Havia acabado de chegar na porta de entrada da casa de Alex. Enquanto espero por sua chegada reparo que, em meio aos tantos carros que se encontram estacionados ao redor da mansão, uma quantidade significativa deles se mostra cara e luxuosa. Isso faz eu me perguntar se estou arrumada o suficiente. Estou levemente nervosa, levando em consideração o fato de que conhecerei toda a família de Alex e todas as outras pessoas importantes da vida dela.

— Emma! Finalmente chegou, já estava ficando preocupada que pudesse não vir – Alex exclama, animada, ao abrir a porta. Em seguida, me analisando, completa, maravilhada — Como você consegue ficar ainda mais linda a cada dia que eu te vejo?

— Até parece, você quem está lindíssima hoje – devolvo. Ela está radiante, e, usando um vestido que realça as belas curvas de seu corpo, está ainda mais sensual que de costume.

– São seus olhos. – brinca, sem graça — Entre, fique à vontade.

Quando eu entro, ela fecha a porta. O pequeno corredor que liga a porta de entrada ao resto da casa está vazio, fazendo com que, de certa forma, estejamos sozinhas nesse momento.

— Bem, – começo, me aproximando dela, com um sorriso – feliz aniversário Alex.

— Obrigada Emma – fala, enquanto nos abraçamos. Seu abraço, como de costume, é apertado e maravilhoso.

— Espero que goste – digo, quando nos separamos. Entrego-a uma pequena caixinha lilás.

— Quero que saiba que o melhor dos presentes é ter você aqui, comigo – ela fala, com um olhar intenso dirigido a mim, o que me faz esquecer de respirar por um momento.

Ela abre a caixinha e tira um delicado cordão de ouro. Uma pequena pedra verde emoldura seu centro.

— Emma, – exclama, boquiaberta – esse colar é espetacular.

— Escolhi esse porque ele tem a exata cor dos seus olhos – explico, aliviada por ela ter se mostrado tão contente perante meu presente. E, de fato, o verde escuro intenso que a pedra possui é exatamente mesmo da a cor dos olhos cortantes de Alex.

— Isso deve ter custado uma fortuna – considera ela, olhando para mim, preocupada.

— Não se preocupe com isso, sério – falo.

— Tenho que admitir que foi um dos colares mais lindos que já ganhei. – comenta, entregando-me ele – Pode colocar para mim?

— Claro – respondo, enquanto ela se vira para mim. Noto que o vestido, aberto na parte de trás, revela quase toda a região de suas costas. Engulo em seco, pois aquela visão é realmente sensacional.

Ela coloca o cabelo para trás, e eu posiciono o colar em seu pescoço. Enquanto prendo o colar noto o quanto sua pele é bonita e me lembro do quão quente e macia ela é. Sinto um impulso de beijá-la, mas me controlo. Estamos tão perto uma da outra que certamente Alex é capaz de sentir minha respiração tensa e pesada em sua nuca. Nesse momento, ela se vira lentamente, o suficiente para que nossos rostos fiquem muito próximos. Olhando para seus olhos sedutores, percebo que eles analisam minha boca meticulosamente, enquanto meu coração quase sai do peito.

— Vejam só. – alguém exclama entrando no corredor. Rapidamente saímos daquele transe e nos posicionamos mais distantes uma da outra. Então eu percebo que é Charlie quem caminha, sorridente, em nossa direção – A querida Emma finalmente chegou.

— Oi Charlie – cumprimento, estranhando. É impressão minha ou ele foi sarcástico em sua última frase? Penso, analisando-o. Ele coloca firmemente um braço ao redor de Alex, que tem uma expressão ansiosa no rosto.

— Querido, olhe este colar maravilhoso que ela me deu – ela mostra, sorridente.

— Impressionante – ele diz, me encarando em seguida, estreitando os olhos, como se quisesse segurar a irritação – Contou a ela qual foi o meu presente para você?

— Ah, sim. – começa, animada – Charlie me deu um carro novo. Ele é fantástico.

— Jura? – pergunto, verdadeiramente impressionada.

— Com certeza. E pode apostar que ele é um dos mais caros do mercado — ele diz, com superioridade, ainda me observando.

— Isso não vem ao caso, Charlie – argumenta Alex.

— Seus convidados estão esperando amor – desconversa ele. Em seguida, dá um demorado selinho em Alex e sai, não sem antes me dirigir um último olhar. Ela me parece desconfortável.

— Vamos, quero te apresentar para todos – diz, com repentina alegria, pegando minha mão e me levando com ela.

Enquanto andamos até os convidados, sinto um enorme ciúme me preenchendo. Estava extremamente satisfeita, pensando que eu havia dado um presente maravilhoso, até saber que o seu marido perfeito lhe dera a porra de um carro caríssimo, algo que eu jamais seria capaz de fazer, visto que ainda não consegui comprar um carro nem para mim mesma, mesmo já tendo tirado carteira de motorista aos 18. Mas, afinal, isso não faz a menor diferença. Sei que Alex ainda assim não ficaria comigo caso eu tivesse muito dinheiro como Charles. Há inúmeras outras coisas que eu não posso dar a ela que não estão relacionados a isso.

E o modo como ele falou comigo. A maneira como me olhava e como a beijou. O que esse cara está querendo provar? Será que ele estava nos observando desde que cheguei? O que ele deve ter pensado? São essas e mais muitas outras perguntas que atordoam minha mente quando entramos em um enorme salão, preenchido por cerca de 60 pessoas. O quão grande é essa casa? Acabo me perguntando, impressionada.

Em seguida, Alex me apresenta a todos os convidados, um por um. Passamos por alguns membros de sua família e seus amigos. Todos eles me parabenizam pelo meu ato de salvá-la, o que me faz ficar um pouco sem graça, principalmente pelo fato de a maioria deles ter feito alguma observação sobre meus olhos, abismados.

— Não posso deixar de te apresentar à minha melhor amiga – Alex começa, estendendo o braço para uma mulher de traços asiáticos e cabelos negros e curtos, que sorri animadamente para mim.

— Prazer, Emma. Sou Norma. – ela cumprimenta, me dando um abraço rápido.

— O prazer é meu – respondo, sorrindo. Ela parece ser extremamente simpática.

— Ela fala muito mesmo sobre você – comenta Norma, casualmente, sobre um olhar censurador de Alex.

— Eu não faço isso, Emma. – ela retruca, envergonhada – Quero dizer, é claro que eu falo sobre você, mas não exageradamente.

— Claro. – Norma ironiza – Uau! Você mandou fazer esse colar Alex? – pergunta, admirada, olhando para o cordão no pescoço de Alex.

— Foi um presente de Emma. – responde, com um enorme sorriso – Não é deslumbrante?

— Certamente! A pedra dele é exatamente igual à cor dos seus olhos – fala Norma, boquiaberta, alternando seu olhar entre o colar e o rosto ainda mais sorridente de Alex. Não consigo evitar de sorrir, contente.

— O que eu posso fazer se essa garota tem o dom de me conquistar? – pergunta, distraída. Enquanto, involuntariamente, eu paro de respirar, noto que Norma tem uma das sobrancelhas arqueadas e um pequeno sorriso em seus lábios, como se estivesse se segurando para não dizer algo que Alex pudesse repreender — Venha, vou te mostrar o resto do pessoal – completa, pegando-me pela mão novamente, me dando tempo de apenas acenar para Norma, em despedida e vê-la retribuir, ainda mantendo a mesma expressão.

Então, após um garçom me oferecer uma taça de vinho, e eu recusar educadamente com o estômago começando a embrulhar novamente, Alex termina de me apresentar aos convidados. Variam entre colegas de trabalho, incluindo alguns membros muitíssimo importantes da empresa e a família de Charlie, juntamente com seus amigos. Eles, igualmente, me congratulam pelo meu ato, dizendo que sou uma grande heroína e comentam sobre “a beleza única da minha aparência”. Nesse ponto, não sei como minhas bochechas ainda não pegaram fogo, tamanho o constrangimento que me invade.

— Alex, você não deveria fazer de mim o centro das atenções na sua própria festa de aniversário – falo.

— Bobagem. Você é tão linda que, mesmo se eu não quisesse, ainda assim seria o centro das atenções – devolve, me observando, distraída. Sinto uma descarga elétrica percorrendo meu corpo e tudo o que sou capaz de fazer é encará-la, muda – Ainda falta mais uma pessoa – diz, saindo de seu transe e, entrelaçando seus dedos nos meus novamente, me leva em direção à uma senhora.

— E, finalmente, esta é minha tia Michonne, aquela de quem lhe falei que cuidou de mim depois que meus pais morreram – explica, abraçando-a gentilmente, refletindo todo o carinho que ela tem para com ela. Ela aparenta ter cerca de 60 anos.

— Que bom finalmente te conhecer, minha querida – ela fala, me olhando com uma expressão de afeto no rosto, o que faz meu coração se enternecer levemente.

— Digo o mesmo – respondo, sorrindo.

Outro garçom me oferece uma bebida, que logo penso em recusar, imaginando ser alcoólica, quando percebo que é suco e mudo de ideia, pegando a taça animadamente.

— Emma! – grita uma criança, correndo em minha direção. Logo percebo ser Benedict e lhe dou um abraço apertado, feliz por tê-lo reencontrado.

Passo as horas seguintes acompanhando Alex, que faz questão de me manter ao seu lado, para o meu alívio. Seria realmente desconfortável para mim ficar sozinha nesta festa, onde apenas três pessoas não são desconhecidos para mim, mesmo que todos os convidados pareçam, de fato, simpáticos.

Ela se alterna em grupos de convidados e consegue manter uma conversa agradável e divertida com todos, sempre mantendo sua postura impecável e, ao mesmo tempo, sua simplicidade. Percebo que ela não é como outras pessoas muito ricas que passam as horas a se vangloriarem de seus bens e de produtos caros adquiridos recentemente. Extremamente inteligente que é, conversa sobre diversos assuntos de âmbito cultural, social e política. Então me lembro do quão surpreendente ela consegue se mostrar mesmo quando penso que conheço todas as suas incontáveis qualidades.

Por mais incrível que isso pareça para mim, também participo da conversa algumas vezes, dando minha opinião e acrescentando alguns fatos. Mas, na maior parte do tempo, tudo o que consigo fazer é me controlar e ir contra o impulso que tenho de observá-la sem cerimônias e apreciar sua infinita beleza, tanto exterior quanto interior. Acabo reparando também, em alguns momentos, que Charlie nos observa ao longe, discretamente, enquanto conversa com outros convidados, como se estivesse nos vigiando. Aquilo me incomoda demasiadamente e me pergunto aonde ele quer chegar.

Todos os convidados se reúnem em volta de uma grande mesa de vidro onde se encontra um grande bolo. Estou no meio deles, enquanto Alex se encontra de frente para os convidados, ao lado de Benedict, radiante, e sendo abraçada por um Charlie aparentemente feliz e sorridente. Nesse momento, enquanto eles sorriem para as fotos, reparo no quanto eles parecem uma família absolutamente perfeita. Sendo os dois um casal espetacularmente bonito, Alex e Charlie passam a imagem de que estão vivendo seus melhores dias no casamento. Eles dão mais um selinho demorado. Isso me faz, automaticamente, desviar o olhar de modo discreto.

Em uníssono e com muita animação, todos começamos a cantar “Parabéns pra você”. Quando a música acaba, Alex deixa Benedict soprar todas as velas. Com muito esforço ele tenta apaga-las, mas muitas ainda ficam para trás. Com uma careta, ele pede para a mãe terminar para ele, o que faz todos darem risada.

— E o primeiro pedaço vai para – Alex começa, após cortar o bolo, dando uma pequena pausa para provocar suspense – Emma!

Pega completamente de surpresa, sou aplaudida por todos. Completamente envergonhada, caminho até Alex, que me entrega o pedaço, sorridente.

— Não precisava fazer isso – comento, com uma risada nervosa.

— É claro que precisava. – ela começa – Nada disso seria possível sem você, Emma. Lhe sou eternamente grata por ter salvado a minha vida, e, acima de tudo, por você ser esse ser humano maravilhoso e digno de todo o meu respeito.

Os convidados aplaudem mais uma vez e Alex deposita um beijo suave em minha bochecha, fazendo-me sentir um formigamento na região de meu rosto tocada por seus lábios.

Quando acabo de comer o bolo, olho para Charlie e percebo uma sombra de irritação passar por seu rosto. Ele não olha para nenhum lugar em especial e parece estar mentalmente muito distante. Algum tempo depois ele se aproxima de Alex, que conversa com algumas pessoas, e fala algo em seu ouvido. Ela fala qualquer coisa para o grupo e, com uma expressão de naturalidade no rosto, se retira do salão acompanhada por Charlie.

Intrigada, fico pensando em possíveis assuntos sobre os quais ele poderia querer falar com ela. Percebo que minha bexiga está muito cheia, visto que havia bebido muitos copos de suco.

— Oi de novo. – digo à Michonne, que está sentada em uma cadeira e sorri, em resposta ao meu cumprimento – Por acaso, você sabe onde é o banheiro? – pergunto.

— Olá querida! Minha sobrinha pequena acabou de ir ao banheiro desse andar com a mãe, então creio que você pode usar o banheiro do andar de cima – explica.

— Ah, sim. Muito obrigada – agradeço, me retirando do salão.

Quando chego ao andar de cima da casa é que percebo que não perguntei aonde fica o banheiro. Terei que procurar em toda essa imensidão de cômodos até encontrar, penso, desanimada. Ao menos ele parece estar totalmente vazio, então ninguém me verá andando pela casa como se eu fosse uma enxerida.

Estou procurando o banheiro há alguns minutos quando ouço vozes vindo de um cômodo com a porta fechada. Uma repentina curiosidade me invade e, de repente, me vejo caminhando até a porta, para tentar identificar as vozes.

— Você realmente está com ciúmes da Emma? Como isso é possível? – exclama uma voz irritada e, boquiaberta, logo a identifico como de Alex.

— Como isso é possível? Você ficou agarrada com aquela menina a festa inteira, e depois ainda tem a coragem de dizer que “nada seria possível sem ela”! – fala outra voz igualmente brava, que percebo ser a de Charlie.

É isso mesmo o que está acontecendo? Eles estão brigando por minha causa? Penso, petrificada. Sou incapaz de sair dali e, cuidadosamente, colo minha orelha na porta, para ouvir melhor.

— “Aquela menina” pulou na frente de um carro para salvar a minha vida e você fica chateado por eu não a deixar sozinha em uma festa onde eu mesma a convidei e dar pra ela o primeiro pedaço de um bolo? – ela pergunta – Não acredito no quanto você está sendo infantil.

— Eu? Infantil? – Charlie quase gritava – Dou minha vida por essa família todos os dias e o que você faz? Fica mais feliz com um colar idiota do que com o carro que eu te dei, que custou uma nota.

— E você acha que eu não dou tudo de mim também? Além disso, você sequer se deu ao trabalho de considerar que, talvez, eu não precisasse de outro carro, porque o que eu tenho já me serve muito bem. Simplesmente pensou que, por ser algo bonito e caro, como sempre faz questão de ressaltar, eu iria gostar – Alex fala, quase tão alto quanto ele, parando apenas para tomar fôlego — Acontece que a Emma, diferente de você, que não passa de um insensível, presta atenção em mim. Ela me deu algo único e especial, enquanto você comprou a primeira coisa que viu na frente – termina. Meu coração bate a mil por hora.

— Porque Emma isso, Emma aquilo. Quer saber Alex? Você brigava comigo o tempo inteiro, dizendo que eu estava distante, mas assim que conheceu essa Emma você não dá mais a mínima para mim. Fala nela a todo momento, sai frequentemente para visita-la e sempre está nas nuvens quando chega em casa depois disso. E eu vejo o modo como olha para ela, Alex. Como parecer engolir aquela garota com os olhos. Você jamais olhou pra mim desse jeito, nem quando começamos a namorar – ele diz, com amargura na voz. Alex não diz nada, então ele continua – Sabe, eu estava realmente tentando, queria salvar o nosso casamento. Mas hoje, depois de tanto tempo, eu finalmente percebi o que está acontecendo. Você está apaixonada por uma menina. Uma menina, Alex! – grita Charlie – Ela tem o que, vinte e poucos anos? Qual é o seu problema?

— Chega, ok? – ela grita de volta – Hoje é a merda do meu aniversário e eu não quero brigar com você. Tem convidados nos esperando lá fora – termina, abaixando a voz.

— Tem razão. Mas, antes disso, quero que me responda uma coisa. Uma única pergunta – começa ele, lentamente — Você está apaixonada por ela, Alex? – pergunta, temeroso, fazendo-me entrar em pânico.

— Estou – ela responde, após alguns segundos em silêncio, fazendo meu coração parar de bater por um instante.

Começo a sentir uma enorme tontura e sinto-me prestes a desabar a qualquer momento. Preciso ir embora daqui agora, penso. Saio o mais silenciosamente possível de perto do cômodo e tudo o que consigo fazer é correr em disparada para a porta que leva para fora da casa. Minha visão está manchada por alguns pontos pretos quando eu passo correndo pelo portão que está quase se fechando, após um carro ter acabado de sair.

Então, no meio da madrugada, me vejo correndo desesperada pelas ruas.