A Garota e a Fada
3 Conclusão
Notas iniciais
O carpete lhe parecera felpudo numa primeira impressão, seus fios se sobressaindo pelos lados das solas dos seu pés. Quando Turca caiu de cara nele, porém, já não lhe pareceu mais tão confortável. Se já estava confusa, o impacto só fez piorar a situação, a deixando tonta, além de um ardor no lado do rosto em que foi atingida. Alguns cacos de vidro tinham a acompanhado até o chão, reluzindo no meio dos fios do carpete.
Joque? Pensou, atônita. Apoiou-se sobre os braços, começando a se levantar, mas tudo o que realmente fez foi se colocar na posição perfeita para levar um chute no abdômen. Seu corpo deu um pulinho e rolou para a esquerda. Ela rolou duas vezes pelo chão. A dor subiu pela sua barriga lentamente, a asfixiando aos poucos, enquanto ela se contorcia no chão, as mãos apertando no lugar aonde o pé da servente lhe acertara.
Acima de si, a gorda tinha uma mão na boca e estava para correr, parecendo desesperada. Ela estava a dois passos da porta, uma das mãos já esticada para alcançar a maçaneta, quando Turca agarrou-lhe o calcanhar. O corpo da maldita inclinou-se para frente, preso, mas ela conseguiu se sustentar em pé, lhe dando um olhar raivoso. Turca deu mais um puxão, ela sendo pesada o suficiente para que o seu corpo pequeno se arrastasse para frente. Mesmo assim, ainda conseguiu tirar o seu pé do chão, a desequilibrando por um instante. Foi o tempo que teve para se colocar de pé.
Quando ela recuperou firmeza, Turca ainda estava meio agachada, ainda se levantando. Ela não deixou que concluísse o movimento. No mesmo lado em que lhe acertara no rosto, ela bateu mais uma vez, te extraindo um gemido sofrido e lhe devolvendo ao carpete. Dessa vez, a primeira coisa que fez não foi se levantar, mas olhar para trás. A gorda não optou pela fuga dessa vez, vindo em sua direção com mais um chute. Bloqueou o golpe com o joelho e fez o possível para se levantar rápido, engatinhando para trás com debilidade. Um empurrão lhe forçou a correr três passos para trás. Teria caído sentada se não fosse a parede, mas também não soube o que teria sido pior. Com a dor que sentiu no impacto, deixou escapar um gritinho afinado.
Ela veio com as mãos esticadas, como se buscasse pelo seu pescoço. Só teve um rápido vislumbre de sua posição, o medo crescente da distância cada vez menor se instaurando dentro de si, forçando-lhe a agir. Sem pensar muito, Turca deu um passo à frente e largou a mão em sua direção, a acertando no nariz. O ataque não foi forte para quebrar o osso, mas a fez cambalear dois passos para trás. Apressada, Turca achou-se no direito de tentar de novo e avançou. Dessa vez, foi parada bem na hora, as mãos grandes dela apertando os seus ombros. Mais do que gorda, a maldita também era forte. Ou talvez, Turca fosse muito pequena, pois, com humilhante facilidade, foi levantada do chão e atirada para o outro lado do quarto, caindo bem em cima da mesinha de centro. A mesa tinha os pés de madeira, mas sua base era de vidro. Assim, tudo quebrou sob o seu peso. Turca pôde ouvir o pano do seu casaco cedendo às novas lâminas de vidro, mas não pôde ouvir a própria pele ceder. Isso ela sentiu.
Dessa vez, não houve um impulso de se levantar, apenas uma dor que rapidamente a convenceu a continuar no chão, entre as ruínas da mesinha. A verdade era que Turca simplesmente não sabia lutar. Nem sabia porque engajara num confronto com aquela brutamonte, a princípio. Estava só se defendendo e até então, não fizera um bom trabalho. Mais atrás de si, do outro lado do quarto, a senhorinha se encolhia ao pé da cama, horrorizada. Parecia indecisa do que fazer, dando olhadelas nervosas para a porta, Turca supôs que considerando fugir. Vê-la ali foi a única motivação em que conseguiu pensar antes de começar a se levantar. Afinal, entre a senhora e a servente, Turca era tudo o que havia. Onde está você, Joque?
Por uma terceira vez, Turca se levantou, dando passos confusos para trás, recuando. Quando virou-se para ela, a viu com os braços rígidos ao lado do corpo, caminhando em sua direção com os punhos cerrados. Sangue escapava pelos seus lábios e pingava do seu queixo. Pelo jeito, alguns de seus dentes tinham quebrado quando Joque a prensou contra a parede. Turca achou alguma satisfação nessa ideia.
Ela ia se aproximando devagar e Turca continuava parada, a esperando, sem plano nenhum. Seus ombros subiam e desciam com a sua respiração preocupada. No momento em que ela enfim ficou próxima o suficiente, Turca ainda não havia pensado no que fazer, forçada a ter que simplesmente desviar quando ela tentou lhe socar. Lenta demais, a gorda não conseguiria lhe pegar. Se continuasse assim, lhe daria tempo para que pensasse em algo, mas por outro lado, ia perdendo espaço, ficando cada vez mais perto da cama e da senhorinha e por seguinte, sem saída. Olhando para trás, a ironia se impôs, porque foi na cama que ela achou a própria salvação.
A servente tentou atacar mais uma vez, daquele seu jeito desengonçado. Desviou e recuou, esperando a coisa se repetir. Depois de mais duas rodadas desse confronto, as pernas de Turca já encostavam-se na cama. Agora. Turca precisou ser rápida, mesmo com o cansaço de sua oponente, já se esticando para a cabeceira da cama, por cima da cabeça da senhora. Ali, uma série de lembranças enfeitavam o leito dela: uma fotografia; um cubo mágico; e um troféu. A base do troféu era de madeira, com uma plaquinha que dizia o primeiro lugar de algum campeonato, e em cima dela, uma bailarina de ouro equilibrava-se na ponta do pé, graciosa. Turca só teve mais um vislumbre da taça, tendo tempo de acha-la bonita. Então, pegou-a e atingiu a servente com toda força que pôde aproveitar do movimento, acertando a maldita bem na bochecha.
Seu braço continuou indo, completando quase um círculo completo, e depois de acerta-la, uma rajada de sangue acompanhou o troféu, se espalhando pela parede. Um pouco daquele sangue havia ficado na bailarina, escorrendo pelo seu corpo dourado até que chegasse a base. Apesar de não ter feito muita coisa, Turca sentia-se cansada. Olhou para a senhora com um sorriso vitorioso. Ela parecia apavorada. Ainda mais do que quando a servente chegara. Ela tremia e os olhos estavam saltados no rosto. Temeu que seu coração fosse parar ali mesmo.
– Eu não vou te machucar. – Turca disse, suas palavras intercaladas com a sua respiração exausta. – Eu... Eu só queria ajudar. –
A velhinha balançou a cabeça para a direita e para a esquerda, tensa.
– Eu... Eu... Obrigado. – Ela disse, como se fosse tudo que conseguisse pronunciar. – Obrigado. Obrigado. Obrigado. –
Sorriu para aquilo, extasiada pelo sentimento de heroísmo que raramente tivera na vida. Eu ajudei alguém. Pensou, com um suspiro de fechamento que traduzia-se em está tudo bem agora. Mas claro, foi só uma ilusão. Normalmente, esses pensamentos de total segurança sempre lhe foram mentirosos. Turca foi atingida por trás. O empurrão foi tão forte que soltou o troféu, deixando-o rolar pelo carpete. As duas caíram no colchão, com ela por cima de si. O peso forçou o ar para fora dos seus pulmões com tanta violência que seu grito saiu sufocado: uma lufada desesperada de ar.
Quando caíram no chão, nem houve chances de poder recuperar aquele ar, pois as mãos dela já estavam em torno do seu pescoço. A pressão era muito grande e em todo o seu desespero, não conseguiu pensar em nenhuma forma de se livrar daquilo. A maldita jazia em cima de si com os joelhos sobre o seu abdômen, apenas aumentando a sua agonia. Sua boca sangrenta e desdentada estava tensa de ira enquanto ela rosnava para si. Mais rápido do que pensou que fosse acontecer, Turca começou a bater os calcanhares no chão, agora tentando qualquer movimento que a ajudasse a sair daquela situação.
Suas mãos também tamborilavam pelo chão, ansiosas por algo que a ajudasse. Enquanto batia os pés, um deles tocou no que parecia ser o troféu. Talvez a única coisa que pudesse a ajudar no momento, mas que estava muito longe demais. Socou a desgraçada, mas logo percebeu que seus golpes não tinham a menor significância, ficando cada vez mais fracos. A senhorinha até tentou tirar a louca para cima de si, puxando-a pelo braço, mas era inútil. Na determinação assassina daquela mulher, ninguém jamais conseguiria tira-la de cima de si. Aos poucos, a morte começou a parecer como um fim inevitável... Um fim lógico. Uma vida por uma vida.
A conclusão a enfureceu, mas não o suficiente para que conseguisse sair dali. Àquela altura, já tinha parado de se debater, começando a ceder à escuridão que se impunha pelos cantos da sua visão, pensando que talvez, se Ruan vivesse em troca de sua vida, ele e Samantha pudessem ter um filho.
Aquilo não foi reconfortante, apenas revoltante.
Crack. Sua visão já havia ido embora, então ela só pôde ouvir. Houve uma flacidez no corpo da gorda quando ela tombou para o lado, enfim saindo de cima de si. Turca abriu a boca, sugando o ar com voracidade, guiada pelo desespero dos afogados. Nem se deu o trabalho de se levantar, achando que ainda não teria forças para fazer isso. Seu diafragma doía, subindo e descendo sob as suas mãos.
Aos poucos, também foi ganhando coragem de erguer-se, se colocando sentada ainda de olhos fechados, por demais preocupada em respirar para realmente avaliar a situação direito. Quando abriu os olhos, as circunstâncias eram exatamente como imaginara. A servente estava estirada no chão, imóvel, sem nem mesmo respirar. Morta. Ajoelhada ao lado dela, tocando-lhe com um dedo gelado, estava a banshee. A fada fúnebre chorava pesadamente, com os ombros subindo trêmulos a cada inspiração, lágrimas negras escorrendo pelo seu rosto e caindo em cima do cadáver aos seus pés. Acima das duas, de braços cruzados, Joque flutuava. Não as olhava, porém, pois tinha os olhos virados para si. Ele não estava sorrindo... E isso nunca acontecia.
– Você quem devia ter a matado. –
– Por quê? – Sua voz soava rouca, lesionada pelas mãos pesadas da servente.
– Você conta demais comigo. – Ele disse com irritação. – Eu sei que estarei para sempre com você... – Uma pausa rápida para um revirar de olhos. – Infelizmente. Mas você tem que aprender a se virar sozinha, mesmo assim. –
– Você sumiu de propósito! – Ela compreendeu, sem esconder a própria fúria. Ele deu de ombros com um sorriso culpado.
– Bom... Tome como um ensinamento. –
Ficou ali, o olhando com raiva, os punhos cerrados, rosto ardido, costelas doendo. Sabia que não podia fazer nada para puni-lo e também entendia que não havia como faze-lo se sentir mal pelo que tinha feito. Joque era um canalha, simplesmente. Mas por outro lado, ele estava certo. Turca escolhera ajudar aquele casal e depois aceitara que alguém morreria em nome disso. Deveria ter cogitado que matar alguém talvez não fosse tão simples assim. Se ela queria ajudar as pessoas, teria que elevar-se. Teria que se preparar melhor. Aquilo não a fez ter menos raiva de Joque, porém.Voltou-se para a senhorinha.
– Você está bem? – Ela fez que sim, com um olhar assustado. Turca se esquecera de que ela não podia ver Joque. – Alguém mais te trata assim por aqui? – Ela balançou a cabeça negativamente, com força. Todos os seus gestos estavam sendo feitos com nervosismo.
– Era só ela... Ela não gostava de mim... Dizia que eu era pretensiosa e que eu me achava bonita demais... – Falar sobre aquilo parecia lhe ser doloroso, de alguma forma. – Ela tem me... Machucado... Já tem meses... – Ela havia começado a chorar. Sem saber o que fazer, tocou-lhe no ombro, tentando ser prestativa. Sentou-se ao seu lado.
– Está tudo bem agora... –
– Não, não está! Ela está morta no meu quarto! O que vão achar disso?! –
Turca olhou para o corpo sem vida da servente, sem palavras.
– Não. Tudo vai ficar bem. – Joque disse. Turca olhou para ele, muito irritada para ir na dele. Ele a olhava com seriedade, porém, até acenando com a cabeça por um instante. Olhou para a senhorinha antes de falar, buscando paciência nela.
– Não. Tudo vai ficar bem. –
Dito isso, Joque pôde começar.
***
O vento assoviava lá fora. Tinha caminhado até a casa do casal, mas não lembrava-se de ter enfrentado uma ventania tão forte até ali; julgara que a coisa começara logo depois de ter entrado na casa. Olhando pela janela, também observava que o céu tinha perdido as suas estrelas para nuvens vermelhas e ameaçadoras. Outra mudança brusca no clima. Com uma rápida mudança de perspectiva, Turca pôde se ver, refletida na vidraça da janela. Estava inexpressiva, tentando ignorar o ardor no rosto. Quando aquela desgraçada lhe acertara com um porta-retrato, pequenos pedaços de vidro prenderam-se à sua pele, agora tido sido cuidadosamente removidos por Ruan.
Ele não parecia morrer de amores por si, mas ao menos agora parecia poder estar na mesma sala que ela sem uma carranca. Turca imaginava que depois de contar-lhe que ele ficaria bem, o sujeito perdeu um pouco da antipatia que tinha por si e talvez, seus ferimentos o ajudassem a acreditar em si. Quando chegara na casa, foi Samantha quem a recebeu, a olhando com uma preocupação comovente.
– Não se preocupe. – Disse logo, antes que ela pudesse perguntar.
– Por favor, entre. –
Obedeceu e a seguiu até a sala. A dona da casa apontou-lhe o sofá e Turca sentou-se ali de bom grado, rendendo-se ao conforto do estofado.
– Gostaria de algo para beber ou qualquer coisa? – Nem havia se tocado da sede que estava. Depois de Joque dar os últimos toques no quarto, ainda no asilo, eles foram diretamente para lá. Turca só queria acabar com aquilo logo.
– Água. – Sua garganta doía e a sua voz saiu rouca, abrupta. Quase contrastando com a voz terna de Samantha.
Ela pareceu tomar aquilo como uma nota subtendida, acenando com a cabeça polidamente antes de ir para a cozinha. Turca a observara ir embora com tristeza. Não queria ter soado mal educada. Passos pesados anunciaram a chegada de Ruan, vindos da cozinha. Ele parou à porta, a avaliando com surpresa.
–O que houve? –
Turca lembrou-se do que tinha acontecido. A imagem da servente morta ao chão, sob as lágrimas podres da banshee, a senhorinha aterrorizada tentando compreender o que estava acontecendo, e o quarto parcialmente destruído. Depois daquilo, Joque usou a sua magia para adormecer a senhora, deixando-a com uma versão bem diferente do que realmente tinha acontecido.
– Invadiram o seu quarto. A servente lutou e morreu. Levaram o seu troféu. – Joque lhe sussurrara no ouvido. Turca sabia que a senhora nunca realmente ouvira as palavras que ele tinha dito, e também nem tinha consciência de que havia alguém falando ao pé do seu ouvido, mas ao mesmo tempo, a senhora agora tinha isso na sua mente, tido inclusive soltado um uh para as palavras do jinn. Era um truque um tanto confuso. Até para eles. – Durma. – Joque ordenou finalmente.
Como se tudo aquilo fizesse parte de um episódio de algum show de TV que tinha terminado, a senhorinha sorriu-lhe, simpática e educada.
– Oh, já é hora de dormir! – Disse, antes dos músculos do seu rosto relaxarem e seus olhos fecharem-se, seu corpo amolecendo sobre a cama de uma forma inacreditavelmente imediata. Joque a segurou apenas para que ela não caísse sobre o chão, deixando ela meio deitada na cama.
– Isso vai ser ruim para ela... Suas costas, sei lá... – Protestou com fraqueza. Joque ignorou aquilo.
A banshee inspirou com força, fazendo um grande barulho com o seu nariz congestionado pelo choro. Estava de pé agora e a olhava com um sorriso, embora o seu rosto ainda estivesse embaçado pelo lamento. Com delicadeza, ela passou um pé por cima do cadáver e depois o outro, sem deixar que eles tocassem o chão, ficando suspensa. Flutuou até Turca e lhe esticou três dedos, os tocando na sua testa duas vezes, com calma. Seu toque gelado dizia: Bom trabalho!
Turca quis socá-la.
Depois disso, deixaram a janela aberta e saíram dali, Turca oculta na magia do jinn. Tinham levado o troféu consigo. Ela observou a bailarina perder toda a graça e forma enquanto derretia-se nas mãos de Joque, sob o calor daquela criatura feita de chamas. Por algum motivo, achou a cena muito triste. A madeira crepitava enquanto o ouro cobria-lhe e respingava para a boca aberta do jinn, mesclado quase que inteiramente com o sangue seco da servente.
– Quanto menos vocês souberem, melhor. – Turca respondeu a ele, sem se esforçar para esconder a sua impaciência.
– Ah certo... – Ele parou, meio sem jeito. Ainda havia algo a ser perguntado, é claro. – Eu... Digo... Eu vou... –
Joque sumira. Ele nunca realmente sumia, pois de uma forma ou de outra, ele sempre estaria lá e se ela quisesse, pela simples força de sua vontade, o traria até ali, mas não o faria. Queria sim um tempo sozinha e ele lhe dera isso. Por aquele instante, porém, gostaria de poder olhar para ele, pedinte por certeza.
– Você vai ficar bem. – Disse a ele, tentando não parecer hesitante. Ele suspirou em alívio.
– Acho melhor eu cuidar disso. – Disse, apontando para o seu rosto. Antes que pudesse protestar, Samantha chegou com a água, e então achou que não devia mais reclamar de nada. Não lhe contou dos outros ferimentos além do rosto, porém.
Agora, com os machucados do rosto cuidados, observando o próprio reflexo no espelho, pôde ver o casal se abraçando atrás de si. Os olhou por cima de ombro, comovida. Eu o salvei! Pensou, satisfeita. Levantou-se, achando que era hora de ir. Os dois se postaram lado a lado, a saudando com um sorriso cheio de agradecimento.
– Muito obrigado. – Samantha disse com a voz embargada. Ela quase chorava, demasiadamente eufórica. Turca meneou a cabeça rapidamente, um pouco constrangida e ao mesmo tempo, nauseada. Já havia visto muito choro naquela noite.
– É melhor eu ir. – Disse, tentando não ser rude.
– É claro! – Ruan disse, tentando arremedar uma figura mais simpática. Os acompanhou até a porta, as mãos enfiadas pelos bolsos do casaco. – Sabe, você salvou a minha vida... Saiba que será sembre bem-vinda aqui. – Ele disse isso como se fosse uma admissão difícil, como um pedido de desculpas. Turca riu, pois pensava que nunca mais voltaria ali.
– Pode deixar. – Os dois a observavam, abraçados de lado, enquanto ela saía.
Então a primeira gota d’água a atingiu, a pegando tão despreparada que parou de andar, surpresa. Olhou para cima, lembrando-se das nuvens que cobriram o céu. Mais uma gota gelada tocou-lhe o rosto, fazendo-a estremecer.
– Ei! – Ruan gritou. – Eu acho que... Eu acho que você pode ficar mais um pouco. – Olhou para trás, negando com um sorriso apressado.
– Mas está chovendo. – Samantha disse, correndo em sua direção.
Turca não pôde deixar de sorrir, admirada com a persistência dela. Supunha que pessoas educadas fossem assim. Quando elas se encontravam realmente próximas, a chuva já tinha começado de verdade. Instintivamente, puxou o capuz sobre a cabeça. A esposa só usava um vestido comum, porém, ainda que não parecesse se importar com isso.
– Samantha! – Ruan chamou da porta, sem receber a sua atenção.
– Vamos, entre! – Ela insistiu, tocando-lhe o braço. – Podemos comer algo. – A menção à comida fez o seu estômago doer, lembrando-a de que também sentia fome. Turca comprimiu os lábios, tentada.
– Não. – Disse, como alguém que faz um sacrifício. Tocou-lhe o braço da mesma forma que ela tocava o seu. – Eu adoraria ficar, Samantha, mas em todos esses meus trabalhos, é sempre melhor que eu saia cedo. –
Ela a olhou nos olhos, com ternura, ambas embaixo da chuva, totalmente desprotegidas. Quase nunca recebia aquele tipo de olhar e naquele instante, ela pareceu saber disso.
– Tudo bem então. – Ela disse desapontada. – Muito obrigado. – Disse, avançando sobre si com um abraço. Quando ela o acolheu em seus braços, ouviu o primeiro trovão.
Não era nada demais, mas Turca foi pega de surpresa, pairando de braços abertos como uma idiota antes de finalmente retribuir o gesto. Abraçou-a com estranheza a princípio, mas depois a apertou, sentindo que era o que devia fazer.
– Samantha! – Ruan chamou, levemente mais impaciente.
A esposa foi se separando de Turca e virando-se para trás, devagar. Aproveitou aquilo para ir se distanciando. Andava de costas para que pudesse observa-los.
– Venha pra cá! – Ela chamou.
– Eu não quero me molhar! – A chuva caía em peso e eles tinham que falar gritando para que pudessem se ouvir.
– Eu molhei o meu vestido! Você não pode molhar o seu?! –
Sorriu para aquilo, enfim dando as costas para eles dois. Seu casaco não era feito para suportar chuvas e já começava a pesar no seu corpo, mas ao mesmo tempo, era denso o suficiente para mantê-la seca por mais alguns minutos. Um pouco d’água tocara-lhe os cabelos, colando uma de suas mechas castanhas à frente dos seus olhos. Enquanto caminhava em direção à rua, baixou a cabeça para empurrar o cabelo para fora dos olhos. Quando levantou o olhar, Turca parou de andar de novo.
– Mas que porra você está fazendo aqui? – Murmurou, desentendida.
A banshee, que só sabia chorar, não fez nada mais do que isso, apenas a ficou olhando, ali do meio da rua. Ela lamentava convulsivamente, e assim, enquanto erguia a mão, seu braço também tremia violentamente, fazendo uma série de solavancos antes que enfim ela o tivesse levantado. Sua mão erguida tinha três dedos magros levantados. Algo que tinha se repetido por várias vezes naquele dia. Algo que só agora, infelizmente, Turca começou a entender, a revolta se acendendo dentro de si. Não... Não... Uma vida por uma vida. Uma vida por uma vida. Um dos dedos dela baixou, enfim confirmando o que Turca estava imaginando.
Ao virar-se de volta para casa, Samantha ainda tentava puxar seu marido para o quintal, mas o homem não lhe dava a mínima atenção, seu olhar aterrorizado pairando na rua. Ele viu também. O olhar de Ruan então foi na sua direção, mesclando horror, medo, e raiva. Turca só pôde abrir a boca, pois não havia palavras certas para aquilo. Samantha percebeu que tinha algo acontecendo, por fim, começando a se virar para trás. Foi nesse exato momento que o raio a acertou.
Tudo o que viram do relâmpago foi um brilho azul que durou apenas um segundo. Depois disso, um vulto escuro rodopiou no ar, caindo de forma molenga no chão. Atordoada com o que tinha acabado de acontecer, Turca só conseguiu dar alguns poucos passos para frente, sabendo que não poderia mais andar sem cair. Ruan, por outro lado, se adiantara sobre a esposa morta, gritando desesperado. Embora já tivesse entendido tudo, continuava surpresa.
Três dedos. Três mortes. Ao fim das contas, a Morte nunca negociara consigo. Ela simplesmente lhe usara. Desde o início, do primeiro encontro entre ela e Samantha, passando pela sua luta mortal com a servente no asilo, e chegando até esse exato momento, Turca estava sendo usada como um instrumento para assegurar que aquela matemática fúnebre se realizasse. Nem mesmo sentiu raiva, cansada demais para isso. Soube que não adiantava de nada gritar aos céus e espernear. Entendera, enfim, que a vida e a morte são jogos muito grandes. Até pra ela. Processava isso tudo olhando para o chão, sentindo o seu casaco encharcado colar-se ao seu corpo. Assim, nem percebeu que Ruan vinha em sua direção.
Ele viera correndo e abaixara-se pouco antes de atingi-la, encaixando o seu ombro bem no seu diafragma. Pela segunda vez naquela noite, Turca sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões. Os dois caíram pela grama do quintal, respingando água para os lados. Não resistiu ou tentou fugir quando ele se colocou acima de si, ainda paralisada por todas as conclusões que havia tirado. O máximo que fez foi olhar para trás, tendo um último vislumbre da banshee. Só um dedo estava levantado agora. Quando Ruan esmurrou-lhe pela primeira vez, começou a entender que aquele dedo se abaixaria em breve.
O segundo soco fez com que os nós dos dedos dele voltassem ensanguentados, embora rapidamente lavados pela chuva, talvez até o fazendo se esquecer de quão violentamente ele a espancava. O terceiro quase apagou Turca, deixando metade do seu mundo sob uma névoa escura e dolorida. Ele gritava algo, mas não o ouvia, concentrada nas milhares de cores que implodiam e rodopiavam na visãod o olho que ele atingira antes. Estava aceitando a morte com a passividade de uma idosa de cento e vinte anos. Assim, quando ele foi arrancado de cima de si, só foi se tocar segundos depois.
Livre, se pôs sentada, levando uma das mãos ao rosto com uma cautela medrosa. À sua frente, o corpo de Ruan estava suspenso no ar, ele estupefato enquanto o braço grosso de Joque atravessava-lhe o peito. Seu coração, que antes batia dentro de si, agora jazia parado na mão do jinn, rajadas de sangue escapando pelas suas válvulas. A boca de Ruan estava cheia de sangue e o seu último olhar com vida foi dado para si, carregado de surpresa. Assim, ele morreu. Joque colocou um dedo na cabeça dele, definitivamente arruinando o seu penteado, e puxou o braço para si, o desatolando do cadáver e fazendo o mesmo barulho que teria caso alguém enfiasse e tirasse o dedo de uma geléia. O corpo sem vida de Ruan despencou do ar e caiu plácido e sangrento no chão. Turca observou aquilo, inexpressiva, sentada no chão com uma mão no rosto, seu olho esquerdo latejando por debaixo da palma de sua mão.
A banshee passou pelo seu lado, naqueles seus passos trêmulos, continuando a andar até que pairasse entre o corpo carbonizado de Samantha e o cadáver perfurado de Ruan. Ali, ela ajoelhou-se, com o rosto escondido entre as mãos, fazendo suas últimas lástimas. Turca também estava chorando, sem saber quando começara. Não só chorava, mas berrava também, ensandecida pela injustiça da Morte e por como havia sido usada por ela.
Joque largara o coração de Ruan, deixando aquele pedaço de carne ensanguentada cair no chão. O jinn parecia surpreso com tudo aquilo. Depois, lhe deu um olhar de compadecimento, pairando acima de si para cobrir-lhe da chuva, enquanto chorava e pigarreava pelo casal morto.
Três pessoas tinham morrido naquela noite. Bem como a Morte sempre planejara, desde o início dos tempos.
***
Turca tinha se desfeito do casaco. Três dias atrás, quando enfim chegou em casa, ele estava arruinado, coberto por sangue, chuva, e grama. Cuidara dos ferimentos no seu corpo, embora seu diafragma ainda reclamasse sempre que inspirava. Seu rosto não havia melhorado, com um inchaço roxo e febril fechando o seu olho esquerdo.
Apesar do machucado, era uma menina bonita. Tinha a pele escura, mas não muito, e cabelos castanho-avermelhados, quase sempre presos num rabo de cavalo. Os usava soltos agora, deixando-os alcançar metade das suas costas. Usava uma das mechas livres para cobrir o machucado no seu rosto, mas não fazia um trabalho perfeito, pois ainda podia sentir os olhares curiosos na rua.
Agora que estava na estação de trem, recebia ainda mais olhares, mas achava que todos eles já tiravam as próprias conclusões. Ela está fugindo de algo. E estava. Suas malas já tinham sido encaminhadas e agora ela apenas esperava pelo trem, sentada num banco. Usava um short jeans que ficava pouco acima dos joelhos e um casaco de lã azul celeste, com uma bolsa discreta içada no ombro. Lia história em quadrinhos: um hábito que preservara da adolescência, quando ainda realmente achava que ela e Joque poderiam ajudar o mundo. Cada vez mais, desistia dessa ideia idiota.
Fora o jinn que lhe aconselhara a sair da cidade, e sentia que teria feito isso mesmo sem o seu conselho. Preocupava-se com a possibilidade de alguém se lembrar dela saindo com Samantha, mas tinham se passado três dias e ninguém tinha ido lhe procurar, mesmo com toda a polêmica que a morte do casal causara na cidade. Pelos jornais, a polícia só conseguia concordar que a mulher morrera para um raio, mas a morte do marido ficou completamente inexplicada. Tinham achado o coração do sujeito a dois metros dele, seco, seu tórax com um rombo. Não havia nenhum animal selvagem que fizesse aquilo.
Desde aquele dia, Joque e ela não tinham conversado. Não o culpava pelo que havia ocorrido, mas não tinham o que falar sobre e então ele permanecera oculto, paciente.
Na história que lia, o herói explicava, de forma demasiada simplista, o porquê de existirem o bem e o mal no mundo. Turca fechou o livreto na hora, sentindo uma raiva súbita. Aquilo lhe lembrara a banshee com o seu choro terrível. Não há bem e mal. Sempre achara. A banshee não tinha sido má consigo, ao fim das contas. Turca quem tinha sido estúpida, tentando desafiar algo muito maior do que si.
O trem havia chegado e logo as pessoas começaram a se armar numa fila, buscando suas passagens no bolso. Sem pressa, Turca levantou-se, deixando o livrinho que lia no lugar aonde estava sentada. Começou a andar em direção à fila crescente, deixando a história para trás enquanto buscava a passagem na sua bolsa.
Lá se ia ela, a menina que tentou desafiar a Morte.
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