A Garota do Cabelo Lavanda
17 Capítulo 17
Notas iniciais
CHÁ DA TARDE
Não importava o preparo físico que Motomiya tinha por causa do clube de futebol, ele estava com dificuldade de acompanhar Ken na corrida. Os garotos tinham acabado de atravessar o Parque Odaiba, Ichijouji olhou alguma coisa no aparelho celular e fez uma curva brusca entrando na área residencial próxima ao parque.
Daisuke não estava entendendo nada, seguiu o amigo por instinto e estranhou quando o moreno cruzou os portões da escola sem se abalar. O ruivo sabia melhor do que ninguém como o amigo respeitava as regras. Por mais que tentasse perguntar o que estava acontecendo, o outro parecia compenetrado demais analisando informações no celular e correndo desabaladamente.
Eles correram até um prédio residencial com fachada cinzenta e um forte sistema de segurança na entrada. Daisuke sabia que rumavam para lá e se perguntava como atravessariam, por isso se espantou quando viu Ken aproveitar a oportunidade perfeita. Uma moradora entrava no prédio carregada de compras, enquanto o porteiro se ocupava em ajudá-la com as sacolas, o gênio manobrou por eles e passou imperceptivelmente. Motomiya não teve a mesma sorte. Esbarrou na mulher, derrubando boa parte das compras. Tentou se desculpar, mas viu o porteiro ameaçar segurá-lo e correu o mais rápido que pôde atrás do amigo.
Encontrou Ken dentro do elevador, as portas quase se fechando, o sexto andar marcado no painel do transporte.
“Ken, o que estamos fazendo?” Perguntou enquanto tentava tomar fôlego.
“Invadindo.” Respondeu categórico, a voz falhando devido o esforço. Daisuke revirou os olhos, isso era óbvio, mas ele não fazia ideia do motivo.
“Eu sei disso, mas por que estamos aqui e...” Mas foi interrompido pela parada brusca do elevador.
As portas se abriram e Ken rumou diretamente para o apartamento 62. Antes de tocar a campainha, conferiu as informações no celular e só então apertou o botão ao lado da porta. Não demorou nada e a porta se abriu, revelando uma simpática senhora. O cabelo totalmente branco era preso em um coque apertado, as roupas lembravam um quimono folgado e ela era mais baixa do que eles.
“Vocês devem ser amigos dos outros.” Disse enquanto abria passagem para que a dupla entrasse no apartamento. Motomiya não entendeu, apenas repetiu o gesto do moreno que com uma pequena reverência, tirou os sapatos e entrou no ambiente.
O apartamento não era muito grande, mas os espaços eram bem distribuídos. Após o hall de entrada era possível ver uma grande sala com piso acarpetado que se ligava a um pequeno escritório, que estava com as portas escancaradas e um corredor, que deveria levar aos quartos.
Assim que entraram, o líder viu Miyako ajoelhada no centro da sala, Iori estava deitado no chão, a cabeça apoiada no colo da menina, ao lado deles, um senhor, que deveria ser marido da mulher que abrira a porta, estava ajoelhado, mexendo em um kit de primeiros socorros.
As roupas do membro mais jovem estavam empapadas de sangue e ele gemia como se sofresse de uma dor horrível. Armadillomon estava ao lado, a carapaça respingada de vermelho, olhando aflito para o companheiro. Patamon e Hawkmon tentavam acalmá-lo sem muito sucesso, enquanto Inoue falava com alguém ao celular.
Do outro lado da sala, Takeru andava de um lado para o outro, falando ao celular. Ele gesticulava muito e a voz oscilava e sumia. Ele estava terrivelmente pálido e nervoso.
Ken respirou fundo e rumou para o escritório. Sobre uma escrivaninha havia um computador ligado. O garoto conectou a máquina ao laptop que trazia e começou a acessar as informações presentes. Não queria admitir, mas sua cabeça estava rodando. Tudo ficara uma bagunça quando recebeu o sinal de que um portal estava sendo aberto. Como acontecera da outra vez, eles não conseguiriam retornar pelo mesmo caminho e o portal se abriria aleatoriamente em qualquer computador. Só teve tempo de pegar o notebook de Miyako e usar o celular para rastear a abertura do novo portal.
Só não esperava encontrar uma cena tão catastrófica. Pelo visto, as coisas foram muito piores do que seu embarque ao Digital World na última vez e apesar do impulso de querer ajudar os amigos e saber o que aconteceu, ele precisava recolher os dados, para posteriormente poder analisá-los e talvez ter alguma luz sobre tudo isso.
Enquanto estava ocupado investigando o computador do casal idoso, Daisuke andou lentamente até o centro da sala. Os pés pareciam de chumbo e ele se sentia terrivelmente responsável pelo o que quer que houvesse acontecido.
“Pronto.” Miyako deu um longo suspiro após desligar o celular. “A ambulância já está vindo.” Disse se virando para o senhor, que sorriu condescendente.
“Miyako, o que aconteceu?” O ruivo sentia as mãos tremerem só de ver a imensidão vermelha cobrindo o menor.
“Nada e tudo.” Respondeu soturnamente. “Começou como uma besteira e quando vimos, tudo tinha saído de controle.”
“Mas como as coisas chegaram a esse ponto?” E instintivamente apontou para Hida. “É sua função liderar quando eu não estou por perto.” Acusou.
“Eu sei disso, ou você acha que eu estou feliz pelo que aconteceu?” Ela ergueu a voz.
“Foi sua ideia nos deixar para trás, se eu estivesse lá...”
“As coisas poderiam ser bem piores.” Emendou. “Se ficaram nesse pé com os digiescolhidos e seus parceiros, imagine humanos sem companhia por lá.”
Daisuke queria poder responder algo, mas não conseguia imaginar nada. No final, a garota tinha razão, embora ele não quisesse admitir.
Com o silêncio que se instaurou entre eles, Ken pôde ouvir o que Takeru falava ao telefone. Pela conversa, parecia ser com um dos veteranos, talvez o irmão. Não dava para entender quase nada, as palavras eram ditas muito rápidas e enroladas, Ichijouji só identificou as palavras Digimon, descontrole e sangue. Aparentemente, não era apenas o moreno que não estava entendendo, porque do nada, o loiro respirou fundo e começou toda a história novamente, tentando se manter calmo.
“A Palmon da Mimi-chan tinha nos chamado. Parece o que vilarejo dos Gekomon[1] estava sendo atacado por um grupo de Gazimon[2].” O garoto respirou fundo. “Quando chegamos lá estava tudo normal, e então os Gazimon apareceram, mas eles não atacaram o vilarejo. Tinha algo errado com eles.”
O garoto parou e a pessoa no outro lado da linha disse algo. O loiro pareceu ponderar um pouco antes de responder. “Não estranhos desse jeito. Eles deveriam estar lá para atacar, mas...” A pessoa do outro lado da linha o interrompeu e se prolongou. Quando Takeru voltou a falar, o tom de voz era ligeiramente diferente, nervoso e apreensivo. “Eu não sei. Mas um Devidramon[3] apareceu. Ele era completamente diferente dos outros...”
Ken engoliu em seco, sabia o que ser diferente dos outros significava.
“Era enorme e o tom de pele era avermelhado. Era como se ele estivesse pegando fogo ou algo assim. Ele começou a destruir tudo, atacou até os outros Gazimon.” A voz foi ficando cada vez mais aflita. “Um deles disse que eles realmente pretendiam roubar suprimentos da vila, só que um dos amigos dele sumiu no dia anterior ao ataque e quando voltou, algumas horas antes do que eles tinham combinado ir até o vilarejo, já tinha evoluído para Devidramon e estava desse jeito.”
O moreno terminou de coletar os dados, desconectou os cabos e desligou o laptop da amiga. Analisaria os dados com calma quando chegasse em casa. Ichijouji ficou tão compenetrado no que fazia que se esqueceu de prestar atenção na conversa do loiro.
“Ele estava como o SkullGreymon daquela vez.” Ken parou de organizar as coisas e ficou imerso naquelas palavras. Conhecia bem SkullGreymon, tinha sido um dos seus preferidos como Kaiser, mas ele não entendia o que significava o ‘daquela vez’. “Taichi-san, eu sei disso, mas esse tipo de descontrole, ele teria que ter um parceiro.” Então não era com o Yamato que o guardião da esperança estava conversando. “Os Gazimon disseram que eles não nunca tiveram contato com nenhum humano. A Miyako-chan disse que foi a mesma coisa com o Golemon.”
Ichijouji conseguia ouvir os gemidos de Hida e o casal de idosos que cochichava de canto, mas tudo isso era totalmente desprezível perto das informações que o loiro revelava.
“Eles teriam que estar em desarmonia com seus parceiros para perderem o controle e assumir esse tipo de forma, eu sei. Mas se parecia muito com isso, e eu não consigo pensar em mais nada. Mesmo quando sob controle das torres negras ou engrenagens, era diferente. Eu estava lá quando você perdeu o controle do Greymon, Taichi-san, eu sei como é. E sei que é a mesma coisa desta vez.”
Yagami tinha perdido controle de Greymon? Ken não sabia disso, mas agora, fazia sentido porque quando contou sobre o ataque de Golemon lhe pareceu que Takeru escondera algo. Se Taichi havia perdido controle do parceiro, isso acontecera na primeira ida ao Digital World e só o loiro estava lá. Digimon descontrolado, controle através de objetos, desarmonia entre os parceiros. Tudo isso girava na cabeça do moreno tentando encontrar uma lógica, era como se a resposta estivesse diante dos seus olhos, mas ele não pudesse realmente vê-la.
A campainha do apartamento tocou novamente e a simpática senhora abriu a porta. Uma equipe de paramédicos rapidamente entrou na residência, carregando uma maca e equipamentos de primeiros socorros e atenderam o adolescente caído. Quando finalmente o garoto foi estabilizado e acomodado na maca, os paramédicos o removeram em direção a ambulância.
Ken pôde ver quando Miyako se levantou e se ofereceu para acompanhar o menor, o uniforme do colégio manchado de sangue. Ela fez sinal para que Takeru levasse os Digimon para casa e pediu para Daisuke ligasse para Hikari e informasse a menina, que ainda estava na escola, da situação. Antes que o ruivo pudesse protestar e dizer que ele quem deveria ir junto à ambulância pois era o líder, a menina sumiu pela porta.
Takeru se despediu de Taichi e desligou o telefone, finalmente se permitiu desabar no sofá e cobrir o rosto com as mãos. Daisuke, que deveria estar ligando para Yagami, tentava consolar Armadillomon. Ken arrumou as coisas e voltou para sala, o cenário parecia muito mais desolado agora, sem a presença de Miyako tentando acalmar Iori.
A senhorinha se propôs a preparar um chá, enquanto o homem parou ao lado de Ichijouji, que ele julgou ser o mais equilibrado dos adolescentes.
“Foi muito estranho. Eu estava falando com meu neto de Osaka e de repente vushhhhh, seus amigos literalmente caíram em cima de mim.” A voz do senhor era engraçada e Ken não conseguiu reprimir um sorriso diante da onomatopeia.
“O senhor não ficou preocupado? Afinal crianças apareceram na sua casa, através do computador, acompanhadas de...” Mas ele não sabia bem que palavra usar, já que não eram todas as pessoas familiarizadas com esse universo.
“Digmon? Eu já li sobre eles, são incríveis, não?” Confabulou o velho.
A velha voltou da cozinha, trazendo uma bandeja com um bule fumegante e várias xícaras. Ele serviu primeiro Takeru, que ainda estava pálido e tremendo como bambu ao vento, depois Daisuke, o marido e Ken. Havia até mesmo xícaras menores para os Digimon.
O guardião da bondade ficou girando o conteúdo da xícara, sem realmente sorvê-lo. Sua mente vagava milhas dali, procurando uma explicação para tudo o que ocorrera.
“É curioso como bichinhos fofinhos podem fazer todo aquele estrago.” O velho sorria ao ver Patamon e Hawkmon desajeitadamente tentarem tomar os conteúdos das xícaras. Armadillomon permanecia imóvel diante da sua, fitando a porta. Por estrago, Ken entendeu que o velho se referia ao estado de Hida.
“Bem, existem Digimon grandes e muito fortes.”
“Realmente. Eu me lembro de quando eles surgiram no nosso mundo à primeira vez, eles eram enormes e assustadores. Mas não acredito que existam Digimon realmente ruins, acho que só não encontraram boas crianças, como vocês.” E sorveu o chá quente. “Deve ser divertido ter um Digimon. Eu mesmo já me peguei imaginando que tipo de Digimon eu teria, acho que escolheria um bem forte talvez.” E sorriu perdido em pensamentos.
“Bem, na verdade nós não escolhemos...” A frase foi morrendo, Ichijouji sentiu as mãos amolecerem e ele quase derrubou a xícara florida. E ali estava ela, a verdade, estampada bem diante dos seus olhos. Nítida como um dia muito claro de verão.
O garoto deixou a companhia do velho e foi até Takeru, que parecia bem mais tranquilo após tomar o chá.
“Eu sei o que está acontecendo no Digital World.” Afirmou.
O garoto não entendeu, mas se surpreendeu com a expressão severa e decidida que o outro trazia no rosto. Motomiya se aproximou, tentando entender o que estava acontecendo.
“O que é?” Perguntou o loiro, incerto de realmente querer saber aquela resposta.
Mas o moreno não respondeu, só sorriu vitorioso. Um sorriso que lembrava muito o do Kaiser.
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