A Garota da Lua
35 A SERPENTE – A sabedoria escondida
— Há muito tempo, eu ouvi falar de uma mulher, que é como nós, mas que escolheu viver sozinha, em uma floresta, pois não quer ter contato com mais ninguém, porque ela possui o dom das respostas, de saber o que desconhecemos. Contam que todos a procuravam para perguntar algo, ela não tinha paz, por isso resolveu se isolar – Su respondeu, cheio de entusiasmo.
— E onde fica essa floresta?
— Não muito longe, chama se Aokigahara.
— Essa sua moto é encantada, não é? Nós viajamos muito mais rápido que o normal – indaguei, pois eu já havia reparado, que a distância era menor com ela.
— Sim, este é um acessório especial que eu coloquei nela, por isso não importa muito a distância, chegaremos lá, rapidamente. Entretanto, já está anoitecendo, poderemos passar a noite nos seus arredores, tem muitos hotéis na região e continuaremos pela manhã, porque até para nós, a noite pode ser perigosa.
Assim, ele escolheu um pequeno hotel, onde nos hospedamos para passar a noite, já que teríamos que esperar a manhã seguinte para entrarmos no parque. Desejava ligar para minha casa, dar notícia, contudo, Su não permitiu, ficou me vigiando à noite inteira para que não fugisse, com certeza, com medo que Gabriel viesse ao meu resgate. Também, não podia desaparecer, pois, havia uma energia muito esquisita naquele local.
— Aquele é o monte Fuji? – Na manhã seguinte, perguntei, ao reconhecer a famosa montanha com seu topo coberto de gelo que, na verdade, é um vulcão ainda ativo.
— Sim, Aokigahara fica aos pés dele — ele me explicou, o monte era realmente muito bonito, assim como toda aquela região.
Deixamos a moto em um estacionamento e caminhamos em direção ao parque.
— Tem muito turistas aqui para um lugar, que alguém quer ficar isolado – observei, já que Su havia me dito que a mulher que procurávamos queria viver afastada do mundo.
— Sim, aqui é um parque bastante conhecido pelas suas cavernas, porém logo mais adiante, ele é bem deserto – ele admitiu, avançando pela trilha principal, e realmente, depois que passamos a parte turística, ficou mais tranquilo e continuamos a andar.
— Ei, vocês! Para onde estão indo? – um guarda vindo atrás de nós questionou, correndo na nossa direção, quando começamos a nos afastar.
— Dar uma volta! – Su respondeu, casualmente.
— Vocês não sabem que aqui é perigoso? Vocês podem se perder. Não estão pensando em fazer nenhuma bobagem, não é? — o guarda insistiu, tenso, aí Su olhou para mim, e eu entendi, segurei o meu pingente e falei suavemente.
— Não se preocupe, sabemos o que estamos fazendo. – Com minhas palavras, ele pareceu se acalmar.
— Está bem! Mas, tome cuidado – O guarda recomendou, em seguida, se virou e foi embora.
Depois de um bom tempo andando, foi que eu percebi, espantada, que não estava ouvindo nada, não havia som nenhum, a não ser pelo barulho dos nossos passos sobre as folhas secas caídas no chão.
— Não há nenhum som aqui, nem insetos ou pássaros?
— Não há vida animal em Aokigahara, por isso, é tão silencioso.
— Estranho! – Aquilo me deixou um tanto aflita.
— Sim, a densidade da mata não deixa o vento entrar e o solo é vulcânico, quase pedra, não dá para escavar, por isso não há vida animal. Ela é conhecida como o Mar Sombrio das Árvores – Su explicou, de forma corriqueira como um professor, no entanto, aquilo me deu arrepios, mas bem menos do que eu vi, naquele momento, e dei um pequeno grito de susto:
— Oh! O que é aquilo? – indaguei, apontando para o quase esqueleto, que estava pendurado pelo pescoço em um galho baixo de uma árvore.
— Aquilo é um suicida, muitos mortais vêm para essa floresta dar um fim à vida – Su esclareceu sem dar muita atenção a cena, mas eu não tirei os olhos daquela visão macabra até não conseguir mais vê-la.
Continuávamos andando, tinha certeza que Su não sabia para onde ia, foi quando ouvimos um barulho que não eram nossos passos e, um pouco mais adiante, estava um homem de cerca de 50 anos, com óculos e entradas pronunciadas nos cabelos, vestindo camisa social e gravata, ao lado dele uma outra figura, que tinha a forma humana, mas seu rosto e lábios eram, excepcionalmente, branco, ressaltando seus olhos muito negros e cabelos longos e escuros, vestia um quimono preto, não dava para determinar seu sexo. A criatura murmurava palavras ao ouvido do homem, que parecia ignorar a presença dela, continuando a fazer seu ritual, ele tirou os óculos e colocando-os sobre uma pequena pilha de objetos, tirou do bolso um bilhete em um saco plástico transparente como se quisesse protege-lo e pregou no tronco da árvore, em seguida, pegou uma corda, já com um nó de enforcado e pôs em volta do pescoço, o próximo passo foi tentar passar a outra ponta da corda sobre um galho, mas ele falhou na primeira tentativa.
— Não! — gritei e corri até o homem, que me olhou assustado e a criatura me mirou com raiva, Su segurou meu braço.
— Não se meta nisso, Dama da Lua – Su advertiu.
— Não posso deixar que esse homem se mate! – disse, soltando meu braço com um puxão e correndo até eles.
— Você não pode fazer isso! – falei, aflita ao homem, que novamente lançava a corda sobre o galho, e dessa vez tinha conseguido e amarrou a outra ponta no tronco.
— Claro, que ele pode – A criatura ao meu lado respondeu para mim, eu conseguia entender o que ela falava, depois se voltou para o homem.
— O senhor Shiro perdeu todo o dinheiro da família, agora estão na miséria, seus filhos passarão fome, ele é um homem desonrado – a criatura disse para o homem e para mim.
O homem chorava e repetia as palavras da criatura, enquanto subia em uma pedra.
— Sou um homem desonrado. Meus filhos passarão fome – ele falava desolado, apesar de não entender sabia que ele repetia as palavras da criatura.
— Seus filhos precisam de um pai – Tentava convencê-lo desistir da ideia.
— Não, você é um homem desonrado, por isso, deve morrer, senhor Shiro — A criatura repetiu e homem pulou da pedra, ficando os pés suspensos no ar balançando, ele estava morrendo, no mesmo instante, minha espada apareceu na minha mão e cortei a corda, ele caiu no chão, sem entender o que estava acontecendo, a criatura não esperava por isso, aproveitando a surpresa dela, abaixei rápido, tirei a corda do pescoço dele e disse:
— Os deuses deram a você uma outra chance! Volte para casa, para sua família! Rápido! – Pedi, porém Su não parecia gostar muito da minha intromissão naquele assunto.
O homem parecia ter acordado de um pesadelo, se curvou rapidamente em agradecimento, pegou seus objetos no chão e saiu correndo pelo caminho por onde tínhamos vindo. A criatura assistia tudo sem reagir, pega de surpresa pela minha interferência, até ver sua vítima correr pela floresta, de volta a segurança, então ela se voltou para mim, seus olhos, agora, estavam vermelhos de ódio.
— Nãoooooooooooooo! – ela gritou no meu rosto, o susto me fez dar um passo para trás e eu tropecei em uma pedra e cair deitada de costa, as folhas amorteceram meu impacto, então a criatura se ajoelhou ao meu lado e chegou bem perto de mim, olhando dentro dos meus olhos.
— O que está fazendo aqui, Dama da Lua? Deixou seu filhinho sozinho em casa, talvez chorando abandonado, sua mãe pode estar doente precisando de ajuda e não há ninguém para ajudá-los. E o seu guerreiro. Onde está? Ele pode ter voltado para os braços da primeira mulher e a abandonado, talvez, queira tirar o seu filho de você. – Quando a criatura falava, podia ver todas aquelas cenas, aquilo me enchia de tristeza e desespero, me sentia uma péssima mãe e filha, sentia ciúmes de Gabriel com Eres, então como faço nessas ocasiões, procurei meu pingente de turquesa para me acalmar, segurei forte na minha mão, foi quando a criatura arregalou os olhos, levantou e saiu correndo para o interior da mata.
— Obrigada pela ajuda! – disse com ironia para Su, enquanto me levantava e limpava minha roupa com as mãos. Ele assistiu tudo e parecia ter se divertido com aquela cena.
— Sabia que você se sairia bem dessa! – Su respondeu com sarcasmo e só olhei para ele, de uma maneira fria. – Vamos! – Ele me convidou, se inclinado e apontado o caminho com a mão.
— O que foi aquilo? – perguntei, depois de um certo tempo.
— Os mortais os conhecem como demônios ou espíritos da floresta, mas, na verdade, são como nós que não conseguiram se adaptar ou que vivem do sofrimento. Esse que encontramos vive da morte, ele precisa da energia que escapa dos mortais, quando eles morrem – Su explicou mais uma vez, imaginei os como uma espécie de vampiro, se não fosse tão sinistra aquela viagem poderia ser até interessante.
Já andávamos por muito tempo, tinha certeza que Su não sabia como encontrar a tal mulher, não sabíamos se estávamos caminhando em círculo, pois tudo ali parecia igual.
— Estou cansada – reclamei, sentando me em uma pedra e tomando o último gole da garrafa que tínhamos trazido, era quase um hábito, pois sentia cada vez menos fome e sede. Su sentou-se ao meu lado.
— Ela deve estar por perto. Tem que estar! – Su declarou, tentando manter a esperança.
— O que vocês estão fazendo aqui? – Alguém gritou atrás de nós, levantamos em um pulo, mas minha espada não apareceu, pois pensei que poderia ser um guarda do parque. Contudo, quando nós viramos, não pode acreditar nos meus olhos, pois na nossa frente estava um samurai, com tudo que tinha direito, capacete, armadura e espada.
— Estamos procurando a Senhora que sabe as respostas – Su respondeu de forma altiva. – Você sabe onde ela está?
— Ela não quer encontrar ninguém – O samurai falou da mesma forma.
— No entanto, eu preciso encontrá-la – insistia Su, mas olhando em volta eu percebia quando vários outros surgiam da mata, vários soldados de diversas épocas desde outros samurais até soldados que lutaram na 2 º guerra armados com baionetas.
— Su! – Chamei a atenção dele – Olhe em volta! Estávamos cercados!
Nesse momento, na mão de Su, apareceu uma espada levemente curva, feita de um metal brilhante, de lâmina fina, com um cabo vermelho com um desenho de dragão dourado, eu a admirei:
— Muito bonita a sua espada! – Enquanto a minha também surgia na minha mão e eu ficava em guarda.
— Obrigado. Está na família há séculos – ele respondeu, dando um sorrisinho, mas nossa conversa foi interrompida, quando fomos atacados, primeiro pelo samurai, depois pelo os outros.
Nossos oponentes pareciam um tanto enferrujados, mas eram em maior número e estavam dando trabalho, tínhamos que ser muito ágeis para não sermos atingidos, pulávamos de um lado para outro, Su era muito bom, já tinha visto ele lutar antes. Eu também não estava mal, pois tive meus treinos com meu irmão e com Gabriel, que achava que tinha me manter em forma, por isso éramos mais fortes e velozes que os soldados, mas acabamos encurralados e quando estamos de costa um para outro, cercados.
— Você luta bem, Dama da Lua. Não esperava isso de uma mulher!
— Obrigada, se isso for um elogio, apesar de ser bastante sexista! – respondi sarcástica. — Não dá para arranjar um vendaval ou algo parecido?
— Como? Se o vento não entra aqui.
— Então, acho que estamos perdidos! Afinal, que são eles?
— Servos do Senhor da Guerra que se perderam e que, agora, servem à Senhora da Floresta.
Mas, no momento, que os homens fecharam o círculo sobre nós, Su ergueu a espada no alto da cabeça e um raio de sol bateu nela, causando um reflexo estranho que iluminou todo o lugar que estávamos, parecia mágica.
— Kusanagi! A espada sagrada! – gritou o mais próximo atacante e caiu de joelhos aos pés de Su, em reverência, e para meu total espanto, os outros fizeram o mesmo
Foi quando, do meio das árvores, surgiu uma bela mulher vestida com um quimono branco leve de verão enfeitado com flores prateadas, os cabelos soltos e negros na altura do quadril, a pele muito pálida e os traços delicados, ela parecia que flutuava na nossa direção.
— Quem é você, portador da Kusanagi?
— Sou o príncipe Suzanoo, Senhor da tempestade! – Com estas palavras os homens se inclinaram mais ainda e caíram de cara no chão, em sinal de respeito, e a mulher fez uma profunda reverência.
— Impressionante! Você poderia ter feito isso antes! – observei, irônica
— E perder toda a diversão! – ele me respondeu, brincalhão, e eu só respirei fundo, revirando os olhos.
— O que quer de mim, Príncipe Suzanoo? – A mulher perguntou, agora bem próxima de nós.
— Respostas, senhora.
— Então, faça a pergunta, você mereceu por chegar até aqui. Entretanto, você sabe só terá direito a apenas uma pergunta, por isso escolha com sabedoria.
— Como poderei chegar até Kushi? – Su perguntou, a mulher o olhou surpresa.
— Você já sabe a resposta desta pergunta – ela replicou, Su parecia perdido, mas prosseguiu. — Você poderá fazer outra pergunta, príncipe Suzanoo.
— Como poderei encontrá-la?
— É isso mesmo que você quer, príncipe?
— Sim.
— Procure nas antigas terras do seu irmão de fogo – ela respondeu e Su se curvou em agradecimento, já íamos saindo, quando a mulher se dirigiu a mim.
— E você, não quer fazer nenhuma pergunta? – Comecei a pensar em milhares delas, mas não tinha certeza de querer saber a resposta.
— Não, obrigada – respondi, fiz uma pequena reverência e saímos da floresta.
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