A Garota do Guarda-chuva Azul
9 Capítulo 9
Alex bate a porta com força, e sou capaz de ouvir seus passos apressados descerem as escadas. Estou atônita e não consigo identificar o sentimento exato que me preenche nesse momento, pois minha mente está um grande turbilhão. Sinto que estou prestes a desmoronar, então sento em meu sofá. Sou uma enorme mistura de perplexidade, surpresa e preocupação. Inúmeros pensamentos percorrem minha cabeça.
Aquele havia sido o meu primeiro beijo. Além de nunca ter encontrado alguém que eu quisesse beijar, esse fato nunca me incomodou o suficiente ao ponto de eu ter vontade de ficar com algum desconhecido, logo pensei que meu status de boca virgem não seria alterado tão cedo. Então ele acontece dessa forma tão inesperada, intensa e confusa. A sensação dos meus lábios nos de outra pessoa foi algo muito diferente de qualquer coisa que eu já experimentei. E algo muito melhor também. Penso em como o beijo foi doce, na forma com que nossas bocas pareciam ser feitas uma para a outra e de todo o desejo que senti naquele momento. Será que todos os beijos são desse jeito? Penso, intrigada.
De repente me dou conta de que havia acabado de beijar alguém 10 anos mais velho que eu, e que esse alguém era uma mulher. Sinto um tipo de entusiasmo percorrer meu corpo, pelo fato de eu não ser do tipo que faz coisas erradas ou arriscadas como essa todos os dias e logo após me sinto culpada, pois também me lembro que Alex é casada.
Então penso em Charlie. Penso na primeira vez que o vi e no aperto de mãos que trocamos. Me lembro de sua expressão cansada quando nós dois estávamos conversando e em como ele me pareceu sincero ao me agradecer e dizer que eu era uma boa pessoa. Nesse momento, um enorme sentimento de culpa é despejado em meu peito e me sinto a pior pessoa do mundo. Errei em continuar próxima de Alex depois que me dei conta dos meus sentimentos por ela. Não deveria ter correspondido a seus olhares e devia ter me esforçado mais para deixar de gostar dela. Errei em tê-la deixado me beijar.
No meio de todos esses pensamentos, sinto um enorme desespero me invadindo. Por que eu comecei a correr atrás de um guarda-chuva e terminei me atirando da porcaria de um carro? Por que eu fiquei perdidamente apaixonada por uma mulher, de 32 anos, casada e com um filho? E por que diabos a droga do meu primeiro beijo aconteceu no meio de toda essa confusão e acabou tão mal? Qual o motivo da minha vida, antes tão patética e insuportável, de repente ter virado essa bola de neve desordenada e assustadora?
Nesse momento parece que estou prestes a explodir em milhões de pedaços e, de repente, tudo o que eu quero é colocar aquilo para fora, mas me dou conta de que não consigo chorar. Na maior parte das lembranças que tenho com meu pai durante minha infância ele estava chorando por causa da minha mãe, por nunca ter superado sua morte, e, de alguma forma, isso criou uma espécie de bloqueio em mim que me impedia de chorar. Foram raríssimas as vezes em que eu chorei durante a minha vida, e agora não é uma delas. Dessa forma, preciso guardar todos esses sentimentos dentro de mim, como de costume.
Então penso em Alex. O que aquele beijo significou? Que ela também gosta de mim? Que ela se deixou levar por um momento? Me lembro do dia em que Benedict me disse que as coisas entre ela e Charlie estavam ruins e a ideia de ela estar me usando como um escape da crise do seu casamento me vem à cabeça, fazendo-me sentir uma pontada de decepção. Depois, me lembro do nosso beijo novamente. Da forma como ela colou seus lábios nos meus, como se ela ansiasse por isso há muito tempo e da maneira como seus braços me envolviam firmemente, como se ela me quisesse colada junto a ela. Me lembro da intensidade com que ela me beijava antes de interromper o beijo, o que faz minha boca voltar a arder. De repente, um sentimento de dúvida percorre meu corpo.
Olho para o pequeno relógio localizado na parede da sala, me dou conta de que passei muito tempo pensando e que já está muito tarde. Levanto e, enquanto me preparo para dormir, me dou conta do quanto estou exausta.
É sábado de manhã e Alex e eu nos beijamos a 4 dias atrás. Aquela havia sido a última vez que nos vimos ou que conversamos. Desde então, tudo o que consigo fazer é tentar entender a loucura que minha vida virou em tão pouco tempo e pensar em um modo de fazê-la voltar ao normal. Ainda não fui capaz de absorver completamente aquele beijo, e me pergunto se algum dia serei capaz de fazê-lo.
Mal consigo dormir nesse tempo, me revirando na cama noite após noite, a pensar em todas aquelas sensações inéditas e maravilhosas que havia experimentado. Fico quase que completamente alheia a tudo e todos na floricultura e Cheryl me pergunta diversas vezes se eu estou bem. Várias vezes por dia olho meu celular, em busca de alguma mensagem ou ligação de Alex.
Não sei o que pensar. Me sinto uma péssima pessoa por ter ficado com alguém casado. Fico feliz ao pensar que Alex me beijou. Fico triste ao considerar a possibilidade de ela não sentir nada por mim. Sinto medo ao imaginar que posso nunca mais vê-la depois disso. Fico receosa ao me perguntar o que ela está sentindo agora.
Por que ela não me liga ou manda mensagem alguma? Será que ela não quer mais falar comigo? Será que ela sente raiva? Vergonha? E se, assim como eu, ela não souber o que fazer? E, pensando em todas essas coisas, eu também não tento falar com ela. Pois tenho medo, dela não me atender ou me responder. Tenho uma enorme dúvida no coração, sobre qual decisão tomar. E tenho orgulho. Tenho muito orgulho. Sempre considerei a atitude de correr atrás de alguém uma estupidez. Para mim isso não faz o menor sentido. Não vale a pena correr atrás dos outros se eles não fazem o mesmo por você. E isso vale para todas as pessoas que eu conheci. Meus familiares, quando me deram as costas. Meu pai, quando foi embora para a França. E todos os outros que tentaram se aproximar de mim mas mudaram de ideia.
E agora Alex. Seria essa situação diferente? Seria ela uma pessoa diferente? Ninguém nunca fez eu me sentir tão segura como ela faz. Ninguém nunca me tocou desse jeito. E eu jamais havia me importado tanto assim com alguém antes, então dane-se, penso, pegando meu celular e discando o número de Alex.
Nesse momento, não tenho ideia do que estou fazendo e meu coração bate a mil por hora. Coloco o telefone na orelha e aguardo. Enquanto chama, percebo que minhas mãos tremem levemente. Olho ao redor, nervosa, e avisto os gatos brincando em cima do sofá, completamente alheios à minha tensão. Já está no sexto toque quando, pensando em desistir, a ligação é atendida.
— Alô – ecoa uma voz tensa do outro lado da linha, após alguns segundos.
— Alex? – pergunto, concluindo que aquela foi uma péssima ideia.
— Sim – responde, apenas.
— Está tudo bem?
— Está sim. – diz, com a voz vacilante – E com você?
— Tudo bem – falo, e, após respirar bem fundo, termino – Escute, você não acha que precisamos conversar?
— Acho – ela diz, com mais firmeza.
— Você está livre hoje? – pergunto, mais aliviada. Ao menos a possibilidade de ela nunca mais falar comigo está descartada.
— Minha agenda está uma bagunça, mas acho que posso me encontrar com você à noite.
— Certo. Algum lugar em mente?
— Conhece o Expresso Café?
— Conheço.
— Pode me encontrar lá às oito?
— Posso.
— Marcado então – diz, apressada. Após uma pequena pausa, conclui – Tchau Emma.
— Tchau Alex – falo, desligando.
Mas que diabos foi aquilo? Pergunto-me. É como se eu tivesse acabado de marcar uma consulta no médico. Nunca havíamos tido uma conversa tão fria e indiferente. Parecíamos duas estranhas. Isso acaba comigo. Ao menos, consto, poderei ter a chance de falar com ela e tentar resolver essa situação. Mas como eu farei isso? Intrigada, e um tanto ansiosa, resolvo que o melhor a ser feito para aguardar meu encontro com ela é arrumar minha casa, que está uma enorme bagunça.
São oito e dez e lá estou eu, atrasada, correndo em direção ao Expresso Café. Ofegante, paro em frente a ele e procuro Alex. Avisto-a sentada nos fundos do café e me dirijo para sua mesa. Ao mesmo tempo em que é um lugar bastante sofisticado, também é muito simples e pequeno. Apenas algumas mesas estão ocupadas, sendo a maior parte delas por pequenos grupos de amigos ou familiares. Meu olhar para, de repente, num casal que conversa muito próximo um do outro, num tom romântico. Inexplicavelmente aquilo me deixa constrangida, o que me faz andar mais depressa.
Chego até Alex e me sento de frente para ela.
— Me desculpe. – eu digo, ainda retomando o fôlego – Tive um pequeno problema com o cano da minha cozinha e acabei me atrasando, mas vim o mais rápido que pude.
— Sem problemas. – ela responde, seca. Então, percebendo o quanto havia sido indelicada, acrescenta, mais gentilmente – Conseguiu consertá-lo?
— Quase isso – respondo, pensativa. Um misto de tristeza e decepção toma conta de mim e, de repente, tudo o que eu quero era ir para casa. Ergo os olhos e percebo que Alex está me encarando com uma expressão abatida, o que me faz pensar que, talvez, ela queira o mesmo. Reparo em sua boca, colorida por um batom vermelho intenso que a deixa ainda mais sedutora. Então, penso que, antes me beijando com tanto carinho, estão agora proferindo as palavras com demasiada frieza.
— Boa noite senhorita, aceita alguma coisa? – pergunta um garçom, se aproximando de nossa mesa. Percebo que há um drink pela metade em frente à Alex.
— Boa noite. Vou querer uma água com gás com gelo e limão, por favor.
— Claro – ele diz, saindo, apressado.
— Emma, me desculpe. – Alex, de repente, começa, pesarosa – Eu não devia ter beijado você.
— Não precisa se desculpar por isso – começo, constrangida – Aquilo foi...
— Um erro – Alex completa, rapidamente. Nesse momento, sinto como se ela tivesse me dado um soco no estômago.
— Exatamente. Era isso o que eu iria dizer – minto, fingindo uma expressão de alívio. Sinto um peso enorme no peito, como se meu coração pesasse uma tonelada.
— Ótimo. – ela diz, soltando um suspiro. Nesse momento, o garçom retorna com minha água.
— Obrigada – digo, quando ele se afasta, bebendo um pouco da água.
— Eu preciso te dizer – começa Alex, ansiosa — que o motivo de eu ter feito essa loucura é que as coisas entre mim e Charlie não andam nada boas. Durante esse tempo em que nos conhecemos, nós nos aproximamos cada vez mais, e, naquela noite, no momento em que eu percebi o quão próximas nós estávamos quando você me ajudou com a blusa, eu creio que meu cérebro deve ter pensado que beijar você agiria como uma válvula de escape para todo o estresse que estou passando com o meu marido. Então, quando me dei conta, eu já estava te beijando, e tudo o que eu pude fazer foi me afastar – ela diz tudo initerruptamente, como se já tivesse decorado todo aquele discurso.
— Entendo – eu disse, lentamente, enquanto ela virava todo a bebida presente em seu copo. Nesse momento, só quero que um buraco se abra sob meus pés, que eu caia nele e possa ficar lá para sempre. Era como eu havia pensado. Só havia sido usada por ela como uma fuga de seu casamento em crise. Sinto como se meu coração tivesse sido partido em milhões de pedaços ao constar que aquele momento, tão único e especial para mim, havia sido apenas uma fuga para ela. Tento, ao máximo, manter uma reação tranquila e complacente em meu rosto.
— Quero que saiba que eu amo o meu marido e que eu jamais pensaria em traí-lo – ela diz, séria.
— Não, claro não – é tudo o que consigo responder.
— Além disso, você não precisa se preocupar, pois eu não sinto a menor atração por mulheres e nunca fiquei com nenhuma – diz, então completa, sem graça, após alguns segundos – Além de você, é claro.
— Não se preocupe com isso Alex – digo, tomando um grande gole da minha água.
— E eu realmente quero deixar bem claro que eu não sinto absolutamente nada por você além de uma enorme gratidão pelo que fez por mim e um grande sentimento de amizade – fala, me analisando.
É como se o mundo ao meu redor estivesse desmoronando. Estou sem chão. Estou sem reação. De repente, minha boca fica extremamente seca, e tudo o que consigo fazer é encarar meu copo vazio, abstraída. Alex, percebendo que eu não tinha o que dizer, completa, cuidadosamente:
— E, Emma... eu realmente queria que nós pudéssemos manter a nossa amizade, pois você é muito especial para mim.
Então, após ouvir aquilo, todas as palavras que procuravam minimizar aquelas que, antes, despedaçaram meu coração, sinto a raiva percorrer meu corpo.
— Fico muito feliz em saber seus sentimentos por mim. – começo, erguendo a cabeça, com um sorriso amargo nos lábios. A irritação toma conta de mim, e, nesse momento, quero que Alex pense que ela é completamente insignificante para mim – Afinal, estava com medo de que esse fosse mais um dos casos onde eu precisasse explicar que não sinto nada. O bom de não ter ninguém na minha vida é a capacidade de não me apegar às pessoas e de não gostar delas, sabe.
Então observo sua expressão, e, para a minha surpresa, vejo um misto de espanto e decepção preencher seu rosto.
— Mas, naturalmente, podemos continuar a conversar se você quiser. Não seria um problema da minha parte, pois eu jamais me interessaria por uma mulher – termino, com um sorriso de satisfação no rosto. Alex está com um olhar de tristeza nos olhos, abaixados.
— Bom, – ela começa, recompondo-se – fico feliz que conseguimos esclarecer as coisas.
— Eu também – concordo, engolindo em seco.
— Olha, preciso ir. Ainda tenho alguns assuntos pendentes para hoje – ela diz, se levantando – Vou pagar a minha parte no caixa agora, tudo bem? – pergunta, com um tom ansioso.
— Claro. Boa noite Alex – respondo, encarando-a.
— Boa noite – diz, dando as costas para mim e indo pagar sua conta.
Quando ela sai do café, me desmonto na cadeira e começo a sentir o ar se esvaindo de meus pulmões. Em seguida, uma grande tonteira toma conta de mim e é com muito esforço que consigo pagar minha parte e ir embora.
Chego em casa e afundo em minha cama. Uma profunda mágoa reside em meu coração. A decepção toma conta de mim e, de repente, me sinto a pessoa mais solitária do mundo. Sinto-me completamente desprotegida e exposta e sinto medo.
O mundo é horrível e assustador. Viver é horrível e assustador. Porém, muito pior do que essas coisas é o sentimento de esperança que eu comecei a semear quando conheci Alex. A esperança de que as coisas mudariam para a melhor. A esperança de que ela era diferente dos outros. A esperança de que eu finalmente pudesse ter alguém em minha vida. Mas hoje, senti que havia sido cortada ao meio quando ela me disse todas aquelas coisas. Todos os momentos que tivemos. Todos os olhares que trocamos. Cada sensação exasperadora sentida a cada toque dela. Tudo isso parece nunca ter acontecido um dia.
Sinto uma imensa vontade de chorar, mas, novamente, não consigo. Então, tudo o que consigo fazer é abraçar meu travesseiro com toda a força que consigo e fechar os olhos. Me sinto tão pequena. Tão insignificante. Nesse momento, tudo o que eu quero é nunca mais abrir os olhos novamente. Gostaria de ser tomada pelos braços da morte e dormir profundamente até o fim dos tempos.
As falas de Alex vêm em minha mente. Erro. Válvula de escape. Amo meu marido. Não sinto a menor atração por mulheres. Não sinto absolutamente nada por você. Enorme gratidão. Grande sentimento de amizade. Elas vêm até mim como uma sequência de facadas rápidas e profundas. Mas, afinal, o que eu esperava que ela fizesse? Largasse o marido dela porque, subitamente, ficou apaixonada por uma menina de 22 anos? Ela está certa. A única errada nessa história sou eu, por ter sido estúpida o suficiente para ter chegado a pensar que ela poderia sentir qualquer coisa por mim. Nesse momento, me sinto uma grande idiota. Como eu pude chegar a ter esperanças de que alguém finalmente teria aparecido na minha vida para ficar?
Então me lembro da irritação que tomou conta de mim quando ela me disse aquelas coisas. De todas as coisas cruéis que eu falei, apenas para machucá-la. E me lembro do quão triste ela pareceu ficar depois disso, mesmo tentando disfarçar. De repente, começo a me sentir mais idiota ainda. Como eu pude ser tão babaca e infantil com Alex? Como eu me deixei levar tão facilmente pela raiva?
Me recordo do quão estranhas parecíamos uma para a outra. Do modo como ela me encarava, como se nunca tivesse me visto antes. Como as coisas serão daqui para a frente? Penso, preocupada. Será que realmente voltaremos a ser amigas? E, se voltarmos, as coisas não ficarão estranhas entre nós? São com esses pensamentos rondando minha mente que eu adormeço, mergulhando em um sono profundo.
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