Droga, me esqueci de comparar os preços dos desinfetantes, penso, revirando os olhos. Já é noite e eu estou no supermercado fazendo algumas compras. Por mais que eu tente, não consigo prestar a menor atenção no que estou fazendo, pois minha mente está quase que totalmente concentrada em digerir os acontecimentos de algumas horas atrás.

Ainda não consigo me dar conta de que eu e Alex nos beijamos e me pergunto se aquilo foi mesmo real. Porém, nesse momento, sinto uma leve ardência em minhas costas e acabo me convencendo em seguida, pois me lembro que, quando havia tirado minhas roupas para tomar banho depois de chegar em casa e me olhei no espelho notei, boquiaberta, que profundos riscos vermelhos coloriam minhas costas. Nós estávamos tão mergulhadas naquele momento que tanto ela não percebeu que estava me arranhando daquele jeito, quanto eu apenas fui capaz de ficar ainda mais excitada com o gesto, ao invés de sentir dor. Me dou conta de que, na verdade, tudo aconteceu desse jeito. Com selvageria. Ânsia. Desejo. Nos beijávamos como se nossas vidas dependessem disso.

Enquanto caminho distraidamente pela seção de frios arrastando meu carrinho praticamente vazio, me lembro da forma com que Alex me beijava. Da maneira como ela demonstrava toda a sua paixão e todo o seu carinho com um único gesto. Me recordo do quão intensamente ela me beijava e do quão insaciável era seu desejo.

De repente, a sensação de que jamais me entreguei ou me entregarei dessa maneira a outra pessoa invade meu coração e me lembro do quão abdicada eu estava naquele momento. Me recordo do quão apaixonadamente eu a beijava e do desejo colossal que sentia por aquela mulher. Então me pego pensando que, de fato, a vida é completamente imprevisível. Há alguns meses atrás eu jamais consideraria a possibilidade de, agora, eu ter acabado de me agarrar com uma mulher casada e 10 anos mais velha que eu. Encaro a prateleira de nuggets e decido levar apenas um pacote dessa vez.

Enquanto procuro, contra a minha vontade, alguma verdura “comestível”, a cena de Alex me mandando ir embora vem em minha mente. Sou forçada a admitir que o modo como ela praticamente me expulsou da casa dela me deixou um pouco chateada. Mas, afinal, não é como se, ao invés disso, ela devesse ter me convidado para um café. Eu a entendo. Compreendo bem que as coisas para ela não devem estar sendo fáceis. Além de ter beijado outra pessoa além de seu marido e esse alguém ser uma simples menina, se eu não tivesse interrompido o beijo nós provavelmente teríamos feito uma coisa muito pior. Me sinto muito mal, porque, para começar, a culpa disso tudo é minha. Se eu não tivesse cometido a burrice de tê-la beijado primeiro nada disso teria acontecido. Acabo me contentando em escolher apenas rúcula e rabanete.

Ando mais um pouco e me deparo com uma promoção de papel higiênico: 12 rolos pelo preço de 11. Que promoçãozinha de merda. Pelo menos vou ficar o resto da vida sem precisar comprar esta porcaria, penso, com uma careta. Enquanto pego a embalagem enorme, começo a me perguntar o que vai acontecer agora. Será que ela não vai mais querer falar comigo? Será que ela vai largar o Charlie? Ou será que Alex vai preferir ficar com nós dois, continuando casada com ele e o traindo comigo? Percebendo que estou começando a entrar em pânico, tento pensar em outras coisas, como no fato de o meu biscoito recheado de morango favorito ter aumentado o preço.

A única coisa que eu sei, começo, avoada, é que pelo menos agora não dá para dizer que aquilo foi só um escape, como ela fez da primeira vez, porque se tornou impossível negar o que uma sente pela outra. Sentindo um misto de ansiedade e agonia, me dou conta de que a possibilidade de continuarmos fingindo sermos apenas amigas simplesmente não existe mais. Com um longo suspiro de desânimo, acabo levando uma embalagem a mais do biscoito, mesmo que ele esteja mais caro, pois concluo que minha vida está tão louca e confusa que eu mereço mais uma dose de açúcar esse mês.

Após conferir se me esqueci de pegar algo, me dirijo para o caixa sem fila.

— Boa noite – digo ao rapaz do caixa.

— Boa – responde, passando minhas compras com desinteresse. Seu modo apático me faz lembrar de como, ao contrário dele, eu estava exasperada horas atrás.

Ainda sou capaz de me lembrar das sensações que percorreram meu corpo, do som maravilhoso dos gemidos de Alex, de como ela se arrepiava ao meu toque e do seu perfume hipnotizante. Apesar de saber que o que nós duas acabamos de fazer é completamente errado e que eu e Alex estamos bem longe de sermos namoradas, ainda tenho a sensação de que estou mais completa. Como se um buraco no meu peito tivesse sido preenchido. Não estou radiante, como se o mundo agora parecesse lindo, sensacional e tudo estivesse ótimo. Sinto como se todo o mundo fosse algo sem graça e sem igual ao que está acontecendo entre nós.

Parece que isso não está mesmo rolando. Não me parece real. A todo momento, quando eu estava entregue à tristeza, nutria mínimas esperanças de que alguém, algum dia, surgisse do nada e me tirasse daquele caos. Mas nunca pensei que algo assim realmente pudesse acontecer, de fato.

Quando eu escutava alguma música que falava sobre o amor, via algum filme romântico ou um casal de namorados se agarrando no meio da rua, pensava, irritada, que os seres humanos realmente eram criaturas burras. Mas agora, é como se eu finalmente pudesse entender essas pessoas, de alguma forma.

Eu ainda não consigo me acostumar com o fato de eu estar tão apaixonada por alguém. Fui sozinha durante minha vida inteira e estava certa de que continuaria assim pelo resto dela, então isso está sendo bem surreal para mim. É engraçado, penso. Por mais que eu tivesse passado todo esse tempo sem nada disso, agora não consigo mais me ver sem essa mulher. E isso me assusta.
Fico pensando no quanto estar com ela me faz pensar que, por um milímetro de segundo, sou uma pessoa normal, gostando de outra pessoa que também gosta de mim. É bizarro para mim o fato de que meu lado racional fica completamente à mercê quando nos tocamos desta maneira. É incontrolável. Me sinto totalmente fora de controle. É algo primitivo, que sai do fundo do meu ser.
Sinto como se cada segundo perto dela não fosse o suficiente. Eu poderia senti-la por uma vida inteira. Me sinto de joelhos, aos seus pés. Acho que eu faria qualquer coisa se ela me pedisse. Eu amo o seu sorriso. Amo a maneira como ela encara as coisas com tanta positividade. Amo ver o quanto ela se empenha como mãe de Benedict. Aliás, amo ver o quanto ela se empenha em tudo. Sou simplesmente apaixonada pelo coração enorme que ela tem e pelo fato de ela ser uma pessoa tão boa e humilde. É bizarro. Não sei se posso chamar isso de sentimento. Não é tão simples. Não é tão superficial. É muito mais profundo.

— Obrigada – agradeço ao cara do caixa, que apenas balança a cabeça, em afirmativa.

O céu já está escuro quando saio do supermercado, com as mãos cheias de sacolas. Então me lembro do quanto Alex parecia abalada quando me mandou ir embora, e um sentimento de preocupação me preenche. Será que eu deveria ligar? Penso, em dúvida. Todo o meu lado racional está berrando um grande “não” em resposta, mas a única coisa que meu coração anseia nesse momento é saber se ela está bem. Avisto um banco próximo ao supermercado, e, após me sentar e colocar as compras ao meu lado, pego meu celular e disco o número de Alex.

Meu coração está quase saindo do peito e uma enorme ansiedade invade meu ser. O telefone toca três vezes antes da chamada ser recusada. Eu já deveria imaginar que sou a última pessoa nesse mundo com quem ela gostaria de falar no momento, penso, decepcionada.

Faz quatro dias desde que eu e Alex nos beijamos e nós não trocamos mais nenhuma palavra depois disso. É terça de manhã e estou na floricultura recebendo uma entrega de lisiantos. Durante esses dias marcados pelo silencio, não consigo deixar de me sentir um tanto aflita e ansiosa, mas como ela recusara a ligação que eu fizera no supermercado pensei que deveria dar um tempo a ela.

Assim que dou o dinheiro para o entregador sinto o bolso da minha calça vibrar. Ele já está ligando a van quando pego o celular e vejo que Alex está me ligando.

— Alex? – atendo, sentindo minhas pernas começarem a bambear.

— Emma? Você está bem? – pergunta. Ainda que o tom da sua voz esteja extremamente formal, percebo que ela está nervosa.

— Estou sim. E você? – questiono, preocupada.

— Bem. Olha, eu preciso falar com você – fala, rapidamente, como se tivesse planejado antes o que iria falar.

— Bom, que ótimo – digo, desconfiada.

— Você pode me encontrar na minha casa hoje a noite? – propõe.

— Posso, mas meninos não estarão em casa? – indago, preocupada.

— Eles não estarão. – fala, brevemente, respirando fundo, como se doesse dizer isso. Após um silêncio constrangedor pairar entre nós por alguns segundos, completa – De qualquer forma, apareça as oito.

— Tudo bem – digo, engolindo em seco. Em seguida, Alex desliga, me deixando completamente sem chão.

Meu pânico aumenta a cada passo que dou em direção à porta de entrada da sala de estar de Alex. Não tenho ideia sobre qual será o final dessa conversa, muito menos o início dela. Chego na porta e percebo que ela está entreaberta. Considerando isso um convite para que eu entre, termino de abri-la. Ando pelo pequeno, escuro e silencioso corredor com o coração na boca.

Depois do que me pareceram milhares de anos, finalmente chego até a sala e avisto Alex sentada de costas para mim no sofá. Por mais que o barulho de meus passos tensos tenham denunciado minha presença, sua postura permanece rígida e ela não se vira para mim. Confusa, decido ir até ela. Caminho o mais lentamente possível e chego até o sofá, me sentando ao seu lado, cuidadosamente.

Quando o faço, ela se vira para mim e percebo o quanto ela está abalada. Diferente da vez em que a vi na manhã em que Benedict me ligou e pediu que eu fosse até sua casa conversar com ela, onde apresentava apenas um cansaço marcado por olheiras, agora ela me parece acabada. Seu rosto está pálido como giz, seus olhos estão caídos e sem vida e ela parece despedaçada por dentro.

Ficamos alguns segundos em silêncio, apenas nos encarando. Eu não tinha ideia do que dizer e minha boca estava totalmente seca.

— Oi Emma – diz, por fim, com um sorriso fraco.

— Oi Alex – falo, me sentindo péssima por vê-la daquele jeito.

— Eu pedi o divórcio – solta, desviando o olhar do meu.

— Você o que? – pergunto, chocada.

— Finalmente me dei conta de que não há mais amor no meu casamento. – começa – E sei que demorei tempo demais para perceber isso.

— E como está Charlie? – indago, ainda surpresa. Isso significa que finalmente podemos ficar juntas sem estar fazendo nada de errado, penso, com um misto de esperança e choque.

— Ela está péssimo. Não aceitou o pedido de separação e diz que tudo isso está errado. – responde, pensativa – Mas eu o conheço. Sei que, uma hora ou outra, vai aceitar isso e perceber que nosso casamento realmente chegou ao fim.

— Benedict já sabe? – questiono, sentindo uma pontada de tristeza pelo garoto.

— Ele desconfia, já que Charlie está em um hotel há alguns dias. Ele o levou para ir ao cinema hoje.

— Entendi – falo e acrescento, receosa – Por acaso, você contou para ele alguma coisa sobre nós duas?

— Bem, – começa, respirando fundo – se lembra do Natal, quando ele começou a te dizer que eu estava apaixonada por você?

— Sim, me lembro – digo, fingindo não ter a menor ideia do que ele falaria em seguida.

— Antes daquilo eu realmente já tinha contado para ele que, bem... – fala, constrangida.

— Sei – falo, usando minha melhor expressão de surpresa.

— Além disso na noite do dia em que nos beijamos, – começa, sem graça – eu disse a Charlie queria me divorciar. E, quando ele começou a colocar você no meio da discussão que foi gerada, eu também contei a ele que eu tinha beijado você em duas ocasiões – termina, vermelha.

— Ah – é tudo o que consigo emitir, engolindo em seco.

— Mas não se preocupe, – ela começa, vendo minha expressão de pavor – a única pessoa de quem ele tem raiva é de mim. Ele deixou bem claro que eu é que estou usando e manipulando uma garotinha – fala, com raiva em seu rosto.

— Isso é ridículo, já tenho 22 anos – falo, revoltada. Isso faz com que Alex solte um pequeno sorriso e coloque uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.

— Sabe que eu nunca amei ninguém como eu te amo, Emma? – solta, distraída, fazendo-me sentir como se eu estivesse prestes a desmaiar – Durante minha vida inteira eu nunca gostei de alguém dessa forma, com essa intensidade...

— Eu também te amo, Alex. – começo, pegando sua mão e pousando no lado esquerdo do meu peito – Você é a coisa que eu mais amo no mundo. Olhe como o meu coração fica desesperado quando você está perto de mim.

Nesse momento, é quase como se eu conseguisse sentir sua mão quente sobre o meu coração, que bate em disparada. Esse instante está sendo mágico para mim. Finalmente, penso, poderemos ficar juntas. Eu finalmente poderei ter alguém ao meu lado, alguém que eu amo. Toda a felicidade do mundo preenche o meu ser.

— Eu te amo Emma. – diz, com seus olhos se enchendo de lágrimas – Mas não podemos ficar juntas.

— Como é? – pergunto, soltando sua mão. Sinto como se ela tivesse acabado de me dar um soco no estômago.

— Não é óbvio? – indaga. Agora, as lágrimas escorrem em abundância pelo seu rosto –

Vivemos em mundos completamente diferentes, Emma. Sou muito velha para você, isso não é certo. Precisa ficar com alguém da sua idade, alguém que te entenda. Eu não tenho nada de bom a oferecer para você, além de todos os problemas de pessoas adultas e infelizes, você ainda tem uma vida inteira pela frente. E Charlie tem razão. Esse tempo inteiro eu manipulei e controlei você, mesmo sem saber disso. Fiz você pensar que gostasse de mim e até te beijei mais de uma vez. – explica, olhando no fundo da minha alma. Tudo o que consigo fazer é ouvi-la, paralisada – Imagine só o que os outros irão pensar disso se ficarmos juntas? Isso é totalmente errado. Fora que somos duas mulheres, isso não é normal. Eu nunca me interessei por uma mulher, e agora isso acontece. Somos pessoas muito diferentes. Meu mundo diverge totalmente do seu. E, droga, eu tenho um filho. Sabe-se lá o que se passa na mente de um garoto de cinco anos quando os pais se separam e a mãe começa a viver um romance lésbrico com uma garota que ele mal conhece. – ela despeja tudo isso, com uma expressão aterrorizada no rosto – E eu realmente quero que você seja feliz, Emma, de todo o meu coração. E sei que isso não aconteceria se ficássemos juntas – termina, me encarando. As lágrimas continuam a descer pelo seu rosto, como uma cascata.

— Não precisa fazer isso, Alex. – começo, me levantando do sofá. Nesse exato momento, sinto as trevas chegando, lentamente, com mais divertimento que nunca. Sinto-as me dominando, me consumindo. Sugando absolutamente todos os sentimentos positivos que afloraram em meu peito desde que a conheci. A raiva e o ódio que guardei por tantos anos e que foram abafadas pelo amor que sinto por Alex vêm ao meu encontro como boas e velhas amigas – Não precisa fingir que está fazendo isso por mim e que se importa com os meus sentimentos. Não precisa fingir que se importa comigo, quando tudo o que está fazendo é tentar tirar o seu da reta. Você é muito velha para mim? Pois eu acho que isso não faz diferença quando você não é madura o suficiente para não trair a porcaria do seu marido pela segunda vez – então ela também se levanta, ofendida, e abre a boca, mas eu continuo falando, cada vez mais alto – E, obviamente, você e Charlie acham que eu sou uma garotinha burra, patética e influenciável. É lógico que eu não tenho que cuidar de uma casa sozinha, trabalhar, pagar contas e não tenho mais ninguém além de mim mesma para contar quando tenho algum problema. Todas essas coisas realmente fazem de mim uma adolescente irresponsável, mimada e completamente manipulável. E, meu Deus, você ficou com outra mulher, Alex? , – a essa hora eu já estava gritando, tomada pela fúria que me preenchia e parecia eu tinha acabado de jogar um balde de água gelada em Alex – Isso não me pareceu ser um problema para você quando estávamos nos beijando. Nossa, você tem um filho? Por que nunca me falou sobre ele? É claro que nós dois nos detestamos e eu não aguento ficar perto dele por nem um segundo. Não percebe que eu adoro aquele garoto Alex? Não percebe que, ao contrário de você, ele é um garoto maravilhoso que aceita todas as diferenças?

— Não é justo, Emma, você entendeu tudo errado – fala. Nesse momento, Alex está um misto de raiva e tristeza. Seu rosto está encharcado pelas lágrimas que caem com mais intensidade que nunca e ela apenas me encara.

— Eu sei que não é justo. – retruco – Porque eu pensei você que fosse diferente dos outros, mas você também não passa de outra porcaria de decepção, igualzinho ao meu pai e a minha família patética. Na verdade, – começo, com uma risada sarcástica – você foi a pior de todas as malditas pessoas que entraram na minha vida, porque me deu tantas falsas esperanças para depois me jogar no lixo. Você é uma covarde de merda, porra!

— Eu sei que sou covarde, Emma! – berra ela, explodindo.

— Sabe o que eu queria? – grito mais alto ainda – Eu juro para você que queria que aquele carro que iria te atropelar tivesse explodido a minha cabeça para eu nunca ter precisado te conhecer.

Um silêncio mortal paira sobre nós. Alex se senta no sofá, acabada.
Eu não consigo mais respirar. Tudo o que consigo fazer é ir embora daquela casa o mais rápido possível.