A Garota do Guarda-chuva Azul
7 Capítulo 7
Os 30 dias restantes para a minha recuperação completa se passam com uma velocidade surpreendente. Vou ao hospital algumas vezes, para realizar alguns procedimentos de análise, e, apesar de conseguir concluir todas as leituras que estavam pendentes desde o ano passado, o tédio triunfa em praticamente todos os dias, salvos aqueles em que Alex, sempre muito atarefada, me visitas.
Decidida a lutar contra meus sentimentos inaceitáveis por ela, durante todas as vezes em que nos vimos, faço todo o possível para não devolver seu olhar carregado, reparar demais nas curvas de seu corpo ou acabar falando coisas que não devia. Depois que dançamos, mais nenhum outro contato físico ocorre entre nós, para meu alívio, além de abraços de despedida, que, por mais rápidos e simples que fossem, não deixam de me provocar arrepios.
Quanto mais conversamos, mais divertida e encantadora ela se mostra. Ela é uma mulher realmente muito inteligente e empoderada, o que torna ainda mais difícil deixar de gostar dela. Em todas as suas visitas, eu procuro alguma evidência que torne possível a possibilidade de ela sentir algo por mim, mas não encontro nada suficientemente sólido. Nada suficientemente real. Nenhum gesto ou expressão dela que não possa ser justificados pelo sentimento de gratidão que ela tem por mim. E isso dói. Sinto como se algo dentro de mim tivesse murchado. Mas é melhor assim, penso. Saber que meu amor não é recíproco deixa as coisas mais fáceis. Mais simples. Agora sei que seremos apenas amigas e nada mais.
Houve apenas um dia nesse mês em que eu considerei a hipótese de ela sentir algo a mais por mim. Já fazia cerca de três semanas que eu estava em casa, quando, numa tarde, assistindo a um programa de culinária, ouvi meu celular tocando. Peguei-o e vi que era Alex, o que me deixou um pouco ansiosa.
— Alô? – atendi.
— Oi Emma, como vai? – ela disse, num tom agitado.
— Estou bem, e você?
— Bom, estou com um pequeno problema. – começou, receosa – Benedict já saiu da escola, mas ainda estou aqui na empresa, pois surgiu uma reunião de emergência. Não tem ninguém na minha casa agora, então você pode cuidar dele por algumas horas? Não te pediria isso se não fosse urgente, eu juro.
— Claro que eu posso, meu dia estava mesmo muito parado – respondi, fingindo entusiasmo. Na verdade, eu não fazia ideia de como tomaria conta de uma criança de 5 anos que mal conheço com uma perna quebrada e um olho enfaixado.
— Nossa, muito obrigada mesmo Emma. Eu espero não estar incomodando você, mas ele é um menino muito bem comportado e eu tenho certeza de que ele não te causará problemas.
— Acredite, não está incomodando – respondi, levemente aterrorizada.
— Vou levar ele na sua casa, devo chegar aí daqui a uns 10 minutos.
— Tudo bem – disse, desligando em seguida. Olhei ao meu redor, percebi que minha casa estava completamente desorganizada e fiquei em pânico.
Então, havia arrumado tudo o que pude e dado um aspecto razoável à casa quando o interfone tocou. Abri a porta e lá estavam os dois: um Benedict extremamente sorridente e uma Alex sem graça e apressada.
— Aqui está o meu rapazinho – ela disse, sorrindo, e, virando-se para ele, completou – Comporte-se ouviu?
— Já sei mamãe – ele falou, revirando os olhos.
— Muito obrigada mesmo Emma. Não devo demorar para buscá-lo.
— Sem problemas – eu disse.
Quando ela foi embora, Benedict entrou e eu fechei a porta.
— Então garotinho, como você está? – pergunto, cautelosa.
— Estou bem. Fiquei feliz quando a mamãe disse que me levaria pra sua casa – respondeu, com um sorriso. Então eu pude, mais uma vez, ver o quanto ele era parecido com Alex, e isso me tranquilizou um pouco.
— Que ótimo. O que você está afim de fazer? Está com fome?
— Estou sim. O que eu queria mesmo era comer um bolão de chocolate.
— Olha, eu não tenho nenhum bolo. E os da padaria perto do meu apartamento são muito ruins, então temos que pensar em outra coisa.
— Ué, nós podemos fazer um – ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Sou péssima na cozinha – retruco, com uma
— Sempre cozinho com o meu pai, posso te ensinar. Não tem segredos, sabe – falou, com naturalidade. Foi aí que, com um sorriso, eu percebi que aquele garoto era tão único e encantador quanto sua mãe.
— Você é quem manda, chefe – eu falei, rindo.
Demoramos cerca de uma hora e meia para terminar o bolo. Ele se mostrou um cozinheiro excelente, para uma criança de cinco anos, me instruindo em todas as etapas e me dando várias dicas de culinária, enquanto eu me atrapalhei consideravelmente, por causa de minha perna e meu olho. Apesar de, no começo, pensar que sua vinda havia sido uma péssima ideia, eu acabei me divertindo de forma surpreendente.
— Acho que fizemos um excelente trabalho – disse Benedict, quando começamos a comer o bolo.
— Apoiado – concordei, mastigando.
— Sabe, acho que a mamãe ficou mais feliz depois do acidente – ele comentou.
— Por que você acha isso? – perguntei, surpresa.
— Porque, desde que te conheceu, ela tem andado mais animada – respondeu, colocando um grande pedaço de bolo na boca.
— Olha, eu tenho certeza de que isso não é por minha causa – respondi, após ficar alguns segundos em silêncio, sem saber o que responder.
— É sim Emma. – retruca, com a boca cheia – Ela fala em você o tempo todo, e sempre volta pra casa mais feliz quando te visita.
— An... sei – respondo, confusa.
— Ela e meu pai têm andado brigando muito ultimamente, então fico feliz em saber que ela tem uma amiga de quem gosta tanto.
— Pelo que eles brigam? – perguntei, sem conseguir conter minha curiosidade.
— Não sei direito. – respondeu, dando de ombros – Alguma coisa relacionada ao trabalho deles e em como estão distantes um com o outro.
— Entendi. – disse, sem graça – E como você se sente sobre isso?
— Ah, fico meio triste, mas eu sei que isso é coisa de gente casada – respondeu, simplesmente, pegando outro pedaço.
— Ei, vai com calma, garoto. Já está no seu terceiro pedaço – alertei, preocupada.
— Não posso fazer nada se está muito gostoso.
Passamos o resto da tarde vendo um filme sobre uma formiga falante e acabamos pegando no sono.
Só acordei quando o interfone tocou, um pouco mais tarde. Então percebi que havia abraçado Benedict e que ele dormia profundamente. Com cuidado e o mais silenciosamente que pude, considerando que eu estava com uma perna quebrada, saí do sofá e abri a porta para Alex.
— Então, como foi? – perguntou, quando chegou ao meu andar. Ela tinha uma expressão muito mais tranquila no rosto.
— Foi ótimo. Ele é um menino maravilhoso – respondi, sorrindo.
— Fico feliz em saber, estava preocupada.
— Parece ser uma babá tão ruim assim, Alex? – perguntei, fingindo estar ofendida.
— Muito engraçado – ela respondeu, entrando.
— Ele acabou dormindo, enquanto víamos um filme. Fizemos bolo de chocolate mais cedo e guardamos para você – disse, indo pegar a vasilha onde eu havia guardado os pedaços restantes.
— Pelo visto se divertiram bastante, você até conseguiu fazer ele dormir à tarde – comentou, sorrindo, enquanto observava Benedict no sofá.
— Acho que eu acabei me divertido mais do que ele – comentei, entregando a vasilha para ela, que a abriu e examinou o seu conteúdo.
— Está com uma cara ótima.
— Você quer que eu o acorde? – perguntei.
— Não precisa, eu levo ele no colo – Alex respondeu, guardando a vasilha em sua grande bolsa.
— Mas ele não está muito pesado?
— Já estou acostumada, não se preocupe – refutou, pegando-o cuidadosamente.
Levei-a até a porta, enquanto ela o carregava.
— Muito obrigada mesmo Emma, você é o máximo – ela disse, sorrindo. Naquele momento, eu pensei em abraça-la, para me despedir, mas, lembrando-me do meu objetivo de acabar com meus sentimentos amorosos, apenas sorri e disse:
— Não foi nada.
Eram dez da noite, quando eu me revirava na cama, sem sono e pensativa. Eu me peguei, pela enésima vez, pensando em toda a história em que eu tinha me metido. Pensei no meu dia com Benedict e no quanto foi bom ficar com ele. E pensei em Alex. Lembrei do quão bonita ela estava quando apareceu na minha porta, para busca-lo, e que queria ter conversado mais com ela hoje.
Foi então que percebi, atônita, o que eu estava sentindo. Saudades. Eu estava sentindo a falta de Alex. O que será que ela está fazendo agora? Será que está muito tarde para eu mandar uma mensagem?, pensei, distraída. Não, nada disso, repreendi-me. Ela já deve estar dormindo a essa hora. Entrei em seu contato no WhatsApp, e, desapontada, vi que ela estava offline.
Então olhei para sua foto no perfil. De óculos escuros, abraçando Benedict, que, alegre, tomava um sorvete, ela exibia um sorriso radiante. Admirava a foto por mais alguns segundos, resolvendo desistir daquela ideia maluca, quando Alex ficou online. Com o coração disparado, pensei no que eu poderia escrever para ela que pudesse justificar uma mensagem vinda de mim tão tarde da noite.
— Oi Alex. Benedict está bem?
Mandei, me sentindo a pessoa mais estúpida de todos os tempos em seguida. Como eu pude fazer algo tão idiota?
— Boa noite Emma! Eu estava mesmo pensando em você, rsrs.
— Ele está ótimo. Não parou de falar em você o dia inteiro. Pelo visto você conquistou o coraçãozinho dele.
— Acredite, ele quem me conquistou.
— O bolo estava ótimo, inclusive .
— Eu apenas segui ordens. Benedict quem fez todo o trabalho kkkk.
— Ele arrasa na cozinha. É quase melhor do que eu.
— Uau, tem alguma coisa em que vc não seja boa?
— É uma ótima dançarina, boa cozinheira, uma mãe maravilhosa...
— Não se esqueça da minha habilidade impecável de nunca te deixar cair.
— Eu não contaria com isso.
— Vc só consegue me pegar no último segundo, haha.
— É só para dar uma emoção a mais.
— Tenho todo o controle da situação, imagine.
— Não se preocupe Alex.
— Seu segredo está guardado comigo .
— Estou contando com isso, rs.
— Mas, sério, obrigada mesmo.
— Obrigada por tudo. Nem sei como te agradecer.
— Não precisa me agradecer.
— Você já é o suficiente.
E, mais uma vez, eu me senti uma idiota por ter mandado aquilo. Ela demorou um tempo para responder, o que me fez pensar que ela pudesse não ter gostado da mensagem.
— Acredite, você merece muito mais do que apenas eu, rsrs.
— Eu não quis dizer nesse sentido.
— Quer dizer.
— Disse no sentido de que vc continuando viva já seria o suficiente pra mim.
— Não de um jeito que eu tivesses vc.
— Vc entendeu né?
—Nossa, me desculpe.
— kkkkkk.
— Eu já disse o quanto eu te acho maravilhosa?
Corando, eu não sabia o que dizer.
— Acho que não né, haha.
— Então eu digo.
— Você é a pessoa mais única que eu conheço.
— Isso deveria ser algo bom?
— Eu amo o seu sorriso.
— E amo ouvir sua voz.
— Então isso deve ser algo bom, sim.
Nesse momento, meu coração batia tão forte que achava que ele estava prestes a explodir.
— Pois eu preciso dizer que, perto de vc, eu sou apenas um inseto.
— Não tenho a menor chance contra vc kkkk.
— Não precisa ser educada só porque eu te elogiei, engraçadinha.
— Vc é quem não precisa ser modesta.
— Já está bem tarde. Você não deveria estar indo dormir?
— Olha quem fala. Vc quem trabalhou o dia todo.
— Mas, de qualquer forma, estou indo mesmo.
— Boa noite, Alex.
— Tem razão, estou exausta.
— Boa noite, Emma.
Desliguei o celular, pensativa. Me lembrei de Benedict, dizendo que ela ficava mais feliz, sempre que me via e que ela ficou mais animada depois que me conheceu. E o que todas aquelas declarações significavam? De que ela amava meu sorriso, amava minha voz...
Uma espécie de dúvida preencheu meu coração. Não fazia sentido ela fazer e sentir todas aquelas coisas se não estivesse apaixonada por mim também. Porém, nada impedia que aquilo fosse apenas um grande sentimento de amizade. Não havia nada de errado em se alegrar mais ao ver uma amiga ou de gostar de algumas de suas características.
Voltei a ter certeza de que não era correspondida, e, mais uma vez, fiquei pra baixo. Olhei pela minha janela e vi a lua, grande, prateada e redonda. Me peguei imaginando o porquê de tudo aquilo. O porquê de eu estar viva, de minha mãe ter morrido e de eu ter sido sempre tão sozinha. Um enorme e conhecido vazio tomou conta de mim. Então acabei pegando no sono, sentindo-me completamente oca por dentro.
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