Notas iniciais
Voltei, e estou muito feliz que ainda tenho leitores lindos que acompanham e comentam! Achei que ficaria abandonada na rua da amargura, mas vocês estão aqui, seus lindos, para iluminar meus dias. Sem muito mais papo, vamos ao capítulo de hoje. Tema: Loja de Conveniência Boa leitura!

CHICLETE

Quando Ken chegou à escola naquela manhã gelada, ele não saberia dizer qual era seu estado de espírito. As aulas eram as piores da semana, ele teria que ficar depois do horário para arrumar a sala de aula e estava ventando tanto que seu cabelo estava cheio de folhas que tinham se desprendido das árvores. Por outro lado, ele veria Inoue e isso era o pequeno raio de sol que iluminava seu dia.

Era meio de janeiro e em breve faria uma mês que ele e a garota do cabelo lavanda estavam... A palavra seria namorando, mas eles tinham combinado em não dar nomes e títulos, então ele apenas assumia aquilo como estar de bem com a menina. O problema é que apesar de finalmente chamá-la pelo nome, nada havia mudado realmente. Ken não sabia muito sobre relacionamentos, mas sabia que havia coisas como fazer programas juntos, andar de mãos dadas e trocarem beijos, mas eles não faziam nada dessas coisas. Até conversar, quando estavam a sós, havia se tornando um problema, eles pareciam não ter assunto e quando tinham, as palavras saíam truncadas, como se eles se esquecessem das sílabas e no final só coravam e sorriam.

E eles sorriam muito um para o outro, fosse quando se encontravam ao acaso no corredor durante as trocas de aula, fosse um sorriso discreto trocado quando um olhar cúmplice se cruzava durante o horário de almoço, fosse um sorriso exageradamente feliz quando se despediam no parque Odaiba. Mas fora os olhares que trocavam e os sorrisos que preenchiam o dia, nada mais havia mudado nessa relação.

Esse não era o único aspecto na vida de Ichijouji Ken que tinha não tinha evoluído absolutamente nada. Ele não conseguira descobrir nada sobre os ataques estranhos no Digital World, mesmo reanalisando os dados do portal uma centena de vezes. Taichi, Yamato e Mimi tinham enviados seus parceiros para o Digital World na tentativa de auxiliar na investigação do grupo e coletar mais informações, mas não tinham descoberto nada de relevante. Ou seja, era como se sua vida tivesse parado exatamente no dia de natal.

Por isso, naquela manhã, enquanto organizava suas coisas dentro do armário, ele tinha decidido que daria um passo. Não importava se fosse para resolver a pendenga no mundo digital ou em sua relação com a mais velha. Ele precisava sair daquela zona de conforto e começar a fazer as coisas andarem. Pensara em convidar Inoue para um passeio, mas ele mal conseguia pronunciar seu nome sem usar o honorifico, menos ainda que teria cara de pau para levá-la para algum lugar. Ele era uma negação.

Estava terminando de guardar os sapatos que acabara de trocar quando deu um passo para trás e esbarrou em alguém. Não precisou se virar para saber quem atingira. O contato das peles expostas fez o sangue gelar e uma descarga elétrica percorreu todo seu corpo. Ouviu a menina resmungar um pedido de desculpas afobado, já que Aya a arrastava pelo corredor na tentativa de mostrar o terceiranista por quem estava apaixonada.

Ken viu os cabelos lavanda sumirem entre os outros alunos e o cheiro de sândalo impregnar o ar. A parte da mão onde havia tocado na garota estava mole e dormente, como se ele nunca mais pudesse usá-la. Se sentiu um completo idiota, se apenas um tocar o deixava desse jeito, imagina se decidisse andar com os dedos entrelaçados nas mãos finas.

A aula foi extremamente chata e enfadonha, mas não completamente inútil. Bem, não a aula, mas sim as coisas que ouvira. Era de praxe que quase ninguém prestava atenção ao professor de matemática e a maioria gastava o tempo conversando, dormindo ou lendo revistas. O moreno estava divagando. Se lembrava da cara feliz da mãe, que só faltou promover um festival, quando saiu da cozinha. A mulher tinha ouvido toda a conversa entre os adolescentes e não poderia conter a felicidade gigantesca de saber que seu pequeno Ken se tornara um homenzinho e com uma namorada tão doce e jovial. Wormmon não parecia dividir da mesma felicidade, não que o pequeno inseto não gostasse da menina, mas ele vira tudo o que ela causara no parceiro, mesmo que indiretamente, e tinha medo que isso pudesse influenciar negativamente.

Foi quando a conversa entre duas garotas sentadas ao seu lado chamou sua atenção. Elas cochichavam para não chamar a atenção do professor e por isso Ken não conseguira entender a história por completo, mas uma delas estava muito chateada porque o namorado não a acompanhava até em casa após saírem da escola. A amiga tentou todos os argumentos possíveis para explicar a ausência do garoto, mas a menina abandonada parecia disposta a terminar o namoro apenas por isso. Como ela dissera, acompanhá-la era o mínimo que ele podia fazer para provar seu amor.

Várias vezes Ken acompanhara Miyako até metade do caminho, mas nunca a levara até em casa. Mesmo esse meio percurso nunca fora feito apenas em companhia da menina, geralmente todos os amigos estavam juntos, o que colocava Ken na mesma categoria do namorado da colega. Então era isso, a resolução que procurava para alavancar sua relação. Ele iria acompanhá-la. O problema era como ele iria fazer isso.

Sabia que a garota tinha monitoria do clube de informática e teria que sair mais tarde. Ele também ficaria preso mais tempo, devido suas atividades na limpeza, mas isso não atrasava tanto assim. Para piorar, Daisuke e Takeru também tinham atividades do clube e no final, o trio sempre voltava junto, já que todos os clubes acabavam quase no mesmo horário. De forma que, Ken precisaria enrolar até o horário que a garota saísse e ainda dar um sumiço na dupla de amigos.

Ele passou o resto da aula imaginando como daria um sumiço nos garotos, já que não poderia simplesmente pedir que eles dessem área porque ele queria um momento sozinho com a veterana. Primeiro que os amigos não sabiam que eles estavam tendo algo e segundo, ele seria zoado pelo resto da vida colegial e talvez além, principalmente por Daisuke.

Quando as aulas terminaram, Ichijouji se pôs a apagar a lousa e ajeitar as carteiras sem um pingo de ânimo. Ele queria ver Miyako e conquistá-la acompanhando-a até em casa, mas ele não tinha pensado em nenhum desculpa convincente o suficiente para dispensar os amigos. Foi quando os garotos da 1-A colocaram a cara na porta.

“Ué, você ainda está aqui?” A voz de Motomiya estava bastante surpresa de encontrar o amigo ali.

“É meu dia de arrumar a sala.” Informou. O colega que dividia a atividade lhe lançou um olhar de menos conversa e mais trabalho que Ichijouji fingiu não ver. “Mas vocês não deveriam estar no clube?”

“As atividades externas foram canceladas.” Informou o ruivo. “Ainda bem, o tempo está horrível.” Ken encarou o dia pela janela. Fazia dias que não nevava mais, mas o céu estava cinzento e o vento fustigava as árvores com violência. “Então vamos para casa jogar videogame, topa?” E abriu um sorriso gigante.

“Nós podemos esperar você.” Anuiu o loiro.

“Não é necessário.” E realmente não era porque ele não queria ir à casa do amigo. “Eu vou demorar um pouco aqui.” O outro garoto não gostou muito desse papo de demorar. “Eu me encontro com vocês lá.”

Os dois amigos concordaram e se despediram. Ken voltou as suas atividades com o ânimo renovado, o céu conspirava a seu favor e ele não precisaria mais arranjar um meio de dispensar os amigos. Terminou a atividade muito antes do que previra, o que surpreendeu seu colega e ficou matando o tempo no corredor. Estava muito nervoso e os minutos pareciam não avançar de jeito nenhum. Então deixou que seus pés o movessem e ele foi parar diante da porta do laboratório de informática. Pôde ouvir Miyako dispensar os outros membros e a porta se abrir antes que pudesse bater.

Os membros saíram, passando apressadamente por ele e a moça ficou surpresa de vê-lo parado ali.

“Ken?”

“Eu era o responsável pela limpeza de sala.” Falou muito rápido. Myako sorriu do rosto corado e do afobamento do rapaz e deu passagem para que ele entrasse na sala. Ela ainda precisava arrumar suas coisas antes de partir.

Ken se sentou diante do único computador ligado, próximo a porta. O laptop da moça estava conectado a ele, e pôde observar que assim como ele, ela vinha tentando achar algum padrão nas informações que tinha coletado do portal.

Enquanto o moreno ficou vendo os dígitos correrem pela tela, Miyako foi confirmar se os outros computadores tinham sido devidamente desligados. Quando terminou se jogou na cadeira ao lado do rapaz.

“Eu tenho analisado os dados que você me passou, mas não consigo encontrar nada. Além disso, depois do ataque do Iori nada mais aconteceu. Eu fico feliz por isso, mas...”

“Não conseguimos informações novas sem novos ataques.” Completou o rapaz com um sorriso. Ele não queria ter que passar por nenhuma luta similar a que tivera com Golemon, mas sem evoluções erradas era impossível descobrir mais.

“Eu esperava que fossemos resolver esse problema logo.” Resmungou a garota enquanto fechava o laptop. “Mas afinal, por que você está aqui? Não que eu não esteja feliz pela sua companhia mas...”

“Foi meu dia de arrumar a sala, como eu tive que ficar além do horário, achei que não custava te esperar.” Respondeu, sentiu as maçãs do rosto corarem, mas tentou se manter o mais calmo que conseguia.

“Mas nos dias de clube, eu volto com o Daisuke e o Takeru.” Disse distraidamente, enquanto arrumava suas coisas.

“Bem, eles não tiveram atividades do clube hoje.” Explicou. Miyako o encarou, era visível que ela mentalmente o questionava por saber aquela informação. O moreno simplesmente apontou para janela. Os olhos castanhos se fixaram nas nuvens grandes e cinzentas e no vento forte que parecia querer arrancar as árvores do chão.

“Bem, obrigada então.” Ela terminou de guardar o laptop. “Eu acabei bagunçando todo o seu horário, então você não precisa fazer isso...”

“Eu quis fazer isso, e vou fazer quantas vezes quiser.” A frase saiu forte, quase autoritária. Miyako observou a expressão forte e obstinada e só conseguiu murmurar um ‘certo’ que saiu quase inaudível.

=8=

E ali estava Ken, arruinando tudo de novo. Ele tinha decidido acompanhar a garota como prova de amor, mas no final terminara chateado por ela não se importar e agora caminhavam em um silêncio sepulcral.

Era verdade que Inoue dissera para eles irem devagar, mas no passo em que estavam até Hikari e Takeru que eram só amigos eram muito mais próximos. Atualmente, ele não parecia tão avesso à ideia de assumir a relação nem se importaria em ter que fazer demonstrações de afeto. O problema é que ele não conseguia externar isso e tudo estava ficando muito morno. Se culpava por ter se ludibriado com a conversa das garotas na sala de aula. Miyako sempre fora uma garota muito diferente das demais, e ele tinha total consciência disso, então era óbvio que o que funcionava com as outras não funcionaria com ela.

“Você está muito quieto.” Miyako o tirou de seu devaneio. “Preocupado com alguma coisa?”

“Não. Eu só estou cansado.” Ele estava mentindo, ela sabia, mas ele não queria falar que estava chateado porque ela não deu valor ao seu gesto. Ele iria parecer uma menininha fresca e inconformada.

“Acho que nos separamos aqui.” E só então Ichijouji se ligou que eles já estavam em frente ao parque Odaiba, aonde geralmente ela iria para casa e ele rumava para a estação. Sua missão de acompanha-la tinha sido um verdadeiro fracasso e se ele virasse as costas, nunca iria se perdoar.

“Eu te acompanho até em casa.” A menina arregalou os olhos por trás dos óculos sem entender. Ia argumentar, mas ele a interrompeu. “Eu preciso... comprar algo na sua loja. Isso! Preciso comprar uma coisa.” A frase saiu totalmente aleatória, pior do que alguém que aprendera japonês recentemente.

Inoue pensou em refutar, mas mesmo com uma expressão mais suave, aquele olhar obstinado ainda estava lá e ela achou melhor não discutir. Caminharam em silêncio, no final de tarde frio e melancólico, até chegar à conveniência da família Inoue. A garota cumprimentou a irmã que estava atrás do balcão e pediu licença a Ken para guardar seu material escolar no fundo da loja.

O rapaz dos cabelos negros ficou andando entre os corredores da loja, analisando os produtos. Não tinha nada que ele realmente quisesse comprar, mas já que usara essa desculpa, agora teria que comprar qualquer coisa. O olhar da irmã mais velha sobre ele o incomodava, mas nada comparado ao incômodo que atormentava seu espírito por ter fracassado miseravelmente na missão de bancar o namorado legal.

Miyako voltou alguns minutos depois, trajando o avental da loja por cima do uniforme escolar e parou ao lado do rapaz.

“Então, encontrou o que precisava?”

“Claro.” Disse pegando o primeiro chiclete que viu na prateleira. Sorriu sem graça e foi até o caixa pagar. Miyako ficou observando o garoto pagar por um chiclete que ele provavelmente pagaria mais barato se o fizesse na lojinha da estação e que pouparia metade de uma caminhada desnecessária.

Ele agradeceu, enfiou o chiclete no bolso e saiu da loja acompanhado pela garota. E seu sucesso na missão acompanhar a garota e pagar de romântico tinha sido zero. Ele deveria ter pensando melhor no plano ou na ação, tudo tinha saído errado e no final ficara tudo muito estranho.

“Obrigada por me acompanhar.” Miyako agradeceu. “Eu fico muito feliz que você tenha vindo até aqui...” A frase foi morrendo enquanto o rosto corava, era como se tivesse mais a ser dito, mas ela não tivesse coragem suficiente.

“Mesmo?”

“Foi meio estranho, eu acho. Não combina muito com você, mas...” Ela puxou uma mecha do cabelo e colocou atrás da orelha. “É que eu realmente não tinha imaginado você fazendo esse tipo de coisa.”

“Que coisa?” Arqueou a sobrancelha.

“Essas coisas de mangá. De acompanhar a garota.” Ela corou ainda mais e desviou o olhar para o chão. Até Ken sentiu o rosto corar, nunca se imaginara como um protagonista shoujo.

“Me desculpe se a coisa toda pareceu estranha...” Começou sem jeito. “Eu queria só mostrar que eu estou sério sobre isso.”

“Eu sei que você está.” Ela o encarou e sorriu. O rosto ficou ainda mais vermelho, se possível, mas ela trazia uma expressão bastante calma e alegre no rosto. Ken gostava muito daquela expressão, mais do que qualquer outra que a garota pudesse fazer. Aquele sorriso fino e discreto, os olhos grandes e brilhantes. Ele realmente gostava daquilo.

Gostava muito e agiu movido por esse sentimento. Deu um passo a frente e uniu seus lábios com os da garota. Foi totalmente desajeitado, os lábios não se encaixaram direito, os dentes se chocaram, precisou levantar os pés e não sabia o que fazer com as mãos. Sua única experiência fora o beijo que trocara com Hanamizuki, e ele nem considerava aquilo como realmente um beijo.

Sentiu Miyako envolver seus ombros com os braços, diminuindo a distância entre eles e aprofundar o beijo. Ela era muito mais habilidosa do que ele, e definitivamente, naquele momento, ele não queria saber por que. Quando eles precisaram de ar, o beijo terminou e o rosto da menina estava exatamente da mesma cor dos cabelos.

Ken não sabia se sorria, se mantinha uma postura mais séria, se a encarava ou se deveria dizer alguma coisa. Deu um sorriso que a menina não viu, se despediu sem jeito e rumou para a estação. Antes de chegar ao final do quarteirão pôde ouvir a irmã da veterana fazer um escândalo por causa do beijo dado na porta do estabelecimento. Não era nada de ruim, a mais velha parecia estar mais contente que a própria Miyako. E Ichijouji resistiu a tentação de olhar para trás e apreciar a cena.

Não tinha sido do jeito que imaginara, mas ele tinha dado um passo.

Notas finais
N/T: Caso vocês achem meus temas meio absurdos, bom, eu me inspiro naqueles desafios de fazer fics com palavras específicas. Enfim, se vocês quiserem sugerir um tema, é só pedir nos comentários. Definitivamente, eu não sei fazer romance.