Dor. É a primeira coisa que sinto ao acordar. Tento abrir os olhos, mas não consigo. Minha cabeça está uma enorme bagunça. Não consigo me lembrar de absolutamente nada sobre mim. Quem sou eu. Onde estou. O motivo pelo qual meu corpo parece estar pegando fogo.

Em seguida, uma sensação toma conta de mim. A de estar sendo tocada. Sinto que uma mão, quente e macia, envolve minha mão direita, segurando-a delicadamente. Então, eu me lembro de tudo. Me recordo de meu último cliente, da chuva e do guarda-chuva azul. Me lembro da mulher. E me lembro do acidente.

Nesse exato momento, uma onda de pânico percorre meu corpo e eu me sento rapidamente, me livrando, bruscamente, da mão que aperta a minha. Ofegante e ainda muito assustada, percebo que tenho apenas metade da minha visão e me dou conta de que meu olho esquerdo está tampado. Estou em um quarto de hospital que, por sinal, é grande e sofisticado.

— Meu Deus, você acordou- exclama uma voz feminina.

Desnorteada, minha cabeça se vira em direção à voz e fico mais surpresa ainda. Sentada em uma cadeira ao lado da minha cama, se encontra a mulher da noite anterior. Mesmo tendo dificuldade para enxergar direito, consigo, instantaneamente, constar que ela é a pessoa mais linda que eu já vi em toda a minha vida.

Com longos cabelos loiros escuros, ela possui lábios carnudos e maçãs do rosto bem definidas, que realçam seus profundos e cortantes olhos verde escuros. Então tenho a mesma sensação desconhecida de quando a vi pela primeira vez, como se uma carga de eletricidade percorresse todo o meu corpo.

— Olha, eu realmente preciso te agradecer por ter salvado a minha vi...- começa ela, parando, abruptamente, me encarando de forma estranha.

Nesse momento, ela se aproxima de mim com um grande fascínio estampado em sua face, colocando suas mãos em meu rosto. Ela o segura com enorme delicadeza, como se pegasse uma pedra preciosa. Quando a mulher fica a centímetros do meu rosto, eu, completamente pasma, consigo ver seus traços com ainda mais clareza, que parecem surpreendentemente ainda mais perfeitos de perto.

Com uma expressão de admiração, seus olhos estão focados no meu olho destampado, enquanto eu, involuntariamente, devolvo o olhar apreciador, tamanha sua beleza. Seu olhar é tão intenso e profundo que sinto que ela está mergulhando em minha alma e descobrindo todos os meus segredos.

Meu coração bate a mil por hora. Nesse momento, todas as dores sumiram. Todo o meu pânico, quando me lembrei do acidente, parece nunca ter existido. Meus sentidos estão voltados apenas para a sensação única de suas mãos em minha pele. Então, ainda com seu olhar fascinado, ela começa a passar a ponta de seus dedos pelo meu rosto com toda a leveza do mundo. Em todos os lugares onde seus dedos tocam sou capaz de sentir um formigamento, como se estivéssemos trocando faíscas. Jamais senti isso em toda a minha vida.

De repente, uma dor aguda e lancinante se instala em meu olho esquerdo, tirando-me do transe e me fazendo levar uma das mãos a ele, com uma exclamação de dor. Isso me faz sentir uma espécie de curativo sobre ele.

— Nossa, me desculpe!- diz ela, afastando-se rapidamente — Vou chamar um médico, fique calma- termina, completamente envergonhada, deixando a sala em passos rápidos.

Ao ficar sozinha no quarto, ainda apertando o olho numa tentativa fracassada de minimizar a dor, tento digerir tudo o que aconteceu. Porque eu havia pulado na frente de um carro para salvar alguém que eu nunca vi na vida? O quão gravemente eu me feri? Quem é essa mulher, que sentimentos são esses que ela provoca em mim e porque eu sinto que mal posso esperar para senti-los novamente? Porque ela ficou me olhando daquele jeito, e porque eu a encarei da mesma maneira?

Meus devaneios desaparecem quando ela retorna, acompanhada de uma médica e um enfermeiro. Observando-a de longe, noto que ela possui um corpo em forma e bem definido, veste roupas e acessórios de aspectos caro e não aparenta ter mais de 30 anos. Ela está com um ar apreensivo e preocupado, olhando, constrangida, para mim.

— Ora, ora – diz a médica, com um sorriso doce nos lábios, enquanto me analisa. Possui cabelos grisalhos e carrega tranquilidade no olhar. Já o enfermeiro, que está checando a minha bolsa de soro já pela metade, tem uma aparência jovem e ingênua. – Você finalmente acordou. A sra. Alex quase precisou ser internada também, de tanta preocupação com você – e, rindo, olha para a mulher. Alex devolve com um sorriso amarelo.

— Quero que saiba que sua atitude foi extremamente corajosa e que você salvou a vida desta mulher – ela continua, agora com um ar mais sério, enquanto o enfermeiro, após pedir permissão, começa a retirar o curativo do meu olho, que ainda dói – Sou a doutora Penny e este é o enfermeiro George. Nós, junto a uma equipe de profissionais extremamente qualificados, estamos trabalhando para que você se recupere o melhor e o mais rapidamente possível – enquanto isso, George termina de retirar o curativo e eu percebo que, ainda assim, eu não consigo abrir meu olho. Começo a ficar um pouco apreensiva, o que faz com que a médica se aproxime e toque levemente meu braço – Olhe, fique calma. No momento do acidente, um pequeno estilhaço de vidro que estava no asfalto perfurou sua órbita ocular esquerda, então tivemos que realizar uma cirurgia. Porém, se o tratamento for devidamente realizado as chances de isso resultar em algo mais grave, como uma cegueira, serão muito mais baixas. Em alguns meses, você poderá enxergar normalmente.

Eu estou atônita, pois jamais pensei que algo assim pudesse acontecer, ainda mais em se tratando dos meus olhos, que sempre foram tão admirados pelos outros. Após o enfermeiro aplicar um tipo de colírio, a dor diminui consideravelmente. Quando olho para Alex, vejo que ela tem uma expressão de culpa no rosto e parece arrasada.

— Além desse ferimento, – começa a dr. Penny – devido à intensa força com que o carro te atingiu, sua perna esquerda foi quebrada e, por se tratar de uma fratura menor, deve demorar cerca de seis semanas para se curar. – então eu olho para a minha perna e vejo que ela está engessada – Ademais, seu braço esquerdo também sofreu uma lesão externa, por causa de sua queda no asfalto, parte de sua pele foi retirada. Para isso, alguns medicamentos intravenosos estão sendo aplicados para diminuir a dor e, como está muito recente, o ferimento foi coberto. Algumas partes do seu corpo estão um pouco lesionadas e, possivelmente, doloridas. É normal se você encontrar alguns pontos arroxeados e arranhões em sua pele, mas não se preocupe – e, após ter despejado todas aquelas informações assustadoras, completa, receosa – Tudo bem?

— Tudo. – começo, hesitante. Ainda estou um pouco chocada – Mas eu posso morrer?

— Considerando que você foi vítima de um atropelamento, eu diria que há uma pequena chance de surgirem algumas complicações. Porém, creio eu que o risco de morte é quase inexistente, nesse caso.

— Entendo – eu respondo, pensativa. Afinal, por mais que, externamente, eu tenha ficado aliviada, sinto que alguma parte dentro de mim não ficou feliz com a resposta. Nunca fui uma pessoa muito feliz, e nunca enxerguei a beleza de que todos falam que está presente na vida. Sinceramente, creio que a única coisa que eu faço é sobreviver. Não vejo prazer em nada. Não vejo felicidade em nada. Nunca me sinto segura, estou sempre apreensiva. De certa forma, tudo o que eu faço é esperar pelo meu fim.

— Agora, – começa a dr. Penny – eu preciso que nos forneça algumas informações sobre você, já que, no meio de seus pertences, não encontramos nenhum documento.

— Sim, claro. – digo, envergonhada – Me esqueci de levar minha identidade para o trabalho. Inclusive, por quantos dias eu estive apagada?

— Você esteve inconsciente desde sexta-feira a noite, após o acidente, e acordou hoje, no domingo – responde ela.

— Com todos esses ferimentos, quando poderei começar a trabalhar novamente?- pergunto, preocupada – Preciso muito do meu emprego, ainda mais agora que preciso pagar pela cirurgia, pelos remédios...

— Não precisa se preocupar com isso – dessa vez é Alex quem interrompe. Ela se aproxima e cobre minha mão com as dela, e, mais uma vez, percebo o quanto são quentes e macias – Eu faço questão de pagar por todo o seu tratamento, incluindo as cirurgias e tudo o mais que for necessário. Inclusive, eu fiz questão de te trazer para o melhor hospital da cidade, onde eu sei que te oferecerão os melhores cuidados possíveis.

— Isso é muito legal da sua parte – começo, sem graça – mas não precisa gastar todo esse dinheiro comigo. Estou certa de que a conta desse hospital não é barata, então não quero te deixar endividada.

— Meu bem, – começa, com um sorriso nos lábios – você se jogou na frente de um carro para salvar a minha vida, é o mínimo que eu posso fazer. Além disso, não se preocupe com a questão do dinheiro, pois isso eu tenho até demais.

— Tudo bem então – eu digo, relutante.

— Você tem algum contato para quem possamos ligar? — pergunta a médica – Também não encontramos nenhuma informação relacionada a isso e, conforme verificamos, você não recebeu nenhuma mensagem ou chamada, desde que chegou aqui – termina ela, um pouco constrangida. Possivelmente se sente mal em me dar essa notícia, como se eu fosse ficar surpresa ou até chateada, penso. A questão é que só ficaria surpresa se o contrário tivesse ocorrido.

— Na verdade não há ninguém. – respondo. Depois, recordando-me de alguém importante, continuo – Na verdade, tem minha chefe. Preciso avisar a ela que não poderei trabalhar – digo, preocupada. Tenho apenas esse emprego para me sustentar e, graças à atual situação provavelmente o perderei por precisar ficar ausente por tanto tempo.

— Ah, certo então – diz a dra. Penny, com uma mistura de estranhamento, pena e vergonha no rosto. George simplesmente se vira e começa checar novamente minha bolsa de soro, como se nada tivesse acontecido. Alex parece ainda mais arrasada, como se estivesse prestes a chorar.

– A propósito, meu nome é Emma Morgan – digo, tentando quebrar a camada de desconforto que se forma no quarto.