A Garota da Lua
24 Leão – o orgulho e o poder
Um carro me levou para o mais luxuoso hotel da cidade, e ao passarmos pela frente da entrada principal, notei uma confusão repórteres e fãs gritando, eu não entendi nada, mas o motorista me explicou:
— Para todo efeito, o senhor está dando um jantar beneficente para alguns convidados especiais, entre eles, algumas celebridades, por isso, os fãs estão aí. Você entrará pela porta de entrega, será mais discreto. –
Assim, ele me deixou na entrada da cozinha e me levaram a grande suíte presidencial, no último andar.
Ao entrar naquele ostentoso ambiente, percebi que aquilo parecia mais um conselho de guerra do que um jantar beneficente, haviam várias pessoas ali reunidas. Reconheci alguns deles, que já haviam aparecido nos noticiários, entre eles, um grande armador, cuja frota de navio transportava uma boa parte da carga marítima que circulava pelo mundo, mas que ficou mais conhecido pelo seu escandaloso caso com uma atriz famosa; a presidente da maior rede de alimentos internacional; a modelo mais bem paga da atualidade e um conhecido astro do rock, além de alguns asiáticos. Entendi o que Lilith quis dizer, quando falou que Salvatore não respeitava fronteiras, pois estava trazendo alguns do lado Oriental para o lado dele.
— Vocês todos conhecem minha filha Diana, mas lamento informar que ela não conhece todos vocês – Salvatore me apresentou e começou a rir, como se fosse uma piada, todos acompanharam seus risos, menos eu e Cassandra, que tinha um ar entediado.
— Mas, agora, vamos ao que interessa, estamos reunidos aqui para planejar uma estratégia contra o povo do Oriente, pois, por um golpe muito bem planejado, eles conseguiram libertar o seu Senhor, porém os dois mil anos de cativeiro o deixaram muito fraco, no entanto, seu poder aumenta a cada dia. Por isso, precisamos nos preparar para eventuais ataques e represália.
Houve um alvoroço na sala, todos queriam falar, dar opiniões ou ideias, mas foi Hélio que falou
— Precisamos achar onde eles se escondem, acabar com o núcleo deles.
— Mas, não sabemos onde este núcleo fica. – Agora foi uma mulher elegante de cabelos louros e vestida como uma elegante executiva falou, tinha a impressão que já a vi antes, depois me lembrei, ela era uma famosa jornalista muito conceituada na área de política internacional.
— Não temos certeza, Isis, mas desconfiamos que eles possam estar escondidos na casa de Samuel. — Estas palavras acenderam uma luzinha vermelha na minha cabeça, pois já estive lá, mas, simplesmente não lembrava onde ficava, devido a alguma espécie de encantamento.
A discussão continuou durante todo o jantar, mas não se chegava a conclusão nenhuma, porém, algo me incomodava e, na primeira oportunidade que tive para falar em particular com Salvatore, aproveitei para perguntar.
— Senhor, se você não quer a guerra outra vez, por que provocou a crise econômica atual?
Salvatore me olhou espantado, me puxando pelo braço, me levou para longe dos outros.
— Quem falou isso a você? Já sei o mentiroso do Gabriel — Meu silêncio confirmou o que ele achava. — Eu não provoquei nenhuma crise, os próprios mortais fizeram essa confusão. Não posso mentir que tirei algum proveito, movimentando meu dinheiro de um lado para o outro, mas não fiz nada para começar isso.
— Bem, eu pensei...depois de ouvir Cila falar do grande domínio.
— Cila é uma idiota! Linda, mas uma idiota! Não posso negar que o grande domínio está ocorrendo, já que eu sou o credor de vários países pelo mundo. Mas, veja, quem está naquela sala, temos representantes nas principais posições econômica, política e, até, de entretenimento. Olhe para mim, Diana, nunca em toda minha existência tive tanto poder como agora, sem derramar uma gota de sangue, sem armas ou exércitos, e pretendo manter isso como está. Estamos entendidos, minha filha?
— Sim, estamos, senhor. Mas se você está tão poderoso, por que temer o Senhor do Oriente?
— Porque Anan pode ser um pouco conservador demais, não aceita o novo mundo, as novas ideias e eu não quero me arriscar.
— Só mais um detalhe se você não teve nada com a crise financeira, como sabia que ela ocorreria? – Fiquei curiosa com esse detalhe, ele me olhou interrogativo, talvez, decidindo se poderia confiar em mim.
— Tales é um oráculo bastante poderoso, ele prevê o futuro e me avisou – Salvatore respondeu com um meio sorriso maroto, fiquei mais aliviada, afinal, meu pai não era o monstro que Gabriel havia pintado, mais uma vez, ele havia mentido para mim.
— Mais uma coisa, Salvatore. Eu já estive na casa de Samuel, só não sei onde ela.
— É porque a casa está protegida por magia, ninguém consegue lembrar a sua real localização, a não ser que o dono queira. Mas, talvez, sua irmã Cassandra possa ajudá-la a lembrar.
Não gostei nada da ideia de Cassandra passear dentro da minha cabeça, contudo, Salvatore havia me convencido, e ele podia ser muito persuasivo,
Sem ninguém percebeu, que nós duas fomos até um dos quartos da suíte, me sentia desconfortável, mas minha irmã apenas sorriu.
— Não tenha medo, Diana. Nem sei se isso vai dar certo com você. Vamos, me dê sua mão – ela pediu quando sentamos frente a frente, eu estendi minhas mãos para ela, que as segurou com força. – Agora, tente se lembrar do dia que você foi à casa de Samuel – Cassandra disse e eu me esforcei, de repente tudo passou na minha cabeça como um filme, o táxi, o quase atropelamento, a livraria, o carro, a estrada, conseguia ver os nomes das ruas e as placas de sinalização, a estrada cercada de árvores, até chegarmos na frente do portão, a mudança de Samuel, o quarto das armas, meu treino, parei aí, exausta, assim como minha irmã, também, parecia estar.
— Você viu tudo? – perguntei a ela, ofegante.
— Vi — Ela respondeu e limpou o suor do rosto. – E agora?
— Não sei. Contamos para Salvatore? – Fiquei em dúvida, e se eles fossem lá, poderia ser uma batalha e tanto, muitos poderiam ser destruídos, minha cidade poderia ser aniquilada, tinha medo das consequências. Cassandra percebeu o medo nos meus olhos.
— Não, é melhor esperarmos um pouco mais. Vamos dizer a ele que não conseguimos e guardar nosso segredinho por um tempo. Depois Cassandra me olhou de modo curioso. — Tudo bem com você, Diana?
— Sim, tudo. Por quê?
— Nada, só uma sensação muito estranha.
Salvatore ficou frustrado, já preparava um grande ataque surpresa, que era o que eu temia. Então, os convidados começaram se dispersar, pareciam aliviados por não terem que lutar. Cassandra foi informada que agora ficaria hospedada com Salvatore, por segurança. Hermes se ofereceu me levar para casa, concordei, pois, achava que seria mais agradável do que o pessoal de Caio.
— Noite proveitosa – declarou no carro.
— Não entendi. Nada foi resolvido.
— Mas, eu estou aqui com você. Então a noite foi perfeita – falou, dando um belo sorriso.
Quando paramos na frente do meu prédio, eu me despedi agradecendo, já saindo do carro.
— Só um minuto, Diana. – Parei e me virei para ele que continuou: – Eu me esqueci de algo.
— O quê?
— Disso – Hermes se aproximou de mim e beijou minha boca, primeiro suavemente, depois com mais intensidade.
Eu não reagi, só me deixei ser beijada, coloquei as mãos no peito dele na intenção de afastá-lo, mas, não fiz. De repente, a porta ao seu lado se abriu e ele se afastou rapidamente de mim, puxado para trás com força sobrenatural e jogado no meio da rua, fiquei atônita sem entender, sai do carro, com minha espada na mão, pronta para agir. Enquanto, Hermes, tonto, passava a mão na cabeça, tentando se levantar, mas Gabriel se materializou na frente dele.
— Fique longe dela, Mensageiro do Ar! – Gabriel gritou com raiva, vi que Hermes estava em desvantagem.
— Pare com isso, Gabriel! – Ele me olhou com uma mescla de surpresa e mágoa, isso deu tempo para, que em uma velocidade impressionante, Hermes se levantou e uma espada aparecesse na sua mão.
— Senhor dos Ventos é sempre um prazer lutar com você. A propósito, você me deve um avião – Hermes levantou a espada e atacou, mas em um rodopio Gabriel se transformou em redemoinho, indo em direção a seu oponente. Para minha surpresa, Hermes fez o mesmo se transformando em ar, seguiu-se uma estranha luta, os dois se aproximavam, se chocando e se afastavam em uma tremenda velocidade, virando carros, derrubando árvores e galhos, o barulho do vento era ensurdecedor, luzes começaram a se acender nas janelas dos prédios. Felizmente, uma árvore caiu sobre a fiação deixando tudo no escuro,
— Parem com isso! – Segurei meu pingente e eles pararam, de voltam a forma humana os dois segurando suas espadas, ofegantes, olhando para mim, como se esperassem eu falar alguma coisa.
— Vocês estão bem?
— Sim – Eles responderam, pois apesar de alguns cortes e hematomas, pareciam inteiros.
— Hermes, por favor, vá embora agora. Obrigada pela carona – decidi.
— Mas, Diana, não posso deixar você sozinha com ele – Hermes replicou, aborrecido, apontando para Gabriel.
— Pode deixar que eu cuido disso. Preciso ter uma conversinha com Gabriel.
Sem escolha, Hermes entrou no carro, um pouco amassado pela luta e foi embora. Eu me virei para Gabriel.
— Com que direito, você tem de fazer isso? – Estava muito zangada, mas não podia gritar para não chamar mais a atenção da vizinhança.
— Ele estava beijando você.
— E o que você tem a ver com isso? – Estava irritada, percebi que ele não sabia o que responder. — Vá embora, Gabriel, e me esqueça!
Ele não disse mais nada apenas me olhou com tristeza e desapareceu.
Olhei a destruição que estava a minha volta, agradeci pela falta de luz, pois, assim ninguém conseguiu presenciar isso. Entrei no meu prédio, subindo pelas escadas cujas luzes de segurança proporcionavam alguma claridade, mas ao chegar no corredor do meu andar, ele estava completamente escuro, andei com cautela até a porta do meu apartamento, quando percebi uma presença a alguma distância, primeiro achei que era Gabriel, depois notei que era menor, pensei em Enki e chamei pelo nome dele, mas a figura ficou ali parada por algum tempo e, depois, desapareceu, então abri, rapidamente, a porta e entrei para a proteção do amuleto, que Jane havia me dado.
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