— Você está excepcionalmente bonita hoje Emma – comenta Cheryl, quando uma senhora sorridente carregando um grande buquê de peônias sai da floricultura. É segunda-feira de manhã e o movimento da loja ainda está um pouco fraco.

— Obrigada – respondo, desconfiada. Ela está agindo de forma mais estranha hoje do que o habitual.

— Então, – começa, lentamente se aproximando de mim. Estamos sozinhas na loja – você já viu aquele filme novo do Netflix?

— Ainda não. Por que?

— Porque eu estou muito ansiosa para assistir e pensei que poderíamos vê-lo juntas. O que acha? – propõe, com um sorriso, esbarrando levemente seu ombro no meu.

— Ótima ideia – minto, fingindo animação. Na verdade, desde que conheci Cheryl penso que ela tem um parafuso a menos na cabeça e procuro evita-la sempre que posso.

— Que maravilha! – exclama, sorridente – Eu posso ir para sua casa hoje à noite e levar um pote enorme de sorvete.

— Você quem sabe – respondo, rindo intimamente. Por mais que ela seja maluca, ainda assim consegue me divertir com seu jeito.

Nesse momento, um homem entra na floricultura.

— Posso ajudar? – pergunto, me aproximando. Percebo que ele é extremamente bonito. Com a cor dos olhos azuis, cabelos negros e sedosos, e não aparentando ter mais de 30 anos, ele certamente é do tipo por quem a maioria das mulheres morreria.

— Com certeza. – ele responde, com um sorriso galanteador, após me analisar de cima a baixo – Eu ia pedir a flor mais bonita da loja, mas acho que acabei de encontrar.

Surpresa e a procura de uma maneira sutil de dar um fora nele olho para Cheryl, em busca de ajuda. Então ela se aproxima e passa um braço ao redor de mim.

— Lamento bonitão, mas essa florzinha já tem vaso – ela diz, sorrindo. Com uma sobrancelha arqueada, ele alterna o olhar entre mim e ela. Segurando o riso, tudo o que consigo fazer é balançar a cabeça, concordando.

— Bom, se é assim, – começa, derrotado – me vê um buque de rosas, por favor.

— Ótima escolha – diz Cheryl, piscando para o ele e pegando as flores, em seguida.

— Obrigada – agradece, após ter pagado, pegando o buquê.

— Muito feio para você? – ela pergunta, sorrindo, quando ele sai da loja.

— Digamos que homens não fazem meu tipo – solto. Nesse momento, me dou conta de que acabei de falar em voz alta, pela primeira vez, a minha opção sexual recém descoberta. Isso faz eu me sentir surpresa e levemente aliviada. Então, receosa, encaro Cheryl e espero sua reação.

— Sei como é. – ela fala, com simplicidade – Acontece que eu gosto de meninos e meninas, então eu tenho muitos tipos – brinca, fazendo-me rir. Ela não é tão mal assim, afinal.

— Alguma preferência? – pergunto.

— Ah, você sabe. Mulheres são maravilhosas – responde, me encarando com um olhar sedutor no rosto. Então, noto que há uma tensão se formando entre nós, o que me faz corar levemente.

— Qual sabor de sorvete você vai levar? – mudo de assunto.

— Qual o seu preferido?

— Morango.

— Então vou levar morango.

Estou deitada em minha cama, à espera de Cheryl. A noite está particularmente fresca e, de repente, me pergunto o que Alex está fazendo. Não conversamos desde aquele encontro que tivemos no café, e sinto como se estivéssemos brigadas. Creio que procurá-la agora não é a melhor opção, pois ainda não me sinto preparada para vê-la novamente, depois de tudo o que falamos uma para a outra.

Sinto um vazio em meu peito, como se parte de mim tivesse sido levada com Alex, quando ela saiu do café. Penso em diversas maneiras de tentar resolver a situação, mas nenhuma delas me parece boa o bastante. Frustrada, afundo a cabeça no travesseiro, numa tentativa fracassada de esquecer completamente minha vida por alguns segundos, até que ouço a campainha tocar.

— Aleluia! – exclama Cheryl quando eu abro a porta, entrando – Toquei o interfone de três números de apartamento diferentes até achar o seu.

— É difícil demais para você identificar os números 3, 0 e 2 em sequência? – brinco, fechando a porta.

— Uau, belo cafofo – diz, olhando ao redor.

— São seus olhos – falo.

Nesse momento, Ártemis e Apolo se aproximam e, após esfregarem levemente seus focinhos em Cheryl, começam a pular nela, extremamente animados.

— Parece que eles gostaram de você – comento, surpresa. Então ela agacha e faz carinho nos dois, enquanto eles ronronam e se esfregam em suas pernas, felizes – Isso é raro.

— O que posso fazer se provoco esse efeito nos gatos? – brinca, com uma expressão comicamente sensual.

— Vamos assistir ao filme ou você prefere ficar aí no chão, senhora Erva de Gato? – pergunto, tirando o sorvete que ela comprou da sacola deixada na mesa.

— Só verei esse filme se fizermos pipoca – fala, levantando-se.

— Eu não sei fazer isso – retruco.

— Você é desse planeta Emma? – ela pergunta, chocada – Que tipo de ser humano não sabe fazer uma pipoca?

— Um tipo que não come pipoca? – respondo, irônica.

— Pois então vamos, eu te ensino. Onde é a cozinha?

— Tem certeza de que precisa de tudo isso? – pergunto, descrente. Estamos na cozinha e Cheryl acaba de colocar o óleo e uma quantidade assustadora de milho na panela.

— Relaxa, eu sempre faço isso – em seguida, pega duas colheres e se dirige para a sala – Venha, vamos comer o sorvete enquanto ela não fica pronta.

Sentamos no chão da sala com as colheres na mão e o pote entre nós duas. Ligo a televisão e coloco no filme.

— Já comeu sorvete de bacon? – ela pergunta, depois de enfiar uma colherada enorme de sorvete na boca.

— Por que eu comeria sorvete de bacon? – devolvo, enojada, também comendo uma colher generosa.

— Você não sabe o que está perdendo. – comenta. Então, após segundos, acrescenta, com uma careta – Está ouvindo isso?

— Isso o que? – digo, confusa. Alguns segundos se passam e percebo do que ela está falando. Há um barulho vindo da cozinha semelhante a uma sequência de fogos de artifício lançados ao céu.

— Ainda bem que a panela está tampada, se não isso faria uma bagunça gigantesca – ela diz, voltando a comer o sorvete tranquilamente. Em seguida, quando percebe que estou encarando-a com uma expressão de pânico, ela engole todo o conteúdo de sua boca e fala, lentamente – Você tampou a panela, não foi?

— Eu não sabia, ora – argumentei, ainda imóvel, enquanto o barulho de fogos aumentava cada vez mais.

— Porra, Emma – fala, e sai correndo em direção à cozinha, seguida por mim, segundos depois.

Ao chegar, consto, boquiaberta, que a panela é semelhante a um vulcão, expelindo pipoca para todos os lados. O chão está branco e há montes delas para onde quer que eu olhe.

— O que fazemos agora? – pergunta Cheryl, tentando, inutilmente, desviar de uma dúzia de milhos estourados que voam em sua direção.

— Desligamos a panela, ora. – digo, pegando sua tampa em cima do balcão – Você desliga e eu te dou cobertura com a tampa.

— Posso tentar – ela fala, cobrindo os olhos. A cena se iguala à de uma tempestade, onde as pipocas nos acertam com ferocidade.

— Eu disse que você tinha colocado muito – digo, enquanto Cheryl se aproxima do fogão e eu protejo seu rosto com a tampa e o meu com minha mão livre.

— Você jura? – ironiza, conseguindo chegar perto o bastante para desligar a panela. Após um tempo, elas param de estourar e a chuva de pipocas acaba, finalmente.

Ficamos um tempo em silêncio, apenas observando o estrago feito. Depois, olhamos uma para outra e, diante da situação cômica em que nos encontramos, começamos a rir. Ficamos alguns minutos gargalhando, até que, com as barrigas doendo, paramos e tomamos fôlego. Não me lembro a última vez em que havia me divertido tanto.

— Ao menos ela está gostosa – consta, após comer uma pipoca que havia caído no balcão.

As duas horas seguintes foram divididas entre o tempo que levamos para limpar o pandemônio que a cozinha havia virado e aquele em que sentamos no sofá, comemos todo o pote de sorvete de morango e conversamos sobre assuntos aleatórios. Cheryl havia se mostrado uma excelente companhia e uma completa maluca, no melhor dos sentidos.

— Nunca comi tanto sorvete na vida – ela exclama, deitando a cabeça no sofá.

— Acho que ficarei sem comer pelo resto da semana – brinco, empanzinada.

— Preciso ir embora – diz, levantando-se, após olhar algo no celular.

— Por que? Nós nem vimos o filme ainda – pergunto.

— Me esqueci completamente da festa surpresa que daremos para um amigo meu. Você quer ir? – convida, surpreendendo-me. Não era muito frequentemente convidada para festas.

— Obrigada pelo convite, mas não dá. Eu trabalho amanhã – respondo, e, após pensar um pouco, acrescento, com uma sobrancelha arqueada – E você também, engraçadinha.

— Virou minha mãe é? Relaxa, não vou voltar tarde – retruca, indo para a porta.

— Faça como quiser, contanto que não sobre tudo para mim amanhã – digo, abrindo a porta. Nós duas passamos pela porta e ficamos no corredor do 3° andar, iluminado por uma grande lâmpada.

— Você está muito estressadinha, Emma – fala, com um sorriso nos lábios, me observando.

— Estou mesmo. O que você pode fazer para me deixar nas nuvens é acordar super disposta amanhã – proponho. Então Cheryl se aproxima de mim, lentamente.

— Vou fazer uma coisa ainda melhor – diz, e, envolvendo meu rosto com suas mãos, me beija.

O choque toma conta de mim. Eu não estava esperando por isso. Inicialmente, ela cola seus lábios nos meus num simples selinho, como se para analisar minha reação. Penso em Alex. Em meus sentimentos por ela. Então começo a me sentir culpada e a querer parar aquilo. Mas, em seguida, me lembro da última noite em que nos vimos. De tudo o que ela me falou sobre não sentir nada por mim. Nesse momento, concluo que não estou fazendo absolutamente nada de errado, e que, pelo contrário, estou certa em querer seguir em frente depois de descobrir que a mulher por quem estou apaixonada não corresponde ao sentimento.

A boca de Cheryl está gelada e tem gosto de morango, por causa do sorvete que havíamos acabado de tomar a alguns minutos, o que a faz ficar deliciosamente tentadora. Então, quando ela começa a mover lentamente seus lábios sobre os meus, decido jogar tudo para o alto e me entrego à sensação, ainda um pouco nova, de estar beijando alguém.

Posiciono minhas mãos ao redor de sua cintura e retribuo o beijo. Sua língua logo pede passagem, e sinto um leve receio me invadindo, pois nunca havia beijado ninguém de língua. O beijo que eu e Alex trocamos foi simples e não chegou a esse ponto. De repente, como que instintivamente, sei o que fazer. Tudo acontece com muita naturalidade. Em questão de pouco tempo, nossas línguas estão entrelaçadas uma na outra, realizando uma coreografia calma e prazerosa.

É um beijo cru. Sem sentimentos. Sem emoção. Sem amor. Aquele desejo insano presente no que Alex me deu simplesmente não existe agora. Não há uma conexão. Nossas bocas não se conectam e nossos corpos parecem menos ainda serem feitos um para o outro. Não sinto meu coração bater mais forte ou a sensação de estar pegando fogo. Sinto apenas o prazer de beijar alguém.

De repente, tenho a sensação de que nós duas não estamos sozinhas e interrompo o beijo, assustada. Será que tem alguém me vendo beijar outra garota? Então, quando olho ao redor, percebo que Alex está parada no fim do corredor, em frente a mim e a Cheryl, observando a cena em choque. Cheryl me solta, surpresa, e eu não consigo ter nenhuma reação, pois fico completamente imóvel. A única parte do meu corpo em movimento é meu coração, que bate incessantemente.

— Oi Emma. – ela começa, completamente sem graça, depois de ficarmos alguns segundos em silêncio, sem ter ideia do que dizer — O portão do prédio estava aberto e eu entrei. Pensei em te fazer uma visita, — diz e depois acrescenta, com um sorriso forçado — mas você está ocupada, então eu volto depois.

— Alex – é tudo o que eu consigo dizer. Em seguida, ela dá as costas para nós duas e começa a descer as escadas, correndo.

Mil pensamentos preenchem a minha mente e eu não faço ideia do que fazer. Sinto como se tivesse acabado de ser pega fazendo algo muitíssimo errado. Olho para Cheryl, que me encara com um olhar de preocupação sem entender nada.

— Olha, eu... – começo, apontando para a escada, em pânico.

— Tudo bem, você precisa ir atrás dela. – completa. – O que está esperando garota? – pergunta, sorrindo, com urgência na voz.

Corro o mais rápido possível e, quando desço todas as escadas e chego ao primeiro andar, avisto Alex saindo do prédio.

— Alex, espera! – grito, me aproximando dela. Ela para com certa relutância e olha para mim, fazendo-me entrar em choque. Seus olhos estão cheios de lágrimas.

— Por que você está chorando? – pergunto, preocupada.

— Eu não estou chorando. – ela responde, secando os olhos, a voz levemente embargada – Está tudo bem Emma – acrescenta, sem retribuir meu olhar. Ela tem uma expressão confusa e arrasada no rosto.

— Deixe-me ajudar você – peço, tocando de leve seu rosto.

— Já disse que estou bem – ela grita, irritada, tirando bruscamente minha mão. Em seguida, após se dar conta do que acabara de fazer, deposita seus olhos assustados, vermelhos e cheios de tristeza nos meus e vai embora, me deixando parada na entrada do prédio, completamente sem chão.