A hora seguinte foi ocupada pela dra. Penny, que me mostrava os inúmeros exames realizados em mim antes e depois da cirurgia, bem como o significado deles, os pontos positivos e negativos. Além disso, ela também me informou de todos os tratamentos que terei de realizar, as precauções que devo tomar, os remédios e as datas em que terei de retornar ao hospital para realizar mais exames e acompanhamentos e o tempo, em média, que cada uma das lesões vai demorar para se curar. Em todos esses processos, Alex esteve presente, com a mesma expressão preocupada.

— Então, como se sente? – ela pergunta, quando volto a me deitar na cama do quarto e a dra. Penny nos deixa sozinhas.

— Cansada. Todas essas informações me deixaram confusa, e está sendo muito difícil andar com apenas uma perna e um olho – digo, e, percebendo o quanto aquela última parte me parecera incomum, solto uma risada abafada.

— Olha, eu ainda não tive tempo de dizer, — ela começa, com uma expressão séria – mas eu me sinto verdadeiramente grata pelo que fez e quero que saiba que realmente sinto muito por ter causado todos esses danos a você.

— Não se preocupe com isso, de verdade – digo, olhando em seus olhos. Ficamos nos encarando por alguns segundos e, novamente, seu olhar é profundo como as águas de um oceano, mas agora parece dizer um milhão de coisas. Pensativa, olho para baixo e percebo que há um anel muito bonito em sua mão esquerda, realçado por unhas longas e muito bem feitas – Muito bonito seu anel.

— Ah, é minha aliança de casamento. – ela diz, distraída – Eu e Charlie somos casados há seis anos. — de maneira inexplicável, o fato de ela ser casada me incomoda levemente naquele momento – Temos um filho chamado Benedict. Inclusive, era com ele que estava conversando, no momento do acidente – termina, um pouco constrangida pelo último comentário.

— Verdade? Quantos anos ele tem? – pergunto, tentando amenizar o clima.

— Cinco anos. É um menino muito lindo e esperto – fala Alex, com o rosto subitamente iluminado – Ele e meu marido vieram aqui sexta-feira, mas só eu pude entrar. Então tenho vindo aqui sozinha.

— Você veio me visitar todos esses dias? – pergunto, incrédula.

— Mas é claro que vim, não te deixaria aqui sozinha. – ela responde, com um tom levemente ofendido, como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo a se fazer – Eu teria passado a noite com você, se não fosse pela insistência irritante do meu marido sobre eu precisar descansar – completa, revirando os olhos.

Alguém demonstrar tanto cuidado por mim é algo completamente inusitado e surpreendente. Meu coração fica inquieto, como se não soubesse o que sentir após uma demonstração de preocupação. Fico pensativa, tentando entender o motivo que leva uma desconhecida a fazer isso por mim. Será culpa? Talvez medo?

— Escute, – começa, devagar, como se estivesse prestes a me contar que alguém acabou de morrer – me perdoe se eu estiver sendo muito intrometida, mas realmente não há ninguém para quem você queira ligar? Como seus pais? – termina, apreensiva.

— Bem, vamos ver. – começo, rindo intimamente por todo o receio que ela demostra – Minha mãe morreu, logo após o meu parto e, por isso, a família dela nunca teve muito interesse por mim. Meu pai me odeia, por eu ter sido, de certa forma, a causa de morte da mulher de sua vida e, atualmente, mora na França com sua 2° esposa e apenas se comunica comigo no meu aniversário, quando me manda um cartão com a foto da Torre Eiffel. E sobre a família dele prefiro nem comentar. Não tenho absolutamente ninguém, além de dois gatos que encontrei na rua, que, inclusive, acabei de me lembrar, estão sem comida desde sexta e eu não faço ideia de como, mas eu preciso ir para o meu apartamento agora – termino, sentindo um leve pânico me invadir ao pensar neles em pele e osso, se decompondo no chão da minha sala, Começo a ficar um pouco desesperada. Meu dia havia sido tão cheio e confuso que eu havia me esquecido completamente deles.

Não tenho como definir a expressão exata que compõe o rosto de Alex. Parece uma mistura de choque, pena, tristeza e perplexidade.

— Tudo bem. – ela diz, mais para si mesma. Ela parece estar se recompondo e assimilando a situação – Se quiser, eu posso ir até a sua casa e dar comida para os seus gatos – ela me encara, ainda incerta sobre o que acabou de dizer.

— Não precisa se dar ao trabalho. Posso pedir uma de minhas vizinhas para fazer isso, elas podem pegar a chave do meu apartamento com a síndica. – digo, um pouco mais calma – Pode pegar minha mochila, por favor?

— Claro – ela diz, se esticando para pegá-la numa mesa que está ao seu lado. Em seguida me entrega.

Encontro meu celular, que, de fato, não apresenta a menor notificação além da que me avisa que a bateria dele está fraca. Ligo para uma das senhoras do meu andar e, após responder a um interrogatório a respeito do acidente, ela concorda em alimentar meus gatos e depois me dar notícias sobre o estado em que se eles se encontram.

— E então? – pergunta Alex, quando ponho o telefone de volta na mochila.

— Agora é esperar para saber se estão vivos – digo, mordendo o lábio, preocupada.

— Escute, – ela diz, pegando minhas duas mãos e se aproximando de mim. Começo a sentir um estranho formigamento pelo meu corpo – vai dar tudo certo. Tenho certeza de que eles são fortes e que estão mais preocupados com você do que com fome.

— Eu deveria me sentir melhor depois disso? – pergunto, com um pequeno sorriso.

— Ah, bom... – responde, pensativa. Então, subitamente, como se tivesse acabado de se lembrar de algo, segura minhas mãos com um pouco mais de força – Suas mãos estão muito frias. Desde que peguei nelas na ambulância percebi que estavam assim. – e, passando as mãos, levemente, sobre meus braços, fazendo meu formigamento aumentar consideravelmente, completa, temerosa – Na verdade, seu corpo inteiro está desse jeito.

— Não se preocupe. Essa sempre foi a temperatura natural do meu corpo – respondo.

— É sério? – ela pergunta, intrigada – Você sabe o motivo?

— São os genes que herdei da minha família por parte de mãe. Não se sabe ao certo, mas os médicos dizem que meu cabelo acinzentado e a cor dos meus olhos são um distúrbio genético, mas minha baixa temperatura nunca conseguiu ser explicada – conto.

— Isso é incrível – ela diz, com um sorriso.

— Meu pai sempre dizia que eu era idêntica à minha mãe. Talvez esse seja um dos motivos para ele me odiar tanto – comento, pensativa. Ficamos alguns minutos e silêncio, cada uma mergulhada em seu pensamento.

— Seu olhar está sempre tão triste – comenta, me encarando. Em seguida, coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e, levemente, acaricia a lateral de meu rosto com as costas da mão. Ela parece distraída e, perdida em seus pensamentos, me observa.

Novamente, só consigo voltar minhas atenções para seu toque, que se mostra tão macio e reconfortante. Afinal, na maior parte do tempo, não gosto de ser tocada. Tento ao máximo evitar fazer contato físico com as pessoas, apesar de que nem preciso me esforçar tanto, pois já não acontece naturalmente. Durante alguns segundos permanecemos imersas em nossos pensamentos, mergulhadas no olhar uma da outra. De súbito, Alex assume um ar confuso e retira sua mão de meu rosto. Nesse momento, eu também me assusto e volto à realidade. Nós duas nos mostramos constrangidas, como se tivéssemos acabado de fazer algo errado.

— Me desculpe, – começa, sem graça – não sei o que deu em mim.

— Tudo bem – respondo. Um silêncio desconfortável se instala no quarto e ela se levanta da cadeira.

— Deve ter sido um dia longo e exaustivo para você, então vou te deixar descansar. Se importaria se eu viesse te visitar amanhã? – questiona, mordendo seu lábio inferior num gesto de apreensão.

— Seria ótimo – respondo, deixando escapar um sorriso que tentara prender para não demonstrar a estranha alegria que sinto ao constar que a verei novamente.

— Que bom. – diz, retribuindo o sorriso. Ela se aproxima de mim, um pouco sem jeito – Até amanhã – E deposita um beijo suave em minha bochecha, fazendo meu coração bater a mil por hora. Então se afasta lentamente de mim, não antes de trocarmos um olhar rápido, profundo e indecifrável.

Ela sai do quarto sem que eu retribua a despedida, pois, ao tentar respondê-la, percebo que estou sem fala.