Estou parada em frente ao espelho, pensativa. Voltarei a trabalhar na floricultura hoje, e me pego pensando se minha aparência está boa o suficiente para um primeiro dia no trabalho depois de tirar uma licença de um mês e meio. Havia ido ao hospital alguns dias atrás para tirar o gesso na perna e o curativo do olho e admito que encontrei muitas dificuldades em reaprender a fazer as coisas com os dois lados do corpo funcionando.

Um rosto normalmente pálido me encara do reflexo do espelho. Meu olho esquerdo, agora destampado, não apresenta nenhuma cicatriz externa da cirurgia, fazendo com que ele seja como qualquer outro se o intenso azul gelo que preenche sua íris for desconsiderado. Duas olheiras fundas contornam meu olhar cansado e meus cabelos acinzentados parecem ainda mais sem vida que de costume, me fazendo prende-los em um rabo de cavalo.

— Me desejem sorte – digo para meus gatos, que me encaram desinteressados, antes de fechar a porta e ir embora.

Quando chego no trabalho, me deparo com uma floricultura semelhante à que eu havia deixado na noite do acidente, não fosse por um detalhe, ou melhor, uma pessoa. Uma garota de cabelos negros me encara atrás do balcão, com uma expressão de curiosidade no rosto.

— Você deve ser a Emma, certo? – ela diz, se aproximando e esticando o braço – Prazer, sou a Cheryl.

— Sou sim – digo, com uma sobrancelha arqueada, correspondendo ao cumprimento. Olhando-a mais de perto, vejo que seus olhos são grandes e expressivos, ela aparenta ter quase a mesma idade que eu e tem um piercing no septo.

— Uau, olha só pra isso. – ela diz, boquiaberta, chegando assustadoramente perto de mim e olhando fixamente para o meu rosto. Em seguida, deduzo que ela irá fazer algum comentário irritante e previsível sobre os meus olhos – Seu nariz é a coisa mais estranha que eu já vi.

Enquanto eu a encaro, boquiaberta, e me pergunto o motivo de essa garota que eu nunca vira na vida ter feito um comentário tão aleatório e maluco, minha chefe, Sally, surge dos fundos da loja.

— Ora ora, vejam só quem resolveu aparecer. – ela diz, com um sorriso cínico nos lábios, se aproximando – Como se sente, querida? – então passa um braço flácido ao redor de mim e consigo sentir o cheiro exagerado e enjoativo de seu perfume.

— Muito melhor, obrigada – respondo, desconfortável.

— Deixe-me apresentar você a Cheryl, a sua ex-substituta – fala, apontando para a garota, que exibe um grande sorriso para mim – Ela trabalhou tão bem no tempo em que esteve fora que eu não pude deixar de contratá-la. Além disso, vejo que o movimento da loja tem aumentado cada vez mais e que precisamos de uma mãozinha extra.

— Tenho certeza de que dou conta de todo o trabalho – digo, ofendida. Cheryl, que agora me observa, pensativa, não parece se importar com o comentário.

— Aposto que sim querida, aposto que sim. Bom, preciso ir. – Sally diz, distraída, pegando sua bolsa e se dirigindo para a saída – Bom trabalho, meninas.

— Soube que se machucou feio. – ela diz, me analisando meticulosamente, animada – Ah, droga, nem dá pra ver nenhuma cicatriz – termina, com uma careta.

— É, eu acho que não – digo, apenas. Essa menina definitivamente não é normal, penso.

— Que bom que chegou, esse lugar estava muito chato – comenta, borrifando água num vaso de crisântemos.

— É assim mesmo, uma hora você se acostuma – falo, suspirando.

— Volto em uma hora – grita Cheryl para mim, saindo da floricultura. É meio dia e ela sai para almoçar. Disse que ela podia ir primeiro, pois não estava com fome.

A manhã transcorreu sem muitos acontecimentos inéditos e recebemos uma boa quantidade de clientes. Estou sozinha na loja, analisando-a. As flores, como que reagindo à intensa chuva de luz do sol que recebem nesse horário do dia, se mostram mais bonitas, vivas e alegres que o habitual. A porta se abre, e, para a minha surpresa, vejo que é Alex. Isso faz as flores perderem todo o seu brilho para mim, perante a beleza inigualável dessa mulher.

Pega de surpresa pela sua chegada e notando o quão radiante ela pareceu ficar ao me ver pela primeira vez sem o curativo no olho, não consigo deixar de sorrir, embevecida. Ela se aproxima e fica de frente ao balcão onde eu me encontro e, com um olhar de encanto, deposita uma de suas mãos em meu rosto, analisando-o.

— Não sei como isso é possível. Mas você é ainda mais linda do que eu pensei. – diz, fazendo-me perder toda e qualquer capacidade de raciocinar. Então, mais uma vez, Alex parece analisar cada traço meu meticulosamente. Ela se aproxima do meu rosto, de forma que ele fica a centímetros do dela e passa o dedo indicador, delicadamente, ao redor de meu olho recém curado. Seu olhar encara o meu com tanta intensidade que me sinto hipnotizada. Penso que, mesmo que eu quisesse, não conseguiria desviar o olhar.

Seus olhos parecem querer dizer tantas coisas e, ao mesmo tempo, apenas me desvendar em silêncio. Reparo no quão próximas estão nossas bocas e sinto meu coração acelerar ainda mais. Penso no quão macia a boca dela parece ser. De repente, preciso lutar contra cada célula do meu corpo que deseja provar o gosto daqueles lábios vermelhos e carnudos. Estou tão mergulhada naquelas emoções que sou capaz de beijá-la a qualquer momento.

— Ele ainda dói? – Alex pergunta, de repente.

— O quê? – digo, confusa, saindo do transe. Ela retira as mãos de meu rosto, levemente corada.

— Seu olho.

— Ah, claro. Só algumas vezes – respondo, desnorteada. Nos encaramos de maneira desconfortável e um silêncio constrangedor toma conta do ambiente.

— Bem, agora que você já está melhor, – ela começa, com um tom animado – eu vim te convidar para um jantar que terá amanhã na minha casa, em agradecimento ao que você fez por mim e pela minha família.

— Um jantar? – pergunto, desconfortável, imaginando toda a sofisticação vindo de Charlie e Alex, que são extremamente ricos. Não estou nem um pouco habituada a ir em eventos formais como esse.

— Não se preocupe, apenas nós quatro iremos participar. Além do mais, Charlie está muito animado para te conhecer – ela diz, com um sorriso tranquilizador.

— Tudo bem, mas... com que roupa eu devo ir? – pergunto, sem jeito.

— Não seja boba Emma. – fala, rindo – Você ficará encantadora com qualquer coisa que usar.

— Escuta, – começo, de repente – você acha que o meu nariz é estranho?

— Claro que não. – ela responde, completamente confusa – Por que eu acharia isso?

— Por nada – respondo, distraída.

São oito da noite e estou em frente a uma das casas mais luxuosas que já vi. Usando um vestido preto de renda e um penteado simples me sinto completamente deslocada e desarrumada. O que diabos eu estou fazendo? Me pergunto, pela enésima vez na noite. Então respiro fundo e toco a campainha, fazendo um som estridente sair dela.

Alguns segundos se passam, até que o portão é aberto automaticamente. Fico um tempo me perguntando o porquê de ninguém ter atendido ao interfone para ver quem era, até que percebo que não era necessário, pois haviam me visto nas câmeras.

Caminho em direção ao longo caminho que leva até a entrada da casa quando vejo Alex saindo dela e vindo ao meu encontro.

— Emma, que bom que veio – diz, me abraçando, e, mais uma vez, seu cheiro único invade minhas narinas e me encontro anestesiada pela sensação de seu toque.

— Você está linda – digo, sem conseguir me conter. Ela está com um vestido branco encantador e uma maquiagem leve e não consigo deixar de apreciá-la.

— Eu que o diga. – ela responde, me analisando – Não sabia que você ficava tão bem de vestido.

— Tento evitar esse tipo de roupa sempre que posso – comento, enquanto andamos.

— Por que? – questiona.

— Odeio usar vestidos, sabe. Me sinto muito desconfortável.

— Pois esse ficou um luxo em você.

— Por falar em luxo, – começo – a sua casa é maravilhosa.

— Ah, obrigada. – ela responde, sem graça – Eu nunca quis uma casa tão exageradamente grande e luxuosa, mas Charlie fez questão de compra-la quando nos casamos, dizendo que era o sonho dele e tudo o mais. Mas, para falar a verdade, não conheço metade de todos esses cômodos.

— Como apenas três pessoas conseguem ocupar um espaço tão grande? – pergunto, rindo.

— Fazemos todo o possível, mas ainda assim é muito difícil – brinca – Como estão sendo os seus primeiros dias de volta à floricultura?

— Até que não tenho muito do que reclamar, sabe. Tem uma garota nova lá que é completamente sem noção. Mas não é tão ruim assim, ela até me faz rir de vez em quando.

— Vocês já ficaram amigas? – ela pergunta, com um súbito ar de curiosidade.

— Bem, eu não diria amigas, mal a conheço – digo, quando chegamos à porta e entramos. Então fico perplexa, ao ver que o esplendor presente no interior da casa superava, em muito, o do exterior.

Enormes lustres pendem no teto e móveis com uma aparência extremamente cara preenchem o espaço. Avisto Benedict sentado num sofá, conversando com um homem dono de uma postura impecável.

— Meninos, venham cumprimentar a Emma – chama Alex.

— Emma! – Benedict grita, com um enorme sorriso, correndo em minha direção. Eu lhe dou um forte abraço, percebendo que até daquele garoto eu havia sentido falta.

Então consigo ver mais claramente o homem. Vindo em minha direção, percebo que ele é dono de uma beleza estonteante. Com lisos cabelos castanhos e um maxilar definido, ele possui um ar confiante e respeitoso, dotado de um charme invejável.

— Finalmente tenho a chance de conhecer a famosa Emma. – ele diz, com um sorriso que exibe dentes brancos e alinhados, esticando a mão, que aperto em seguida – Muito prazer, sou Charlie.

— O prazer é meu – retruco. Ele tem seus olhos castanhos sobre os meus, e não desvio o olhar. Apesar de parecer um cara muito simpático, sinto que ele representa algum tipo de ameaça para mim. É como se eu estivesse frente a frente com meu grande rival.

— Emma, eu e Benedict ainda precisamos dar alguns retoques finais na comida, então preciso que você fique aqui com Charlie por um momento – Alex diz.

— Uau, vocês mesmos fizeram a comida? – pergunto, impressionada.

— Eu também teria ajudado a fazer, se não tivesse me atrasado tanto – Charlie comenta.

— Se parasse de se atrasar todos os dias, isso sim – devolve Alex, irônica, indo para a cozinha com Benedict.

— Mulheres... – ele diz, suspirando. Ele se levanta e se serve de uma bebida marrom – Whisky? – oferece.

— Não, obrigada. Não sou de beber muito – explico, olhando ao redor – Vocês têm uma bela casa.

— Obrigada. Tudo isso foi construído graças ao nosso empenho incansável em fazer um bom trabalho – ele diz, com um sorriso cansado, dando um gole em sua bebida. Noto que, apesar de sua boa aparência, ele apresenta alguns traços de esgotamento, como se estivesse exausto.

— Alex realmente me disse que vocês formam uma ótima dupla.

— É verdade. Funcionávamos como um complemento um para o outro – ele diz, pensativo, passando a mão pelos cabelos sedosos, que lhe caem sobre o rosto – Inclusive, eu ainda não te agradeci por ter salvado a vida da minha mulher – comenta, com um enorme olhar de gratidão no rosto.

— Não precisa agradecer – dispenso, sem jeito.

— Como estão os ferimentos? – ele pergunta, preocupado.

— Já estão quase completamente curados. Algumas partes do meu corpo ainda doem um pouco, mas nada com o que eu ainda não tenha me acostumado nesse último mês – digo, com um pequeno sorriso.

— Alex tem mesmo razão – ele diz, me observando.

— Sobre o quê? – pergunto, confusa.

— Você realmente é uma pessoa muito boa – responde, distante.

Antes que eu consiga responder, Alex e Benedict surgem sorridentes, segurando travessas cheias das comidas mais sofisticadas possíveis.

— Tudo estava realmente impecável, muito obrigada – eu digo, quando terminamos de comer. O jantar tinha transcorrido de forma leve e divertida, com me Benedict contando as inúmeras coisas que havia aprendido na escola.

— Que bom que gostou Emma – ele diz, ainda comendo a sobremesa, crème brulée.

— Esses dois arrasam na cozinha – diz Charlie.

— Que nada, o chef de hoje é Benedict. Ele quem escolheu todo o cardápio do jantar – Alex fala, rindo.

— Só porque eu tenho um paladar refinado – ele diz, fingindo comicamente um sotaque francês, o que faz com todos nós cairmos na risada.

— Meu Deus, nem percebi o quanto está tarde. – digo, surpresa, olhando as horas no celular – Preciso ir para a casa ou meus gatos ficarão preocupados – brinco.

— Não se preocupe, eu te levo – Alex fala, levantando-se da mesa.

— De jeito nenhum, não precisa fazer isso – digo, inconformada.

— Já está muito tarde para você ir embora sozinha. Além do mais, como minha convidada, é meu dever garantir que você chegue bem em casa – retruco.

— Ok, madame – respondo, vencida — Boa noite meninos, muito obrigada por tudo.

— Tchau Emma – diz Benedict, me abraçando bem forte.

— Obrigado pela visita – diz Charlie, com mais um cumprimento de mãos.

— Eu que agradeço.

— Tem certeza de que não quer entrar? Preciso te devolver aquela blusa de frio que você esqueceu outro dia – pergunto a Alex. Estamos dentro de seu carro, paradas em frente ao meu apartamento.

— Tudo bem então, mas eu não posso demorar. A noite está um gelo – diz, abrindo a porta.

— Vou busca-la, já volto – digo, quando chegamos em casa. Me dirijo ao meu quarto para procurar a blusa.

Acho-a bem dobrada num canto em meu guarda-roupa e volto para a sala, onde encontro Alex brincando com Apolo.

— Aqui está – falo, entregando para ela.

— Ao menos vou poder usá-la agora para me esquentar. – fala, vestindo-a. Quando ela tenta fechar a blusa, seu zíper emperra e ela tenta força-lo a subir – Que droga.

— Me deixe tentar ajudar – digo.

Tudo acontece muito rápido. Quando me aproximo dela, me abaixando para tentar arrumar sua blusa, Alex levanta a cabeça rapidamente, o que faz sua testa bater na minha e nós duas soltarmos uma exclamação de dor, rindo, em seguida, da situação cômica.

— Me desculpe, eu sou uma idiota – ela diz.

— Eu que peço desculpas – falo, sorrindo. É nesse momento que me dou conta do quão próximas nós duas estamos.

Então procuro seu olhar, que já está fixo no meu. Consigo sentir sua respiração, quente e pesada. Meu coração está batendo tão forte que, mergulhada no silêncio que paira, me pergunto se Alex é capaz de ouvi-lo. Nesse momento, ela se aproxima ainda mais de mim, o que faz com que nossas bocas fiquem a milímetros de distância. A única reação que tenho é fechar os olhos quando ela cola seus lábios nos meus.

Nada mais importa agora. Minhas tentativas de reprimir meus sentimentos por ela. As inúmeras coisas que fazem nossas vidas serem completamente diferentes uma da outra. Todas as características que fazem dela a pessoa mais improvável por quem eu poderia me apaixonar. Nada disso faz a menor diferença para mim agora. Cada parte e sentido do meu corpo estão focados nesse beijo.

Seus lábios macios e carnudos me beijam com suavidade e delicadeza. Nossos movimentos são lentos e nossas bocas, que se encaixam perfeitamente, protagonizam um beijo tímido e carinhoso. Instintivamente, entrelaço uma de minhas mãos em seus cabelos macios. Ao mesmo tempo, Alex passa os braços ao redor de minha cintura, colando nossos corpos, firmemente, intensificando o beijo.

É um sentimento único. Maravilhoso. Cada célula do meu corpo está pegando fogo e o êxtase toma conta de mim. Não fazia ideia de que era possível sentir algo dessa magnitude. Seus lábios irresistivelmente doces agora me beijam com mais velocidade, mais desejo. Deposito minha outra mão em seu pescoço, puxando-a mais para perto. Alex me aperta tão forte que, se eu não estivesse tão entregue àquele sentimento, chegaria a doer. Nossos corpos estão em uma sincronia perfeita e todos as minhas ações passam a ser guiadas pelo desejo.

Sinto que estou prestes a explodir, quando ela interrompe o beijo bruscamente e se separa de mim. No momento em que nossos lábios se descolam é que eu percebo a grande merda que acabamos de fazer. Um silêncio constrangedor paira sobre o ambiente, e eu não faço ideia do que dizer. Com as mãos sobre a testa, Alex está completamente desorientada. Meus lábios queimam com ferocidade, meu coração está disparado e parte do êxtase ainda prevalece em meu corpo.

— Alex... – eu começo, completamente perdida.

— Eu preciso ir – interrompe, pegando sua bolsa e saindo rapidamente, sem sequer olhar para mim.