Eu sinto como se tudo estivesse desmoronando. Como se tudo o que eu lutei tanto para construir estivesse caindo e não houvesse nada que eu pudesse fazer. Eu não consigo ver esperança. Não consigo ver uma versão onde tudo acabe bem.

Estou chorando por dentro. Parece que meu peito está cada vez mais cheio de lágrimas e eu sinto como se estivesse me afogando. Mas toda essa enxurrada não consegue sair. Fica presa, como se alguém tivesse colocado uma rolha na minha garganta e desviado o caminho das lágrimas, dos olhos para a alma.

Ando pelas ruas a caminho de casa e me sinto totalmente indiferente ao ambiente. Ao mundo ao meu redor. Me sinto quebrada, como uma sucata. Meu ser está chorando, gritando e sangrando por dentro. É como se um corte profundo, que fora recentemente costurado, estivesse se abrindo, aumentando e infeccionando. Sinto como se eu estivesse prestes a vomitar. Vomitar meu coração pra bem longe de mim. Algo fica preso, não consegue sair. Gostaria de cuspir tudo. Mas não sai.

Tem algo de reconfortante em sofrer, ficar triste e ter pena de si mesmo. A tristeza é como um véu negro que te cobre do mundo e que suga todas as suas energias. É como uma velha amiga, que, por mais que fiquem anos sem se falarem, quando começam a se falar, ser o mesmo que nunca terem se separado.

Estou triste. Muito triste. É uma tristeza diferente da que estava acostumada a sentir todos os dias. É pior, dói lá no fundo. É como se eu tivesse retirado o meu colete à prova de balas quando conheci Alex, e o tiro, que antes, quando era disparado, só doía superficialmente, agora levasse a bala para os cantos mais profundos do meu coração. E sim, ela entrou. E fez um belo estrago, antes de cair fora.
Não sei mais como viver sem ela. Não sei como acordar todos os dias sem poder ligar para ela e ouvir sua voz doce e suave. Não consigo me lembrar de como era a vida antes de conhecê-la. A única coisa que sei é que ela era gelada e sem graça. Não poderei mais ter minha pele fria aquecida pela seu corpo quente. Nem verei Benedict ou até mesmo Mark.

Vejo que a burrice e a irracionalidade me superaram. Achei ser melhor do que isso, mas vejo que não. Me sinto uma idiota. São tantas merdas, uma atrás da outra. Aonde quer que eu vá tem algo que chateia. E eu pensei estar preparada pra isso. Achei que já tivesse aprendido. Mas eu acho que não. Parte de mim ainda pensava que eu pudesse ser amada por alguém que me ame. E outra parte ficou completamente apaixonada por Alex, pois a sua risada era a melodia mais suave de todas, o seu sorriso iluminava o meu dia e o seu olhar fazia com que eu não fosse capaz de me mover. A dor de perde-la está se espalhando para cada canto do meu corpo e me corroendo.

Não quero amar ninguém, nunca mais. Amar só traz sofrimento. Apenas dor. E eu não preciso desse sentimento mundano, tolo, cego, entorpecente e passageiro. Percebo que de nada adianta amar e não ser amado. Não sou do tipo evoluído de pessoa que apenas ama e nada mais. Eu preciso, mesmo que minimamente, ser retribuída.

Sei que um futuro podre me aguarda. Sei que a vida ainda vai me jogar de um penhasco milhões e milhões de vezes mais, e que nunca será o suficiente. Eu sei disso. Mas algum dia vai acabar. E eu finalmente poderei nunca mais existir. Eu odeio cada porcaria de segundo a mais que eu vivo. Odeio.
É incrível a maneira como a vida joga na minha cara o tempo inteiro que sou uma pessoa incapaz de ser amada. Sempre senti como se eu estivesse em um ringue, lutando com um adversário cem vezes meu tamanho. Ás vezes parece que levei um soco na cara e, assim que consigo encontrar o ar que eu perdi no momento do impacto, ele me desse outro, e assim sucessivamente. Outras vezes, é como se estivesse sendo socada repetidas vezes na barriga, sem pausas para sentir dor. Então, quando acaba, é como se tudo dentro de mim estivesse amassado, estraçalhado e quebrado. E é exatamente assim que me sinto agora. Estou indefesa, fraca e exausta. Não sei quando essa batalha vai acabar e também não sei quantos socos mais vou conseguir aguentar.

— Droga garota, não fica assim. – Cheryl diz, no dia seguinte. Estamos na floricultura e eu acabo de contar a ela minha discussão com Alex. Ela me encara com um misto de pena e preocupação no rosto – Por que não me ligou na hora?

— Por que já era tarde da noite? – ironizo.

— E daí? – retruca – Saiba que estou à disposição das minhas amigas 24 horas por dia. Mas, sério, acho que você deveria seguir sua vida. Essa mulher é uma insensível mesmo – diz, revoltada, me dando um forte abraço.

— Obrigada Cheryl – falo, verdadeiramente agradecida. Realmente é muito bom não se sentir tão sozinha, para variar.

— Quer saber, tive uma ideia. Que tal eu ir para a sua casa hoje para a gente ver aquele filme que ficamos de assistir?

— Eu não recusaria a oferta – digo, cansada.

Uma semana se passou desde a última vez em que vi ou falei com Alex. Estou dirigindo a van da floricultura para fazer uma entrega de flores para um casamento. Se não bastasse a minha pouca experiência em dirigir, pelo fato de eu não ter um carro, uma chuva forte está caindo na cidade, então o trânsito está uma loucura. Paro no sinal vermelho e observo o céu. É como se ele refletisse minha alma nesse momento. Frio, nebuloso e escuro. Enquanto dirijo, não consigo evitar de pensar em como tenho andado nesses últimos dias.

Minha vida se arrasta miseravelmente e fica pior a cada dia que passa. O único alívio do meu dia é saber que uma hora ele vai acabar. Tem horas em que tudo o que eu quero é deitar na cama, pegar no sono, e nunca mais acordar. Detesto viver. Detesto acordar mais um dia e saber que vou ter que passar por toda a grande porcaria de novo e de novo. Me sinto destruída por dentro. Como se meu corpo, aparentemente tranquilo e feliz, só estivesse escondendo todo o meu caos. E é assim que me sinto. Um caos.

Mais um dia. Menos um dia. Mas não importa, pois todos eles parecem intermináveis. A cada dia que passa, sinto como se meu caminho, ao invés de diminuir, fica maior. Quanto tempo mais eu fico nesse lugar, menos me parece que esse pesadelo vai passar. Quanto mais as vezes que eu acordo, me lembro que estou viva e sinto o quanto eu não gostaria de estar, se repetem, sem parar, repetitivamente, exaustivamente, desesperadoramente e assustadoramente, menos eu creio que algum dia finalmente sairei desse inferno detestável.

Não me sinto dona de mim mesma ou no controle. Externamente me sinto outra pessoa. Durante todos esses dias me senti assim. Como se minha mente e meu corpo estivessem sendo ocupados por terceiros. Sinto como se eu não tivesse mais forças para lutar ou fugir. Parece que estou sentada, imóvel, enquanto o mundo joga coisas em mim. Como se meu coração estivesse necrosando lentamente. Sinto ele bater com menos intensidade a cada segundo. Mas sei que ele não vai parar de bater, que é o meu desejo. Queria muito ser normal, queria mesmo. Ou simplesmente não ser nada. Não sentir nada. Não amar nada. Quero simplesmente esquecer.

Me sinto um zumbi. Algo que apenas vaga por aí, existindo de forma pequena, indiferente e tosca. Estou apodrecendo mais a cada dia, quase consigo sentir o cheiro da minha carne em decomposição. Depois de Alex, meu coração se partiu, murchou. Não faz sentido ela me tirar de um precipício para depois me jogar em um abismo ainda mais escuro e profundo.

Não é justo. Não me parece certo o destino, Deus ou qualquer outra coisa responsável pela minha existência coloca-la na minha vida e fazê-la bagunçar tudo de modo tão lindo e maravilhoso para depois ela simplesmente me abandonar e deixar as coisas piores do que já eram antes. Todos à minha volta estão cansados. Todos a minha volta tem uma parte quebrada dentro de si. E eu me sinto quebrada, me sinto estragada, como uma maçã podre e jogada no lixo.
Finalmente chego no local onde o casamento será realizado e estaciono a van. Passou a apenas chuviscar, então estou abrindo a porta de trás do veículo sem precisar pegar uma sombrinha, quando uma senhora usando muita maquiagem e uma saia justa caminha apressadamente em minha direção, acompanhada por dois homens de terno.

— Olá minha querida. – cumprimenta, simpática, abrindo sua carteira. Pelo quanto ela aparenta estar nervosa, suponho que ela deve ser a mãe de um dos noivos.

— Boa tarde. – respondo, pegando o dinheiro que ela me entrega e guardando – Que má sorte dos noivos, pegaram um temporal e tanto, não?

— Nem me fale. – começa, aturdida, enquanto os dois homens começam a pegar vasos de gérberas para levarem para dentro – O tempo está muito instável, pode recomeçar a chover forte a qualquer momento. Por falar nisso, me dê licença, preciso dar uma palavrinha com os garçons.

— Até mais – digo, observando-a sair em passos rápidos.

Enquanto espero todas as flores serem retiradas da van, olho ao redor e vejo que duas crianças com roupas de festa estão brincando animadamente em cima de uma poça de água. Estão tão plenas e felizes, penso, intrigada. Alguma na pureza que elas carregam em seus sorrisos faz com que eu me pergunte, de repente, o porquê de eu nunca ter sido uma criança tão leve e alegre.

Nesse momento, outro homem de terno se aproxima das crianças e exclama, boquiaberto:

— Meninos, a mãe de vocês vai mata-los – repreende, surpreso.

— A gente está só brincando, papai – retruca o garotinho, que continua a brincar.

— É papai, brinca com a gente – fala a garotinha, respingando um pouco de água no homem.

— Mas que danadinha! – diz ele, rindo, juntando-se aos garotos na brincadeira.

Enquanto, curiosa, os observo por alguns minutos, noto que uma mulher, aparentemente furiosa, caminha em direção a eles.

— O que pensam que estão fazendo? – grita, irritada.

— O que eu falei? – comenta o pai, sem graça, para as crianças.

Então, enquanto a mulher, sem conseguir deixar de sorrir, bate no ombro do marido, repreendendo-o, as duas crianças estão às gargalhadas. E é nesse momento que eu sento que um pedaço de mim está faltando. Me sinto incompleta. Me sinto quebrada, algo sem utilidade. Me imagino a criatura mais estranha do planeta. Algo asqueroso que não merece o amor de ninguém. Sinto-me a pessoa mais solitária do mundo.

É como se eu fosse a pessoa menos merecedora do universo. Um ser incapaz de receber e compartilhar amor. Vejo aquelas pessoas felizes com as pessoas que amam e isso dói. Dói como se alguém me desse um soco. Eu não consigo respirar. Jamais tive isso durante minha vida inteira. Minha alma está exausta. Não aguenta mais. É como se, a cada milésimo de segundo um machado penetrasse meu coração, arrancando tudo de mim.

Minha garganta fecha. Fica difícil respirar, como se todo o ar do mundo estivesse acabando ou como se tivesse tanto ar que sufocasse. Como se eu não fosse capaz de seguir. Me sinto pequena e vulnerável, nesse mar de imensidão. É como se meu coração estivesse sendo amassado. E é nesse momento, no meio de todo esse caos, que sinto algo quase que completamente desconhecido por mim surgindo. As lágrimas vêm em abundância e embaçam a visão, mas esclarecem muito. É como se algo que eu tanto tento manter submerso estivesse saindo à superfície. Por mais que eu me sinta desesperada, como se eu estivesse explodindo, consigo perceber que chorar é algo libertador.

Sinto em meu peito uma vontade imensa de sair daqui. Sair de tudo. Dessa cidade, dessa sociedade, desse mundo maldito, do meu próprio corpo, do meu próprio eu. Simplismente quero sair de tudo e nunca mais voltar.
Quero acabar com essa dor. Queria que o tempo decolasse, para um momento em que a dor acabasse, e só restasse o vazio. Quero ficar em paz. Então me lembro que só teve um lugar nesse mundo que fez eu me sentir deste modo ou chegou bem perto disso e decido ir até ele.

Percebo que todos os arranjos de flores já foram retirados e entro na van, apressada. Algo me vêm à cabeça e pego o celular. Acho o contato de Cheryl e começo a digitar uma mensagem de texto a ela: “Você foi a primeira é única amiga que eu já tive. Muito obrigada por tudo”. Depois de enviar, coloco o celular no silencioso e ligo o carro.

Enquanto volto a dirigir, noto que recomeçou a chover violentamente. As gotas de chuvas batem no para-brisa com tanta voracidade que imagino que podem quebra-lo. E, mais uma vez, sinto que isso faz uma analogia ao meu eu agora. Estou uma bagunça gigante por dentro.

As lágrimas escorrem incessantemente pelo meu rosto, quentes e reconfortantes. É como se todos os traumas, as mágoas e decepções que tive ao longo da vida e que ficaram se acumulando dentro de mim esse tempo todo estivessem desesperados para sair agora. Estou vomitando todo o meu desespero e minha agonia para o meu externo. Sinto que estou prestes a enlouquecer. Sinto que minha sanidade já se foi.

Parece que há um incêndio dentro de mim. E é uma chama que queima tudo ao redor. Uma chama que me reduz à um simples ser insignificante, pequeno e sem valor. Enquanto dirijo em alta velocidade no meio daquela tempestade o desespero toma conta de mim, e me dou conta de que estou berrando feito uma criança. Estou colocando tudo para fora, quase explodindo de angústia. Minha visão está significativamente borrada pelas lágrimas e mal consigo respirar, mas ainda assim sou capaz de dirigir sem errar o caminho ou bater a van.

No meio de toda essa confusão, o fato de que estou saindo desgovernada com o veículo do meu trabalho sequer me vem à cabeça. A única que eu quero é que isso tudo acabe logo. É o meu maior desejo.

Eu sempre detestei viver. Sempre odiei acordar todos os dias e me dar conta de que ainda estou viva. A coisa que mais me causa asco e repugnância é a minha própria existência. A presença do meu próprio eu. Sentia que a vida fazia menos sentido a cada dia. É como isso nunca fosse passar e é algo que esteve comigo minha vida inteira. Não há nada que me faça feliz. Nada pelo qual valha a pena lutar. Não tenho nenhuma paixão ou nada que eu queira. A única pessoa que eu amo e que pensei ser a razão da minha existência se foi. Estou perdida. Estou sozinha. Estou com medo.

Eu quero vomitar. Meu estômago faz giros, como num trampolim. Queria que as coisas fossem diferentes, mas elas têm sido difíceis há muito tempo. Eu tentei. Cansei de fingir que tudo estava bem, que eu estava super feliz e que a vida era linda, maravilhosa e justa. Cansei de mentir para mim mesma.

Finalmente chego ao meu lugar de paz. Paro a van. Abro a porta e saio, sem me dar ao trabalho de sequer trancar o veículo. Meus sentidos só estão focados em sair desse caos. Sair desse mundo. Sair de mim mesma. A chuva cai de forma imponente e devastadora. Sou capaz de sentir sua força me afundando e me levando para as profundezas da decadência. É nesse momento, quando ando lentamente a caminho da minha liberdade, que consigo ver a crueldade do mundo. Consigo ver o quanto tudo isso é pungente e impiedoso. Sou capaz de sentir toda a vivacidade tentando me sugar novamente para aquele abismo monstruoso, com suas garras podres e afiadas.

Mas então, agora, sinto que meu coração já está se acalmando, apesar de as lágrimas ainda caírem abundantemente sob meu corpo já encharcado, porque eu cheguei, em fim. Me encontro no meio da ponte de minha mãe.

A paisagem do lugar é estonteante. Como que anestesiada pelo efeito de alguma droga, olho ao redor e consigo sentir apenas o sentimento de calma. As nuvens tampam o que restou da claridade do sol, então a paisagem está obscura e marcada pela escuridão. O local amplo e extenso, antes coberto por uma grama verde e recheado de pessoas, agora está revestido por uma mórbida grama amarronzada e está completamente vazio, a não ser por mim. Fecho os olhos e um silêncio mortífero e reconfortante vem de encontro aos meus ouvidos e chega até minha alma cansada de modo alentador.

As macieiras, antes carregadas de maçãs donas de um vermelho vivo e intenso, agora têm apenas alguns galhos secos que impedem minimamente que frutos pútridos localizados em baixo deles se molhem e exalem toda a sua podridão. Diante desse cenário apodrecido eu me encontro estranhamente em paz. Percebo que parte do vazio que habita em meu coração é parcialmente preenchido.

Mesmo completamente encharcada e sentindo rajadas ferozes de vento chicotearem meu corpo sou incapaz de sentir frio ou qualquer tipo de desconforto. Sou incapaz de sentir qualquer coisa. Estou em transe. Meus movimentos não são mais ditados por mim, pela minha razão. Estou sendo guiada por algo maior. Mais forte. Minha vontade de ser livre, enfim.

Já consigo sentir a suave e sedutora melodia da morte. Consigo senti-la me atraindo, como se me chamasse para que ela possa me acolher em seu abraço mortal e acolhedor. Como que involuntariamente, me aproximo mais da extremidade da ponte e olho para baixo. A altura que me separa do rio abaixo dela é consideravelmente grande e percebo que as águas correm com fúria e ferocidade. Meu olhar é atraído pelas grandes e pontiagudas pedras que cobrem o fundo do rio. Penso que elas são um tanto convidativas.

Tomada por um impulso inconsciente, decido subir em cima da grossa grade de metal. Dentro de alguns segundos, me encontro equilibrando-me em cima da grade, para não cair tão rapidamente da ponte. Consigo me equilibrar depois de um tempo e, respirando fundo, apenas abro os braços e fecho os olhos. As lágrimas continuam a cair de meu rosto, mas não sei mais diferencia-las das gotas de chuva. Todo aquele desespero de antes foi substituído por uma serenidade sem igual. Já não me sinto mais angustiada. Me sinto a um passo de conseguir, enfim, a minha paz.

Perco completamente a noção do tempo. Posso estar aqui, em pé, há alguns minutos ou algumas horas. Mas não tem diferença. Nada mais importa agora. O que me basta é saber que estou a caminho da salvação. Por fim, decido que já está na hora. Respirando fundo mais uma vez, impulsiono lentamente meu corpo para frente. Estou quase caindo quando, de repente, sinto um puxão violento em meu braço e meu corpo é jogado na direção oposta: caio com tudo em cima de algo macio, que logo percebo ser o corpo de alguém.

Com dificuldade, me ponho de joelhos completamente confusa e desnorteada. Em seguida, antes que eu possa sequer entender o que está acontecendo, imediatamente sinto dois braços me envolverem rapidamente e, em questão de segundos, me vejo dentro de um abraço apertado.

— Eu achei você. – começa uma voz chorosa, que logo reconheço, surpresa, como de Alex. Totalmente tirada do transe, meu eu se encontra confuso. Ainda estou tentando assimilar toda essa bagunça quando o perfume dela invade minhas narinas e só consigo pensar no quanto eu havia sentido a falta dele – Eu te achei, Emma – continua, com um misto de alívio e desespero, me apertando ainda mais forte. Imóvel, não retribuo o abraço, mas ela parece não se importar.

Incapaz de emitir palavra alguma, tento entender o que está acontecendo. Eu havia acabado de tentar me matar e Alex, que antes havia deixado bem claro que não nos veríamos nunca mais, havia me impedido e agora estamos, as duas, ajoelhadas no meio de uma ponte. Minha cabeça está uma bagunça e meu coração parece totalmente confuso com relação ao que sentir. Em parte, ainda há vestígios daquela sensação de tranquilidade que eu senti segundos atrás. Outra parte de mim está feliz por estar com a mulher que eu amo. E a última continua magoada pelo que ela fizera comigo.

Ela nunca havia me abraçado com tanta urgência e exasperação como agora. É como se ela estivesse com medo que eu fosse escapar por entre seus braços a qualquer momento. Continuou assim por alguns minutos, enquanto eu apenas tentava processar as coisas, sentindo seu corpo igualmente frio e encharcado pela chuva contra o meu.

— Você está aqui. – ela fala, baixinho, como que mais para si mesma – Graças a Deus. Pensei que te perderia para sempre. – nesse momento, ela me solta e me encara. Seus olhos estão vermelhos de tanto chorar e as lágrimas que descem pelo seu rosto se fundem às pesadas gotas de chuvas. Seus cabelos e suas roupas estão completamente molhados. Sou capaz de ver a angústia e o medo em sua expressão. Permaneço em silêncio, pois, além de minha garganta estar seca, não consigo pensar em nada para dizer e admito que meu coração despedaçado ainda guarda ressentimentos dela.

Por incrível que pareça, de repente, as lágrimas começam a cair com uma intensidade ainda maior e me vejo, novamente, berrando como uma criança. Uma tristeza enorme assola meu coração. Como que em uma sequência de imagens, inúmeras lembranças me vêm à cabeça. Me lembro do dia em que fui ao parque de diversões com meu pai e ele me deu o guarda-chuva azul. De todas as vezes em que eu desejei desesperadamente ter uma mãe. Das ocasiões em que via meus familiares e eles me olhavam com desprezo. Do quão distante meu pai sempre foi. Me recordo do momento em que olhei para Alex pela primeira vez e pulei na frente daquele carro para salvá-la.

Me recordo do modo como ela me olhava quando dançamos na sala do meu apartamento. Do quão divertido foi cozinhar com Benedict. Da primeira vez em que eu e ela nos beijamos. Da maneira inusitada como eu e Cheryl ficamos amigas. Do quão linda Alex estava com aquele moletom de cactos quando fui à sua casa. No quanto seus olhos brilhavam de felicidade quando lhe dei o colar. Em como Cheryl cuidou de mim no dia em que estava de ressaca.

Me lembro ainda do dia em que viemos até essa mesma ponte e ficamos brincando com Mark por várias horas. Em como ela apertou minha mão quando estávamos na montanha russa. Do momento em que disse a Alex que a amava e no modo que ela sorriu ao dizer o mesmo, antes de adormecer. Da paixão que nos envolvia enquanto nos beijávamos ardentemente em sua casa. E, por fim, me recordo de trechos da nossa última conversa, do quanto aquilo me abalou e do quão rude minhas palavras haviam sido.

Quando esse flashback tem fim, eu me encontro em lágrimas. Alex, percebendo o meu estado de angústia e começando a chorar ainda mais, assim como eu, envolve meu rosto com suas mãos e olha bem no fundo dos meus olhos.

— Me perdoe Emma. – começa, arrasada – Eu estava em pânico, pensando no que as pessoas poderiam dizer e se isso era certo. Mas eu me toquei de que, imensamente pior que isso, seria ficar sem você, Emma. Eu te amo mais do que tudo. E não suportaria se você partisse. Não posso mais viver sem você. Fui uma idiota te dizendo todas aquelas bobagens. E eu realmente sou uma covarde.

Estava morrendo de medo, pois nunca havia amado ninguém assim, então não sabia o que iria acontecer. Essa semana foi horrível. Senti sua falta mais do que qualquer coisa. Eu pensei em ligar para você, mas tinha medo que não fosse me querer de volta. Tinha medo de que nunca pudesse me perdoar – ela fala com tanta paixão e arrependimento que sinto minha mágoa por ela se esvaindo de mim e todo o amor que tenho por ela voltar a preencher meu peito — E, não, jamais pensei que você fosse apenas uma garotinha. Sempre achei você uma garota inteligente, madura e que passou por inúmeras dificuldades e as supera de maneira maravilhosa. Você é maravilhosa, Emma. Eu juro que jamais irei deixar você outra vez, caso me queira de volta – termina, mordendo os lábios num sinal de apreensão.

— É claro que eu te quero de volta, Alex. – respondo, pegando suas mãos. Continuo a chorar, mas estou mais calma – E me perdoe por ter te tratado tão mal na última vez que nos falamos. Eu não deveria ter falado aquelas coisas estúpidas. Mesmo se eu quisesse, jamais conseguiria viver sem você. Eu te amo mais do que qualquer coisa no mundo e gostaria de passar o resto dos meus dias ao seu lado.

Então ela se aproxima ainda mais de mim e cola seus lábios nos meus, num beijo apaixonado. Eu retribuo com a mesma intensidade. É como se uma carga de eletricidade estivesse percorrendo todo o meu corpo.

— Como você chegou até aqui? – pergunto, quando nos separamos, curiosa. Finalmente paro de chorar.

— Cheryl me ligou desesperada e pediu que eu ajudasse a te procurar. Ela sabia que havia alguma coisa errada naquela mensagem que mandou pra ela – explica, secando as lágrimas do meu rosto com as costas da mão. Já estava parando de chover.

— Entendi. – começo, pensativa – Você conseguiu chegar exatamente na hora.

— Bom, eu prometi que sempre te protegeria, não foi? – brinca, sorrindo, me abraçando mais uma vez. Nesse instante, sinto que encontrei algo muito melhor que calma. Encontrei o amor. Finalmente consigo encontrar meu lugar. Finalmente consigo encontrar minha paz. É ali onde eu sempre precisei estar e onde sempre estarei. Nos braços dessa mulher maravilhosa que eu amo tanto.

— Foi sim – digo, me aconchegando em seus braços e fechando os olhos.

Notas finais
E é isso meus amores... admito que fiquei muito orgulhosa por ter conseguido terminar minha primeira história e gostei bastante do resultado. Escrever tudo isso me proporcionou muito aprendizado, tanto em questões de aprender coisas novas quanto no sentido de ser um ser humano melhor. Me diverti muito escrevendo e confesso que eu mesma chorei de emoção no final da história kkkk. Não sei se alguém terá chegado até aqui, mas, se sim, então muito obrigada a você, por ter acompanhado tudo até o final. Tudo de bom para vocês! Abraços.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!