A Garota da Lua

23 Libra – a Harmonia e o outro


No dia seguinte, às sete horas da noite, Hermes apareceu, belo, sorridente e simpático, como eu esperaria, em carro esportivo alemão caro e veloz, a sua volta havia uma aura de alegria e harmonia, fazendo me sentir bem em sua presença.

— É este seu dom? Fazer as pessoas se sentirei bem? – perguntei, assim que entramos no carro.

— Um deles – brincou, com seu sorriso irradiante.

— Para onde vamos?

— Surpresa! – Ele me dá um sorriso enigmático, estranhamente, não me preocupei, encostei minha cabeça no banco do carro e o deixei me levar para um destino desconhecido.

No entanto, o que eu não sabia era que nas sombras atrás de nós, Gabriel observa toda a cena e ao nos ver partir, seus olhos tornaram-se mais escuros.

— Que lugar é esse? – Estou curiosa, pois estávamos em um heliporto.

— Espero que goste de peixe, pois, pensei em levar você a um lugar especial – Hermes me comunicou e continuou. – Por aqui. – Apontando para um helicóptero.

— Nós vamos voando?

— Claro, é a melhor forma de viajar – explicou com um sorriso confiante, enquanto assumia os controles. – Antes da guerra, não precisaríamos de máquinas para voar – continuou e o helicóptero ascendia aos céus.

— Não me lembro muito bem deste tempo. Na verdade, quase nada, a não ser pelo que me contam

— Eram bons tempos para nós, mas ruins para os mortais. Nós tínhamos o poder e a força em nosso favor, usávamos isso para controlá-los, pois eles tinham, somente, o medo e as incertezas, mas acho que nem percebiam, então veio a guerra e você sabe o resto da história.

— Não sei muito bem. Estou aprendendo agora.

— Para você, foi bom ter renascido nessa época, não sofreu a pior parte, o medo e a escuridão, vivíamos na sombra como ratos, contudo, felizmente, tudo está mudando para nós, cada vez mais rápido.

Embora escuro, notei que voamos sobre o mar.

— Para onde estamos indo?

— Para o litoral norte, tem um restaurante lá que serve frutos do mar maravilhosos — Hermes explicou.

— Então é assim, se você quer algo vai atrás – disse, irônica.

— Claro! Por que complicar? – ele respondeu, olhando-me nos meus olhos.

Ele aterrissou um terreno baldio perto de um restaurante simples, as pessoas de lá não pareceram impressionados com a nossa presença, apesar do meio de transporte tão inusitado.

Enquanto comíamos e conversávamos tive que perguntar:

— Foi Jane que pediu para você me convidar, não foi?

— Não posso mentir para você, enquanto estiver usando isso. — E apontou para o meu pingente de turquesa. – Sim, foi Jane que me pediu. Ela está preocupada com você, mas, devo lhe dizer que não está sendo nenhum sacrifício para mim.

— É estranho.

— Sim, é bastante estranho para nós lidarmos com tantos sentimentos, como você está fazendo agora. Viver tanto tempo, nos tornou um tanto apáticos, mas seu ressurgimento ajudou sacudir nossos mundos, fazer nosso sangue circular mais rápido.

— Eu nunca imaginaria isso.

— Mas acredite, é verdade.

Já era tarde, quando retornamos para minha casa, no carro recebi uma mensagem da minha mãe pelo meu celular.

“Seu pai piorou, estamos no hospital”, fiquei desesperada e cheia de culpa por não estar com eles.

— Calma, eu levo você até lá – Hermes tentou me tranquilizar e conseguiu.

Chamaria menos atenção, se chegasse naquele hospital vestida de palhaço do que chegar junto a Hermes, mas já estava acostumada, pois já havia passado por isso antes com Gabriel e Hélio, todos olhavam para nós, enfermeiras, médicas e, até mesmo, pacientes, não dava para passarmos despercebidos. Encontrei minha mãe na sala de espera, minha tia estava com ela, a consolando, eu ajoelhei na frente dela

— Ele piorou muito, não conseguia respirar — minha mãe me contava com a voz embargada pela dor e lágrimas.

— Eu deveria estar com vocês – lamentei, cheia de culpa.

— Não poderíamos saber que isso aconteceria, Diana. Ninguém pode saber, quando o fim se aproxima – Ela considerou, notei que minha tia olhava para Hermes, curiosa.

— Hermes estas são minha mãe, Amélia, e minha tia, Alice. Esse é Hermes, um amigo – apresentei-os.

Ficamos no hospital até de madrugada, Hermes nos acompanhou, trazendo café e água, a presença dele dava tranquilidade ao ambiente, mas no raiar do dia, meu pai morreu, tranquilamente. Insisti para minha mãe voltar para casa conosco.

— Vivi com este homem por mais de 30 anos, não vou deixá-lo agora. – Foi a sua resposta para mim.

— Pode ir, Diana. Há todo o procedimento legal para ser revolvido. Eu ficarei aqui com sua mãe – Minha tia me tranquilizou.

Na hora em que Hermes me levava para casa, meu telefone tocou, era Jane.

— Diana, já sei o que aconteceu. – Olhei para Hermes, com certeza, foi ele quem a comunicou sobre meu pai. – Lamento muito.

— Obrigada, Jane.

— Quero que você não se preocupe, nós cuidaremos de tudo para vocês — ela informou.

— Obrigada. – De novo, agradeci, pois não tinha cabeça para pensar em mais nada.

— É o mínimo que podemos fazer para agradecer por eles terem criado minha filha – Jane explicou e, mais uma vez, agradeci.

Hermes quebrou o silêncio no carro, depois de um certo tempo:

— Eu fiquei impressionado lá no hospital. Já vi muitos humanos morrerem, mas não assim daquele jeito, e o que sua mãe falou depois ... eu não sei como explicar – ele parecia confuso.

— Talvez, você não se lembre, mas aquilo se chama amor – conclui, ele me olhou com tristeza, possivelmente, já havia esquecido o que era aquilo.

Ao chegarmos a minha casa, Hermes se ofereceu para me fazer companhia, no entanto, queria ficar sozinha, quando abria a porta do apartamento, senti uma presença, na minha mão surgiu minha espada, me virei, rapidamente, para o lado com ela em punho e pronta para lutar.

— O que faz aqui? — perguntei a Enki, com a espada encostada no seu peito.

— Precisamos conversar.

— Não, por favor, hoje não – respondi, desanimada.

— Você precisa me ajudar a achar meu pai. – Ele era obstinado.

— Por que eu? Vá procurar Samuel. – Lembrando-me do contador de história.

— Samuel desapareceu, não tenho mais ninguém.

— Vá até a casa dele — reiterei com veemência.

— Não sei onde é – Aí pensei que já estive lá, mas também não sabia onde era. – A casa deve ser protegida por magia, não se pode achá-la a não ser que o dono queira – ele explicou, pensei que precisava aprender este feitiço.

— Enki, por que eu tenho que ajudá-lo?

— Porque você corre perigo, se o Senhor do Oriente recuperar poder, você terá inimigos poderosos ao lado dele e, se você me ajudar poderá ter aliado para lhe proteger.

— Que inimigos? Gabriel? – Pensei, assustada, não podia acreditar que Gabriel pudesse querer meu mal daquela maneira.

— Gabriel, não, mas os outros.

— Preciso de tempo para pensar. Hoje não é um bom dia – confessei, desorientada. – Conversaremos com outro dia.

— Mas que seja rápido, você não tem muito tempo – dizendo isso, desapareceu.

Para quem vive para sempre, aquele povo era bem apressado, eu pensei.

Meu pai foi enterrado no fim daquela tarde, em uma bela cerimônia e, como Jane havia prometido, não me preocupei com nada. Grande parte da pessoa que trabalhavam comigo no museu compareceram, incluindo minha meia irmã Cassandra, além da família e vários alunos, pois meu pai havia sido um professor bem-conceituado. Jane e Hélio não foram, mas mandaram lindas coroas de flores. Mas, para minha surpresa, Hermes apareceu também, e, apesar do momento, minhas primas ficaram alvoraçadas ao conhecê-lo, porém o que elas não percebiam era o clima de tranquilidade que sua presença causava. Também, foi ele que nos deixou em casa, depois da cerimônia.

— Não sei com lhe agradecer – disse-lhe com sinceridade, ao me despedir, enquanto saía do carro.

— Aceitando um outro convite meu.

— Está bem, combinaremos um outro dia. Obrigada e até breve.

— Ele parece ser um bom rapaz – comentou minha mãe no elevador. Naquele momento, comecei a sentir uma presença estranha ali perto, acompanhei minha mãe até o apartamento, entramos e, sem ela perceber, verifiquei se estava tudo bem.

— Mãe, preciso dar uma saída.

— Para quê?

— Esqueci algo – respondi, evasiva, e sai sem dar tempo a ela de falar mais alguma coisa.

Senti algo estranho no corredor do prédio, minha espada surgiu na minha mão, desejei que nenhum vizinho me visse agora, de repente, as luzes se apagaram e tudo ficou escuro, notei que alguém se aproximava sorrateiramente pelas minhas costas, pensei em várias possibilidades, mas não podia vacilar, rodei o corpo e deferi um golpe, que foi aparado por outra espada, me preparava para outro ataque, quando notei o um brilho que já conheci, abaixei minha espada, surpresa.

— O que faz aqui, Gabriel? – perguntei e ele saiu das sombras.

—Vim ver como você estava – falou, suavemente, enquanto sua espada desaparecia. – Soube do seu pai.

— Como você acha que eu estou? Péssima – revelei, sem paciência.

— Lamento muito por você. — Ele parecia sincero, mas eu não podia cair outra vez na conversa daquele homem, queria que ele fosse embora.

— Obrigada pela gentileza, mas acho melhor você ir agora – falei, rispidamente.

Ele me olhou com tristeza.

— Adeus, Diana. – E já começava a desaparecer, quando me lembrei.

— Só um minuto, Gabriel! Seu irmão Enki está atrás de você e do seu pai.

— Enki esteve aqui? – Ele reapareceu e me olhou abismado.

— Sim, ele insiste para eu ajudá-lo.

— Diana, fique longe de Enki! Ele não é confiável.

— Bem que eu gostaria, não quero me meter nos seus assuntos da sua família, mas os argumentos dele são bem convincentes, ele alega que eu correrei risco, se seu pai recuperar o poder. Você sabe do que ele está falando, Gabriel? – inquiri-o e, pelo seu olhar, ele sabia do que eu estava falando.

— Eu sempre estarei lá para proteger você – respondeu e depois desapareceu, com se confirmasse minhas suspeitas.

Voltei a trabalhar em poucos dias, não queria ficar em casa sozinha, pois minha mãe foi passar uns tempos na casa da minha tia Alice, isso me deixou menos preocupada, porque achava que ela ficaria mais segura longe de mim. No momento que cheguei ao museu, havia um grande alvoroço, todos pareciam correr de um lado para outro, procurando o que fazer.

— O que está havendo aqui hoje? – perguntei a Celina, assim que notei a agitação do ambiente.

— Hoje, nossa exposição receberá uma visita muito importante, Salvatore Olímpios, o milionário internacional, famoso mecenas da arte e cultura. Já ouviu falar dele? – Celina respondeu animada.

— Já. O que ele vem fazer aqui? – quis saber, aborrecida, pois sabia que meu verdadeiro pai não faria nada sem segundas intenções.

— Ele é o mecenas do museu em que Hélio trabalha e parece que quer fazer uma grande doação para nosso museu, também. Não é maravilhoso? – Com essa explicação, fiquei mais desconfiada ainda, pedi licença a Celina e fui procurar Hélio.

— O que nosso pai vem fazer aqui?

— Calma, Diana! Ele só vem reconhecer o terreno, para planejar as nossas táticas. Temos que ficar atentos, pois a qualquer momento a luta pode começar – Hélio explicou, tentando passar calma.

— Mas, logo aqui, na minha cidade, no meu trabalho? – Estava bastante preocupada, pois todos que amavam podiam correr perigo.

— Infelizmente, é aqui que o problema se concentra e onde nossos inimigos estão – Hélio respondeu como se fosse muito natural.

— Por causa de vocês! Por ter trazido aquela maldita estátua para aqui! – Estava irada.

— Você já considerou a possibilidade de ser você a razão de tudo isso. Talvez, tenha sido o destino – declarou sério e eu não tinha argumentos contra essa resposta.

No começo da tarde, Salvatore entrou no museu, cerca do por um séquito, estavam todos lá, Cila, Caio, Nix, Tales, mais alguns que eu não conhecia, e mais um bando de bajulares mortais, entre eles políticos e artistas, seguidos por vários repórteres, era certo, que ele queria que soubessem da presença dele ali, marcando terreno, demonstrando o seu poder.

— Estou muito feliz por estar nessa maravilhosa cidade! – Salvatore declarou no meio de um mar de microfone. – Quero reiterar meu interesse nela, para alcançarmos as melhores relações possíveis — Estourou uma salva de aplauso, ele levantou as mãos pedindo silêncio. – Quero que todos saibam que ninguém ficará entre nós e os nossos interesses – Ouvimos mais aplausos.

— Eu estou enganada ou isso foi uma declaração velada de guerra? – perguntei a Cassandra, que estava ao meu lado.

— Velada? Ele foi bem explícito – ela respondeu com ironia.

Seguiu-se uma rápida visitação pelo museu, com pausa para fotografias com a falsa estátua, então, finalmente depois de todo aquele espetáculo, com direito a bajulação e ostentação, os visitantes foram embora, parecia que a vida iria voltar à rotina, quando fui surpreendida.

— Nosso pai quer que você venha jantar conosco – declarou Hélio, sem dar oportunidade de negativa. – E você, também, Cassandra — completou o convite.

— Então, teremos um belo jantar de família – Cassandra falou com sarcasmo.

— Sim, precisamos conversar – O jeito de Hélio demonstrava que o negócio parecia sério. – Mandaremos pegá-las às sete – comunicou.