta para a poltrona.
Turca guinchou de forma impotente, sem saber o que fazer.
– Olha, nós já conversamos sobre isso, não foi?! – A servente falou com sua voz afetada, como se estivesse se dirigindo para uma criança muito nova. – Velha burra, velha burra! – Ela chamou, batendo na testa dela com a mão fechada.
A senhorinha se retraiu aos golpes.
– Desculpe, desculpe. – Ela implorou. Sua voz saiu esganiçada, chorosa... Humilhada.
A gorda balançou a cabeça negativamente. Entre a TV e a poltrona havia uma mesinha de centro, ostentando algumas fotografias e enfeites. Ela olhou para aquilo por um momento e logo em seguida, com uma braçada só, empurrou tudo para o chão.
– Eu vou querer tudo arrumado depois, ok? – A velhinha apenas continuou olhando para as coisas no chão, triste. Só perdeu a atenção quando a servente enganchou seus dedos gordos pelos seus cachos brancos, virando-a para si. – Ok? – A senhorinha concordou, enfim.
Assim, por fim, a servente colocou a tigela e o copo na mesinha, ocupando apenas um quinto da sua extensão. Ela olhou para a idosa na poltrona com um sorriso afetuoso. O tipo de sorriso carinhoso que uma pessoa adoraria receber, mas que naquele momento, era aterrorizante. A servente sentou-se na parte do carrinho em que antes estava o jantar, fazendo o metal ranger, e tomou a tigela na mão, enchendo a colher com a sopa.
– Vamos lá?! – E aproximou a colher dos lábios dela. A vóvó tremeu na poltrona, pensando em fugir, mas o olhar servero de sua algoz a fez permanecer no lugar. Ainda assim, quando a sopa exageradamente quente lhe tocou os lábios, ela retraiu-se com tanta agonia que a sopa caiu sobre a poltrona. A servente quase derrubou a colher, mas pegou-a por pouco. Praguejou e desferiu mais um golpe na senhorinha, dessa vez mais forte, fazendo-a choramingar. – Ah, meu Deus. – Ela rogou com falsidade.
Joque flutuava logo atrás de Turca, observando aquilo com a mão na boca, a testa franzida em desentendimento, como se tudo aquilo fosse cômico e trágico ao mesmo tempo. Turca comprimia tantos os lábios que eles estavam brancos e trêmulos, irados. Ela virou-se rigidamente para o jinn, o olhando com rancor. Ele baixou os olhos para ela. Seu olhar era frio agora, como se consentisse para algo que não era certo.
Nessa troca de olhares, Turca voltou a integrar o mundo material.
Estava logo atrás daquela cena horrível, precisando apenas de um passo silencioso para ficar bem atrás daquela gorda desprezível. A senhorinha foi a primeira a percebe-la, um misto de esperança e medo tomando os seus olhos. A servente percebeu aquilo e estava para se virar para trás, mas Turca foi mais rápida, não precisando fazer muita coisa. Encostou um pé no carrinho, empurrando-o logo quando a servente a olhou. O carinho deslizou pelo carpete, as duas rodas frontais saindo do chão quando a maioria do peso da mulher se colocou na parte de trás. O carrinho voou contra a parede, num baque alto e metálico, e a gorda despencou direito para o chão, todo o seu peso caindo sobre o seu ombro esquerdo. A senhorinha soltou um grito rouco, omitido pelos sons dos choques. A olhou com determinação.
– Eu estou aqui para ajudar. – Disse.
A gorda gemeu no chão, com uma mão levada ao braço esquerdo. Quando caíra, a tigela virara sobre si, despejando toda a sopa na sua roupa, pequenas colunas de vapor escapando dela como se ela mesmo tivesse emergido da tigela. Tentava se colocar de pé, desorientanda, olhando para Turca com a boca aberta, como se algo estivesse para ser dito, mas nada pudesse ser formulado. Pelo jeito que encheu o peito, talvez estivesse prestes a gritar.
Turca nem precisou chamar por Joque. Ele mesmo adiantou-se sobre a gorda, indo na sua direção tão rápido e empurrando-lhe com tanta força na sua boca que ela ficou suspensa no ar, sendo empurrada até a parede, a mão grossa de Joque pressionando a sua boca e lhe impedindo de gritar. E claro, só Turca podia ver isso, deixando tanto a gorda como a senhorinha surpresas. Na ótica das duas, a servente apenas flutuava no ar, prensada contra a parede por alguma força invisível.
– Mate ela. – Disse, decidida. Joque a olhou por cima do ombro, indeciso.
– É você quem devia fazer isso. –
– Apenas mate ela! – Disse com raiva. Por muitas vezes em seus vinte e três anos, Joque lhe sussurrara que devia seguir mais os seus intintos. Mas ele dizia isso sempre que Turca se acalmava de alguma explosão de ira. Assim, depois de algumas decisões ruins, compreendera que nunca devia confiar totalmente nele. Mas fazia certo sentido que ele encorajasse o rancor... Afinal, nas escrituas, era dito que ele era feito de chamas. E os jinn foram originados de uma chama sem fumaça.
Houve, enfim, algo diferente na sala. Não soube como sentiu aquilo. Se ouviu, viu, ou se tocou-lhe a pele. Apenas sentiu. Olhando para trás, a achou, enfim. A banshee. Mantendo uma distância de um metro e meio, ela estava sorrindo daquela sua forma doentia e zombeteira, apontando para a cena na sua frente. Turca a olhou com raiva, mas na verdade sentia-se grata. Sentia que era ali que devia estar naquele exato momento. Sentia-se bem por estar ajudando aquela senhora e fazendo a justiça. E também salvaria Ruan. A fada não havia terminado seu gesto, tremendo a mão por um instante, reforçando seu dedo levantado, dizendo: Ei. Olhe para lá! Turca olhou, enfim.
A servente estava de joelhos, com uma mão na boca, gotas de sangue escapando pelos seus dedos. Ela olhava ao redor, procurando por algo. Turca recuou um passo, assustada. Onde está...
– Joque?! – Ela olhou para trás, e depois para os lados, dando a volta em torno de si mesma. Quando voltou à mesma posição em que estava antes, não teve chances de chamar de novo. A gorda maldita atingiu-lhe na têmpora direita, levando-lhe direto para o chão.
O impacto soou como o estardilhaço de milhares de xícaras se quebrando.
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