Notas iniciais
E vamos para mais um capítulo semanal (e todos comemoram). Agradeço aos comentários e fico muito feliz por todo o apoio. Os comentários de vocês me animam e me incentivam imensamente. O capítulo de hoje está um pouco diferente do outros, com foco na ação e não no romance, espero que gostem. Tema: noite Boa leitura!

O DIGITAL WORLD CHAMA — parte 1

A noite avançava rápida sobre o final da tarde, o céu alaranjado agora era coberto por uma grande faixa azul escuro que anunciava o anoitecer. Ichijouji estava em seu quarto, sentado diante da escrivaninha, os braços cruzados sobre a mesa, a cabeça deitada sobre eles, os olhos encaravam o calendário situado ao lado do computador. O ambiente estava mergulhado em silêncio, a luz apagada, a claridade da tela do computador produzia sombras alongadas e fantasmagóricas no quarto. Wormmon estava deitado na cama e encarava seu companheiro que permanecia imóvel, como se tivesse sido petrificado.

Quando Ken chegou do colégio, relativamente cedo para uma sexta-feira, Wormmon foi correndo para encontrá-lo, apenas para receber um olá sem graça e ver o humano se fechar no quarto. Por sorte, Ken não trancara a porta e Wormmon pôde entrar no cômodo e indagar se estava tudo bem. Não teve resposta, viu somente o garoto ligar o computador, ler alguns e-mails e então deitar sobre a escrivaninha, encarando o calendário.

Wormmon sabia que algo estava errado com seu companheiro. Mudanças de humor constantes, sorrisos para o nada e o rosto que corava inexplicavelmente. Toda vez que o Digimon perguntava o que estava acontecendo, Ken respondia que não era nada. Mas depois da briga que tivera com Miyako, o inseto tinha certeza que tudo estava de alguma forma, ligado a garota.

Ken olhava para o calendário sem realmente vê-lo, seus olhos permaneciam presos ao papel, mas sua mente estava muito longe dali. A semana havia passado, Miyako estava distante e ele não tomara nenhuma atitude para mudar sua infeliz situação. Os olhos estavam pesados e ele estava quase adormecendo quando ouviu um som vindo do computador. Era o som característico de quando recebia uma nova mensagem por e-mail. Não estava muito animado para ver a mensagem, deveria ser alguma piadinha sem graça enviada por Daisuke ou algum spam, mas mesmo assim acabou abrindo-a. O e-mail vinha de Elecmon, dizendo a Cidade do Princípio estava sendo atacada.

Desde a derrota de BelialVamdemon, era comum encontrar Digimon transitando no mundo dos humanos, mas a grande maioria dos monstrinhos ainda vivia em Digital World, de forma que os digiescolhidos ainda precisavam usar portais para transitar entre os dois lados.

Elecmon, embora pequeno, era um Digimon corajoso e muito independente, se ele havia enviado um pedido de ajuda é porque a situação estava complicada.

“Wormmon.” Chamou o companheiro, enquanto abria a gaveta da escrivaninha à procura do Digivice. “Elecmon precisa de ajuda.” Não que estivesse no espírito para entrar em combate, se fosse necessário, mas qualquer coisa seria boa o suficiente para desviar seus pensamentos de sua deprimente situação. Além disso, não poderia parar sua vida por causa de uma briga com uma garota, se um amigo precisava de algo, era seu dever estender a mão.

O inseto pulou da cama e foi até Ken. “O que está acontecendo, Ken-chan?”

“Eu não sei, mas ele disse que a Cidade do Princípio está sendo atacada. Precisamos ajudá-lo.”

“Você não vai avisar aos outros?” Perguntou preocupado.

“O e-mail do Elecmon foi enviado para todos, então, os outros já devem estar indo para lá.”

Ken usou seu Digivice para abrir um portal através do computador e eles foram enviados para o Digital World. Assim, como em nosso mundo, a noite avançava rapidamente e Ken conseguiu divisar as silhuetas dos grandes blocos da Cidade do Princípio há pouco mais de um quilômetro de onde se teleportara. O adolescente e seu parceiro Digimon rumaram rapidamente para lá, ignorando o vento frio que vinha do leste. Quando chegaram à entrada da cidade puderam ouvir gritos desesperados e sons de uma grande batalha. O passo acelerado foi substituído por uma corrida e eles chegaram a tempo de ver a difícil batalha travada por Elecmon.

O adversário era um gigantesco Golemon[1] que parecia totalmente indiferente aos ataques elétricos do menor. O monstro tinha uma coloração totalmente diferente da que Ken conhecia e era muito maior do que qualquer outro que vira até então, agia de forma estranha, embora revidasse os ataques do Digimon elétrico, nunca tomava a iniciativa na batalha. O grandalhão tentava fugir, mas tinha suas tentativas frustradas pelo monstrinho vermelho que iniciava uma nova onda de ataques. Para Ken não fazia sentido, se o Golemon estava fugindo da luta, por que Elecmon não o deixava partir?

Elecmon se preparou para um novo ataque, enviou uma poderosa descarga elétrica no Digimon e tentou derrubá-lo com uma investida. Mas Golemon revidou com um soco poderoso e o pequeno caiu derrotado. Ao vê-lo caído, o grandalhão bateu em retirada, enquanto Ken e Wormmon acudiam o monstrinho.

“Não o deixe ir.” Resmungou quase sem forças.

“Mas por quê?” Ken perguntou, sem entender. “Ele está indo embora.”

“Ele não está partindo, ele está...” Mas o monstrinho desmaiou antes que pudesse concluir.

Sem muito que fazer Ken e seu parceiro foram atrás do gigante de pedra. O adolescente entrou na área onde se localizava a maioria dos Digitama, mas estranhou que boa parte dos ninhos estava vazia e presumiu que os recém-nascidos deveriam ter fugido. Ken não precisou procurar muito, Golemon estava parado alguns metros à frente, tinha um Yuramon[2] nas mãos e com um gesto rápido esmagou o pequeno entre os dedos.

Ken não podia acreditar no que tinham visto. Sentiu um gosto amargo na boca do estômago, vontade de vomitar e calafrios percorrerem a espinha, as mãos suavam e os pés pareciam feitos de chumbo, como se não conseguisse dar mais nenhum passo.

“Isso é horrível.” Gemeu Wormmon, igualmente chocado.

De repente, o adolescente se deu conta que os ninhos vazios podiam significar mais do que a fuga dos filhotes e isso fez seu estômago revirar. Golemon pareceu totalmente indiferente a sua ação e se virou, revirando os outros ninhos. Ken percebeu que não havia expressão nenhuma no rosto do monstro ao massacrar a pobre criatura. Parecia uma criança jogando pedras em um lago, nem feliz, nem triste, apenas entediada. Ken precisava fazer algo, se não a Cidade do Princípio em breve seria apenas um cemitério.

“Wormmon, você está pronto?” Gritou enquanto puxava o Digivice do bolso. O inseto concordou com um aceno de cabeça, pronto para a batalha. Em poucos segundo, Wormmon abandonou a forma frágil e se tornou o poderoso Stingmon. Rapidamente cruzou o céu e atacou Golemon com seu Spiking Strike, mas viu que o golpe não surtia efeito na grossa couraça do Digimon.

Ken encarava seu parceiro se digladiar com o gigante de pedra sem nenhum sucesso, ao menos o monstrengo estava ocupado o suficiente tentando se defender e não avançava sobre os pobres recém-nascidos. Eles precisavam de uma estratégia, bater a esmo não estava resolvendo a situação.

O problema é que sua mente não conseguia pensar em nada. A Cidade do Princípio era composta apenas por coisas fofas e infantis, não havia nenhuma construção sólida o suficiente que ele pudesse usar como armadilha, os blocos de construção era fofas almofadas recheadas de penas, o chão era todo atapetado, nada que fosse duro ou resistente para causar mal a um gigante de pedra.

Atraí-lo para fora da cidade parecia ser a decisão mais acertada, mas não seria uma tarefa fácil e nada garantiria que o monstro não retornasse. Golemon agia cegamente, assim como fazia os Digimon que controlou durante sua fase Digimon Kasier, mas não havia nenhuma espiral ou engrenagem negra o controlando. Então não fazia sentido um Digimon agir daquela forma por vontade própria. Algo com certeza estava errado, mas Ken não conseguia descobrir o que era.

Stingmon lançou uma nova saraivada de ataques que não causou o mínimo arranhão na pele grossa do bicho de pedra. Estava visivelmente exausto e preocupado com a ineficiência de seus ataques. Por um segundo sua mente vagou para longe, ele acidentalmente abriu a guarda e recebeu um soco poderoso do monstro furioso.

Ken viu seu parceiro ser atirado para longe, contra uma grande parede formada por blocos almofadados. Penas voaram preenchendo a noite que se aproximava, e Stingmon caiu no chão, atordoado. O garoto conteve o impulso de acudir o parceiro ao perceber que o grandalhão voltara a se mover a procura de outro Digitama. Se seu parceiro, preparado para batalhas não tinha causado nenhum dano no Digimon, era óbvio que nenhum de seus esforços surtiria efeito, mas ele não podia simplesmente assisti-lo caçar bebês indefesos.

Assim, tomado por uma coragem desconhecida, Ken correu atrás do ser pedregoso, aos berros, tentando atrair sua atenção e impedir seu avanço. Entretanto, o Digimon o ignorava completamente e avançava a passos rápidos para os próximos ninhos. A falta de preparo físico do adolescente e suas pernas infinitamente mais curtas o estavam deixando para trás, então numa atitude desesperada pegou um ursinho de pelúcia[3] caído no chão e atirou contra a cabeça de Golemon.

Na noite silenciosa que avançava, pôde ouvir o apito débil do ursinho ao colidir contra a cabeça do animal e ver a pelúcia cair no chão, seguida de mais um apito. Ken se surpreendeu quando o Digimon parou de caminhar e lentamente se virou, encarando-o.

O bicho trazia um olhar alucinado e ameaçador. De repente, a voz da consciência o lembrou de um detalhe crucial. Golemon não atacava, mas revidava quando atingido. Com certeza, o bichinho de pelúcia sequer fizera cócegas contra a carapaça dura que o Digimon ostentava, mas aquilo tinha sido um ataque e ele iria revidar. O adolescente viu o monstro levantar a mão, com o punho fechado, pronto para desferir seu golpe mais poderoso. Viu, pelo canto dos olhos, Stingmon se por de pé, com bastante dificuldade.

O moreno fechou os olhos, respirou fundo e se preparou para dar adeus a este mundo. Stingmon não conseguiria cruzar o espaço entre eles a tempo e o jovem morreria por causa de um ursinho de pelúcia. Mas se sua morte pudesse de alguma forma atrasar Golemon e permitir que mais bebês fugissem, então morreria em paz.

Ken sentiu os cabelos e roupas se agitarem com um vento forte e estranhou o soco que não veio. Estranhou mais ainda quando ouviu o barulho do que parecia ser uma batalha acirrada. Abriu os olhos para ver Aquilamon usar seus poderosos chifres para afastar Golemon de si. O pesado Digimon foi atirado contra uma parede de blocos almofadados e uma grande quantidade de penas voou pela noite e forrou o chão da cidade.

“Ken-kun.” A voz ecoou e o garoto se virou para ver Inoue correr em sua direção, carregando Elecmon nos braços. “Você está bem?” Ela parecia bastante preocupada, o encarnado através das grossas lentes dos óculos.

“Sim.”

“E os outros?” Ela olhou em volta, sem encontrar ninguém.

“Eles não vieram com você?” A voz dele sairá demasiado alta, para se sobressair ao barulho do embate intenso que se desenrolava entre Golemon, Aquilamon e Stingmon, que mesmo debilitado, decidira ajudar no combate.

“Eu achei que eles estivessem aqui com você. Eu não estava perto do computador, então demorei em ver a mensagem.” Explicou. “O que está acontecendo?” Perguntou após observar seu parceiro usar o Blast Rings, mas não causar quase nenhum dano no Digimon de pedra.

Só então Ken percebeu que Elecmon continuava inconsciente e que Miyako estava ali pelo e-mail, sem saber mais informações sobre o monstro pedregoso ou o que ocorrera na Cidade do Princípio. Pensou em contar sobre como o Digimon dizimara um pobre Yuramon sem o mínimo de piedade, mas era algo horrível e se pudesse poupar qualquer do que presenciara, ele o faria.

“Nós precisamos pará-lo.” Respondeu somente.

Notas finais
N/T: [1] Golemon aparece em um episódio de Digimon Adventures 02, mas para quem não lembra, é este monstrinho aqui: http://dma.wtw-x.net/DMA/DigimonStands/Bandai/Golemon.jpg [2] Yuramon também aparece em Digimon Adventures 02, para quem não lembra: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/tr/d/da/Yuramon.gif [3] A Cidade do Princípio tem um cenário todo infantil, inclusive há brinquedos nas árvores, o tal urso citado é um dos brinquedos dessas árvores. O capítulo terminou meio sem final, mas a verdade é que o capítulo tinha ficado enorme e eu precisei dividi-lo em dois.