A Garota do Guarda-chuva Azul
4 Capítulo 4
Alguns minutos após a saída de Alex minha vizinha liga para avisar que meus gatos estão apenas um pouco fracos, que comeram como loucos e que ela colocou o equivalente a um mês de ração e água para eles. Isso me faz ficar um pouco mais aliviada, apesar de saber que precisarei ficar no hospital por apenas mais duas semanas.
Então ligo para a minha chefe e explico toda a situação, dizendo que não poderei trabalhar por cerca de um mês e meio e ela diz, a contragosto, que arrumará uma substituta para mim nesse tempo e que preciso melhorar o quanto antes. “Boa ideia. Para falar a verdade, não é tão divertido assim me recuperar de um atropelamento quanto eu tinha pensado”, penso em responder, irritada, mas digo apenas que vou fazer o possível, agradeço e desligo.
Mal consigo dormir à noite, pois, além de sentir muitas dores pelo corpo, tenho minha cabeça ocupada por inúmeros pensamentos. Ainda não consigo assimilar todos os acontecimentos e me dou conta do quão radical e inesperadamente minha vida mudou por causa de um simples guarda-chuva. Noto que ele não está entre os meus pertences e concluo que provavelmente o perdi para sempre. Isso me deixa um pouco triste, pois sinto que uma pequena parte de mim foi levada com ele pela chuva.
Quando tento pegar no sono, as imagens da sexta-feira anterior aparecem em minha mente. Me lembro do momento em que acordei, completamente indisposta para encarar mais um longo dia de trabalho. Recordo-me de limpar, apressadamente, a caixa de areia de Ártemis e Apolo, meus gatos. Prendi meus cabelos em um coque desleixado e saí quase atrasada, como de costume. Em seguida, me lembro de quando meu guarda-chuva travou: o momento em que tudo estava prestes a mudar.
Por fim, desisto de tentar pegar no sono, e começo a pensar em Alex. Recapitulo tudo o que senti ao vê-la, todas as conversas que tivemos e os olhares que trocamos. Tento me lembrar até do menor dos traços de seu rosto. A única conclusão em que consigo chegar é que eu tenho uma conexão inexplicável com ela. Apenas isso.
Finalmente consigo dormir e embarco em um sono leve por algumas horas. Acordo pela manhã com George trocando minha bolsa de soro e, em seguida, aplicando mais do colírio em meu olho e trocando o curativo. A pior parte é quando ele, após retirar o curativo do meu braço e revelar uma parte dele em carne viva, aplica um spray cicatrizante que, apesar de, segundo ele, curar o ferimento com a metade do tempo, causa o dobro de dor.
— Não se preocupe – ele diz, com um sorriso – a primeira semana é sempre a mais difícil, mas depois você acaba se acostumando e a dor fica mais suportável.
— Espero que sim – respondo, com uma careta, após olhar mais uma vez para o ralado assustador no meu braço, que ficará exposto a partir de agora.
A parte da manhã transcorre sem muitos acontecimentos inéditos, a não ser pelo café da manhã mais sofisticado que já havia comido, mesmo que com dificuldades, que me fez perceber que aquele era, de fato, um hospital renomado. Ele havia sido trago por uma enfermeira de aspecto cansado, acompanhada de um homem de meia idade que se apresentou como o cirurgião que retirou o estilhaço do meu olho. Então, enquanto eu comia, ele me explicou seus procedimentos e o quão baixo era o meu risco de desenvolver alguma complicação. Além disso, ele também mencionou os cuidados que eu deveria ter com ele e que, uma vez curado, meu olho não apresentaria nenhuma cicatriz externa, para o meu alívio.
Após um almoço igualmente refinado, estou vendo a um programa de esportes na televisão assustadoramente grande do meu quarto quando escuto uma batida na porta fechada. Imagino que Alex tenha finalmente chegado, sentindo meu coração começar a se agitar. Após, inexplicavelmente, dar uma ajeitada rápida nos meus cabelos, dou permissão para entrarem e murcho completamente ao constar que Sally, minha chefe, é quem veio me visitar.
— Emma, minha querida, olhe só para você – ela finge um ar de pena, enquanto analisa cada parte do meu corpo com seus olhinhos pequenos, para se certificar de que eu estou realmente machucada o suficiente para me ausentar no trabalho por mais de um mês – Como está?
— Olá Sally. – cumprimento, forçando um sorriso – Me sinto um pouco melhor hoje, obrigada.
— Bom, bom. – ela diz, observando o quarto com um súbito interesse – Vejo que você deve ter uma boa quantia reservada para emergências, não é mesmo? Nunca vi hospital mais chique, deve ser uma fortuna – diz, olhando para mim com uma curiosidade aparente.
— Na verdade, – começo, falando o mais docemente que consigo, ao invés de mandá-la para o inferno e perder meu emprego — quem fez questão de pagar por todas as minhas despesas médicas foi a Alex, a mulher...
— Por quem você pulou na frente de um carro, entendo. – ela completa, com um sorriso sínico nos lábios, enquanto eu resolvo pegar um copo de água em cima da mesa e beber dele, para tentar me acalmar – Naturalmente, é o mínimo que ela poderia fazer. Mas, me diga, o que passou pela sua cabeça quando você decidiu arriscar sua vida por alguém que nunca viu na vida? – pergunta, de um modo sarcasticamente casual, fazendo-me engasgar e precisar tossir algumas vezes, resultando em uma dor aguda no abdome, ainda dolorido, que finjo não sentir.
— Eu não poderia deixar alguém morrer na minha frente e não fazer nada para evitar – respondo, finalmente.
— Então você decide morrer no lugar da pessoa? Muito heroico da sua parte – comenta, me observando.
— Obrigada – respondo, depositando o copo vazio na mesa.
— Bom, preciso ir – ela diz, fazendo-me comemorar internamente – Só queria ver como você estava, após realizar um ato tão nobre. – e, exibindo outro sorriso cínico, completa – mas eu ainda preciso achar uma substituta para você, então tenho muito trabalho a fazer.
— Tudo bem, muito obrigada pela visita – digo, quase expulsando-a do quarto.
— Reze para que ela não seja tão boa a ponto de eu acabar te demitindo e contratando-a. Ora, vamos Emma, é só uma brincadeira. – ela fala, após ver minha cara de incredulidade – Jamais demitiria uma funcionária que atrai tantos clientes por causa da beleza exótica de seus olhos. Inclusive, preciso que leve essas duas safiras azuis para trabalhar quando estiver boa, ouviu? – diz, dando um grande ênfase na palavra “duas” e sai, batendo a porta.
Fico a tarde inteira me alternando entre assistir à uma maratona de filmes policiais e alguns episódios de um desenho infantil. Não presto atenção a nenhum deles, de fato, pois meu pensamento está focado na visita de Alex, que, a cada hora, me parece mais improvável de acontecer.
Já está quase anoitecendo, quando decido admitir a derrota e aceitar que ela não virá. Deve estar ocupada, penso, cabisbaixa, ou deve ter se esquecido. Porém, me dou conta do quanto minha atitude está sendo ridícula. Afinal, qual o sentido em ansiar tanto pela visita de uma pessoa que mal conheço? Então, após me repreender mentalmente por estar agindo de um jeito tão inexplicavelmente carente de atenção e mudar de canal novamente, ouço uma leve batida na porta.
— Pode entrar – digo. Mais remédios chegando, penso, com uma careta.
Quando a porta é aberta, sento abruptamente na cama, surpresa. Alex está me encarando do lado de fora do quarto, com uma expressão de curiosidade cobrindo seu rosto.
— Nossa, eu te assustei tanto assim? – ela pergunta, rindo, entrando lentamente. Ela está mais deslumbrante que o dia anterior, usando roupas coladas no corpo, próprias para praticar exercícios físicos e seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo, o que realça ainda mais os traços de seu rosto. A roupa justa exibe um corpo extremamente bem definido e invejável, e olho para suas pernas por um tempo maior do que eu gostaria.
— Não, claro que não. – minto. Meu coração está disparado e, perto dela, me sinto completamente feia, desarrumada e acabada – É que eu pensei que você não viria mais, então fiquei surpresa quando chegou – solto, sem querer. Não é a minha intenção deixá-la ciente de que esperei por ela, pois isso parece estranho.
— Ah, me desculpe. – diz, com um sorriso tímido — Acabei de sair da academia. Tive um dia super cheio, você não faz ideia – termina. Sua aparência, apesar de indiscutivelmente impecável, revela algumas linhas de cansaço e isso faz eu me sentir culpada, por um momento, por esperar tanto dela.
— Olha, se estiver muito cansada ou ocupada, eu entendo se quiser ir embora. Pode me visitar depois – falo, mesmo estando intimamente receosa.
— Tá brincando? Mal podia esperar para ver você – responde, e, enquanto sinto uma pontada de felicidade pela última frase, ela se aproxima de mim e me abraça.
No início, a sensação de estar sendo abraçada é quase que desconhecida para mim. Porém, quando sou envolvida pelos seus braços e ela me leva, gentilmente, para perto dela, até meu rosto ficar a centímetros de seu pescoço e eu conseguir sentir seu cheiro, um perfume floral irresistivelmente doce, sinto que poderia ficar para sempre dentro daquele abraço e que, desde que eu estivesse nele, estaria segura.
Seu corpo é quente e macio e tenho vontade sentir cada parte dele. Involuntariamente, passo meus braços em volta de sua cintura e devolvo o abraço. Sinto como se meu corpo estivesse em chamas, e tudo o que eu quero é que aquele momento não acabe. Alex, que, no início, me segurava com delicadeza, suponho eu, devido ao fato de meu corpo estar um pouco dolorido, agora me aperta um pouco mais, como se quisesse intensificar o ato. Fecho meus olhos, para apreciar, inteiramente, essa sensação inédita e maravilhosa.
Então nos separamos. Extasiada, ainda estou tomada por todos aqueles sentimentos que experimento. Quando nos soltamos, sinto que uma parte de mim vai embora com ela.
— Então, – ela começa – estava conversando há alguns minutos com a dra. Penny e ela me disse que seria muito bom para você se eu te levasse para tomar um ar lá fora, no jardim do hospital. O sol já está se pondo, então penso que ele deve estar ainda mais lindo agora. O que acha? – ela pergunta.
— Acho uma ótima ideia, mas não sei como conseguir andar nesse estado e não acabar me machucando mais – brinco, um pouco temerosa.
— Mas é claro que eu irei te ajudar. Meus olhos e pernas estarão à sua disposição – diz, e nós duas rimos.
— Tudo bem então. – digo, me preparando para descer da cama, enquanto Alex pega minhas muletas – Mas se você me deixar cair não será perdoada.
— Minha querida Emma, – Alex diz, ficando de frente para mim e me fazendo corar – eu prometo que irei te proteger, com a minha vida, até o fim dos tempos – e, rindo, pega minhas mãos – Preparada?
— Preparada – falo, começando a descer da cama. Quando finalmente estou de pé, tento dar um passo na direção dela, mas me desequilibro e acabo tropeçando. Isso leva Alex a me puxar para a frente, para me dar estabilidade, fazendo meu rosto ficar quase colado no dela e nossas bocas estarem a centímetros de distância, como se estivéssemos prestes a nos beijar.
Alex, que passou a segurar minhas mãos com muita força quando quase caí, com uma expressão de susto, deposita suas mãos em minha cintura, e me leva para junto dela, para que eu não volte a me desequilibrar, e nossos corpos ficam colados. Nossos olhos se encontram e, mais uma vez, parecem querer dizer um milhão de coisas. Estamos tão próximas, que, por mais que meu coração esteja batendo incessantemente, consigo sentir batidas rápidas e fortes vindo de seu peito esquerdo.
— Você não me deixou cair – eu sussurro, com um sorriso tímido.
— Sempre cumpro minhas promessas – devolve, com um olhar penetrante. Nossos corpos continuam muito próximos, e consigo sentir seu hálito quente e doce e, por um instante, olho para seus lábios carnudos e sinto um enorme desejo de sentir o gosto deles. Então, volto à realidade, perplexa, e me distancio o suficiente para dizer, num tom forçadamente descontraído:
— Se continuarmos abraçadas por muito mais tempo vamos acabar perdendo o pôr do sol.
— Droga, tem razão – ela diz, rindo. Enquanto uma de seus braços permanece firmemente em minha cintura, ela estende a outra mão e pega as muletas, entregando-as a mim com muito cuidado.
Quando eu finalmente consigo me apoiar nelas, começo a caminhar, lentamente, com a ajuda de Alex, até que consigo deixar o quarto, ligeiramente ainda tomada pelo súbito desejo de beijá-la.
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