A Garota da Lua
36 O DRAGÃO – o fogo sob a água.
Depois de mais uma longa viagem na moto de Su, já era fim do dia, quando chegamos a uma cidade portuária.
— É aqui a antiga casa do seu irmão? — perguntei, intrigada.
— Não, mas será daqui que partiremos. Temos que ir pela manhã, pois será mais fácil. E precisaremos de um barco — Su me responde de modo casual.
— Um barco? Por quê?
— Porque iremos para uma ilha – respondeu-me.
Eu nunca imaginaria a casa do Senhor do Fogo em uma ilha.
— É um vulcão? – Aquela ideia me preocupou, mas Su me deu um sorriso confiante.
— Não é um vulcão. Você não tem ideia do que seja. Mas, antes precisamos de um barco para nos levar até lá, já que não podemos simples aparecer, ainda há muita energia poderosa acumulada naquele lugar, temos que saber por onde ir.
Eu estava aflita, já se passaram três noites que eu permanecia fora de casa, todos deveriam estar preocupados, minha mãe deveria estar aterrorizada, mesmo que, antes, eu tivesse tentado prepara-la para situações parecidas, ela nunca se acostumou com a ideia.
— Posso telefonar para minha casa, Su? Estou preocupada com minha mãe e meu filho — peço com humildade, querendo comovê-lo.
— Lamento, Diana, mas não precisamos de ninguém do Ocidente e nem o Senhor dos Ventos por aqui – argumentou em um tom muito sério e firme, estava certa que não mudaria de ideia.
— Mas, pelo menos, queria que soubessem que eu estou bem – considerei, demonstrando minha preocupação, já arrependida de ter feito aquela promessa idiota para ele. Contudo, ele havia ameaçado destruir a cidade em que morávamos e colocar a culpa em Gabriel. Não podia duvidar dele, pois tinha certeza que aquele cara era doido.
— Eles saberão em breve. Agora, temos que achar um pescador que concorde nos levar até a ilha.
Isso foi fácil, havia vários que por um bom preço nos levariam até lá, tinha até um grande barco que levavam turistas, mas dificilmente poderíamos nos afastar do grupo. Combinamos com um pescador, sairíamos bem cedo, sendo assim, passaríamos à noite na cidade, pelo menos, consegui comprar roupas novas e limpas para trocar e descansar um pouco em um dos hotéis perto do porto.
No dia seguinte, seguimos no barco dos pescadores em direção a ilha, depois de 10 minutos no mar, já podíamos avistá-la.
— Parece um navio – observei, surpresa, ao ver a pequena ilha, cercada por um paredão de concreto e com imensos prédios no centro.
— O nome dela é Gunkanjima, que quer dizer navio de guerra. Aqui, funcionava uma mina de carvão submarina, começou a ser explorada no século XIX, teve seu ápice na primeira metade do século XX, mas foi abandonada nos anos 70, agora está vazia, é apenas uma cidade fantasma – Su me explicou, enquanto nos aproximávamos dela, podia ver melhor seus prédios, que mostravam sinais evidentes de abandono
— Preciso falar com o barqueiro para encontrar o melhor lugar para descermos na ilha – Su me falou e se dirigiu ao homem, mesmo de longe, sem ouvir o que conversavam, deu para notar que estavam em uma intensa discussão, dava para entender que o dono do barco estava irredutível, não querendo atracar lá, porque não era permitido, além de ser perigoso, por causa das ondas. Era um impasse, então, eu me aproximei coloquei a mão no meu pingente e falei no ouvido de Su:
— Ofereça mais dinheiro.
Foi o que Su deve ter feito, o homem parecia mais calmo, então contornou a ilha a procura de um lugar para atracar, passamos pelo grande barco de turismo que levava um grupo para o passeio, que até a pouco tempo, era proibido, porém agora havia sido aberto um pequeno e seguro caminho em uma parte da ilha para visitação, mas não queríamos isso, precisaríamos ir mais além.
Porém, no momento que passamos pelo barco de turista, Su parou e olhou fixamente para um ponto parecendo surpreso.
— O que foi? – Perguntei ao ver sua expressão.
— Nada! Pensei ter visto algo.
O barqueiro conseguiu se aproximar de um atracadouro em ruínas, estava sendo muito difícil para o barco chegar mais próximo devido as altas ondas e o desnível muito grande do cais, O homem estava preste a desistir, quando percebi Su murmurando algumas palavras inaudível, olhando fixamente para as águas e, logo depois, as ondas pararam e o mar ficou liso como um lago. O barqueiro disse alguma coisa que não entendi e todos riram.
— O que foi que ele falou?
— Ele disse que os deuses devem estar a nosso favor. – Su traduziu para mim, aquilo também me fez rir.
Mesmo sem as ondas balançando o barco, foi bem difícil sair dele e chegar a ilha, mas finalmente conseguimos escalar, o cais de concreto aos pedaços, assim como o muro cercava o lugar.
— Tome cuidado, Diana. Está tudo em ruínas, um passo em falso pode ser uma queda e tanto – Su me preveniu, ele tinha razão, pois, logo de cara, tivemos que passar por uma grande rachadura no muro, depois seguimos pelo lugar destroçado, os prédios ainda de pé, sem janelas, com partes das suas paredes caídas, pareciam que poderiam desabar a qualquer momento sobre nós, havia muito entulho no chão, objetos do dia a dia esquecidos e danificados, cada passo devia ser muito cuidadoso. Ouvi um barulho distante e me assustei, meu arco apareceu na minha mão pronta para ser usado, porém, de trás de uma porta surgiu um gato malhado, então eu relaxei.
— Precisamos chegar até o caminho da mina.
— Mas não temos que achar a antiga casa do seu irmão?
— A mina é antiga casa do meu irmão. Ele precisa de energia, antes era o carvão, por isso se tornou sócio de várias minas pelo mundo, depois, petróleo e, agora, energia nuclear. Ele é sócio do seu pai – ele me informou.
— Por que será que não fico surpresa com isso? – disse, pois sabia que meu pai havia se infiltrado por todos tipo de negócios, era assim que exercia seu domínio. Enquanto conversávamos, Su passou por uma pequena ponte de madeira, que estava podre, então ela deu um grande estalo e ele foi tragado por um buraco que se abriu no seu piso, dei um grito de pavor e tentei me aproximar, lentamente, da abertura, para ver onde ele havia caído, quando ele apareceu flutuando ao lado da ponte, me olhando sem entender a minha cara de espanto.
— O que foi? .
— Foi que você caiu no buraco...
— Sim, eu sei. E por que você é tão aflita?
— É que fui criada como mortal, ainda não me acostumei com essa coisa toda – expliquei, continuamos a explorar até que Su parou e apontou para as piores ruínas daquele lugar.
— A entrada da mina deve ser ali, está vendo o local da esteira para retirada do carvão.
— Ela deve estar fechada!
— Isso não é problema
Realmente, a entrada estava fechada, mas ele simplesmente encostou a não nela e o obstáculo desapareceu e me explicando, quando viu minha cara de surpresa:
— Encantamento, só está fechada para os mortais, não para nós.
— Então, pode haver alguém aí dentro?
— Sim, pode há alguns seres que precisam dessa energia para sobreviver, muitas vezes eles moram em lugares como esses. Então, vamos ser cautelosos. – Ele não precisava dizer aquilo, depois, Su me entregou um bastão.
— É uma lanterna, basta esfregar e ela acende.
Assim começamos nossa jornada no interior do túnel da antiga mina, ele não parecia muito seguro, depois de década de abandono.
— Por que você foi criado como uma mortal? – Su me indagou, após um certo tempo dentro da mina.
— Fui punida pelo meu pai por causa de Gabriel, mas minha mãe me resgatou e me entregou a mortais para ser criada – resumi a história.
— Então, temos histórias parecidas, Diana – falou com certa nostalgia.
— Naquela época, a psicologia ainda não tinha sido inventada, por isso não temos traumas. – Eu tentei amenizar o clima e nós dois começamos a rir.
. O som das nossas risadas ecoou pelo túnel, então escutei algo diferente, meu ouvido de caçadora estava afiado naquele momento, pedir para Su esperar usando a mão, paramos atentos e aguardamos. E de novo, escutei o ruído, era como um leve zunido no ar, tal qual uma pequena abelha, larguei a lanterna e meu arco apareceu, assim como a espada de Su, ficamos em guarda esperando, foi quanto ele apareceu, o que primeiro nos pareceu uma sombra.
— O que querem? – Uma voz cavernosa perguntou.
— Ir a Yomi! – Su respondeu, de um modo arrogante.
— Vocês não podem ir até lá! – o dono da voz não se intimidou e rebateu autoritário. – Não é o lugar de vocês!
— Eu preciso ir, preciso achar Kushi! – Su insisti aos berros.
— Você não pode ir até lá! – A voz repetiu, mas Su deu um passo para frente e de repente, a sombra pegou fogo, como uma fogueira vermelha.
— Não posso deixá-lo passar, senhor. Eu sou o guardião do caminho — o ser avisou.
Su que tinha recuado um passo, no momento da transformação, avançou violentamente, sobre o homem de fogo, atingindo o com a sua espada, mas, em vez de se ferir, ele se multiplicou em dois, então, eu mirei no novo ser de fogo e o acertei com uma flecha, porém, novamente, ele se dividiu em dois. E assim se repetia, a cada golpe de espada ou flechada, eles se multiplicavam, mas não revidava os ataques, o túnel já estava cheio deles e nos empurravam para trás em direção a saída, o calor era intenso, o suor embaçava minha visão.
— Chega, Su! Não podemos vencê-los.
— Não! — ele gritou desesperado, investindo de novo, inutilmente, só criando mais um ser.
— Ouça a Dama da Lua, Senhor Su! – as criaturas de fogo falaram juntas, produzindo um estranho eco que preencheu todo o lugar.
— Você me conhece?
— Sim – elas responderam em uníssono – Você esteve aqui, mas sua mãe a levou de volta, pois não era seu lugar – responderam em uníssono, aquilo me preocupou.
— Que lugar é este Yomi? – perguntei aflita a Su e ele vacilou.
— Conte a ela, Senhor – as criaturas de fogo falaram juntas, mais uma vez.
— Yomi é a terra sombria dos mortos – ele respondeu, em voz baixa.
— O quê?! Como assim?
— Kushi era uma mortal, quando fui punido tive que ir para Yomi como você. Fiquei lá por muito tempo, então, um dia, Kushi chegou lá, ficamos juntos. Mas, minha punição terminou e tive que voltar, prometendo que iria trazê-la de volta, também – ele explicou, meio encabulado, como uma criança pega em uma mentira.
— Então, ela era uma mortal e está morta! Você sabe que não temos o direito de se envolver nisso! – Estava muito zangada, por ser enredada naquele caso, sem saber toda a verdade.
— Desculpe-me, Diana, mas precisava encontrá-la. Eu prometi.
— Mas você não pode, Su – falei mais calma, colocando a mão no meu pingente. – Não temos poder sobre o fim da vida dos mortais, não sabemos que aconteceria se nos envolvêssemos nesse assunto. Deixe-a em paz. — Em seguida, eu me voltei para as criaturas de fogo. – Desculpe-nos o incomodo, não devíamos estar aqui e estamos indo. – Virei de costa mesmo com receio, puxando Su pelo braço.
— Senhora! – Era só uma voz que chamava agora e quando eu olhei para trás não havia sombra nem fogo, lá estava um guerreiro imponente, usando uma armadura dourada com enfeites vermelhos.
— O Príncipe Su é muito impulsivo, pois esta é a natureza dele. – O guerreiro parecia calmo e sábio. — Talvez, se procurassem onde tudo começou, ele encontre um pouco de paz. – Assim dizendo, ele desapareceu.
Na hora que saímos do túnel, o entardecer pintava de laranja o horizonte, começava a esfriar, não falamos nada até chegarmos ao barco, onde a pequena tripulação nos esperava com ar preocupado, notei que respiraram aliviados, quando nos viram regressar. Voltamos para o porto.
— O que ele quis dizer com onde tudo começou? — perguntei sobre as palavras do guerreiro de fogo.
— Não sei, exatamente, mas pensei muito sobre isso durante todo o caminho de volta, talvez, no lugar que em conheci Kushi
— E onde foi isso?
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