A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
9 DESPEDIDA E PREPARAÇÕES - Capítulo 9
Notas iniciais
POV VALERIE
Achei que Henry sairia dali e me deixaria com o meu pesar. Mas, a verdade, é que, quando as minhas lágrimas já tinham me amortecido bastante, ele já havia se levantado, colocado o corpo de Peter cuidadosamente sobre o seu cavalo, vestido de seu casaco, para cobri-lo da nudez, e Henry agora estava me carregando no colo, caminhando floresta adentro, enquanto conduzia também o cavalo.
Depois de uma longa caminhada pela floresta, paramos perto do rio, haviam alguns barcos na margem, Henry colocou-me recostada em uma árvore, porque eu continuava como uma boneca inerte, sem vida. Ele arrumou cuidadosamente o corpo de Peter em um dos barcos, reunindo alguns galhos secos e folhagens próximos, e então chegou até mim.
— Valerie, eu sei que você não consegue falar ou raciocinar direito agora, mas, eu preciso tomar algumas providências antes do amanhecer, que não vai demorar.
Eu me virei até ele, tentando focar o meu olhar, com muita dificuldade, então, respondi:
— Sim...
— Bom, nós precisamos resolver... – ele hesitava, tenho certeza que temendo minha reação. Henry sabia o que eram perdas, perdeu sua mãe tão novinho, perdeu à pouco tempo seu pai. E ainda assim, estava ali, tendo que passar por isto, por mim. Ao pensar nisto, é que consegui sair da letargia, Henry, já havia passado por provações demais por minha causa, aquilo precisava acabar, fui me recompondo.
— O que precisa de mim Henry?
— Bom, eu sei que não é fácil, mas, primeiro, precisamos decidir se queremos que o vilarejo saiba da morte de Peter, ou... – Ele ainda hesitava. – Ou tomaremos as providências e não falaremos nada e deixaremos as pessoas pensarem que ele não vai mais voltar, assim como foi com o seu... – Ele hesitou. — Pai. – Ele sabia! Meu Deus! O altruísmo de Henry não tinha tamanho. Ele nunca me indagou sobre nada, mesmo sabendo que meu pai havia matado o seu.... Meu Deus, até onde eu poderia mais estar envolvida nos sofrimentos de Henry? Mas, como será que ele sabia? Será que Peter... Bom, tinha certeza que esta não era hora de me preocupar com isto. Então, respondi:
— Será como foi com o meu pai. Mesmo por que como explicaremos a morte dele sem levantar suspeitas, ou comentários?...
— Certo, mas, eu preciso lembra-la de que deve considerar as implicações desta escolha.
— E quais são?
— De que...
— Diga Henry, não se preocupe em me magoar, eu já estou em estado lastimável, como posso ficar pior? – Então, enfim ele disse:
— Isto vai afetar você, todos sabem que você espera seu retorno. Que não segue em frente por causa disto, mas, ainda assim, você tem estado feliz, cautelosa, mas feliz, contudo, como vai lidar com sua dor e sua tristeza? Como vai ser conduzir isto se esta for à escolha?
Então, eu entendi, Henry estava preocupado comigo. Como isto iria afetar a minha vida no vilarejo? Não havia mesmo, tamanho para a bondade de Henry. Foi quando eu me lembrei da viajem para ver Madelaine, eu apenas precisaria antecipar, dado as circunstâncias.
Assim, eu falei a respeito da viajem com Henry, aproveitando para contar sobre o pedido de casamento de Peter, o que me trouxe mais uma rodada de choro, porém, logo eu procurei me recompor, porque eu me lembrei que não era justo chorar sobre isto na frente de Henry, que a propósito, deixou passar neste momento algumas emoções por seu rosto, dor, ciúmes, insegurança, mas, rapidamente isto foi substituído, por sua máscara de serenidade. E depois de muito me ouvir e consolar, por todo meu pesar, Henry disse:
— Bom, eu acho esta uma boa solução, dará tempo, para nos recompor destas circunstâncias. – Foi quando percebi a palavra “nos”, eu quis perguntar a respeito, mas achei que não era o momento.
— Bem, agora nós temos a segunda questão: eu não acho seguro enterra-lo, eu compreendo que seja melhor queima-lo neste barco e depois, afunda-lo no rio. O que você acha? Desculpe-me, não é sem esforço que eu estou mantendo a praticidade nesta situação, mas, alguém neste momento, precisa agir, pois, o tempo está passando, e sei que eu não posso exigir isto de você.
Era impossível eu responder a isto sem ter um nó gigantesco na garganta. Mas, busquei forças e respondi:
— Pode fazer como sugeriu.
Henry se levantou e foi terminar de tomar as providências, e antes que incendiasse o barco, me olhou com profundidade e me perguntou?
— Você não quer se despedir?
Quando me levantei e dei o primeiro passo, minhas pernas não foram capazes de prosseguir, e eu desabei, e mesmo reunindo todo o esforço para me manter inteira por Henry, eu não consegui.
— Não consigo, Henry, me perdoe, você não merece ver isto, mas, eu não consigo... pode fazer o que tem de ser feito, é melhor mesmo eu ficar com a imagem de seu rosto ainda vivo, na memória. – E ao terminar de dizer isto, o desespero me pegou. Sentei-me curvando-me como uma bola abraçando minhas pernas, e chorei... chorei, chorei, chorei copiosamente.
Muito de longe, vi quando Henry ateou fogo no barco, e o vi solta-lo para o meio do rio, mas, ainda preso em uma imensa corda.
Henry lavou as mãos e se aproximou. E foi quando eu pude ver que copiosas lágrimas escorriam de seu rosto, assim, eu entendi que através da minha perda, Henry também estava revivendo, rememorando as suas. A minha perda doía nele, e sei que no fundo, ele também sentia por Peter. Afinal, o que aconteceu com Peter poderia também ter acontecido com ele, se fosse ele que houvesse ido naquele dia, na casa da vovó, me salvar. Henry era incrivelmente bom.
Ele se sentou ao meu lado, enquanto esperávamos o fogo terminar de consumir o barco. Percebi, que ele estava hesitante, eu não conseguia entender o por que. Ele me olhava, desviava o olhar, me olhava novamente, depois, desviava novamente o olhar. Não aguentando mais, eu interrompi o choro momentaneamente, e perguntei:
— O que foi Henry? Pode me dizer. Pare de me poupar das coisas, eu não mereço, tudo bem?
Ainda muito relutante, ele respondeu...
— Não é isto, é que eu também estou devastado, com tudo isto, por você, e claro, que por Peter também. Mas, a questão é que...
— Diz logo Henry.
— Bom, agora mesmo, eu quero, eu desejo muito... te abraçar, te consolar, e também receber consolo, lógico, mas, eu não consigo, eu acho injusto, incerto, não sei te explicar.... A minha mente está muito confusa.
— Eu sei, eu sinto isto em você. Mas, eu te entendo. Nada será como antes, não é mesmo?
— Não posso te dizer Valerie, pode ser que eu venha precisar de algum tempo, para lidar com isto, me perdoe, eu vou cumprir o que eu prometi ao Peter, mesmo se eu não houvesse prometido, eu cumpriria. Eu vou proteger e cuidar o melhor que posso de você, mas... a partir daí eu não sei mais, neste momento, o que eu sou capaz de fazer, eu preciso de um tempo para compreender o que está se passando dentro de mim...
Eu pensei em fechar o espaço entre nós, e confortá-lo e buscar nele o conforto, mas, assim como ele, eu também não conseguia me mover. Engraçado, como que a presença de Peter acabava atraindo Henry para mim, mas agora que ele se foi, parece que ele o arrastou junto.
Contudo, era justo, Henry sofreu demais, demais mesmo, por mim, e Peter também, chegou a hora do meu acerto de contas. E tanto as palavras de Henry quanto as de minha mãe, alguns dias atrás, dançavam em minha mente:
“teremos que conviver com as consequências de nossas escolhas”.
“Todos nós temos nossas parcelas de escolhas erradas na vida, e precisamos aprender a lidar com isto, só queria realmente certificá-la do que está fazendo, mas pelo que vejo você já é madura o suficiente para isto, o que me deixa um pouco mais em Paz”.
Agora, havia chegado a minha hora de lidar com as consequências de minhas escolhas. E isto, pelo visto, era irremediável...
O dia já estava amanhecendo quando o barco começou a dar sinal de que iria a pique, Henry, tomou outro barco e foi até ele, afundou cuidadosamente o que restou, e voltou para onde estávamos, já com tudo pronto para partirmos para o em direção ao Vilarejo. Porém, antes de sairmos, precisávamos pensar no que diríamos ao retornarmos. Então, como se espelhando o que eu estava pensando falou:
— Valerie, como você pretende encarar todo mundo? O que você vai fazer? Eu preciso saber, para poder te dar cobertura, mesmo por que, tem o Cedrico. O que você disse para ele?
Eu havia esquecido completamente. Como estariam as coisas em casa? E Cedrico, conseguiu dormir? Expliquei a Henry o que eu fiz com Cedrico, e ele me disse que achava que eles não haviam acordado, nem ele, nem minha mãe e nem as meninas. Se não, de alguma forma, ele acha que já saberíamos. Então, ele propôs:
— Tenho uma ideia, mas a decisão do que fazer será sua, tudo bem?
— Sim...
— Bom, podemos dizer que Cedrico, foi mesmo te buscar preocupado com a questão do lobo, mas que ficou tudo bem e o lobo fugiu. E, depois de tudo resolvido, você e eu conversamos um pouco, sobre a viajem, pode dizer até sobre eu ter te aconselhado a ir, alguns dias logo após esta lua, já que esta foi sua última noite mesmo, e que nós estávamos planejando como eu poderia fazer uma escolta a você até ao vilarejo, em que você tomará o trem, e que como já estava tarde, você dormiu na casa de sua avó. Sua casa na verdade, tranquilamente, pois, eu estava na ronda e tomaria conta de tudo... – eu já estava hesitando, então ele prosseguiu... – Eu sei, eu sei, elas vão ficar chateadas por você ter vindo atrás, para se envolver em um ataque de lobo, e vão querer possivelmente matar o Cedrico, por ter deixado, mas, quer saber? O que ele poderia fazer? Elas te conhecem. E no mais, você está viva, inteira, e tenho certeza que a sua mãe ficará feliz por saber que você estava comigo.
Pude ver que ele disse esta última parte bastante constrangido, todavia, eu entendi o seu ponto, minha mãe se agarraria a esta questão, e todo o resto perderia a importância.
— Concordo, para mim está ótimo.
— Então, está bem.... Vamos.
Ele me tomou pela mão, mas, como viu que eu ainda estava bastante fraca e dura para me mover, ele mesmo me carregou e me colocou sentada de lado sobre o cavalo, então montou logo após.
Com uma das mãos, ele tomou as rédeas e com a outra ainda hesitantemente, me abraçou para que, eu não caísse durante a cavalgada de retorno ao meu chalé.
Eu não percebi quando caí no sono, pois, o calor daquele braço e do corpo de Henry, misturados, aos embalos da cavalgada e ao entorpecimento de minhas emoções e do meu corpo, me tiraram a consciência, antes que eu percebesse.
Ouve um momento em que eu estava quase emergindo a superfície, e foi o suficiente para perceber que eu estava em minha cama, muito bem aconchegada por cobertores e travesseiros, havia um copo de água pela metade na mesinha e uma xícara vazia de chá, e, a claridade começava, lançar pequenos raiozinhos nas frestas da janela.
Foi quando consegui perceber a última cena antes de perder a consciência novamente: Henry, muito cautelosamente, abaixa, beija minha bochecha e diz:
— Durma linda menina, e quando menos esperar, estarei de volta para guardar o seu sono, afinal, mesmo antes, eu nunca te perdi de vista.
E ele sai fechando cuidadosamente a porta. E eu volto ao meu estado de inconsciência.
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