A Garota do Cabelo Lavanda
8 Capítulo 8
Notas iniciais
QUEM APARECE DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Era sexta-feira e como de costume, os digiescolhidos estavam na cafeteria onde se encontravam para conversar e programar o final de semana. Hikari havia sugerido irem ao cinema, mas seria quase impossível entrar com seus parceiros Digimon em uma sessão e principalmente, mantê-los quietos durante o filme. De forma que no final, Iori ofereceu sua casa para fazerem uma sessão cinema, ideia que todos concordaram, exceto Miyako. Isso porque, a jovem não estava presente.
Assim como todos, Miyako tinha ido à cafeteria, mas logo que começaram a planejar o fim de semana, o celular da moça tocou e ela se retirou para ter uma conversa mais reservada. De onde estava, Ken podia vê-la na varanda da cafeteria, sorrindo e acenando com a cabeça enquanto falava, como se estivesse conversando pessoalmente ao invés do telefone. A mão livre brincava com as folhas de uma grande planta ornamental. Ela parecia bastante contente e ele se surpreendeu ao perceber o quão curioso estava para saber o motivo.
Desde o episódio do beijo, a garota continuava conversando com ele normalmente, sorridente e solícita. Fazia piadas, tentava negociar seu almoço, implicava com Daisuke e como havia prometido, não contara sobre o beijo para nenhum dos outros. Mas para Ken, mesmo que as coisas estivessem exatamente iguais, não pareciam mais as mesmas. Era como se Miyako estive distante.
Ele tentara várias vezes acertar a situação, mas toda vez que entrava no assunto, Miyako desconversava ou dizia estar ocupada e como nenhum dos amigos sabia sobre o beijo, ele não podia se aconselhar com ninguém sobre como abordá-la. Para piorar, Hanamizuki[1], a garota que havia beijado e que agora finalmente sabia o nome correto, contara as colegas de sala sobre o beijo. Assim, em menos de vinte quatro horas após o ocorrido, os rumores na sala era de que eles estavam namorando. Quando finalmente decidiu por um ponto final nessa história e deixar claro que não havia nada entre eles, o moreno foi hostilizado por ser grosseiro com uma jovem apaixonada, o que lhe rendeu mais um ponto de antipatia com seus colegas.
Não que ele realmente se importasse com sua popularidade dentro da classe, acertar as coisas com a jovem de cabelo violáceo era mais importante, mas depois de duas semanas, ele se convenceu que ela não o deixaria explicar a situação e se deu por vencido. Mas não podia negar que toda essa situação o incomodava, se sentia como se tivesse traído a jovem por beijar outra garota, embora não houvesse nada entre eles. Incomodava também o fato da moça não querer tocar no assunto, talvez estivesse enciumada, mas não fazia sentido, afinal Miyako não gostava mais dele. Talvez a garota nem estivesse realmente agindo diferente e Ken só pensasse assim por causa do sentimento de culpa.
Finalmente, Miyako desligou o celular e voltou para a mesa, quase que saltitando. Acomodou-se e perguntou o que tinha sido decidido. Aparentemente não era apenas Ken que percebera que a jovem estava mais feliz que o normal.
“Qual foi dessa ligação?” Perguntou Daisuke sem muitos rodeios ao perceber a feição abobada estampada na cara da amiga.
Miyako uniu as sobrancelhas e fechou o rosto numa carranca, mas antes de responder de forma atravessada, pensou melhor e decidiu contar verdade.
“Koushiro-kun vai apresentar um importante seminário e me convidou para assistir.” A voz saiu demasiado animada, quase como um gritinho escandaloso de uma fã. “É tão emocionante. Ele vai falar sobre algoritmos de Dijkstra, talvez até ganhe uma bolsa para estudar na Europa. E depois da apresentação, ele me disse que podemos ir jantar no...” Mas parou no meio da frase ao perceber que falara demais.
Ela correu os olhos pelos rostos dos amigos, cada um com uma expressão diferente e parou os olhos diante de Hikari, que trazia um sorriso malicioso estampado nos lábios.
“Quer dizer que vocês vão ter um encontro?”
“Não é nada disso.” A menina corou furiosamente e começou a agitar os braços tentando dar ênfase no que dizia. “Eu vou pelo seminário, o jantar é só... Não é como se... Nós não vamos estar sozinhos...” Quanto mais tentava se explicar mais se enrolava, e a expressão antes presente apenas no rosto de Hikari agora era compartilhada por Takeru e Daisuke.
“Sei que você vai pelo seminário.” Ironizou Daisuke, fazendo uma careta divertida.
“É claro que sim.” Respondeu, mas não soou tão convincente quanto gostaria.
“Miyako-chan, admita é um encontro.” Hikari colocou mais lenha na fogueira.
“Claro que não, é só um seminário.”
“Mas você não acha estranho que o Koushiro-san tenha convidado só você?” Indagou Takeru.
“Ele não deve ter convidado vocês porque vocês não se importam com esses assuntos.” Tentou argumentar.
“Mas ele não me convidou.” Iori provocou fazendo beicinho. Inoue olhou espantada para ele, o que fez os outros caírem na risada. A coisa estava mesmo fora de controle se até o mais sério dos digiescolhidos estava fazendo piada.
Ken permanecia quieto do outro lado da mesa, o cérebro tentando processar a enxurrada de informações. Então era com Izumi que Miyako falava ao telefone, isso explicava as reações exageradamente felizes. Aparentemente não havia nada de errado ser convidada para o tal seminário, Miyako havia comentado sobre ele anteriormente e realmente estava muito animada com os estudos do rapaz. Também não era nada estranho eles jantarem depois, esses eventos geralmente são demorados e naturalmente as pessoas tem fome. Mas o fato de que apenas Inoue havia sido convidada o incomodava. Iori gostava de informática, embora não entendesse coisas muito complexas de programação e Ken entendia muito do assunto, até mais do que a garota, mas se não fosse pelo que a menina de óculos contara, ele mal saberia dos estudos do mais velho. Além disso, seria normal convidar os outros, mesmo que fosse apenas pelo apoio moral.
Se apenas Miyako havia sido convidada e se o jantar tinha sido combinado previamente, é porque provavelmente isso seria um encontro. Então isso significava que a admiração de garota na verdade era interesse e que Izumi também estava interessado nela. Não que fosse algo totalmente inesperado dado que os dois combinavam em muitos aspectos, mas ainda assim, Ken sempre acreditou que o jovem não tivesse esse tipo de sentimento pela menina.
“Miyako-chan nós podemos sair pra comprar uma roupa legal para o seu encontro.” Ken ouviu Hikari sugerir do outro lado da mesa, embora ela risse, o tom que usara não era de piada.
Ken estava ficando terrivelmente mal-humorado, as vozes o irritavam, ele queria que todos mudassem de assunto e parassem de rir como um bando de idiotas. Afinal de contas, por que se importavam tanto com esse maldito encontro, Miyako era livre para fazer o que quisesse, não fazia sentido toda essa algazarra. Eram um bando de vermes se aglomerando em torno de um acontecimento inútil que não mudaria em nada a vida de ninguém. Seres insignificantes preocupados com situações insignificantes. Por que, no final das contas, ele estava se envolvendo com esses tipinhos?
“Ken-kun!” A voz forte de Daisuke o trouxe de volta a realidade. Pela expressão assustada no rosto do amigo, ele não deveria estar apenas devaneando. “Você está bem?” Perguntou hesitante.
Só então o moreno percebeu como os músculos do rosto estavam tencionados e que suas mãos apertavam a borda da mesa com tanta força que os dedos estavam brancos. Balançou a cabeça em um pedido de desculpas mudo, se levantou e foi ao banheiro. Parou diante do espelho e viu como seus olhos brilhavam de modo diferente, ambiciosos e delirantes. Suas sobrancelhas estavam muito arqueadas e um sorriso enigmático e falso quase imperceptível cruzava seus lábios. Ichijouji conhecia muito bem aquela expressão e sinceramente acreditou que nunca mais voltaria a vê-la.
Abriu a torneira e deixou a água escoar pela pia, sua vontade era enfiar a cabeça embaixo da torrente, mas seria difícil explicar os cabelos molhados para os amigos. Apenas enfiou as mãos na água e lavou o rosto inúmeras vezes, na tentativa de apagar aquele rosto maldoso que o encarava. Estava enciumado sim, mas isso não era motivo para trazer velhos fantasmas de volta. Se Miyako estava feliz era isso que importava. Mas quanto mais tentava se convencer disso mais irritado ficava e mais vontade de dizimar Izumi ele tinha. A verdade é que não queria que a garota fosse feliz com cara nenhum, principalmente com o veterano.
Deu um sorriso torto para si mesmo e encostou a cabeça contra o espelho. Respirou fundo inúmeras vezes. Ele estava pirando e isso não era nada bom.
=8=
Os digiescolhidos saíram da cafeteria e foram em direção ao parque Odaiba. Hikari, Miyako e Takeru iam à frente, conversando animadamente, Ken e Daisuke vinham logo atrás em um silêncio quase mórbido. Iori tinha pegado outro caminho, pois iria se encontrar com sua mãe.
Quando finalmente chegaram ao centro do parque, Miyako se virou para Ken.
“Você está bem?”
“Sim.” A resposta foi seca e maquinal.
Ali era onde cada um tomava seu caminho, o grupo se despediu sem muita empolgação, Miyako e Takeru tomaram o mesmo rumo, pois eram vizinhos, enquanto Hikari foi por um caminho diferente. Motomiya e Ichijouji permaneceram no centro do parque vendo os outros se afastarem.
“Você não vai acompanhar a Hikari-san?” Ken perguntou, ainda encarando ao longe Inoue e Takaishi.
“Você estava muito estranho.” Daisuke respondeu após um suspiro, ignorando a pergunta do amigo. Claro que gostaria de acompanhar a menina, mas agora ela não era sua maior preocupação. “Eu te chamei várias vezes, mas você não me ouvia.” Ken não respondeu, apenas apertou a alça da mochila nas mãos. “Seus olhos... você parecia o Kaizer de novo.”
“Sei.” As mãos apertaram ainda mais a alça da mochila. “Eu sinto muito por ter feito o clima ficar estranho e acabar com a nossa reunião mais cedo.”
“Isso não é problema.” Daisuke sorriu e encarou o amigo. “Sabe, eu não sou muito bom com essas coisas, mas se você estiver com problemas, pode me contar se quiser. Sei que geralmente é a Miyako que faz esse papel, mas se você não quiser falar com ela... É algum problema com o Wormmon? Com seus pais? Ou...”
“Dai-kun.” O ruivo estranhou, Ichijouji nunca o chamava desse jeito, quase ninguém o chamava na verdade, só seus pais e Miyako, para irritá-lo. “Eu quero ficar sozinho.” O garoto ainda olhava para frente, os olhos muito brilhantes, como se estivesse prestes a chorar.
Daisuke deu um sorriso triste e se despediu do amigo. Definitivamente, ele não achava que deixá-lo sozinho após ele ter um vislumbre do Digimon Kaizer era uma boa ideia, mas achou que atender ao pedido do amigo era o certo a fazer.
Ichijouji permaneceu parado no centro do parque por um longo tempo, as mãos apertando a alça da mochila, os olhos encarando os sapatos. Sentia-se péssimo, tinha vontade de chorar, gritar, de bater em alguém, puxar os próprios cabelos, qualquer coisa que o ajudasse a extravasar sua frustração. Queria poder contar ao Daisuke, mas ao mesmo tempo sentia-se ridículo por estar enciumado, por um motivo tão bobo arrastá-lo para as trevas novamente. Sentia-se impotente por não ter controle de suas emoções e envergonhado por deixar os amigos preocupados. Ele era uma pessoa horrível
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