A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
8 ENFIM, MEUS TEMORES SE TORNAM REAIS - Capítulo 8
Notas iniciais
POV VALERIE
Meu desespero ficou estampado em meus olhos. Porém, naquele momento eu precisava, buscar no fundo do meu íntimo, todas as forças que eu pudesse reunir, para fazer as coisas com precisão, para que eu não colocasse ninguém em perigo.
— Valerie? – Chama Cedrico, depois de meio minuto mais ou menos, percebendo meu estado de alerta, talvez.
— Sim, oi, me desculpe Cedrico. O que está acontecendo? É o Henry não é, e o lobo também?
Ele deu um salto para trás, como se estivesse alarmado com alguma coisa, e neste exato momento percebi que teria de tomar cuidado com o que dizia, pois, nem todas as pessoas entenderiam se eu dissesse que já sabia do que estava acontecendo. Isto poderia novamente levantar desconfianças sobre minha pessoa no vilarejo, sobre eu ser uma bruxa.
E pensando assim, fui logo explicando a Cedrico de forma bem simples, que eu tinha tido alguns sonhos ruins a respeito de Henry e o lobo, e que ele não se preocupasse. Ele foi ficando menos alarmado, pois, me conhecia e sabia que realmente era preocupada com as pessoas que eu amava. E o diálogo que se seguiu foi uma cópia do sonho.
— Valerie, por favor, preciso urgentemente de ajuda.
— O que houve Cedrico? O que faz aqui a esta hora?
— Valerie, não sei o que está acontecendo, esta noite estava responsável em ajudar Henry com a ronda, e no meio da noite, logo após meia noite, um lobo apareceu.
Ao invés de responder como no sonho, só continuei ouvindo, pois, sabia que se eu abrisse a boca, não conseguiria esconder a histeria que estava se formando em meu peito e subindo em ondas para minha garganta, deixando-a embargada com um nó. A sensação de ouvir aquelas palavras, agregada as lembranças que vinham do sonho, transformava as emoções quase que insuportáveis, mas eu precisava manter a máscara de tranquilidade, para que Cedrico não começasse a duvidar de minha sanidade.
— Valerie me ouça, o lobo não atacou Henry, muito pelo contrário, parece que ele estava ali para tentar falar, sei lá avisar algo a Henry, mas bem na hora em que ele iria fazê-lo, eu corri para cá desesperado em busca de ajuda, então quando saí de lá, alguns guerreiros estavam chegando e não eram os guerreiros aqui da vila, acho que eram de outro Vilarejo próximo, que resolveram prolongar a ronda. Então, eu vim em busca de você, pois senti que deveria saber.
Cada palavra era seguida de um eco em minha mente. E tive que reunir todos os meus esforços para parecer calma, estável.
— Está bem, Cedrico, obrigado, mas agora, por favor, vai embora para casa, não volte lá, pois esta é uma batalha que se deve estar preparado e acho que pela sua reação você ainda não está pronto, você me ouviu?
— Ouvi, sim, Valerie e compreendi. Mas, e o Henry?
— Henry é um guerreiro preparado e está em companhia de outros guerreiros que estão fazendo ronda por aí também, não se preocupe dará tudo certo. Tudo bem?
— Sim, mas e você, o que fará?
Ao contrário, do sonho, ocorreu-me que se eu saísse em disparada e deixasse as meninas e a mamãe aqui, caso elas acordassem, elas certamente estariam em risco, indo até mim na floresta.
Assim, revoguei o que havia pedido a Cedrico, ir para casa, e o solicitei para que dormisse aqui em casa, cedendo a ele minha cama e quando acordassem, caso eu não estivessem aqui, inventasse que Henry havia me chamado para conversar enquanto estava na guarda, e que era algo urgente que não poderia esperar.
Tinha certeza que não colaria totalmente, mesmo por que elas viram o meu pesadelo, mas Cedrico estaria ali, e sei que iria se virar para mantê-las seguras.
Terminado, saí em disparada, meu coração quase saia pela boca, pelo medo, ansiedade e o esforço da corrida.
Toda a preparação desde a hora que Cedrico bateu a porta, não durou mais que 5 minutos, mas ainda assim, eu me sentia em atraso, e quando passei pelos portões da vila, e meus pés alcançaram a floresta, alguns metros adentro, já podia ouvir os ruídos, de uma batalha sangrenta, rosnados, berros, tintilares de espada, respirações pesadas, isto fez-me correr ainda mais, não que eu soubesse como estava conseguindo, acho que o desespero, me fazia mais poderosa, mais forte.
Mas, nenhum aviso, nenhum sonho, me preparou para o que eu realmente iria sentir quando avistasse aquela cena, é como se as emoções fossem multiplicadas infinitamente dentro de mim, expandindo cada intensidade, me fazendo sufocar, o que me fez cair de joelhos, prostrada, com lágrimas sendo derramadas em torrentes, e antes mesmo que eu conseguisse gritar para dar sinal de minha chegada, assim como no sonho, pude ver com clareza, quando sentiram minha presença.
Primeiro o Peter-lobo, devido ao seu olfato intensificado pela transformação, depois Henry, com certeza, pelo instinto de proteção. E nesta hora, a sensação de dejavú, voltou com a força de um terremoto.
Neste exato momento de distração, Peter, foi atingido, e Henry golpeou três sodados pela espada e Peter antes do golpe, outros, e o único que restou já corria em retirada, mas Henry, naquele momento, foi ainda mais rápido que no sonho, laçou-o com um chicote, e golpeou-o fatalmente no peito.
Assim como no sonho, Henry voltou correndo para ver Peter-lobo, mas como eu já previa o que ia acontecer, eu já estava ao lado do corpo nu de Peter ao chão.
Ele estava dilacerado na altura do abdômen, eu ia dizendo palavras de conforto, tranquilizando-o, mas com uma dor enorme no peito, sem condições de se medir ou precisar.
Henry aproximou-se, e, rapidamente tomou a frente dos cuidados de Peter, por que eu estava imprestável. A única coisa que me tirou do torpor foi quando Henry retirou a espada de prata.... Não!... Não pode ser, que, todos os avisos eram reais.
Eu consegui sair do estado de choque, gritando para que Peter não me deixasse, não me abandonasse, mas, a pura dor de seus olhos, me fez perceber que o inaceitável iria acontecer, eu iria perder Peter.
E assim como no sonho, a despeito da dor física, dor na alma, sua expressão era realmente serena, me olhava com ternura e carinho e com a pouca força que tinha para dizer:
— Valerie, eu te amo, sempre te amei, você é e sempre foi à única razão de eu existir. Não saberia jamais viver sem você, por isto voltei, por isto, não posso ficar, eu não sou seguro para você. Mas você sabe disto não é meu amor?
— Não, não fala, eu também te amo demais Peter.
— Eu sei. Shhh.... Não chore, não fique triste. Vai dar tudo certo, tudo vai ficar bem, você será muito feliz! – Nesta hora minha histeria ganhou vazão, pois, estas palavras repetidas, rasgavam literalmente a minha alma e a dor era excruciante. Eu já não podia dizer como disse no sonho:
— Espere aí. Nós seremos....
Não, eu não podia... não mais, pois, naquela hora a certeza de que eu o estava perdendo me atingiu profundamente.
— Henry? – Peter chamou. Exatamente como no sonho.
— Sim. – Ao olhar para Henry ele realmente estava muito infeliz com a situação que presenciava, e pela forma que me olhou, vi que ele estava arrasado, pois, entendia que eu já sabia o que estava acontecendo.
Peter naquele estado, meu sofrimento ao vê-lo assim, e por saber que não teria volta, por eu ter dito a Henry sobre meus sonhos, ele sabia, sabia mesmo, que eu estava consciente do que estava acontecendo, então entendi que não só a minha dor foi aumentada, mas a de Henry também. Naquele instante eu vi com meus olhos o que Peter me disse, Henry verdadeiramente me ama. E resoluto ao seu destino Henry respondeu:
— Sim Peter, o que precisa? Farei o que quiser.
— Eu sei. – Peter respondeu e colocou uma das mãos no braço de Henry que realmente não hesitou, e a outra permaneceu em meu rosto. – Quero que saiba que admiro você, e sei que realmente você ama Valerie, a ponto de todo este tempo saber o que sou e nunca ter feito nada contra mim, muito obrigado! – Peter me observou e me disse o que eu já sabia:
— Era sempre ele que percebíamos vigiando-nos na floresta, mas, ele só o fazia por não confiar em meu autocontrole, por medo de eu te machucar, então, mesmo que ele sofresse em nos ver juntos e felizes, ele estava sempre por perto. Por você, para te proteger. E quando eu descobri por mim mesmo, por meus instintos, eu deixei, pois.... Pois, eu sabia que era o certo a fazer, você, e sua proteção, deveriam estar acima de tudo. Mas, você também já sabe disto não é meu amor? Seus pesadelos eram sobre isto, não é?
Olhei tristemente em seus olhos e respondi:
— Sim. – Mas ainda sim, ele disse cada palavra.
— Verdadeiramente fui procura-lo para pedir que cuidasse de você quando eu estivesse fora, agora você sabe, eu não tinha outra escolha, sabia em meu coração que o que aconteceu hoje, viria mais cedo ou mais tarde, temia por você e por sua segurança. Então, ele me disse para não me preocupar, pois, assim como eu já desconfiava, ele já fazia isto desde o início. – E Peter novamente se dirigiu a Henry:
— Henry, sei que vai, mas prometa-me que irá cuidar dela para mim, enquanto você viver?
E como no sonho. Não, mais intenso do que no sonho, ao olhar para Henry, suas lágrimas desciam copiosamente, e diferentemente do sonho eu sabia que era pela dor que sentia por ouvir aquilo, também pela dor de me ver chorar e sofrer tanto, e ainda pela dor intensificada de saber que eu sabia e sofria multiplicadamente.
E exatamente como no sonho, ele segurou a mão de Peter que estava em seu braço e disse com límpida determinação:
— Com a minha própria vida! Eu prometo Peter, que eu a defenderei e protegerei com minha própria vida. Ainda que você não me pedisse, eu o faria como tenho feito até agora.
— Eu sei! Obrigado Henry, de todo meu coração.
E antes que me pedisse eu o olhei profundamente nos olhos, pois, eu já sabia o que encontraria: seus olhos estavam felizes, ele me deu um singelo sorriso.
— Valerie, vou dizer o que você já sabe que quero meu amor, faça por mim, deixe Henry cuidar de você, se você me ama realmente, faça isto, ele sabe o que fazer e... – Os olhos de Peter brilharam quando disse suas ultimas palavras... – Ele ama você, e... eu.... eu só estou admitindo isto, pois, eu posso reconhecer, pois, eu também sei o que é o amor. Eu te amo minha querida e quero muito que você seja feliz... – E estas realmente foram suas últimas palavras.
Porém, o que Peter não sabia, era que Henry, a partir daquele momento, também não seria mais meu. Pois, suas palavras ecoaram no meu coração, juntamente com a dor de perder Peter: “eu nunca vou te querer por compaixão, por mais que eu te ame, não suportaria isto. Preferiria viver minha vida inteira sofrendo sem você, do que um dia ao seu lado por que você tem pena de mim.” ... “teremos que conviver com as consequências de nossas escolhas”.
Neste momento eu desabei, perdendo todas as esperanças de prosseguir. Caindo em uma imensa solidão e escuridão.
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