A Garota do Cabelo Lavanda
31 Capítulo 31
Notas iniciais
LA NOCHE — Parte 3
Era um lugar totalmente branco. Sabia que era um longo corredor, mesmo que não pudesse ver as paredes ou saber onde começava o teto e terminava o chão. Era branco, mas não trazia paz. Havia algo que oprimia e ela não sabia precisar o que era.
Sabia que não deveria estar ali. Minutos atrás estava no campo de batalha, tentando impedir Ken de fazer algo estúpido, mas não tinha real certeza de como parara ali. E também não fazia ideia de como sair, então apenas caminhou e caminhou. Pareceu durar uma eternidade, mas ela não estava cansada ou indisposta. Não importava o quanto andasse, se corresse, a respiração não mudava nem suas pernas se cansavam e não fazia ideia do quanto tinha caminhado.
Já tinha tentado gritar, chamar por alguém, esmurrar as paredes que não enxergava ou saberia precisar onde estavam. E nada aconteceu, nada de diferente. Estava quase desistindo quando viu alguém parado no longo corredor. Era um garoto mais alto do que ela, magro, com uma longa cabeleira negra, preso em um desajeitado rabo de cavalo. Tinha uma expressão grave e inteligente.
“Ken?”
O garoto a encarou e era mesmo Ichijouji Ken. Miyako abriu a boca dezenas de vezes, mas não conseguiu dizer mais nada.
“Inoue-san?” A voz grave saiu polida e distante, de um jeito que Ken não usava mais.
“O que está fazendo aqui?” Ele apenas deu de ombros como resposta e levou as mãos aos bolsos da calça. “Você está diferente.” Ken era menor do que ela e o cabelo não era tão longo.
“Você acha?” Havia um sorriso discreto nos lábios, um tom suave e educado na voz.
“Talvez não.” Sorriu. “Mas isso não explica o que faz aqui.”
“E isso é necessário? O importante não é saber o que você faz aqui?”
A menina o encarou por um segundo, fazia sentido. Ela não sabia por que estava lá.
“Kaiser...Ele... Você...” Mas tudo agora parecia confuso e misturado. Ela não tinha certeza se aquilo era um sonho, se sua discussão com Kaiser era. Olhando o garoto parado diante de si, parecia muito mais real do que as cenas que se desenrolaram no Digital World horas antes.
“Eu estou aqui, certo?” Era aquele sorriso estreito e discreto novamente, aquele que sempre usava para aparecer nas capas de revista quando era o célebre garoto gênio. “Do jeito que você imaginou.”
Inoue curvou uma sobrancelha. “Imaginei?”
“Eu sou o que você imaginou.” E puxou o laço do cabelo, desfazendo o rabo. “Mas não quem eu verdadeiramente sou.”
“Mas eu não imaginei...” Encarou-o confuso. A cabeleira negra emoldurava o rosto e descia em cascatas pelos ombros.
“Como eu disse, você não entende.”
=8=
Inoue Miyako estava caída no chão. As roupas manchadas de sangue seco, um pedaço de Torre Negra enfiado no peito. Não usava óculos e estava tão imóvel que parecia morta. Iori checava seus sinais vitais, ela parecia estável, mas não se arriscaria a tirar o pedaço de pedra escura enfincado no peito. As mãos pequenas tremiam muito e olhos estavam marejados, Armadillomon estava ao seu lado, ainda mais incerto do que deveria fazer. O cenário era ainda pior do que Hikari pintara.
Quando a garota atravessou o portal e surgiu no meio da sala, Tailmon ao seu lado, carregando um garoto ensanguentado no colo soube que as coisas estavam ruins. A menina, que parecia abalada, mas se mantinha firme explicou rapidamente a situação enquanto ligava para a emergência.
Mesmo que Hikari não tivesse dito, sabia que a noite seria mais densa do que todas as outras. Kariya estava ali, em um estado deplorável. Trajava o casaco de Ichijouji, do qual ninguém sabia o paradeiro. Havia um Apemon descontrolado. Um sinal de Torre Negra. E havia muito sangue, sangue este que agora tingia o tapete de sua sala.
A ambulância veio e levou o garoto ao hospital. Yagami se ofereceu para acompanhá-lo e entrar em contato com a família Hanamizuki. Tinha prometido a Inoue que voltaria logo, mas também tinha prometido que cuidaria da criança e contaria o que sabia para Karin.
Hida Iori estava sem opções e mesmo se lembrando da conversa inflamada que Takeru tivera com o irmão ao telefone, não tinha mais a quem recorrer. Havia os outros veteranos, mas Agumon e Gabumon já estavam no Digital World e o pequeno poderia rebater o sinal do seu portal para o computador dos garotos que moravam em Tóquio. Ligou e rezou para que desta vez o loiro concordasse em vir em auxílio. Eles precisavam de ajuda.
Os olhos pequenos do garoto se desviaram da menina inerte e pararam em Ishida Yamato, que a poucos metros dali, mantinha Ichijouji Ken no chão. O rosto enfiado na grama gelada, as mãos presas nas costas. O loiro mantinha os joelhos sobre as mãos e as costas, os dedos longos enrolados nos cabelos desarrumados. O gênio se debatia, tentando se soltar, sem sucesso.
A clareira no leito do rio estava ainda mais escura. A noite havia caído por completo e não havia lua para iluminar as árvores sombrias, ou o sangue seco que tingia a grama. JewelBeemon mantinha a lança em punho, sem ter certeza do que fazer. Estava em posição defensiva, mas sua situação não era boa.
XV-Mon havia retornado a forma de Chibimon para recuperar seus poderes. Estava muito ferido e mesmo nessa forma, que preservava suas condições, era possível ver uma marca no meio do peito.
Greymon e Garurumon mantinham a frente, enquanto Yagami Taichi se mantinha a frente da dupla de adolescentes, como um escudo. Daisuke segurava o parceiro nos braços, preocupado e deprimido. Takeru estava ao seu lado, Digivice em punho, Angemon sobrevoava ao seu lado lentamente. Aquilamon se mantinha cobrindo a retaguarda do grupo. Seu impulso era resgatar sua companheira, mas com XV-Mon fora de combate, não poderia se dar ao luxo de sair de formação.
“JewelBeemon, mate todos! Todos!” Não era mais a voz firme de comando, era um grito mais alucinado, como quando Kaiser perdia controle de seus sentimentos.
“Tente, se quiser.” Apesar do sorriso enviesado que se destacava no rosto de Taichi, os olhos se mantinham sérios.
O insetoide avaliou a situação, encarando os Digimon diante de si. Motomiya e Chibimon estavam fora de combate, mas Aquilamon, Greymon e Garurumon seriam desafios a se enfrentar, fora que Angemon poderia evoluir. A distância podia focar Ishida imobilizar Ken e Inoue caída com um pedaço de torre negra enfiado no peito.
Não queria atacar, mas não queria desobedecer a seu parceiro.
“Você não precisa fazer isso.” O ex-líder se manifestou. “Ninguém gosta de virar as costas para seu parceiro. Isso não vai ajudar o Ichijouji.”
“Mas eu não posso deixá-lo.” As mãos tremiam segurando a haste da lança.
“Ninguém está dizendo isso, mas segui-lo cegamente, que bem vai trazer? Como acha que ele vai sentir quando voltar ao normal e souber o que você fez ao Chibimon?”
“Eu... Se Ken-chan ficar sozinho, as trevas vão consumi-lo ainda mais.” Aquela voz chorosa e estridente, a despeito da forma esplendorosa que possuía.
“Ninguém vai deixá-lo.” Daisuke deu um passo à frente. “Mas você sabe que esse não é o Ken, são só as trevas agindo nele.” As mãos esverdeadas oscilaram na lança. “Por isso se removermos as trevas...”
“Vocês não entendem! Nunca entendem.” Kaiser gritou. Havia aquele sorriso psicótico, mas os olhos pareciam demasiados sombrios.
=8=
“Do que está falando?” Inoue deu um passo para trás diante do olhar que encarava. Não era alucinado ou demente, como o do Kaiser. Era um olhar mais presunçoso que Miyako não se lembrava de ter visto no rosto do rapaz.
“Estou dizendo que estas são as suas trevas.” E voltou as mãos aos bolsos. “Todos as têm.”
A menina olhou em volta sem entender. Tudo era branco e pacífico. Havia aquela sensação opressora, mas nada que pudesse realmente chamar de trevas. Não fazia ideia de como eram as trevas que Ken vivenciara, mas não imaginava que fosse algo tão claro.
“Eu realmente não sei do que você está falando...”
“Como imaginei, pessoas de baixo nível como você nunca entenderiam...” O sorriso arrogante ampliou e Ichijouji deu as costas, se afastando no corredor.
Baixo nível? Do que Ken estava falando? Ele nunca usava expressões desse tipo, não quando era apenas Ichijouji Ken.
“Ken.” Chamou. O rapaz se voltou no corredor e encarou, indiferente. Os cabelos violáceos atravessaram a curta distância e encararam os olhos que a espreitavam. “Do que você está falando?’
“Preste atenção menina burra, vou falar bem lentamente, com palavras fáceis para que você entenda.” E bateu com um dedo na cabeça dela, como se isso ativasse o cérebro. “Eu sou um gênio. Uma pessoa com muitas camadas, mas você, baixo nível, vê apenas aquilo quer.” O olhar de desprezo estampou a face. “Entendeu agora?”
Miyako não tinha entendido. Aquele Ken não era o seu Ken, não o namorado doce e bondoso que ajudava todo mundo que podia. Não o garoto sensível que tinha medo de mostrar como se sentia. Mas aquele também não era o Kaiser. Havia arrogância e egoísmo, mas não havia os olhares psicóticos, os sorrisos alucinados, nem as decisões impulsivas, movidas pelos sentimentos que guardava a sete chaves.
A mente parou por um segundo, como se muitas informações tivessem sido descarregadas ao mesmo tempo e o cérebro tivesse travado. Aquele Ken era mais como Ichijouji Ken, o menino gênio, o ídolo de programas de televisão e capas de revista. O garoto por quem Inoue havia se apaixonado a primeira vez.
O garoto bonito e inteligente, de quem não sabia nada exceto o que lia na internet e que a fazia sonhar por horas, imaginando como seria o primeiro encontro entre eles, sobre o que poderiam conversar. Como seria o dia em que se casassem e quão inteligentes seriam seus filhos.
Só agora, pensando nisso, reparara que o garoto diante de si tinha as mãos raladas, como para aparar uma queda sofrida no futebol. Mas o garoto havia abandonado o esporte antes mesmo de ingressarem no colegial. Aquele não era o Ken que amava, era o que queria amar. O garoto perfeito e enjoado, mais alto que ela, mais inteligente e sensual. Esnobe e irritante, mas que se derreteria por ela. Apenas por ela.
“Exatamente, o que eu ganho sabendo que minha idealização sua são minhas trevas?” Cruzou os braços diante do corpo.
“Oh, parece que você não é tão burra assim.” Sorriu aquele sorriso arrogante que sempre a fazia se derreter quando o admirava pela televisão. “Pense, você vai achar uma resposta.”
“Você é tudo que imaginei que Ken fosse antes de conhecê-lo.” E ela sempre achara que ele mais alto do que ela. “Mas o Ken que eu imaginei não é muito parecido com o Ken real, este é o ponto?”
“Esse não é ponto.” Enrolou o dedo em uma mecha do próprio cabelo.
“Então, qual é o ponto?” Não estava a fim de joguetes.
“O que mudou?”
“Além de descobrir que minha idealização não condiz com a realidade? Nada mudou.”
“Exato.” Piscou cumplice, como se Miyako tivesse ganhando um grande prêmio.
“Isso não faz sentido. Ken pode não ser perfeito como eu achei, mas eu ainda o amo.”
“Mesmo?”
Não entendia os olhos presos nela, num misto de ansiedade e desprezo que era difícil de equilibrar. O que havia de tão surpreendente em saber que seu sonho de consumo não era tão perfeito e porque aquilo eram suas trevas?
=8=
O gênio se debatia sob o aperto de Yamato, mas sabia que não conseguira se libertar fácil. O rapaz era um adulto maior e mais forte e tivera vantagem do elemento surpresa. Estava tão entretido em mostrar para a mulher o quão ignorante ela era que mal percebera a chegada dos veteranos.
JewelBeemon parecia vacilar entre acatar a sugestão do grupo ou abraçar os apelos desesperados de Ken. Não queria ferir ninguém, machucar nenhum dos companheiros Digimon ou humanos, mas Ken estava contando com ele.
Diferente da sua primeira versão como Kaiser, que só o humilhava e desprezava, estava versão estava contando com ele. Tornando-o um importante aliado. Eram comandos terríveis, mas ainda era Ken. O Ken-chan que amava pela bondade. E sabia que a bondade estava ali, escondida em meio àquelas malditas trevas.
“Vocês não entendem.” Gemeu dentro de sua indecisão. Nem ele sabia o verdadeiro significado daquelas palavras. Conhecia Ichijouji melhor do que ele mesmo, mas não sabia o que havia para entender.
“Nós entendemos.” Daisuke interviu. “Nós podemos não saber o que aconteceu aqui, mas de alguma forma as ações do garotinho afetaram Ken.” Apertou Chibimon em um abraço. “Nós tínhamos pensado nos Dark Spore, talvez Kariya estivesse contaminado por algum e isso de alguma forma afetou o Ken.” Nem o ruivo sabia que linha estava seguindo, mas tentava se convencer de havia uma explicação plausível para tudo aquilo.
“É diferente.” Resmungou o inseto. “Eu tenho certeza que não é como era antes. Aquelas trevas, aquela dor que Ken-chan sentia pela morte do irmão, isso não existe mais.”
“Não?” A pergunta de Takeru foi sincera. Não estava provocando ou sendo irônico, mas Ken nunca falava do passado. Os sentimentos de ira que o irmão provocara tinham sido enterrados no passado, assim como sua transformação com Kaiser. Mas depois de ouvir o relato de Hanamizuki, de como seu irmãozinho manteve sentimentos sombrios dentro de si por tanto tempo até finalmente explodir, o guardião da esperança se perguntava se Ken não fizera o mesmo.
=8=
“Eu nunca esqueci você.” Miyako falou de repente, como se fosse uma revelação. Mas ela não fora tocada por nenhuma mão divina, era apenas seu cérebro maquiando. “Isso nunca mudou.”
Sua faceta do gênio analisou-a demoradamente e com um meneio fez sinal para que prosseguisse.
“Antes de te conhecer. Não, antes de conhecer o Ken, eu era apaixonada por ele. Mas era diferente, era como uma fã que sonha em se casar com um astro de cinema.” Se sentia nervosa expondo aquelas coisas. “Quando eu descobri que o Ken era o Kaiser, meu mundo ruiu. Um sentimento de fã traída.” Os olhos escuros ainda a encaravam. “Mas quando falei com o Ken a primeira vez, não como Ichijouji Ken, o menino gênio, mas como Ichijouji Ken, um Digiescolhido, foi uma coisa completamente diferente. Um sentimento totalmente novo.” E ainda se lembrava de como era estranho conversar com o rapaz. Havia um misto de timidez com desapontamento e esperança. Algo muito confuso e complexo para se precisar. “Mas eu nunca esqueci você.” Deu um suspiro. “Mesmo agora, mesmo estando com ele. Ainda há um lado fã dentro de mim, que inconscientemente o compara com o garoto que eu idealizei.”
O lugar pareceu ainda mais silencioso e Miyako temia que o som de seu coração fosse audível fora do peito.
“Eu o amo.” Finalizou. “Amo tudo sobre ele, mais do que qualquer coisa que tenha idealizado. Mas mesmo que seja apenas para ver como ele é muito mais doce ou gentil do que eu esperava, ainda estou comparando-o com o meu sonho. Eu ainda estou presa a você.”
“Exato.” Se resumiu a responder.
“E por mais que eu não me lembre de você, jogando-o para um canto bem fundo na minha mente, você ainda está aqui. E talvez nunca vá embora.”
“E isso te chateia?”
“Não de todo, mas finalmente eu entendo.”
“O quê?”
“Ken. Não importa o quanto ele lute, ou quanto nós lutemos por ele, as trevas, elas nunca vão embora.” E sentiu o corpo estremecer diante da constatação. “Kaiser. Ele é uma parte do Ken.”
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