A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
6 UMA CONVERSA DIFÍCIL - Capítulo 6
Notas iniciais
POV VALERIE
Realmente, esconder alguma coisa de Roxane não é algo fácil. Tive que fazer um esforço enorme para me concentrar em cada palavra que dizia a ela para que elas demonstrassem verdade.
Disse a ela que iria viajar sim, e que seria para auxiliar Madelaine, porém, eu tive que inventar algo para que ela entendesse minha súbita motivação, pois, desde que Peter “havia sumido”, eu não demonstrava nenhuma empolgação para nada.
Então, eu disse a ela que alguns primos de Made iriam me ajudar a respeito de buscar notícias de Peter. Isto foi o bastante para acalmar a curiosidade de Rox. Então, conversamos mais um pouco, e quando o cansaço começou a nos vencer, dormimos uma do ladinho da outra como costumávamos fazer quando éramos pequenas, só que naquela época dormíamos a três, eu ela e Lucy.
***
De repente alguém batia à porta desesperadamente, e antes que as meninas e mamãe acordassem também, fui ver quem era. Assustei-me com o rosto que vi. Era Cedrico, e seus olhos estavam muito assustados.
— Valerie, por favor, preciso urgentemente de ajuda. – Saí para que pudéssemos falar sem que as meninas acordassem, ainda era de madrugada, creio que umas quatro horas da manhã e tudo ainda estava escuro.
— O que houve Cedrico? O que faz aqui a esta hora?
— Valerie, não sei o que está acontecendo, esta noite estava responsável em ajudar Henry com a ronda, e no meio da noite, logo após meia noite, um lobo apareceu.
— Ai meu Deus! – Foi a única coisa que consegui dizer, pois, a esta altura estava preocupada com Peter, e também com Henry, mas o que será que Peter estava fazendo aqui em plena lua cheia? Como eu fiquei estática em choque, Cedrico começou a me balançar, para que eu me acalmasse para ouvi-lo.
— Valerie me ouça, o lobo não atacou Henry, muito pelo contrário. Parece que ele estava ali para tentar falar, sei lá avisar algo a Henry. Mas bem na hora em que ele iria fazê-lo, eu corri para cá desesperado em busca de ajuda, então quando saí de lá, alguns guerreiros estavam chegando e não eram os guerreiros aqui da Vila, acho que eram de outro Vilarejo, próximo, que resolveram prolongar a ronda. Então, eu vim em busca de você, pois, eu senti que você deveria saber.
— Está bem, Cedrico, obrigado! Mas, agora, por favor, vai embora para casa. Não volte lá, por que esta é uma batalha em que se deve estar preparado e acho que pela sua reação você ainda não está pronto. Você me ouviu?
— Ouvi, sim, Valerie e compreendi. Mas, e o Henry?
— Henry é um Guerreiro preparado e está em companhia de outros guerreiros que estão fazendo ronda por aí também, não se preocupe dará tudo certo. Tudo bem?
— Sim, mas e você, o que fará?
— Infelizmente no momento nada, pois, se eu sair e notarem minha ausência, a mamãe e as meninas irão atrás de mim, e eu não posso expô-las ao perigo desta forma, em plena Lua cheia.
— Você está certa, então, assim que o sol despontar, eu te busco para irmos atrás de Henry, Ok?
— Sim, para mim está ótimo desta forma. Vá Cedrico!
Assim, que ele se foi, eu pude demonstrar o pânico em que me encontrava, cedendo meus joelhos ao chão e levando as mãos ao rosto, para conter meu pavor. Meu Deus! O meu sonho.... Henry e Peter...
Então, eu não consegui me conter e quando me dei conta, já estava à beira dos portões da Vila, correndo em direção a floresta. Eu não precisava de muita iluminação para percorrer o caminho com destreza, pois, minha mente e minhas pernas já estão totalmente familiarizados com ele.
Não demorou muito, para que eu começasse a ouvir ao longe, sons que evidenciavam uma batalha sem fim. Rosnados pavorosos e tintilares de espadas batendo em algum alvo incerto.
Foi quando aconteceu, no instante em que a batalha ao longe, ganhou meu campo de visão, o Lobo, que realmente era Peter, sentiu meu cheiro. E naquele momento, todo o cenário mudou, pois, não só ele, mas Henry também, não estavam lutando apenas por suas vidas. Agora eles possuíam um objetivo a mais para se preocuparem, me resguardar.
Aquilo doeu fundo em minha alma. E ao contrário do sonho, eu comecei a ficar sem ar, pela dor profunda que saía de meu coração, e irradiava por todo meu peito.
Eu comecei a tentar gritar, mas minha voz estava embargada pelo choro que saía copiosamente, enquanto mãos me apalpavam me acalentavam.
Foi quando percebi que estava em mais um sonho, na verdade, mais um pesadelo hediondo.
— Valerie, Valerie. — Diziam a mamãe e as meninas, elas estavam amontoadas ao meu redor tentando me despertar do sonho, mas parecia que eu não voltava tão fácil. Até que eu consegui romper a nevoa que me separava da realidade...
— Eu estou bem, já passou.
— Minha filha, eu nunca havia visto você ter um pesadelo assim. Em que você ao mesmo tempo gritava, se debatia, e chorava uma terrível dor. Minha filha o que tanto te preocupa? Eu sei que tem algo haver com Peter, por que você dizia o nome dele algumas vezes, mas houve uma hora que você disse o nome de Henry, e até mesmo o de Cedrico, o que está havendo? – Quando mamãe disse isto, as meninas se entreolharam, principalmente Prudence e Rox.
— Calma, pessoal, não há de ser nada. Foi só um sonho muito ruim que parecia ser real, quem nunca passou por isto? – Levantei-me irritada e ao mesmo tempo preocupadíssima, pelo fato de, já ser o segundo sonho, e a intensidade deste foi terrível, e o pior, e ele trazia mais detalhes, que se encaixavam perfeitamente com o primeiro.
E eu já sabia o que fazer.
Assim que amanhecesse eu iria procurar por Henry, sentia que ele tinha as respostas que eu queria, e eu precisava saber. Quando pensei isto, fiquei perplexa, pois, ao procurar pelas horas, me dei conta que o horário condizia com o do sonho, o que o tornava ainda mais real.
— Meu Deus! Definitivamente é um aviso. – Foi o que eu sussurrei sem pensar nas consequências. Por que, ao dizer isto, todas me olharam com olhos arregalados. Não por saberem do que realmente se tratava. Embora eu estivesse falando durante o sonho, deu para perceber em seus olhares que as palavras não tinham nexo. No entanto, de uma coisa elas podiam ter certeza tanto quanto eu, algo terrível estava para acontecer, e pelo que podia eu sentir e perceber, estava próximo, muito próximo.
Mamãe percebendo minha aflição e temendo que as meninas me sufocassem de perguntas, nos mandou deitar, e me levou desta vez, para dormir com ela. Ao chegar em seu quarto, me pediu para que eu tentasse descansar e disse que pela manhã conversaríamos sobre o que fosse necessário, o que para mim foi muito bom.
Ao acordar, percebi que o sol já estava alto no céu, o que me fez pensar que havia dormido além do normal. Acho que o esgotamento da madrugada me fez isto. Ao pensar sobre o que aconteceu pela madrugada, lembrei-me que teria de conversar com Henry nesta manhã. E o melhor lugar para isto seria na ferraria, pois, lá geralmente ele está só, trabalhando com suas ferramentas. Sendo assim, eu me apressei em levantar-me, verificando se eu estava só em casa. E eu estava.
Pelo horário, as meninas já deveriam ter ido para os seus afazeres, e mamãe, que também estava fora, não devia ter ido longe. Corri, tomei um banho vesti-me com um lindo vestido azul, coloquei minha capa vermelha, tomei rapidamente um café, e quando estava saindo, vi sobre a mesa um bilhete:
Valerie,
“As meninas precisaram ir para retomarem suas vidas, mas, à noite estarão de volta para mais uma “noite do pijama”. Fui à vila mais próxima fazer compras para abastecer a dispensa, volto antes do anoitecer, não se preocupe. Te Amo!”
Mamãe.
Este tempo que ela ficaria fora, era tudo que eu precisava para falar com calma com Henry. Então, sem mais perda de tempo, segui em direção a ferraria.
Quando eu estava já bem próximo, já conseguia ouvir os tintilares dos metais sendo trabalhados.
Ao chegar à porta, respirei fundo para buscar coragem para o que tinha para conversar com Henry, e antes que me arrependesse, entrei.
Henry não pareceu surpreso com minha chegada, o que me fez deduzir que minha mãe já havia estado por ali naquela manhã.
— Bom dia Henry, como você está?
— Bom dia Valerie. E, a pergunta é, como VOCÊ, está?
Como eu já esperava minha mãe já havia estado ali, o olhar de Henry era insondável, mas, ainda assim, transmitia a mais pura preocupação.
— Estou bem. – Eu disse sem conseguir olhar em seus olhos.
— Minta melhor para mim. – Henry disse com uma pontada de sarcasmo e ironia. – Por mais que você tente, vou lhe adiantando que é impossível, te conheço melhor do que você imagina.
Apesar de não gostar daquele tom em que falava comigo, não conseguia ficar irritada com Henry. Pois, mesmo tendo todas as circunstâncias contra uma proximidade nossa, não consegui evitar ser solidária a ele, nem muito menos, deixar de admirá-lo. Henry era realmente um homem muito nobre, não só por suas riquezas materiais, mais pela sua nobreza de espírito e alma. Isso é uma das marcas de sua incomum personalidade.
— Bom, se vim até aqui, é por que tenho muitas coisas a lhe dizer, e também gostaria de ouvir algumas de você. Primeiramente quero te pedir perdão, por ser tão distante de você às vezes, mas quero que saiba que não é sem esforço, pois gosto muito de você, e também lhe admiro muito.
Ele ouvia atentamente, olhando em meus olhos, em profunda concentração em cada palavra ou gesto meu.
— Porém, eu o faço, com a intenção de não fazê-lo sofrer ainda mais, pois sei o que sente por mim. E já me incomoda bastante vê-lo sofrer, sem poder fazer nada. Pois, é a mais pura verdade Henry, não posso fazer nada a este respeito, meu coração...
— Pare, por favor... — Ele me interrompeu.
— Por favor, digo eu, me ouça Henry. Eu quero dizer a você tudo o que se passa em meu coração para que não interprete minhas atitudes levianamente. Por favor, me ouça, e eu prometo que depois também irei ouvi-lo, por favor, eu insisto.
Seu olhar era duro.
— Para que Valerie? Como se isto fosse mudar algo.
Quando ele disse isto, hesitei. Vi que não foi uma boa ideia ter ido ali, por mais que eu não quisesse era impossível não magoar Henry.
— Me desculpe, acho que não foi uma boa ideia ter vindo, por favor, me perdoe, mais uma vez. – Ao ouvir minhas palavras, Henry abaixou sua cabeça entristecido, e quando a levantou pude ver realmente em seus olhos, a extensão dos sentimentos que abrigava em seu coração: tristeza, dor e agonia profunda, amor, e, muita compaixão. Henry estava arrasado.
Sua dor de certa forma me atingiu em cheio, mais do que eu poderia imaginar. E o que mais senti, foi vontade de abraça-lo, confortá-lo, por que, realmente ele não merecia sofrer daquela forma. E no impulso, foi o que fiz, sem pensar nas consequências.
— Henry, por favor, eu te peço, me perdoe, eu jamais quis fazê-lo sofrer desta forma, sou eternamente grata ao que já fez e ao que tem feito por mim, escondendo toda esta dor para você. – Neste momento, ele me afastou um pouco para poder olhar em meus olhos que estavam repletos de lágrimas.
— Me perdoe você Valerie, não chore, minha querida. Eu sempre soube dos riscos que correria em amar você, e sei que não tem culpa disto, assim como eu não tenho de amá-la tanto. A única coisa que às vezes me conforta é saber que em tudo há um propósito, e é nisto que espero, que tudo isto, algum dia nos conduza a algum lugar ou situação que hoje, não podemos prever.
Sua sinceridade era esmagadora.
— Sim, é disto que estou tentando falar, eu não escolhi amar Peter, Henry. Eu simplesmente o amo, desde criança, onde ainda eu nem sabia direito o que era amor de verdade. Perdoe-me por não poder mudar isto. Não gosto que sofra e é por isto que às vezes mantenho distância.
É claro que aqui eu menti só um pouco, pois, esta era uma afirmação verdadeira, mas havia mais, na verdade eu tinha muito medo também do ciúme e superproteção de Peter. E ele estando próximo, no fundo, ele não iria gostar de perceber algum tipo de relacionamento com Henry, até mesmo amizade.
— Mas, Henry me surpreendeu quando ouviu isto, me dizendo:
— Mas, ainda assim, com todos os riscos e sofrimentos, eu ainda prefiro você perto. É tanto que confesso, que, nunca perco você de vista. – Um sorriso brincou em seus lábios quebrando o clima denso.
— Como assim, o que quer dizer?
— Nada, falei demais. – Ele disse, já em clima de total descontração embora seus olhos ainda fossem sérios. – Quero só dizer que me preocupo com você está bem? Não grile sua cabeça.
— Tudo bem, então. – Eu disse ainda não muito convencida. Falar sobre Peter me voltou ao foco do que vim fazer aqui.
— Era só isto que tinha a me dizer? – Ele me perguntou um pouco desconfiado.
— Não, na verdade, isto é só uma parte.
— Diga então, prometo que irei ouvir.
— Bom, é que tenho tido alguns... Sonhos... estranhos. Na verdade, pesadelos.
Eu dizia cada palavra experimentando cada uma das reações de Henry, suas oscilações de humor, seu estado de espírito, tudo com muita cautela, para então, eu prosseguir. Eu vi poucas alterações ali, embora elas, às vezes, quisessem aparecer. Entretanto, eram silenciadas por uma máscara de serenidade.
— Que sonhos são estes? E por que sonhos te preocupam? São só sonhos, e não realidade.
— Este é o problema. Estes são diferentes, são como um aviso, pois, vão e vem um se completando com outro. Como se fossem a solução de um enigma.
— Sim, e por que me procurou a respeito disto?
— Bom, aqui vem à parte mais difícil de falar. Por favor, promete que vai me ouvir antes de brigar ou mesmo me mandar sair daqui.
— E por que raios eu faria isto Valerie?
— Logo você saberá. Então me prometa!
— Está bem, eu prometo.
— De verdade?
— Sim, de verdade. Não entendo por que tanta insistência, mas tudo bem.
— É que os sonhos envolvem você e o Peter. – Ao dizer isto Henry hesitou, afastou seus olhos do meu e também se afastou de mim. – Henry, você prometeu.
— É eu sei, mas é que não pude evitar. – Então ele se virou e percebi que ele estava fazendo um esforço enorme para não desviar o olhar. Definitivamente ele estava me escondendo algo. Podia ver em seus olhos, sentir em sua respiração e pelos leves tremores de seu corpo que aquela conversa não seria nem um pouco fácil ou confortável para ele. Mas, a pergunta era por quê?
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