A Garota da Lua
22 Gêmeos – Os irmãos e encontros
Notas iniciais
Por fim, minha mãe me contou tudo sobre a doença do meu pai, como não havia nada a fazer e a única coisa que podíamos fazer para ajudá-lo era deixá-lo o mais confortável possível. Sentia meu coração pesar tamanha a minha dor, por isso queria ficar com meus pais, mais tempo possível, então passei o dia junto deles, quase me sentindo normal outra vez, essa sensação me acalmou um pouco minha alma, mas no dia seguinte, eu precisaria agir, já que tudo a minha volta estava diferente, meu mundo se transformou.
Nessa mesma noite, sonhei que eu e Gabriel estávamos no quarto da pousada na Toscana, onde passamos a noite juntos, depois de fugirmos da casa de Salvatore, quando achei que eu era realmente importante para ele, não um mero peão de um mirabolante e milenar jogo de xadrez.
— Diana, esse é um presente para você, assim saberá como eu a amo – falou, com ternura e me entregou algo que eu não conseguia ver o que era. – Em breve, você terá uma surpresa.
Acordei mais triste ainda, pois tinha certeza que aquela cena nunca aconteceu, devia ser meu subconsciente, tentando amenizar o sofrimento pela sua traição de ter me usado para salvar seu pai e, por ele querer me deixar na casa da sua mãe, como uma moeda de troca. Mas, agora, tinha que continuar a vida, iria voltar ao museu, ao meu trabalho, sem saber o que vou encontrar por lá.
Andei para o metrô, como de hábito, as ruas estavam extraordinariamente vazias, senti como se alguém andasse atrás de mim, olhei sobre meu ombro, mas não vi nada, já tive aquela mesma sensação antes de tudo acontecer, mas agora tinha certeza que era vigiada.
Quando cheguei ao museu, fui direto para nossa área de trabalho, estava tudo mais calmo do que eu esperava, pois achei que com o sumiço da estátua haveria muita confusão por lá com polícia e repórteres, no entanto, encontrei Suzana, que suspirou como aliviada quando me viu
— Bom dia, Diana! Ainda bem que você voltou? Estamos sobrecarregados de trabalho e, agora, Helena, também, teve um problema de família e não aparece há alguns dias – ela me explicou, rapidamente.
— Bom dia, Suzana! Foi só isso que aconteceu por aqui? – Eu não podia acreditar que ela não soubesse do desaparecimento da estátua.
— Sim, mais nada em especial. Você andou malhando? Parece mais magra e forte – ela observou, casualmente, mas nesse instante, entrou na sala uma jovem bonita quase adolescente, magra e alta, cabelos louros curtos assimétricos, com uma enorme franja colorida de rosa, vestia uma calça jeans tão apertada, que não sabia como ela conseguia andar, e camisetas largas sobrepostas, além de tênis de cano alto, também tinha piercings no nariz e nas orelhas.
— Ah! Havia me esquecido. Diana, essa é Cassandra. Cassandra, esta é Diana. Hélio a trouxe para ajudar, enquanto Helena não aparece – Suzana explicou a presença da garota, parecendo um tanto contrariada, mas eu sabia que ela estava sobre o domínio de Hélio e faria tudo que ele pedisse.
Foi quando Cassandra e eu apertamos as mãos, nos cumprimentando, que tive a estranha sensação de levar um choque, ela também parecia que sentira o mesmo.
— É um prazer te conhecer, Diana. Já ouvi falar muito de você. – Cassandra mostrou—se simpática.
— Obrigada – respondi, sentindo uma instantânea simpatia por aquela garota que, logo a seguir, pedi desculpa e me retirei, pois precisa ir até a sala onde estava exposto o deus dourado, pensando que aquela cena que assisti na casa de Kira fosse apenas uma ilusão.
Na frente da porta da sala de exposição, dois dos homens de Caio, que eu já conhecia, faziam a guarda, eu os cumprimentei e eles abriram a porta, sem protestar, levei um susto quando eu vi a estátua no mesmo lugar de antes, imaginando se toda aquela visão na casa de Kira seria mentira. Assim, me aproximei lentamente e só quando olhei de bem perto, pude notar a diferença, não era a mesma estátua, ainda que absolutamente igual em todo os detalhes, faltava algo a mais, talvez, o mistério e a magia.
— Você também notou a diferença. – Ouvi Hélio falar ao meu lado, mas já havia percebido sua presença, sentia que nossa ligação estava cada vez mais forte.
— Não é a mesma estátua, é apenas uma cópia – declarei, pois já desconfiava
— Tínhamos uma em caso de emergência, como agora. Eu tinha insistido para o nosso pai mandar a cópia, mas ele achou que não enganaria Gabriel. Foi muito arriscado, os subestimamos. – Hélio estava aborrecido.
— E agora?
— Vamos encontrá-lo e aprisioná-lo, outra vez. Temos nossos meios de resolver essa situação.
— Como Cassandra?
— Preciso ter cuidado com o que penso, quando estou perto de você – ele comentou, sorrindo e prosseguiu: – Sim, Cassandra é uma poderosa vidente, poderá nos ajudar a encontrá-los, antes que o Senhor do Oriente recupere o seu poder.
— Quem são eles? – Pois eu conhecia alguns, Gabriel, Helena e Samuel, provavelmente, haveria outros.
— Descobriremos logo. – Virou e já ia saindo da sala, mas parou, olhou novamente para mim. – À propósito, Cassandra é nossa irmã – comunicou e foi embora.
Fiquei ali parada, mais uma vez surpreendida por uma novidade, depois que me recuperei, voltei para o nosso local de trabalho. Cassandra estava lá e sorriu quando entrei, retribui o sorriso e ela se aproximou de mim.
— Hélio te contou? – Cassandra me indagou e eu sacudi a cabeça afirmativamente.
— Você é nossa irmã.
— Sou, mas não como vocês. Minha mãe é uma mortal – ela explicou. – Mas, nosso pai, Salvatore, me protege, assim como nossos outros irmãos, principalmente, aqueles que têm algum dom que possa ser útil a ele.
— Por isso que eles trouxeram você para aqui, pelo seu dom da vidência?
— Sim, posso ter algumas visões, quando estou envolvida em algo, por isso estou aqui nesse museu, para tentar ver algum sinal – Cassandra esclareceu e depois completou. – Mas, com certeza, você é a pessoa mais capaz para achá-los.
— Eu? Por quê?
— Porque seu dom de vidência é maior e você tem uma ligação muito forte com Gabriel – Cassandra respondeu, pensei se era este o motivo que me trouxeram de voltar para casa, para ser novamente uma isca.
Quase não conseguimos trabalhar, porque queria conhecer melhor aquela meia irmã, assim, Cassandra me contou que era filha de uma modelo que foi famosa há algum tempo atrás, Salvatore sempre tem um fraco por mulheres louras bonitas, ela tinha estudado na Suíça, sempre se sentindo meio estranha em relação aos outros, e eu a entendia por tinha o mesmo sentimento.
— Um dia, Hélio apareceu na minha porta, me convidando para conhecer nosso pai e você sabe como ele pode ser encantador. E aqui estou, trabalhando para ele – Cassandra concluiu sua história.
— E você já descobriu algo sobre o desaparecimento da estátua? – Tentei averiguar o que ela sabia.
— Eu vi a estagiária Helena, foi ela que comandou a operação toda, também, havia outros envolvidos, uma mulher que se vestia como faxineira e um rapaz, que não sabemos quem sejam, foram eles que tiraram os guardas de ação, depois saíram pelos fundos, um carro estava esperando. Foi tudo muito rápido, quando Hélio chegou, os seus guardas estavam caídos e a estátua havia desaparecido. – Enquanto, ela contava, recordei-me da faxineira, que eu não conhecia que entrou na sala que eu estava com Gabriel no dia da inauguração da exposição, deveria ter sido ela quem ajudou Helena, depois me lembrei
— E os guardas estão mortos?
— Não, mas estão muito fracos, pois energia deles foi toda retirada. Alguém como muito poder fez isso a eles.
Ao cair da tarde, ao voltar para casa, de metrô, notei que alguém me observava, olhei em volta procurando e meus olhos se encontraram com os de uma mulher, que me fitava com raiva, lembrei me que já a conhecia do dia em que toda aquela história começou, desconfiava que seria uma das nossas que havia perdido a razão e andava por aí, causando problemas para os mortais.
Não desviei me olhar, mas ela continuou me encarando com ódio, seus olhos se tornaram negros e fomos sacudidos por um forte freada do trem, que chegou a derrubar algumas pessoas, porém, felizmente, cheguei a minha estação e desembarquei rapidamente, sem olhar para trás, não queria criar nem problema naquele lugar. No momento, que sai da estação já estava escuro, as ruas muito vazias, incomum para aquele horário, segui o meu caminho, sentindo que alguém estava atrás de mim mais uma vez, não tentei olhar, apenas acelerei meu passo, porém pressenti que meu perseguidor estava cada vez mais perto, coloquei a mão na frente do meu corpo e pensei no meu arco e, em um piscar de olhos, tinha a corda do meu arco esticada e uma flecha encostada na garganta de alguém, que à primeira vista pareceu ser Gabriel, mas depois notei a diferença, pois embora ele tivesse os mesmos olhos escuros e profundos, seu rosto era mais fino e seus maxilares mais alto e seus cabelos mais claros.
— Calma, Diana!
— Quem é você? Por que me segue?
— Meu nome é Enki, sou irmão de Enlil, ou melhor, Gabriel. Estou a seguindo porque precisamos conversar. – Abaixei meu arco, mas continuei em guarda, com a corda retesada, visto que não confiava em nenhum deles.
— O que você quer comigo?
— Preciso da sua ajuda para encontrar Gabriel e meu pai – ele pediu com humildade.
— Mas, eu não sei onde eles estão. Não sei como poderei lhe ajudar. Não quero me envolver mais nesta história de vocês. – O que eu não falei para ele era que já estava magoada o bastante, só queria esquecer Gabriel, nunca mais vê-lo.
— Diana, você já está envolvida, não pode mais fugir. Por favor, ajude-me a encontrar minha família – rogou, assim afrouxei meu arco que desapareceu, Enki relaxou, já que eu parecia menos feroz. Lembrei-me do que sabia da mitologia mesopotâmia e notei que ele usava seu nome verdadeiro.
— Eu não posso e nem quero ajudar você. Por favor, me deixem em paz. – pedi, dando alguns passos para atrás, sem me virar, pois não queria ficar de costas para ele, quando me percebi em uma distância segura, me virei e continuei meu caminho, bem depressa, para casa.
Ele não me seguiu, ficou parado no mesmo lugar, me vendo partir. No entanto, só me senti segura, quando entrei em casa.
— Alguém chamado Hermes telefonou para você, disse que ligava mais tarde – minha mãe me deu o recado.
E agora, mais essa, pensei, indo para o quarto ver meu pai, que a cada dia definhava mais, sabia que o fim dele se aproximava.
O telefone tocou, ouvi minha mãe atender, logo depois apareceu no quarto onde eu estava.
— É para você. É o tal Hermes.
— Diga que eu não estou!
— Já falei que você estava. – Sabia que pelo tom da voz dela, não adiantaria discutir, por isso só me restava atender o telefone.
— Olá, Diana. Só gostaria de saber como você está. Você não parecia muito bem quando saiu do carro ontem – Hermes disse com gentileza, não deu para ser grosseira com ele.
— Você tem razão. Não estava nada bem ontem, também não estou hoje –alertei.
— Por isso, queria convidá-la para jantar. Você aceitaria? – Desconfie que havia o dedo de Jane nisso, também me lembrei das palavras dela sobre dá uma outra chance a mim mesma, pelo menos, poderia ser divertido, já que Hermes era engraçado e charmoso, então como em uma tábua de salvação me agarrei nessa oportunidade.
— Está bem! – aceitei, mas sem muita empolgação.
— Posso pegar você, digamos, às sete? – perguntou e eu concordei.
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