A Garota do Guarda-chuva Azul
14 Capítulo 14
Chego em casa e bato a porta de entrada, ofegante. Correndo, consegui reduzir pela metade o tempo que gasto da casa dela até a minha. Nesses 10 minutos em que passei na rua, forcei cada célula do meu corpo a focar exclusivamente na minha chegada ao apartamento, o que fez com que eu não pensasse em absolutamente nada. Porém, nesse momento, minha cabeça está à mil por hora. Um milhão de coisas preenchem minha mente.
Tento focalizar em uma coisa de cada vez. Ainda estou atônita e sinto ainda mais tontura, o que me faz deitar em meu sofá e fechar os olhos. Consigo respirar mais facilmente, então me concentro em organizar meus pensamentos. O que preenche meu corpo agora é o mesmo choque que senti quando Alex havia me falado, no café, que não sentia nada por mim. Porém, ao invés de ser acompanhado por tristeza, raiva e decepção, como naquela vez, uma enorme alegria o segue. Nunca havia sentido uma
felicidade tão grande me invadir, o que chega a me assustar um pouco.
A mulher por quem eu sinto algo que jamais pensei ser possível acabou de admitir que está apaixonada por mim. Penso, chocada, não conseguindo deixar de sorrir. Mas e aquele papo de que ela não sentia nada por mim? Então ela mentiu esse tempo todo, concluo. Mas por que ela faria isso? Porque pensa que eu não sinto o mesmo? Porque acha que isso não é certo? Porque ela não quer acabar com seu casamento? É tudo uma confusão, então desisto de tentar adivinhar o motivo.
É algo muito inusitado para mim. Por mais que eu quisesse que ela sentisse algo de fato por mim, eu sabia que as chances de isso ser verdade eram quase impossíveis. Depois daquela noite no café, minhas esperanças foram ainda mais reduzidas. Ela é uma mulher inteligente, linda e bem sucedida, com um marido bonito e carismático e tem um filho maravilhoso. Por que diabos ela sentiria qualquer coisa que fosse por alguém como eu?
Me lembro de Charlie e de como ele estava diferente hoje. Quando o conheci ele foi tão educado, gentil e simpático. Conversamos a sós por alguns minutos e ele me transmitiu um olhar tão verdadeiramente agradecido que não consigo acreditar que ele realmente seja aquele cara que eu vi e ouvi na noite de hoje. Eu entendo toda a raiva e ciúme dele. Eu provavelmente também ficaria desse jeito se estivesse em seu lugar.
Reparo no quanto ele parecia cansado nessas duas vezes em que nos vimos. Ele parecia exausto. Nesse momento, sinto um pouco de culpa. Isso não é certo. E não me parece justo. Será que eu sou a errada da história, por me meter assim no casamento dos outros? Afinal, eles haviam acabado de brigar por minha causa. O que eu deveria fazer? Recusar suas visitas? Parar de ligar para ela? Teria algo que eu pudesse ter feito para impedi-la de se apaixonar por mim?
Mas por que estou desse jeito? Não é como se Alex tivesse acabado de largar o marido para ficar comigo. Ela apenas disse que gosta de mim, mas eu sei que, apesar de tudo, ela ainda ama o Charlie. Coisas assim acontecem em casamentos, mas vários casais conseguem dar a volta por cima. Fora que Alex quer que eu pense que não sinto nada por ela, então isso possivelmente quer dizer que ela não pretende ter nada comigo além de amizade.
E agora? Penso, confusa. Eu devo fazer alguma coisa? Eu poderia ligar para ela e dizer: Oi Alex, eu estava ouvindo a briga de vocês atrás da porta e ouvi muitas coisas interessantes. Melhor fingir que não sei de nada. Meu coração bate, animadamente, como se eu tivesse acabado de ganhar na loteria, e, de repente, fico com medo. E se isso, na verdade, não dar em nada eu acabar sozinha outra vez? Respirando fundo, tento manter a calma e controlar minha felicidade. Não adianta nutrir esperanças agora. Tudo o que me resta é esperar.
Levo um susto quando meu celular começa a tocar e dou um pulo do sofá. Quem diabos está me ligando numa hora dessas? Penso. Pego-o, e, com um enorme peso na consciência, vejo que é Alex. Saí tão desesperada e pensei em tantas coisas desde que cheguei que acabei me esquecendo de que ela não deve ter a menor ideia de onde eu estou.
— Alô? – atendo, receosa.
— Emma? Onde você está? Aconteceu alguma coisa? – ela pergunta, preocupada.
— Não, está tudo bem. Já estou em casa, não se preocupe. Acontece que eu comecei a me sentir um pouco indisposta e resolvi ir embora. Quando fui me despedir de você eu não te encontrei, então acabei indo – minto, constrangida.
— Mas que merda Emma. Você quase me matou de susto – fala, com alívio na voz.
— Me desculpe, sério – peço.
— Então você começa a passar mal na minha casa e a sua grande ideia é sair por aí no meio da madrugada e ir sozinha para casa? – pergunta, levemente irritada.
— Acredite, eu precisava tomar um ar. Além disso, você estava ocupada na hora, então não teria como me levar para lugar nenhum – explico. Não consigo deixar de notar o quanto sua preocupação comigo é encantadora.
— É, bem... – ela começa, sem jeito – eu estava resolvendo um pequeno problema, mas não era nada de mais.
— Tudo bem. Conseguiu resolvê-lo? – não consigo deixar de perguntar, curiosa.
— Digamos que ele seja um pouco complexo – fala.
— Entendo. – digo, pensando em algo para dizer – Sua festa foi incrível.
— Muita gentileza, vindo de quem acabou de fugir dela. – brinca – Mas obrigada por ter vindo, Emma, de verdade. Não sabe o quanto eu amo estar perto de você.
— Eu que agradeço. – digo, engolindo em seco por sua última frase – Boa noite, Alex – é o que digo, apenas.
— Boa noite, Emma – responde, desligando.
Pensativa, olho as horas. Lembrando que trabalho amanhã, começo a me arrumar para dormir.
Alguns dias se passam e todo o contato que tenho com ela acontece através de mensagens. Nossas conversas são curtas e rápidas. Ainda não consigo trata-la normalmente depois de tudo o que ouvi da conversa dos dois e noto que ela também se mostra um pouco distante de mim depois disso.
Até que, numa quarta de feriado, recebo uma ligação de Benedict. Ele, extremamente animado, informa que Alex o está levando ao parque de diversões hoje e que ele queria muito que eu fosse com eles. Animada, aceito o convite na mesma hora e eles me buscam de tarde.
— Oi gente – cumprimento, quando entro no carro.
— Oi – devolve Alex, sorrindo, beijando meu rosto. Ela parece ter voltado a ser a mesma de sempre, o que me tranquiliza. Estava muito receosa com como ela poderia me receber, depois das mensagens relativamente frias que trocamos.
— Ei Emma! – exclama Benedict, em seu booster seat no banco de trás.
Observo Alex discretamente, enquanto ela dirige e noto, maravilhada, que ela usa o colar que eu dei ela e no quanto ele a deixou ainda mais bonita.
— Esse carro é mesmo muito bonito. – comento, impressionada. Observo-o, e concluo que o presente de Charlie realmente deve ter sido muito caro, pela quantidade de botões e funções que possui.
— É sim. – ela fala, simplismente, parecendo um pouco desconfortável.
— Animada para andar em todos os brinquedos, Emma? – Benedict pergunta.
— Pode apostar que sim – respondo, animada. Eu sempre adorei ir nos brinquedos mais radicais dos parques, justamente pela adrenalina que causam em mim.
— Maravilha. – diz Alex – Porque eu estarei muito bem observando vocês em um algum banco, que é um lugar extremamente seguro, confortável e baixo.
— A mamãe morre de medo de altura, então nunca vai nos brinquedos comigo – explica ele.
— Exato – ela fala.
— Pois eu aposto que dessa vez você vai – digo, sorrindo maliciosamente.
— Isso nunca vai acontecer Emma – ela diz, confiante.
— Veremos – concluo.
Quando chegamos ao parque de diversões, Benedict corre em disparada em direção à montanha russa.
— Eu ainda preciso comprar seus tíquetes! – grita Alex para ele, que já está longe – Esse menino... – termina, desistindo de chama-lo e se dirigindo à bilheteria.
Eu e Benedict passamos as horas seguintes indo em todos os brinquedos que conseguimos, enquanto Alex apenas nos observava alegando que tinha que fazer ligações relacionadas à empresa por algum motivo relacionado à entrada de um novo sócio. Teve apenas uma vez em que ela foi ao Trem Fantasma com Benedict, que saiu de lá segurando o choro.
A tarde estava sendo extremamente divertida e empolgante. Nunca pensei que eu, que costumava odiar crianças, fosse capaz de me divertir tanto com uma. Apesar de realmente ter me divertido, fiquei levemente triste por não ter ido em nenhum brinquedo com Alex, que ficou ao telefone na maioria das vezes, com uma expressão séria e conversando em uma língua estranha.
— Sua mãe fala mais de um idioma? – pergunto a Benedict, no fim da tarde, enquanto estamos indo ao encontro de Alex.
— Ela também fala alemão. Os caras da empresa sempre pedem a ajuda dela pra resolver essas coisas fora do país — responde com simplicidade, terminando seu sorvete de baunilha.
— Você realmente é um garotinho bem inteligente, sabia? – digo, surpresa.
— Sabia – devolve, sorrindo, exibindo dentes de leite brancos e alinhados. Mais uma vez, não consigo deixar de reparar no quanto aquele menino é fofo e sinto uma grande afeição por ele dentro de mim.
— Vocês já querem ir embora? – Alex pergunta, desligando o telefone, quando chegamos até ela.
— Ainda não mamãe. – ele diz – Quero ir em só mais um brinquedo. Acontece que ele é pra ir sozinho, então vocês duas podem me esperar.
— Vou pensar no seu caso – ela brinca.
— Escuta, – começo, tendo uma ideia – vamos ter que esperar você por muito tempo?
— Ele é meio demorado – ele responde.
— Sendo assim, — começo, virando-me para Alex – que tal se você for comigo na roda gigante enquanto isso?
— Roda gigante? Nem pensar? – ela fala, aterrorizada.
— Vai mamãe, vai ser super divertido – diz Benedict.
— Estarei com você o tempo todo. – argumento – Além disso, é super seguro e você pode fechar os olhos até terminar se ficar com medo.
— Não sei não – ela me encara, desconfiada.
— Você consegue! – encoraja Benedict, correndo em direção ao seu brinquedo.
— Vamos, ele tem razão – falo, pegando-a pela mão e indo para a roda gigante.
Não há ninguém na fila, então podemos entrar assim que chegamos. Entrego meus últimos dois tíquetes, nos sentamos na cabine e um homem encaixa nossos cintos de segurança. Olho para Alex, que está muda, e percebo que seu rosto perdeu a cor e tem uma expressão de pânico.
— Ei, calma. – peço, começando a considerar a ideia de ela começar a passar mal. Ela permanece exatamente como estava, então delicadamente pego sua mão – Olhe só para isso, sua mão está mais gelada que a minha – brinco, fazendo-a relaxar um pouco e deixar transparecer um pequeno sorriso.
O brinquedo começar a funcionar e, quanto mais alto ficamos, mais ela tenciona seu corpo. Quando estamos numa altura considerável, ela fecha os olhos com força e aperta fortemente minha mão.
— Alex, – começo, calmamente, depositando minha mão livre em seu rosto pálido e aproximando meu rosto do seu – olhe para mim.
Com muita dificuldade, ela finalmente abre seus olhos e deposita seu olhar no meu. Estamos a centímetros de distância e tudo o que eu vejo são seus olhos verdes e cortantes.
— Está tudo bem. Eu nunca deixaria nada de ruim acontecer com você – digo, acariciando a lateral de sua face.
Em seguida, enquanto trocamos mais um daqueles olhares profundos e indecifráveis, todo o medo presente em sua expressão dá lugar à tranquilidade. Respirando fundo, ela para de apertar minha mão, entrelaçando seus dedos nos meus e olha lentamente para frente.
Nesse momento, estamos no topo da roda gigante. Banhada pelo pôr do sol, a vista está particularmente espetacular. Devido a altura em que nos encontramos, é possível ver uma paisagem ampla e deslumbrante, integrada por parte da cidade composta apenas por casas simples e pequenas e montanhas ao longe.
— Emma, – ela começa, maravilhada – isso é incrível!
— É lindo, não é? – pergunto, distraída, mergulhada em seus traços que parecem ainda mais bonitos contrastados pelo suave pôr do sol.
— É sim – responde, feliz, enquanto apoia a cabeça em meu ombro e me abraça, ainda observando a paisagem.
Sinto como se ela estivesse me dando choque, pois uma carga de eletricidade extraordinária passa pelo meu corpo. Passo meu braço ao redor dela, deixando-nos ainda mais unidas. E é nesse exato instante, com essa cena estonteante de fundo e com Alex em meus braços que tenho certeza de que amo essa mulher mais do que qualquer coisa no mundo.
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