A Garota do Guarda-chuva Azul
12 Capítulo 12
— Tem algo marcado para domingo à noite? – pergunta Alex, do outro lado da chamada. É sábado de manhã, e, apesar de eu ter incontáveis coisas para fazer, ainda me encontro deitada em minha cama, conversando no telefone com ela.
— Além de arrumar a casa e lavar roupas? Não que eu me lembre – brinco.
— Maravilha. Porque eu darei uma pequena festa de aniversário apenas para os mais íntimos em minha casa e eu faço questão da sua presença – convida, empolgada.
— Amanhã é o seu aniversário? – pergunto, surpresa – Por que não me falou nada antes? Como vou achar o presente de aniversário perfeito para você se tenho tão pouco tempo para procurar?
— Não se preocupe com presentes. A única coisa que eu quero é você – ela fala, fazendo com que, nesse momento, um silêncio constrangedor se instale entre nós.
— Fico lisonjeada, mas eu ainda quero comprar algo para você – retruco, depois que consigo fazer o ar preencher meus pulmões novamente.
— Se insiste... De qualquer forma, você será a minha convidada de honra, então se prepare – fala.
— Mas o que... – começo, confusa.
— Até amanhã, Emma – interrompe, antes de eu fazer mais objeções, desligando em seguida.
O que diabos eu comprarei para Alex? Pergunto-me, completamente indecisa. Estou no centro da cidade, algumas horas depois de receber seu convite. Já olhei em todas as lojas possíveis e não consigo encontrar nada à altura dela. Penso em renunciar e acabar comprando qualquer coisa simples, mas depois percebo que não há a menor chance de isso acontecer. Meu objetivo é dar a ela o melhor presente de todos e não desistirei até encontra-lo. Então ouço meu celular vibrando no bolso, e, quando o pego, vejo que é Cheryl.
— Oi – atendo, distraída, observando uma vitrine de vestidos. Nenhum deles me parece muito bonito, o que me faz perder o interesse na loja.
— O que está fazendo? – ela pergunta.
— No momento, estou parada no meio da calçada conversando com você e procurando algum presente para dar a Alex no aniversário dela – respondo, andando em direção a uma chocolataria. Nem mesmo sei se ela gosta de chocolate, penso, descartando mais essa possibilidade.
— Caralho Emma, você está nessa até agora? – questiona, indignada – Pois eu, como ótima amiga que sou, liguei para te avisar que hoje à noite eu te levarei para uma balada, com uns amigos meus, para você desencanar dessa Alex por um tempo.
— Não sei não, Cheryl – digo, pensativa – Nunca fui para uma balada.
— Agora sim é que você precisa ir mesmo – retruca, anima – Vai ver, você vai amar. Vamos te pegar aí às 23 horas, esteja pronta.
— Eu não tenho muita escolha, não é? – ironizo, atravessando a rua e procurando mais opções.
— Nenhuma. Até mais – diz, desligando.
Estou pensando em como, de repente, passei a receber tantos convites obrigatórios para festas quando algo tira completamente a minha atenção. Definitivamente é isso, penso, maravilhada, encarando o futuro presente de Alex numa vitrine.
—E aí, o que achou à primeira vista? – grita Cheryl para mim. Por mais alto que ela esteja gritando, ainda tenho dificuldades para entender perfeitamente o que ela está perguntando, visto que o barulho da música é ensurdecedor.
Vindo de carona com Cheryl e um casal de namorados amigos dela, eu acabo de entrar na balada. Colorido por inúmeras luzes neon, o lugar está apinhado de pessoas, que, em sua maioria, dançam e festejam, animados.
— Impressionante – digo, irônica, ao ver uma garota de vestido preto vomitando num canto perto de mim.
— Vamos, precisamos encontrar o resto do pessoal – ela grita novamente, pegando minha mão e seguindo o casal multidão adentro. Várias pessoas esbarram em mim e eu tropeço três vezes antes de encontrarmos o resto do grupo.
— Emma – começa Cheryl, apontando para um garoto esguio, que vira uma latinha de cerveja – conheça Damon, nosso gay alcóolatra predileto.
— Oi lindinha, como vai? – ele pergunta, sorrindo, após beber todo o conteúdo.
— Bem, obrigada – respondo, introvertida.
— E esta é a Gabrielle, a maior pegadora desse lugar – Cheryl apresenta-me, apontando para uma garota de cabelos muito curtos, semelhante à um garoto, que mantêm uma expressão serena no rosto.
— Depois de você, benzinho. – retruca, sorrindo e em seguida completa, olhando para mim – Prazer.
— Prazer – retribuo, balançando a cabeça.
— O Will e a Spencer você já conheceu. – informa Cheryl, indicando o casal com quem eu havia ido, que agora estão abraçados, sorrindo para mim de maneira descontraída – Agora venha comigo – e, pegando minha mão novamente, entra novamente na multidão.
No meio de tudo isso e nem um pouco acostumada ao ambiente, eu estou me sentindo completamente deslocada. A música parece agredir meus ouvidos e o ambiente está quente e abafado, o que me faz sentir uma leve irritação e querer ir logo para a casa.
— Olha Cheryl, eu não... – começo. Ela finalmente para em frente à um barman, fala alguma coisa para ele e depois vira-se para mim.
— Nada de desistir agora. Não sem antes conhecer a atração principal e a seu novo melhor amigo depois de mim: o álcool – fala, e, voltando-se para o barman novamente, pega dois copos grandes e entrega um deles para mim.
— Mas o que é isso? – pergunto, examinando, confusa, o conteúdo amarelo presente nele.
— Screwdriver. Vai adorar, é uma mistura de vodca com suco de laranja – responde, dando um gole generoso de seu copo.
Então experimento. Faço uma careta, ao constar que o gosto forte do álcool não é nem um pouco convidativo para mim.
— Você tem que beber de uma vez – explica, terminando o seu, como se aquela fosse a coisa mais saborosa que já tivesse provado na vida.
Relutante, consigo beber quase todo o conteúdo de uma vez só, o que me faz querer vomitar.
— Uau, você virou tudo mesmo. – Cheryl observa, rindo – Aguarde alguns minutos e tenho certeza de que se sentirá muito melhor.
— Se você diz... – falo, enquanto voltávamos para onde estava o pessoal.
Quando chegamos, nos juntamos a eles numa espécie de área vip, onde há cadeiras para nos sentarmos. Enquanto, sentada e desinteressada, observo-os conversar animadamente, uma sensação estranha percorre meu corpo. É como se eu estivesse entrando em transe. De repente, tudo à minha volta começa a rodar e uma alegria inesperada preenche meu peito. Será que a bebida já fez efeito? Penso, lembrando-me que, pelo fato de eu nunca beber, aquela dose teria um efeito rápido e forte sobre mim.
— Por acaso ninguém aqui vai dançar? — grito, mal reconhecendo minha voz, que sai involuntariamente da minha boca com um tom completamente animado. Nesse momento, enquanto todos olham para mim surpresos, me levanto da cadeira, e, imediatamente, uma enorme tonteira cai sobre mim e sou obrigada a me apoiar no joelho de Damon, que está ao meu lado, totalmente boquiaberto.
— É isso aí, garota – ele diz, empolgado, se levantando e me ajudando a não cair com a ajuda de seu braço.
— Veja quem finalmente acordou – diz Cheryl, com um sorriso enorme estampado no rosto.
Em seguida, nós três nos dirigimos para a pista de dança. Cheryl e Damon começam a dançar animadamente, e, sem a menor ideia de como, eu começo a dançar também, como se estivesse completamente acostumada a fazer isso todas as noites. Uma euforia sem igual toma conta de mim e eu sinto que sou capaz de fazer qualquer coisa. A Emma introvertida, antissocial e mal humorada que eu sempre fui não existe mais agora. Sou uma nova versão de mim totalmente diferente.
Estamos dançando por cerca de duas horas quando Gabrielle se aproxima de mim e cochicha em meu ouvido:
— Tem uma garota aqui que está louca para ficar com você. Ela é muito gata, então não pode recusar.
— Pode ser – respondo, distraída, ainda dançando loucamente, sem sequer compreender exatamente o que ela havia acabado de falar. Não tenho a menor noção do que está acontecendo, pois já estou em meu terceiro copo grande de vodca.
Logo após, uma menina muito bonita, de fato, se aproxima de mim, sorrindo. Então, sem mesmo me apresentar ou dizer qualquer outra coisa, pego a garota pela cintura e ela imediatamente me beija. Nesse momento, sou incapaz de raciocinar ou de me lembrar de nada, inclusive de Alex. Tudo o que consigo fazer, dispersa, é beijar a menina. Seu beijo é muito molhado e sua boca tem gosto de álcool, mas eu estou tão bêbada que não me importo.
Passamos o resto da noite juntas, nos alternando entre beber, beijar e dançar. Me lembro vagamente de avistar Cheryl e Damon num sofá e cada um dos dois beija um garoto. Não vejo mais Gabrielle e o casal não bebe, pois, além de Spencer precisar dirigir na volta, eles estão ocupados conversando animadamente com outro casal.
A música, ao contrário de agredir meus ouvidos, agora me envolve em seu ritmo vibrante. As luzes coloridas, que antes incomodava meus olhos, serve como um excelente distrator para minha cabeça abstraída. Após mais goles, me vejo agindo sem pensar e digo tudo o que se passa em minha mente.
Tudo o que ocorre em seguida vem em minha mente em partes picadas. Eu saio da balada, já de manhã, apoiada em Cheryl e Will. Falo sem parar no carro até chegar no meu apartamento. Passo cerca de meia hora tentando enfiar a chave na fechadura corretamente até conseguir abrir a porta da minha casa. Vomito no banheiro por uma hora. Acordo, muitas horas depois, deitada no chão da minha cozinha, com uma ligação de Cheryl.
— Alô – atendo, totalmente grogue, após tatear o chão e achar meu celular. Tento me levantar e sinto uma dor de cabeça terrível.
— Você está bem amiga? – ela pergunta, preocupada.
— Só um minuto – é só o que consigo dizer antes de correr e me debruçar na pia, vomitando.
— Acho que não né – conclui.
— Que merda Cheryl. – começo, irritada, tirando um resto de vômito do cabelo – Por que você tinha que me arrastar para aquele lugar?
— Relaxa, a primeira vez é sempre assim mesmo – diz, tentando me tranquilizar – Olha, já que hoje ainda é domingo, eu vou até a sua casa daqui a pouco e te faço sair dessa ressaca fodida. Combinado?
Antes que eu consiga responder, me debruço novamente na pia e vomito ainda mais.
— Você venceu, estou indo agora – ela fala, após me ouvir vomitar, e desliga.
Em questão de pouco tempo Cheryl chega. Ela me ajuda a limpar meu vômito, faz o almoço, me obriga a beber dois litros de água durante o dia e me dá um remédio que ela diz sempre tomar depois de uma festa, para aliviar a ressaca. Enquanto isso, tudo o que consigo fazer, na maior parte do tempo, é sentir dor de cabeça, esgotamento e náuseas.
Lembro da noite anterior. Tenho tempo de refletir e pensar sobre aquela nova experiência, e chego à conclusão que, apesar de realmente não ser tão ruim quanto eu havia pensado, ainda assim quero ir em outra só daqui a muito tempo e beber muito menos. Ao menos foi divertido dançar com os amigos da Cheryl, penso. Então me lembro da garota com quem eu fiquei e percebo que eu não sei sequer o nome dela. Jamais pensei que eu faria uma coisa dessas, mas, no entanto, eu havia acabado de ficar com uma pessoa que eu nem conhecia e ainda estou inteira. Tudo bem que o beijo foi pra lá de ruim, mas ao menos pude me distrair. Me dei conta de que nem havia me lembrado de Alex antes de aceitar fazer isso. Porém, o que havia para considerar? Nós nunca tivemos nada, ela esclareceu que não sente nada por mim e, mais que tudo isso, ela própria é casada. Não sei porque deveria me sentir estranha beijando outra pessoa, então paro de pensar nisso.
Observo o modo como Cheryl se empenha para me ajudar e a maneira com que faz todas aquelas tarefas fatídicas com um sorriso no rosto e sinto algo desconhecido dentro de mim. Será que isso é ter amigos? É isso o que amigos fazem um pelo outro? Mas o que ganhariam com isso? Por que motivos a Cheryl gastaria um dia de folga dela para perder seu tempo comigo? Não faz sentido, penso. Seria possível que ela estivesse cuidando de mim?
— E aí, como se sente? – ela pergunta. É quase noite e estamos assistindo à um programa na tv.
— Bem melhor. – respondo, verdadeiramente revigorada, dando um gole na água de coco que ela havia trazido para mim. Minha cabeça apenas lateja vez ou outra e a náusea já passou – Muito obrigada mesmo Cheryl – agradeço.
— Não foi nada – retruca.
Encosto minha cabeça em seu ombro, fechando os olhos. Isso está mesmo acontecendo comigo? Penso. Será que eu finalmente tenho alguém com quem contar? Mas e Alex? Eu também posso dizer que posso contar com ela? Rodeada por pensamentos, no momento em que penso em Alex sua festa de aniversário me veem à mente e dou um pulo do sofá.
— Minha nossa, o que aconteceu? – Cheryl questiona, surpresa.
— Estive passando tão mal que me esqueci completamente que hoje é aniversário de Alex – explico, tentando me lembrar a que horas seria a festa.
— Mas e aí, você vai na casa dela ou algo assim? – pergunta, confusa.
— Oito da noite! – exclamo.
— Você precisa estar lá às oito da noite? – adivinha Cheryl.
— Exato. – respondo, olhando as horas em meu celular. Ainda são 18 horas, então relaxo, pois tenho um tempo mais do que havia pensado – Ainda tenho duas horas, não estou tão atrasada.
— Só se você estiver pensando em de ir pijama né meu amor? – ironiza, se levantando – Acorda Emma, você está indo no níver da sua gata. Precisa estar arrasando corações.
— Ela não é minha gata Cheryl. – falo, irritada – Já te disse que somos apenas amigas.
— Sei. – fala, com um risinho – De qualquer forma, não posso deixar que nenhuma amiga minha ande por aí desarrumada. Venha, vamos dar um trato nesse cabelo.
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