A Garota do Apartamento 36
30 Justin Bieber, Ressaca e Criticas Culinárias
Notas iniciais
Amor: 4 Letras, 2 Vogais, 2 Consoantes e 2 Idiotas — Bob Marley
Senti meu rosto ficar irritado a cada segundo, desisti depois de um tempo ignorar aquilo e a acabei abrindo meus olhos vagamente. Fechei no mesmo instante dando um gemido sofrido quando senti aquela luz vinda da janela entreaberta iluminar diretamente a minha face. Como eu odiava a luz ao acordar.
Abri meus olhos lentamente os cerrando para que a luz não me cega-se completamente e foquei no teto do quart Fiz uma pequena careta quando dei de cara com um pôster do Justin Bieber no teto, aquele garoto boiola me encarava com aquela cara de quem comeu e não gostou e aquilo já tirou os restinhos de ânimo da minha manhã. Quem ainda gosta de Justin Bieber? Puta que pariu! Estamos em quase em outra década! Quem ainda gosta de Justin Bieber?!
Espera... Porque tem um pôster dele no teto do meu quarto?
A menos que...
“Ei... Lara! Aqui é a sua consciência... Sabe? Aquela que você ta tentando matar! Então mulher, so viemos da UTI médica pra te avisar: Esse não é o seu quarto! Você dormiu com a Karen!”
O QUE? A KAREN?! Para de falar asneira mente idiota! Eu terminei com ela a meses!
“Ah é? Então olha pro lado sua anta!”
Dei um suspiro forte desejando com todas as forças do mundo pra que eu não tivesse feito essa besteira, virei meu rosto lentamente pra esquerda e já o desviei no mesmo instante pra direita dando um gemido de desgosto. Não quis observar aquele ser, apesar de gostosa, não queria que ela acabasse achando que eu queria voltar com ela. Fiz uma careta só de cogitar nisso. Meu estomago estava um caos, sentia o uísque revirando as minhas entranhas e querendo sair pelo lado errado, eu estava nua e com aquele enorme edredom jogado por cima de mim de uma maneira desorganizada. Minha única sorte era ela não ter dormido abraçada comigo, uma coisa que ela adorava fazer e eu queria era mais manter distância.
Me levantei com cuidado da cama tentando fazer o mínimo de barulho possível e quase dei um grito quando senti aquele clima gelado ir de encontro com a minha pele exposta, ela deixou a janela aberta o que fez o lugar ficar mais frio que o normal e não importava a quantos anos eu morasse ali, eu ainda sentia um frio desgraçado.
Procurei pelo quarto por minhas roupas e finalmente achei aquela trilha de roupas intimas indo em direção a porta do quarto, provavelmente tínhamos tirado a roupa sem nem se importar com nada Maldita pinga!
Fechei a porta do quarto dela para que ela não ouvisse muitos ruídos e fui catando minhas roupas do chão as colocando rapidamente para não morrer congelada — Porcaria de bebida! Só me mete em furada!
Sussurrei irritada tentando colocar o meu coturno pulando em um pé só. Não sei como eu ainda aguentava permanecer em pé, sentia todo meu corpo protestar por causa de ressaca e ainda sentia minhas costas ardendo — Mania idiota de transar arranhando! Qual é o problema de curtir sem me deixar marcada??!
Terminei de colocar meus calçados e tentei desamassar a camisete violeta que estava usando mais soltei um suspiro de desistência quando vi que não tinha jeito — Preciso de café, mas antes... Cadê a porcaria do meu sobretudo?!
Ouvi aquele rosnado atrás de mim, aquele rosnado que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, eu tinha esquecido completamente dele. Me virei com calma pra trás e dei um pequeno passo pra trás devido ao susto que tinha levado, aquele rottweiler monstruoso me encarava como se fosse me devorar, aqueles olhos castanhos atentos não desgrudavam de mim. Eu odiava aquele cachorro com todas as minhas forças e eu apostava que esse ódio era mutuo já que eu comia a dona dele. E naquele momento não sabia o que fazer já que em sua boca estava a droga do meu sobretudo sendo apertado com força por aqueles dentes assustadores.
Hoje vai ser um péssimo dia...
– Olá Jorge! Como vai garotão? — Tentei dizer animadamente com um sorriso falso no rosto, mas não adiantou muito ele só rosnou mais alto e deu um latido alto — Shhhhhh para com isso Jorge! Vai acordar a sua mamãe e você não vai querer isso não é?
E era por causa daquele filho da puta que eu acreditava que os animais sabem das coisas que fazem, parecia que algo passava por aqueles olhos grandes e maldosos, algo assustador e eu sabia que ia acabar sobrando pra mim se eu não agisse rápido.
– Ei Jorge porque não me dá o meu casaco? Eu sei que você não me quer aqui então só me devolva e eu vou embora! — Ele ignorou totalmente meu pedido e eu até acharia que ele não tinha entendido se ele não tivesse latido ainda mais alto — Qual é Jorge para com isso! Vai acordar a Karen! — Sussurrei tentado me aproximar dele com calma e a única coisa que ele fez foi latir ainda mais alto — Jorge vamos la! Para com isso e entrega a porra do meu casaco seu babaca castrado!
Ele finalmente largou meu casaco, porém ainda continuava sentado próximo a ele. E infelizmente eu não tinha ideia do que fazer, ou tinha?
– OLHA JORGE UM GATO! — Ele olhou assustado pra trás quando eu apontei e foi bem ai minha chance, catei o casaco e corri pra porta, ouvi aquele latido alto atrás de mim e aquelas patas pesadas se aproximando rapidamente de mim. Mas pelo menos uma vez Deus estava ao meu lado, a porta da frente estava destrancada e por questão de segundos consegui passar pela porta, entretanto no momento em que fui fechar Jorge quase saiu pra fora, ele latia alto e sem parar, seu focinho estava pra fora e baba saia de sua boca enquanto ele tentava empurrar a porta — Ta vendo Jorge? Eu comi sua mamãe e você perdeu seu vira-lata arrombado! — Disse vitoriosa pro cachorro que parecia ainda mais irritado tentando forçar a porta, a empurrei também ainda mais para que ele não passa-se e em um movimento rápido de um tapa em seu focinho o fazendo recuar rapidamente, mas ainda dando tempo de fechar a porta fazendo um barulho forte por causa da força com a qual a madeira bateu no trinco.
– E é por isso que eu gosto de gatos, seu filho da puta! — Provoquei saindo em direção a calçada, observei o meu casaco e respirei fundo quando o vi todo babado e um pouco rasgado — Que porcaria de dia começa assim?
[...]
Tomei um gole daquela xicara de café fumegante e senti com certa felicidade aquele liquido quente e forte descer pela minha garganta, estava na Inglaterra o pais do chá, mas nunca deixaria de preferir um bom café preto pra tentar recuperar o pouco de vida que saiu de mim graças a ressaca.
– A noite foi boa eim!
– Só se for em seus sonhos — Respondi sentindo o aroma da minha bebida, ouvi o leve ranger da cadeira quando aquele corpo pequeno e esbelto se sentou na cadeira da minha frente — Não me lembro de porra nenhuma Elizabeth...
– Uhh, falou meu nome inteiro, se deve estar mesmo estragada — Supôs dando uma gargalhada, fiz uma careta quando aquela risada entro em meus ouvidos, era impressionante como até aquilo tinha conseguido aumentar minha dor de cabeça.
– Cala a boca Liza, você me deixou à mercê da Karen! Que porra! Eu não me lembro nem da transa! — Reclamei tentando controlar minha raiva, levantei a minha cabeça cerrando os olhos e observei aquele semblante fofo que parecia estar se divertindo com a minha situação, inglesas realmente eram lindas — Eu quase fui morta por aquele cachorro filho da puta dela!
– Ai Lari, você mal fala português perto da gente, mas porque quando fala só sai palavrão?
– Desculpe bitch, ficou melhor assim pra você? — Disse sarcasticamente, ela rolou os olhos e chamou a garçom rapidamente — Eu não to afim de trabalhar hoje, você vai mesmo cobrir meu turno hoje?
– Ihhh, foi mal Lari, sobre isso, eu não vou poder. Minha mãe piorou a situação no hospital e eu queria poder ficar com ela se...
– Não tem problema minha ruiva gostosa — Disse com um sorriso sincero no rosto — Eu não sabia que a situação tinha piorado eu sinto muito.
– Está tudo bem, recebi a notícia não tem muito tempo — Explicou com um sorriso fraco no rosto, deixei minha xicara em cima da mesa e segurei uma de suas mãos com carinho, vi seu rosto esquentar e ficar vermelho, porem em nenhum momento desvencilhou sua mão da minha.
– Ela vai ficar bem, mantenha a calma minha ruiva — Ela soltou um lindo sorriso com as minhas palavras conforto e uma lagrima solitária rolou por sua face — Você tem que ser tão forte quanto ela! Seja aquela garota forte que adora tirar uma casquinha minha!
– Sempre diz as palavras certas não é sua idiota?
– Você ama essa idiota então cale a boca!
– Pior que amo mesmo! Esses olhos dourados me encantam — Meu sorriso só aumentou e ela tirou sua mão da minha dando um leve tapa em meu braço me fazendo me encolher com um longo bico no rosto — Você pare de se achar porque você sabe que vale menos que o prato que come!
– Só os meus olhos dourados valem mais que o Reino Unido inteiro baby!
– Quer saber? Cansei! é ego demais pra uma pessoa só! — Disse se levantando e fazendo menção de que ia embora, soltei uma gargalhada e ela sentou de novo balançando a cabeça em desgosto. Não tinha como discutir com a minha pessoa, todos sabiam que meu ego não deixava nada me atingir.
[...]
Ajeitei o avental branco o firmando mais e nesse mesmo momento Charles invade a cozinha com um semblante estranho — Ei Lara temos um problema — Anunciou com aquele seu sotaque inglês pesado.
– Que foi Charles? — Perguntei encarando aqueles olhos castanhos já me preparando para a bomba que ia cair sobre mim. Ele colocou na bancada a picanha que eu tinha acabado de servir, estava cortada apenas uma pequena porção — Não me diga que o cliente não gostou?
– Disse que ficou mal passado... — Respondeu tentando manter-se neutro, vi Alex se aproximando de mim com uma pequena careta.
– Deixe me provar isso — Disse me afastando da bancada, ele pegou outros talheres e se serviu de um pequeno pedaço o mastigando com calma. Meu coração batia descompassado com medo da reação do Chef, ele sabia ser mal quando queria.
Ele terminou de engolir a carne e fez uma pequena careta o que me fez segurar a respiração por alguns segundos — Não tem nada de errado com a carne, ela está no ponto — Anunciou em alto e bom som, deixei o ar sair de meus pulmões em um único suspiro aliviado — Esses clientes de hoje em dia estão ficando cada vez mais engomadinhos.
– Ah Lari não acabou por aqui, ela quer te ver...
Torci a boca em desgosto e lavei minhas mãos tentando não ficar mais irritada do que já estava, aquilo tinha quebrado praticamente toda minha concentração. Tirei meu chapéu e meu avental e o coloquei no cabide ao lado da porta enquanto saia de dentro da cozinha e entrava no ambiente do restaurante lotado pisando duro.
Já era noite e apesar de ser apenas uma quarta feira havia muita gente pagando muito em pouca comida, eles falavam que aquilo era arte e eu concordava já que aquela arte ficava ainda melhor na minha conta bancária. — É a mesa vinte e sete, fique à vontade...
– Obrigado Charles — Agradeci sem precisar olhar pra ele enquanto andava a passos largos pelo restaurante. As paredes pareciam ser feitas de um veludo vermelho, o assoalho era de madeira quase bronzeada deixando um ar sofisticado ao lugar. Vários lustres de cristal davam um charme ainda melhor a aquele ambiente que transbordava conversa. Uns iam pra comer, outros para beber, aquele era realmente um lugar badalado, mas nem fiz questão de olhar pros clientes eu ainda estava tentam controlar a minha fúria. Mas eu não podia reclamar, apenas ouvir já que o cliente sempre tinha a merda da razão.
Finalmente cheguei próxima a mesa e logo avistei uma mulher de cabelos curtos e negros iam até um pouco abaixo da orelha em um corte estiloso, seu vestido era longo e vermelho vinho, seu corpo era magérrimo e um súbito medo tomou conta de mim O por favor que não seja uma crítica de cozinha!
– Com licença — Disse chegando até a mesa dela, ela estava sozinha e eu ainda apertava minhas mãos tentando não esvoaçar um murro naquele rosto... Naquele rosto de porcelana, ela tinha covinhas que eram muito bem vistas graças a aquele sorriso que sua boca pequena e aveludada maquiada com um batom vermelho sangue dava. Ela abriu a boca algumas vezes mais nenhuma palavra saiu e aqueles olhos. Eu parecia estar em algum sonho idiota, como pode ser depois de tantos anos eu estava revendo aqueles olhos acinzentados.
– Você já foi melhor cozinheira... Larissa.
– Gabriela?
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