— E então, o Charlie já voltou? – pergunto a Alex, do outro lado da linha. Passaram-se quase 24 horas desde que ela veio até minha casa. Enquanto converso com ela no viva-voz, limpo os vestígios de xixi que Mark havia deixado pela casa.

— Já sim, no final da tarde. – responde, não muito animada – Ele está muito grudento e isso está me deixando nervosa. Gostaria de poder fugir dele esta noite.

— Eu estava pensando em ir ao cinema mais tarde, tem um filme que eu queria muito assistir. – minto – Pode ir comigo, se quiser.

— Isso é um encontro, senhorita Emma? – diz, fazendo-me prender a respiração – Estou brincando, é claro que eu quero ir.

— Merda – exclamo, olhando para os filmes em cartazes. Nós duas estamos na entrada do cinema, relativamente vazio para uma sexta-feira à noite. Há apenas duas opções de filme: um terror e uma animação extremamente infantil. Não consigo saber qual deles é mais assustador.

— O que foi? – ela pergunta, colocando uma pipoca na boca.

— O filme que eu queria ver não está mais passando – minto, novamente. Toda essa história de filme é apenas um pretexto para passar mais tempo com Alex.

— Não tem problema, assistimos outro. – propõe, analisando os dois cartazes – O que acha desse? – indaga, apontando para um cartaz consideravelmente macabro.

— Eu tenho medo de filmes de terror – respondo, amedrontada.

— É mesmo? – ela diz, exibindo um sorriso malicioso – Acho que estou prestes a conquistar minha vingança.

— Como assim? – questiono, confusa.

— Ora, você me fez ir na roda gigante da qual eu morria de medo. Agora é minha vez – explica, dando de ombros.

— De jeito nenhum – contesto, em pânico.

— “Estarei com você o tempo todo. Além disso, é super seguro e você pode fechar os olhos até terminar se ficar com medo” – diz, imitando a minha voz. Então me recordo que disse essas mesmas palavras a ela quando a tentava convencer a ir no brinquedo.

— Tudo bem – aceito, emburrada.

Compramos os ingressos e vamos até a sala onde o filme será reproduzido. Apertando fortemente minha latinha de refrigerante, me sento em minha poltrona, ao lado da de Alex.

— Vai dar tudo certo – fala, notando minha expressão de pânico.

— Claro que vai – ironizo, baixinho, antes de o filme começar.

À medida que a história vai se desenrolando, fico cada vez mais assustada. Há uma cena extremamente pavorosa de exorcismo e quando ela começa, involuntariamente agarro a mão de Alex e a aperto. Apenas noto que o fiz quando a cena acaba, e, mais relaxada, percebo que estou segurando sua mão com uma força considerável, o que me faz soltá-la, sem graça. Rindo, ela pega minha mão novamente, deposita um beijo suave nas costas dela e entrelaça seus dedos nos meus. Depois disso, fico significativamente mais calma. Permanecemos de mãos dadas até o filme acabar.