A Garota do Cabelo Lavanda
18 Capítulo 18
Notas iniciais
A SOMBRA, A NEVE E O CALOR
O natal não seria tão alegre como Ken imaginou. Hida teve alta do hospital, mas teria que ficar ainda mais alguns dias em repouso. Armadilomon estava em um misto de alegria, por rever seu parceiro, e culpa, por não tê-lo protegido do ataque e tinha crises de choros constantes.
Takeru e Hikari passariam a data acompanhados dos irmãos que voltariam de Tóquio, devido ao recesso escolar. Miyako passaria com a família e Daisuke, bem, este ainda tentava convencer os pais que ir para interior justamente durante as festas de final de ano era uma péssima ideia.
Ken estava deitado em sua cama, trajava uma roupa leve, mas mesmo assim estava suando. Sua mãe sempre ligava a calefação no máximo nos dias de inverno, o que deixava a casa um forno. O calendário sobre a mesa estava riscado até o dia vinte, porque o garoto simplesmente ficara com preguiça de marcar os outros. Ele podia ouvir sua mãe preparar alguma coisa na cozinha, algum quitute natalino, com a ajuda de Wormmon.
O quarto excessivamente quente começou a dar muito sono e quando deu por si, ele não estava mais dentro do cômodo de paredes claras, mas em um ambiente escuro e frio. Para qualquer um aquele local seria terrível e opressor, mas para Ichijouji, o cenário lhe era terrivelmente familiar. Trevas, suas amigas de longa data.
O adolescente não estava sozinho, alguns metros à frente, um garoto exatamente da mesma altura e porte físico o esperava sorrindo.
“Achei que não viria mais me visitar...” Indagou afetado.
“Eu preciso falar com você.” Enfiou as mãos nos bolsos, isso soava tão estranho. Ele estava falando consigo mesmo, mas não parecia nem de longe com o que uma pessoa normal faria.
“Oh, então o doce e generoso Ichijouji Ken precisa de mim?” Zombou.
“Você sabe o que está acontecendo, certo?” Foi direto ao assunto. Tudo o que fizera desde o acidente com Hida foi analisar os dados no computador e tentar achar provas que sustentassem sua teoria, mas ainda assim, havia um ponto falho que ele não conseguiria resolver sozinho. Era um gênio, mas precisaria da parte diabólica da sua genialidade para resolver todo caso.
“Você também sabe, não?”
“Controlar mais de um Digimon com o mesmo Digivice, isso não é possível.”
“Não?” Aquele sorriso que Ken tanto odiava estava lá.
“É muito diferente.” Respirou fundo. “Havia os anéis e as torres. De certa forma, não era meu Digivice, no fim das contas.” Se sentia ridículo explicando isso para si mesmo.
“Seu Digivice mudou com o tempo, certo? Nada impede que o de alguém tenha mudado para isso.” Kaiser tinha razão, de alguma forma, algum fragmento de torre negra poderia ter interferido na criação do Digivice, mas isso era meramente especulativo.
“Isso explicaria todo o resto, a influência nos portais.” Kaiser deu de ombros, concordando com a afirmação.
“Então sua teoria é um humano com um Digivice?”
“Eles estão evoluindo.” Começou. “Eu sei que muitos evoluem apenas com a força de vontade. Mas, evoluções incorretas são muito raras de acontecer nesses casos. A discrepância entre os corações do Digiescolhido e seu parceiro é que causa esse problema.” Explicou ao ver a expressão cética no rosto da contraparte.
“Você e essa ladainha de coração. Está realmente ficando muito mole.”
“Você sabe que funciona assim...”
“Então você deveria ter tentando com aquela sua lagarta ridícula, talvez fosse de alguma utilidade.”
“Wormmon não evoluiria dessa forma.”
“Por que não?”
“Lealdade. Por mais que ele não concordasse com os meus feitos, ele sempre foi leal. Se eu pedisse, ele sincronizaria seu coração ao meu...”
“Blábláblá... Não sei por que tanta simpatia com um Digimon tão inútil.” E revirou os olhos. “De qualquer forma, é bom que você resolva isso logo, não quero ninguém tentando tirar meu posto.”
“Com essa falta de controle, duvido que consiga criar um exército. Fique tranquilo, o posto será nosso por muito tempo.” E Ken se surpreendeu em como aquela frase soou tranquila e natural.
“Espero que seja mais bem sucedido do que seu lance com aquela garota...” Um sorriso largo e sarcástico rasgou as feições.
“Do que está falando? Eu fui bem sucedido.”
“Mesmo? Até onde me consta ela te trocou pelo viciado em computador.”
“Ela disse que gosta de mim.” Informou, embora fosse desnecessário, já que o Kaiser sabia tudo a seu respeito.
“E você acreditou?”
“Você acreditou.” O sorriso assumiu a face e sua parte sombria se sentiu desprotegida. Se ele sabia tudo sobre o Ken, o mesmo não acontecia do outro lado. As trevas estavam sempre lá para ocultar as escolhas do Kaiser, mas se o outro sabia como ele se sentia, ou as trevas já não eram tão densas ou seu lado bom tinha dado um passo em direção ao abismo. “E isso é o suficiente para mim.” E ambos os garotos tiveram certeza que aquela separação não duraria muito tempo.
Ken não tinha certeza se tinha cochilado ou vivenciado uma espécie de transe, mas despertou com sua mãe batendo na porta. Quando a mulher entrou no quarto, encontrou o filho na cama, coçando os olhos e o cabelo todo bagunçado. Deu um sorriso maternal e informou que o filho tinha visita.
Era o meio da tarde, só poderia ser o Motomiya. O ruivo fora arrastado para as compras por Jun em todos os dias que antecederam o Natal e no final, sabia que a garota não queria ir para o interior, pois perderia a única oportunidade que teria de ver Yamato. Jun sabia que o loiro namorava, mas não conseguia por sua obsessão de lado. Se arrastou até a sala, descalço e penteando os cabelos com as mãos só para dar de cara com Inoue.
A garota estava sentada no sofá da sala e usava um vestido de inverno com motivos natalinos. A julgar pelo tecido grosso que vestia e como a casa estava absurdamente quente, ela deveria estar suando. O cabelo estava solto, os óculos ligeiramente embaciados e as mãos seguravam uma sacolinha de papel branca com fitas coloridas amarradas.
“Inoue-san?” Era a última pessoa que esperava ver ali. Desde o dia do ataque, ele não falara mais com ela. Ela faltara no dia seguinte ao colégio e no final, eles acabaram entrando em recesso sem realmente conseguir discutir tudo o que acontecera no Digital World.
Ela sorriu, se levantou e o cumprimentou com uma delicada mesura. Então, se sentou novamente. Ichijouji se sentou no outro extremo do sofá, ainda estupefato com a presença dela, estranhou que Hawkmon não a estivesse acompanhando, mas ela explicou que ele detestava frio e só saia de casa se fosse realmente necessário.
“Você não vai passar o Natal com a sua família?” Perguntou sem jeito.
“Sim, mas vamos celebrar só ao anoitecer porque meus pais ainda estão na loja. Não é feriado nem nada do gênero e nessa época as vendas sempre aumentam.” Explicou. “Então aproveitei meu tempo livre e vim ver você. Fiz mal?” E sorriu. O sorriso fez a sala parecer mais quente que o inferno e Ichijouji precisou respirar fundo para não desmaiar ali mesmo.
“Não, claro que não. Eu só estou surpreso.” Respondeu com sinceridade.
“Bem, fazia um tempo que não nos falávamos...” E a frase ficou pairando no ar.
“E o Iori-san?”
“Está bem, disse que já está pronto para outra.” E os dois riram. ”Mas eu ainda estou muito preocupada com ele. Com tudo na verdade.” E respirou profundamente. “Takeru me disse que você sabia o que estava acontecendo.” E os olhos brilharam esperançosos.
“Bem, na verdade é só uma teoria.” As mãos instintivamente foram para o cabelo. “Eu acredito que alguém esteja tentando controlar os Digimon.”
“Como os anéis?”
“Com um Digivice.”
“Mas, isso seria possível? Quer dizer, não podemos usá-los só nos nossos parceiros?”
“É exatamente esse o ponto. Cada Digimon reage apenas a um Digivice, por isso eles estão ficando fora de controle, porque o Digivice não é o correto.”
“Mas, eles não deveriam nem reagir, certo?”
“Em tese sim, mas isso é influenciado pelo portador. Muito da nossa força de vontade e desejo é necessária para ativar o dispositivo e auxiliar nossos parceiros. Eu não sei o que essa pessoa sente, mas ele consegue provocar uma evolução, mesmo que errada.”
Miyako mordeu o lábio inferior, ela tinha pensando em várias coisas, mas nada parecido com aquilo.
“E quanto aos portais?”
“Eu ainda não sei ao certo, mas eu investiguei os dados e encontrei um fluxo de dados tentando corromper os dados das passagens.”
“Um vírus?”
“O modelo é parecido, mas é estranho porque só ativa do Digital World para cá e não ao contrário. Eu preciso coletar mais dados.” A garota apenas concordou com a cabeça e se ofereceu para ajudar no que fosse necessário.
Os dois ficaram em silêncio, podia-se ouvir o som da batedeira na cozinha e a voz fininha de Wormmon que planejava como decorar os biscoitos assados pela senhora Ichijouji.
“Bem...” A menina se levantou. “A verdade é que vim pedir desculpas.” Ken curvou as sobrancelhas sem entender e também se levantou. “Aquele dia na escada...” A voz falhou, as mãos apertam as alças até os nós dos dedos ficarem brancos e o rosto ficou muito vermelho. “Eu acho que não disse as coisas apropriadamente.” A voz saiu tão estranha que Ken não tinha certeza do que tinha ouvido.
“Inoue...”
“Eu disse muitas coisas sobre o Koushirou-kun, ficou parecendo que...” Ela interrompeu. “Eu não quero que você ache que...” Mas as palavras simplesmente não vinham. “Eu realmente gosto de você.” Respirou fundo e encarou os orbes azuis. “Eu gosto muito de você, Ken.”
O som do seu nome sem o honorifico ficou badalando em seus ouvidos como sinos de igreja. Se ela tinha adquirido coragem suficiente para ir até ali e se declarar de novo, a dele parecia ter derretido junto com o suor que pingava do rosto. Ele tinha que dizer alguma coisa, precisava, mas a mente estava totalmente em branco.
“Se você estiver saindo com aquela garota, tudo bem, eu entend...”
“Eu não estou! Eu não estou saindo com ninguém.” A voz saiu alta aos atropelos.
Miyako apenas sorriu. “Então, eu posso te dar meu presente?” E estendeu a sacola para o rapaz. Ichijouji aceitou o pacote sem jeito, sentiu todo o sangue sumir do rosto e as mãos ficarem muito frias. De repente, não importava o quão quente a casa estava, estava mais frio do que a neve que caia lá fora.
“Eu não comprei nada para você...”
“Não é como se eu realmente esperasse.” A voz saiu mais calma e com o tom extrovertido de sempre, enquanto a garota cruzava os braços atrás das costas.
Foi a vez de Ken segurar a sacolinha até a circulação de sangue das mãos ficar prejudicada e o silêncio no ambiente ser tanto que seu coração parecia o retumbar de um tambor de guerra. Ele queria ter a mesma coragem da menina e encarar os olhos castanhos, mas instintivamente seu olhar desviou para os pés.
“Eu não sei se posso dizer sim...” A voz saiu enrolada e arrastada. Inoue não entendeu e curvou as sobrancelhas. “Eu gosto de você também, Inoue-san. Mas, eu... As coisas foram muito confusas e eu não sou bom com essas coisas...” O sangue que deveria correr pelas veias das mãos foi todo para o rosto.
“Que coisas?”
“De... Bem, de gostar de alguém.” Respirou fundo. “Eu não sou bom com isso.” Todo ar da sala não parecia o suficiente. “Eu não sei o que tenho que fazer e as coisas podem dar erradas e...”
“Não precisa ser um namoro.” A moça sugeriu e viu os olhos se voltarem curiosos para ela. “Seria mais como é agora. Ou melhor, como era antes...” Disse pensativa depois de se lembrar das brigas sem fim das últimas semanas. “Mas, sem os honoríficos. Você pode me chamar de Miyako apenas.”
Não era como Ken imaginara, não fora romântico como nos doramas que via com a mãe, nem épico como nos filmes franceses ou engraçado como nos seriados americanos. Tinha sido estranho e desconfortável, mas ao mesmo tempo tinha sido incrivelmente bom. Ele não sentira borboletas no estômago, nem mais nenhum desses sintomas amorosos que as garotas tanto comentavam. Sentia-se apenas feliz das coisas serem como no começo do ano. Ele teria que pegar na mão, beijar, até mais, mas não queria pensar nessas coisas agora. A cena de Miyako parada diante de si no meio da sala, o sorriso estampado no rosto, o cabelo molhado de suor, o vestido com cara de brechó, a dificuldade para encará-la nos olhos porque os óculos estavam embaçados e porque o solado grosso da bota que usava a deixava ainda mais alta, era apenas disso que ele queria se lembrar.
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