A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
10 MOMENTOS DE ANGÚSTIAS X TEMPO DE ESPERANÇA - Cap.10
Notas iniciais
POV HENRY
Ao deixar Valerie dormindo. Dormindo não, desacordada, este na verdade é o termo a ser utilizado, depois de tudo que ela passou, não sei nem quanto tempo ela vai gastar inconsciente para se recuperar. O desgaste realmente foi intenso, terrível. Bem, mas, ao sair deixando-a aqui, vendo-a como uma menina indefesa, envolta naquele sono profundo, com o rosto agora um pouco mais tranquilo, devido a inércia. Pude ver o quanto foi e será difícil daqui para a frente para ela.
Como será que ela suporta? Realmente ela é forte, suas perdas têm sido ferozes, sua irmã, sua avó, seu pai, e agora Peter.
Enquanto cavalgo até o vilarejo para acertar as coisas deixando ela fora de perigo com a sua mãe, as meninas e o Cedrico, vou meditando um pouco.
Na verdade, eu tenho que ir rápido e voltar, para estar por perto do chalé enquanto ela descansa, como sempre eu faço, mesmo quando Peter estava por aqui, todavia, eu também, preciso de tempo para pensar, pois, nada do que aconteceu, foi fácil para mim.
Eu ainda não tive tempo e espaço para avaliar as avarias do meu estado. Mas, uma coisa de cada vez, e como sempre, Valerie é a minha prioridade.
Chegando a casa de Suzete, bati, e quando ela me atendeu, eu vi que ela estava acabando de acordar, e cheguei bem a tempo, antes do interrogatório com Cedrico começar.
Dei minhas explicações a Suzete e ainda pedi que ninguém fosse ver Valerie hoje, pois, ela passou a noite em claro, conversando comigo, temendo por minha segurança. E, como elas sabem que isto é coisa de Valerie mesmo, elas não questionaram, e como suspeitei, Suzete ficou feliz por Valerie ter estado comigo, e isto realmente foi o suficiente para acalmar os ânimos. E ao Cedrico, eu disse a ele o que eu combinei com Valerie e ele foi para casa.
Quando estava saindo, indo de volta a floresta para estar próximo ao chalé, antes de descer as escadas, Suzete me chamou.
— Henry, eu preciso falar com você.
— Claro Suzete, diga.
— Sei o quanto tem sido difícil para você esta situação com Valerie. E quero falar algumas coisas com você a respeito disto. Sei que pode parecer egoísmo meu, mas, o que posso fazer? Sou mãe, e adulta, sei o que é a vida, sei o que está por trás de escolhas, e eu sei que algumas não têm volta, no entanto, eu sei também, que consequências são coisas muitas vezes insuportáveis de lidar...
Ela dizia cada palavra experimentando minhas reações. E como continuei ouvindo tranquilamente, ela prosseguiu...
— Não desista dela ainda, por favor... – Mas, eu não podia mais ouvir, depois de tudo que eu passei nestes dias, depois de tudo que eu presenciei nesta noite, eu não podia ouvir aquilo, eu precisava pensar, respirar, mas, como se ela soubesse que eu estava travando uma luta interna, Suzete, segurou minhas mãos, e olhou intensamente em meus olhos e disse:
— Não deixe o orgulho, a fúria, ou o medo, afastar você dela Henry, sei que você tem milhares de motivos, mas algo em meu coração me diz que Peter não vai voltar, não mais... — E eu congelei quando ela pronunciou estas palavras, mas mantive a expressão para que ela não percebesse, e deixei ela continuar...
— Lute por ela, conquiste-a. Ela passará alguns dias fora, como você já sabe, e eu sei que você não pode deixar o vilarejo para ir com ela, você tem dever a cumprir aqui... Mas, deixe as marcas de sua presença na vida dela, antes dela ir, faça com que ela sinta sua falta no período em que estiver por lá, e sentir que ela precisa de você... – e como eu já estava hesitando ouvir devido ao contexto que ela obviamente desconhece do que aconteceu, ela diz algo que me surpreende verdadeiramente:
— Ela vai precisar de você, e não faça disto um empecilho achando que ela está com você por falta de escolha, ou por compaixão, use exatamente isto, como uma oportunidade de fazê-la te amar. – Isto me pegou desprevenido, porque, era exatamente o que estava me corroendo, mas como Suzete pode saber disto? E como se ela ecoasse meus pensamentos, ela respondeu:
— Não permita que isto aconteça com você, pois, foi isto que aconteceu entre eu e seu pai. — Eu dei um sobressalto, quase caindo da escada, não entendi de imediato, e ela logo se antecipou:
— Eu e seu pai nos amamos muito Henry, e devido às interferências sua avó ele não teve forças para lutar por mim, então, no meio daquelas circunstâncias, eu acabei me casando com o pai de Valerie, mas, nós nunca superamos o desgosto por não termos lutado por nosso amor, principalmente ele, devido ao orgulho por ter visto que eu acabei decidindo minha vida com Cesaire, e assim, nunca conseguimos ser verdadeiramente felizes, você sabe disto não sabe?
Demorei muito para sair do estado de choque que o susto me proporcionou, mas, eu consegui responder:
— Bom eu sabia que por mais que ele cuidasse da minha mãe, e fosse um pai exemplar, ele não a amava, e sim, eu sei que ele amava alguém, mas, jamais passou pela minha cabeça ser você.
— Bom, agora você sabe, pense nisto... – Ela se afastou, beijou minha testa como minha mãe faria em uma situação assim, e entrou.
Ainda bastante aturdido, sai dali o mais rápido que pude, passei em casa, tomei um banho, fui à ferraria deixei tudo em ordem, passei nos clientes entregando as encomendas daquele dia, e deixei a vovó ciente de que eu passaria o dia fora. Eu dei a desculpa de que eu estaria em outro vilarejo para ver algumas coisas.
Depois de deixar tudo certo, disparei de volta a floresta, passei primeiro no chalé, e como eu suspeitava, Valerie ainda estava dormindo.
Eu fui até a cozinha, preparei café, deixei um bolo que trouxe de casa, deixei tudo pronto. Eu sabia que ela acordaria, fraca e mal. Escrevi um bilhete dizendo a ela que tudo estava bem. E que eu havia feito como combinamos e que por hoje, ninguém iria procura-la, por que deixei claro que ela não dormiu a noite e precisava descansar.
Então, eu fui para o jardim, fora da casa e molhei as flores, as plantas, cuidei da horta e retirei as folhas, deixando tudo impecável, pois, entendo que ela não terá ânimo tão cedo para isto.
Mas, agora que, o que eu tinha para me manter ocupado acabou, eu não tinha como fugir, eu precisava pensar, precisava refletir, e antes dela acordar para poder encara-la.
Então, ao invés de ir para a floresta, me sentei no banco do jardim e me permiti relaxar para que as memórias me atingissem, e uma a uma elas vieram: a última vez que ela me procurou na ferraria, nossas palavras, o que eu disse a ela no final, o acontecido desta madrugada, a morte de Peter, a devastação dela, a minha própria devastação, as palavras de Suzete, a revelação sobre ela e meu pai, e muitas outras memórias: a recusa de Valerie em se casar comigo por causa de Peter, o pedido de casamento de Peter que nunca se concretizará, a dor das perdas de Valerie refletindo as minhas próprias perdas...
Tudo, tudo, que eu vinha me esquivando de pensar, avaliar, refletir, veio. E veio numa intensidade feroz, cada detalhe daquele maldito dia em que a vi no celeiro com Peter, cada gesto, cada palavra, arrancando o ar de meus pulmões, me fazendo ofegar, e chorar, de desespero, uma histeria terrível me envolveu, como nunca eu senti antes, parecia que o meu peito estava em chamas, em brasas vivas.
Eu não estava me dando conta, até agora, de o quanto eu estava angustiado, ferido e sobrecarregado com todas aquelas emoções contidas. A dor em meu peito era excruciante, só agora eu pude me dar conta, que a minha alma está em plena agonia.
Eu não havia percebido, que ao tentar poupar Valerie e os outros de suas dores e pesares, escondendo as minhas, eu as estava triplicando, e expandindo de uma forma inimaginável.
Porém, eu não podia deixar ninguém ver isto, ou sentir isto, acho que ninguém suportaria, pois, eu não estava suportando.
Agora que eu me permitia entrar em contato com estas emoções e com estas dores, e estar consciente de tudo, era insuportável.
Entretanto, as palavras de Suzete dançavam em minha mente, será que eu seria capaz? Capaz de passar por tudo, e acreditar que Valerie poderia mesmo se apaixonar por mim, que ela poderia me amar algum dia? Será que eu sempre não iria achar que ela estará comigo por ter ficado sem opção, ou por compaixão por eu amá-la tanto?
Foi quando algo lá dentro de mim emergiu: e se ela tivesse casado comigo? Provavelmente seria eu que o lobo, seu pai, teria mordido, quando fosse tentar ataca-la, e provavelmente seria eu que teria partido, e ela agora teria o Peter. E Peter teria desistido dela, justamente agora que o caminho ficaria aberto? Acho que não.
E então, ocorreu-me outra coisa, Valerie é muito forte, e Peter também foi. Tendo suportado tudo o que passou em sua vida e os mau tratos da vila por causa de seu pai, e mesmo assim, ele voltou, voltou por ela.
E mesmo quando para defende-la, acabou sendo colocado na condição de lobo, ele também voltou por ela, manteve a distância necessária, para sua segurança, mas, voltou por ela. Peter, também era forte, e tinha a coragem de enfrentar tudo por ela.
E eu? Bom, eu não era assim, é tanto que eu desisti logo quando eu vi que ela realmente amava Peter.
Na verdade, eu aprendi a ficar forte, através dos golpes que a vida tem me dado. Primeiro, com as minhas perdas; e depois com os últimos acontecimentos do vilarejo, ficando do lado de Valerie, quando o mundo desabava ao seu redor, e a vila inteira queria mata-la; em seguida, cumprindo a minha missão de guardar o vilarejo, protegendo-o do lobo; também através da minha resignação de mesmo à distância proteger Valerie, mesmo tendo que com isto, suportar vê-la feliz com Peter. Minha coragem também, foi ampliada, quando, resolvi, mesmo diante da dor extrema, estar com eles, nos momentos finais de Peter, por que isso não é algo fácil de se experimentar.
Mas, e agora? Eu iria simplesmente desistir? Justo agora, que provavelmente ela ficará devastada com a perda de Peter? E por causa de... sei lá, orgulho ferido, medo? Medo de que? Sofrer? Eu já não estou sofrendo de qualquer forma? Será que não vale mesmo a pena persistir mais um pouco? E se por acaso eu conseguir fazê-la me amar? Agora, eu consigo enxergar que existe esta possibilidade, antes não existia, mas as coisas mudaram.
E as palavras de Suzete saltaram em minha mente:
“Não deixe o orgulho, a fúria, ou o medo, afastar você dela Henry, sei que você tem milhares de motivos, mas algo em meu coração me diz que Peter não mais vai voltar... Lute por ela, conquiste-a. Ela passará alguns dias fora, como você já sabe, sei que não pode deixar o vilarejo para ir com ela, você tem deveres a cumprir aqui... Mas deixe as marcas de sua presença na vida dela, antes dela ir, faça com que ela sinta sua falta, e que precisa de você...”
“Ela vai precisar de você, e não faça disto um empecilho achando que ela está com você por falta de escolha, ou por compaixão, use exatamente isto, como uma oportunidade de fazê-la te amar... Não permita que isto aconteça com você, pois, foi isto que aconteceu entre eu e seu pai. “
Agora eu consigo entender as palavras de Suzete, meu pai foi realmente exemplar em todos os sentidos, pelo menos no que demonstrava. Mas, eu sei que no fundo, ele não era feliz, e quando Suzete, que era seu verdadeiro amor já estava livre, quando Cesaire morreu, ele também já havia morrido.
Não, definitivamente eu não poderia me permitir passar por isto.
Apesar de todas as desgraças que nos cercaram a mim e Valerie, a vida milagrosamente estava nos dando uma nova oportunidade, eu precisava ser forte e ter coragem para agarrá-la, mesmo ciente dos riscos.
No entanto, eu também precisava fazer isto direito, com cautela, mesmo por que, ao deixar aquelas palavras para ela naquele dia na ferraria, eu sabia que a deixei sem esperança de que eu iria querê-la, caso algo acontecesse a Peter. E, eu sei que, talvez fosse levar um tempo para que ela entendesse que, eu posso sim, ser capaz de passar por cima disto também.
Eu preciso concentrar as minhas forças, a partir de agora, em ajuda-la a curar-se, em fazê-la depender de mim, e sentir falta de mim, para em seguida, fazê-la me amar profundamente.
E finalmente, eu fui atingido pela perspectiva de que, enfim, havia uma grande possibilidade surgindo, de finalmente eu conseguir. Então, eu não poderia desistir agora, seja lá por qual for o motivo.
Com essa nova perspectiva, chorei mais um pouco, por minhas dores, minhas perdas, meus medos, minhas angústias, pelas de Valerie também. E quando senti que havia me esvaziado bastante, fui ficando entorpecido.
Desci do banco, e aos poucos fui me aconchegando sobre a grama do jardim, bem ao lado das flores, de modo que eu podia exalar com perfeição cada perfume. Assim, fui relaxando meu corpo, as mãos, os pés, os braços, por fim a mente, que estava ficando inebriada com o fresco aroma daquelas rosas.
Minutos antes de perder a consciência, um lindo botão de rosa branca do jardim, bem a minha frente, acabava de abrir-se revelando a sua beleza para mim, o que me trouxe em meio a tudo isto, uma mensagem de esperança, de paz em meio a todo este turbilhão.
Sim, realmente nós já havíamos perdido muito, mas, ainda estávamos vivos, e quem sabe, agora, este poderia ser o tempo de recomeçar. Assim, já sem lágrimas, eu adormeci.
Fale com o autor