A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
56 VL – DIAS SOMBRIOS PARTE 2 - Capítulo 53
Notas iniciais
POV VALERIE
Foi uma sensação estranha, acordar.
Eu estava assustada, pois, nada ao meu redor ela familiar. Foi interessante perceber que aos poucos, os meus movimentos estavam voltando. No entanto, eles ainda eram espasmódicos, involuntários agitados e imprecisos. E o pior, os meus olhos ainda não se abriam.
Porém, eu senti que, na medida em que o tempo passava, eu ia me tornando mais consciente do meu corpo. E é como se a minha mente estivesse “brigando” para ter o controle sobre ele novamente.
E sentir isto era atemorizante. Principalmente por que através do que eu ouvia, eu conseguia identificar o quanto a minha agitação preocupava a minha mãe, que foi quem esteve comigo na última noite.
Eu sabia que Henry não estava aqui, pois, ele se despediu antes de partir para Daggorhorn. Interessante que, era a presença dele que sempre me reconfortava, e eu ainda nem compreendia por que.
No entanto, o simples fato dele estar aqui acalmava meu corpo físico e meu coração. Embora a minha mente não pudesse compreender a motivação deste fato.
O fato é que, quando minha agitação aumentou muito, minha mãe chamou o médico, e quando ele chegou acompanhado de outro colega de profissão, fazendo uma série de testes, eu já estava pronta para abrir os olhos.
Então, quando eu o fiz, meu primeiro contato foi com a equipe médica.
Um deles, que eu creio que, era o chefe da equipe, me apresentou ao seu colega:
— Bom dia senhorita Valerie, este é o Dr. Robert. Você está em Livergoorn na residência dos Oxford’s, vamos realizar alguns testes com você tudo bem?
Confirmei com a cabeça, e, pela sua apresentação, eu logo deduzi: eu estou na casa de Made.
Percebi que ele não se apresentou, porém, ignorei a questão.
Era estranho, pois, eles me perguntavam várias coisas: Quem sou eu? Qual é o meu nome? Onde eu estou? Qual a minha idade? Qual o nome de minha mãe? E eu respondi tudo direitinho, muito embora, minha voz estivesse grossa e rouca, talvez pelo tempo que eu não falava, mas, o que realmente estava lento era os meus movimentos, parece que o meu corpo precisava de um tempo para voltar seus movimentos ao ritmo normal.
É tanto que, quando eu tentei me sentar na cama, logo fiquei tonta e perdi o equilíbrio.
E o Dr. Falou:
— Você quer se sentar Valerie?
— Sim eu quero.
Eu disse a ele. Então, ele ajeitou alguns travesseiros, na cabeceira da cama, e me sentou novamente com todo o cuidado. Ele então, continuou fazendo alguns testes. Num dado momento, outro médico entrou no quarto, e minha mãe veio o acompanhando, e o Doutor que eu não sabia o nome, disse:
— Suzette assim que eu terminar, eu te chamo para entrar, eu preciso fazer alguns testes com ela, e se algum de vocês entrar agora, ela poderá se distrair, e eu preciso dela concentrada.
— Tudo bem Dartanhã.
Minha mãe responde, ao Dr. que aparenta ser o líder da equipe, que agora eu sabia o nome, e devo dizer, que embora não o conhecesse, aquele nome me soava muito familiar. Porém, eu noto no semblante de minha mãe, que ela esta desesperada para estar comigo, tanto quanto, eu estou para estar com ela.
E assim que ela saiu o Dr. Dartanhã disse:
— Desculpe Sta. Eu preciso realizar estes exames criteriosamente.
— Tudo bem.
— Este é o Dr. Nestor, ele é responsável por sua reabilitação física. Como o seu corpo ficou muito tempo parado, ele precisa se readaptar, assim ele fará alguns exercícios de estimulação, para auxiliá-la a retomar a todos os seus movimentos sem que seja de uma forma agressiva para o se corpo.
— Tudo bem.
— Valerie, bom dia. – O Dr. Nestor diz. — É um prazer. Como te foi explicado, eu vou te auxiliar a reabilitar seu corpo de uma forma suave, para que ele sofra o menor impacto possível, ao retornar aos movimentos após tanto tempo de inércia. Tudo bem?
— Certo.
— Preciso que saiba que vou precisar tocá-la bastante, e caso se sinta desconfortável, ou com alguma dor, eu preciso saber, tudo bem?
— Claro.
— Certo, eu já vou começando enquanto eles terminam, pois, eu acredito que após terminar aqui, você pense em deixar esta cama não é mesmo?
Ele me pergunta com simpatia. E eu lhe respondo na mesma simpatia.
— Sim, eu estou ansiosa para isto.
— Pois é. Então, eu começarei preparando suas pernas e seus pés, para isto. Certo?
— Tudo bem.
Então, o Dr. Nestor, começa massageando meus pés e pernas e percebo que ele se preocupa em aquecer as extremidades, aquilo me gera curiosidade, ele parece perceber a dúvida em meu rosto e diz.
— Valerie, a princípio, eu estou me concentrando em ativar a sua circulação.
Aceno que sim com a cabeça para evidenciar que entendi. E ele começa a conversar comigo, explicando a importância do que está fazendo.
Percebo que durante toda a conversa com o Dr. Nestor, os outros dois, continuam suas anotações e testes, e às vezes ainda me perguntam as coisas.
— Valerie, você se lembra, por um acaso, se ouviu ou sentiu algo durante o tempo em que esteve ausente?
Dr. Dartanhã pergunta. Era sempre ele que direcionava as perguntas.
— Sim, mas é tudo muito confuso. Eu me lembro de não conseguir ver nada, porque eu não conseguia abrir os olhos, então, eu só enxergava uma escuridão. Mas, tinha memórias que, depois de algum tempo, reconhecendo e percebendo seus padrões, eu conseguia discernir, quando eu estava acordada e quando eu estava dormindo. E as imagens que eu via dormindo, eram sonhos, e as que eu via acordada, eram as imagens que eu criava das cenas que eu via em minha memória do que as pessoas que me acompanhavam falavam, mas, me recordo que algumas cenas, eu não conseguia reproduzir uma imagem clara, era como se, o que as pessoas diziam, não fizesse sentido naquele momento, eu na verdade não me lembrava, quando ocorreram. Mas, agora que eu acordei, eu ainda não consegui organizar minha mente de uma forma que eu entenda claramente o que era sonho e o que era real. Eu ainda estou muito confusa. São muitos estímulos ao mesmo tempo para eu processar.
— Entendo Valerie e é absolutamente normal, assim como o seu corpo precisa se readaptar, sua mente também precisa. Você esteve desacordada por um longo tempo, especificamente vinte e cinco dias, onde, dez dias, foram hospitalizados e 15 aqui na residência dos Oxford's.
Aquilo me surpreendeu, e foi angustiante perceber que eu não me lembrava exatamente de nada daquilo.
Quando o Dr. Dartanhã iria dizer mais alguma coisa, de repente a porta do quarto se abre e fecha-se em seguida, e assim que ele adentra ao quarto, eu o vejo de relance, pois, a posição, dos médicos, me impedia de vê-lo completamente.
Eu não conseguia de maneira alguma entender por que, mas, aquela pequena visão dele, me trazia uma enorme onda de paz e tranquilidade. Mas, por que?
Eu sempre soube que Henry é pacífico e tranquilo, mas, a presença dele aqui, e agora, o seu cheiro, que por sinal é amadeirado e delicioso, me traz conforto e segurança. Percebo que ele ainda não me vê, e a expressão do seu rosto, é ansiosa.
Então, ele vem andando contornando as pessoas ali, até que eu entre em seu campo de visão.
Neste exato minuto, Dr. Dartanhã o olha, e seu olhar é angustiado e triste, porém, Henry diz ansiosamente:
— Perdoe-me Dartanhã, eu não pude esperar... eu preciso vê-la, desesperadamente.
Percebo algumas coisas: primeiro, que Henry conhece aquele médico com intimidade, pois, não o trata com as devidas formalidades, e sim, o chama diretamente pelo nome e segundo que, o olhar de Dartanhã e do Dr. Robert, é de pura preocupação, porém, Henry parece não perceber, ele termina de se aproximar até que eu consigo vê-lo completamente.
Como ele está abatido, os olhos têm olheiras e o rosto reflete longos dias de angustia. E, eu sei exatamente, que é por minha causa que ele está assim, Henry sempre gostou de mim.
No entanto, eu noto que, ainda assim, ele é lindo, eu nunca parei para realmente observá-lo, mas, estranhamente a beleza dele, parece saltar para mim agora.
Ele me olha profundamente, percebo que ele está me sondando, e apesar de tudo, vejo tanto carinho em seu olhar. Assim, ele se aproxima da cama.
Seu olhar não deixa o meu por um segundo sequer, e sinto-me corar pela intensidade que ele me olha, como se estivesse não só com saudades, mas, faminto também. Mas, de uma fome estranhamente diferente.
De repente, ele dá-me um imenso e caloroso sorriso.
Porém, eu lhe retribuo com um sorriso muito tímido.
Todavia, percebo que as minhas palavras, o deixa abismado:
— Henry, onde está Peter?
***
Ao ouvir a minha pergunta, noto que o seu rosto fica transtornado de dor, e numa voz sofrida, e ao que parece, contendo um jorro de emoções e um choro compulsivo, ele diz:
— Não pode ser! Isto não está acontecendo! Eu... – Ele hesitava. – Eu... preciso sair.
E em seguida, ele deixa o quarto, sem dar mais nenhuma palavra.
Segundos depois, a minha mãe entra e pergunta apavorada:
— O que aconteceu que Henry saiu transtornado daqui?
— Não sei mãe, eu somente perguntei a ele sobre Peter.
Eu disse. E assim que pronunciei isto, minha mãe colocou a mão na boca e passou a me olhar com expressão de angústia e desespero, porém, logo ela disse:
— Minha filha... e isto é uma coisa para se perguntar ao seu noivo? Depois de "estar ausente" por tantos dias, deixando ele quase louco de saudade e preocupação?
O que minha mãe fala é engraçado. Será que ela está delirando? Tem quase dois anos que Henry rompeu o noivado comigo. E digo a ela:
— Mas mãe, você se esqueceu que Henry e eu rompemos há muito tempo?
Surpreendentemente, todos os médicos param o que estão fazendo e me encaram preocupados, e minha mãe, além do olhar de desespero, tem lágrimas correndo de seus olhos agora. Ela respira profundamente e diz:
— Valerie olhe sua mão e braço direito.
Assim que ela me diz, eu o faço. E sou surpreendida com a visão de um belíssimo anel, que ao que parece, é um anel de noivado, no meu dedo médio. Uma aliança incrível em meu dedo anelar, e um belo e imponente bracelete, que pela a beleza e delicadeza, tenho absoluta certeza que, somente poderia ter sido forjado por Henry, pois, ele é perito nestas coisas.
Aquilo me assusta muito e uma lembrança das vezes em que Henry conversava comigo no coma emerge em minha mente...
Então esta parte era real? Tudo o que ele disse era real? Meu Deus! Mas, como eu não me lembro? E, alarmada eu digo:
— Mas como isto pode ser? Eu não me lembro de nada disto, mãe!
Todos, sem exceção, me olham. Porém, agora é com tristeza. E Dartanhã, me pergunta.
— Valerie, você se lembra de mim? E do meu nome? E do nome de minha esposa, sua médica?
Respondo transtornada:
— Claro que não! Acabei de te conhecer, e você nem se apresentou. Só sei seu nome agora, pois, eu ouvi minha mãe e Henry dizer.
Todos estão chocados.
Mas, Dartanhã, assume rapidamente e visivelmente, com muito esforço, uma postura estritamente profissional e diz:
— Bem, vamos por partes. Eu sou Dr. Dartanhã, seu médico já a algum tempo, da especialidade de neurologia, minha esposa é Dra. Helena. Ela também cuida de você. Ela é uma especialista na área ginecológica. E sim, você é noiva de Henry Lazar. Inclusive, foi ele que nos contratou para cuidar de você. Ele é seu noivo mesmo, e vocês estão na iminência de se casarem Valerie.
Nada do que Dartanhã fala, faz sentido para mim. Eu fico confusa, parece tudo surreal. Não dá para acreditar e entender nada, mas, pela seriedade de todos, sei que estão sendo verdadeiros. Minha mãe, então, chora silenciosamente...
Depois de algum tempo, Dartanhã diz:
— Nós vamos terminar rapidamente o que precisamos fazer com você Valerie, depois, daremos um tempo para que o Doutor Nestor fique com você para terminar sua sessão de hoje, para que possa te reabilitar para os movimentos. E após isto, eu creio que você e o Henry, necessitam ter uma longa e calma conversa.
Eu o olho pensativa, e estranhamente sua afirmação sobre a necessidade de Henry e eu, conversarmos, me deixa tranquila, pois, eu percebo que somente ele terá a chave das respostas que eu preciso. Assim, eu aceno confirmando com a cabeça.
***
Quando eles terminam, eles saem e eu fico somente com minha mãe e com o Doutor Nestor.
E, eu a pergunto:
— Mãe, você pode me explicar algumas coisas?
— Algumas, talvez eu possa Valerie, mas, eu concordo com Dartanhã, acho que esta primeira conversa precisa ser com o seu noivo, filha. Somente ele poderá te dar as respostas que você precisa. Porém, eu quero te dar um conselho. Eu posso?
— Claro mãe, eu preciso!
— Ouça e acredite em Henry, em tudo o que ele te disser. Ele ama demais você Valerie e está sofrendo muito com tudo o que aconteceu, não o afaste de você no momento. Procure entende-lo e colocar-se no lugar dele. Pois, eu tenho certeza de que ele fará o mesmo por você minha filha. Eu sei que talvez, você pode estar pensando: como sempre, a mamãe está sempre defendendo o Henry. Mas, não é. Eu só tenho medo que você faça qualquer coisa, neste instante em que não se lembra de nada, e que depois, quando se lembrar, se arrependa amargamente. Portanto, é um conselho de quem te ama demais e te apoiará em tudo que decidir e precisar, pois, eu farei isto, em qualquer circunstância. Eu quero que tenha convicção disto Valerie. Mas, eu preciso te orientar, seja cautelosa e paciente neste momento, e não queira entender tudo de vez.
As palavras dela são muito sinceras, e fazem-me sentir acolhida. Assim, eu digo:
— Eu te ouvirei mãe. Eu confio em você. E eu quero mesmo e muito conversar com Henry.
POV HENRY
Nunca palavras me atingiram tanto.
Eu estava atordoado, apavorado, cansado, desesperado e com medo.
Exatamente isto, naquele instante, eu não me sentia um homem forte, na verdade, eu me sentia um garotinho receoso com aquilo que ele mais teme bem a sua frente, e justamente, em um momento em que ele está sozinho e sem ninguém.
Ou seja, um pequeno garotinho, sozinho, e vivenciando a situação mais apavorante do mundo. Senti-me indefeso, exposto e totalmente vulnerável. Aquilo que eu sempre temi, esta de frente para mim, sorrindo maliciosamente: a possibilidade real de perder Valerie.
Aliás, era pior. Ela estava ali, continuava ali bem a minha frente, mas, totalmente inacessível a mim.
Era muito pior que eu imaginava: tê-la ao meu alcance, mas, inacessível. Pois, se Valerie perguntou por Peter, a única coisa que vem a minha mente é que ela não se lembra de sua morte, e eu? E o que nós vivemos? E seu amor por mim? Pode existir algo mais desesperador?
Desta forma, a única coisa que vem a minha mente é que eu preciso arranjar um local em que eu possa ficar sozinho, para que eu ao menos tente me refugiar em mim mesmo, já que o meu maior refúgio para as minhas dores, que é Valerie, está fora do meu alcance.
Saio, sem olhar para qualquer lado. Sigo para os fundos do terreno, em direção ao bosque, próximo ao riacho.
Assim que cruzo o portão, ouço Aquiles me chamar, porém, a esta altura, as lágrimas já correm. Assim, viro-me rapidamente em sua direção, e noto que ele congela, ao ver-me.
Então, eu digo simplesmente, com a voz já embargada pelo choro que ainda estou tentando conter:
— Agora não Aquiles, por favor!
Aquiles assumiu um semblante de dor e compaixão.
Assim, saio rapidamente, pois, percebo que não conseguirei me segurar por muito tempo.
Corro pela Trilha, e ao chegar próximo ao riacho, uma pontada muito maior de dor atinge meu peito, pois, todas as imagens dos momentos em que passamos juntos ali, começam a bombardear minha mente.
Então, em meio às dores, deixo ceder meus joelhos ao chão. Cubro o meu rosto com as mãos e desabo em choro. E dói demais, tenho que admitir.
A vida não tem sido muito simpática comigo, ela tem me dado inúmeros golpes, e a maioria deles são bem fortes.
No entanto, sinceramente, nada me preparou para este, ele foi imenso. E derrubou todas as minhas defesas.
Ouço passos se aproximando, e sei que é Aquiles, e por mais que eu deseje ficar só, eu não tenho forças nem para dizê-lo para sair. Assim, ele vem até mim, e senta-se bem ao meu lado.
Ele puxa uma longa lufada de ar, e então diz:
— Sei o que houve. E quero que saiba que sinto muito, muito mesmo. Confesso que eu também estou arrasado pelos dois. E desculpe estar aqui, mas, como eu já vivi algo semelhante, e sei na pele o quanto é terrível enfrentar isto em meio a solidão, eu forcei-me a vir, mesmo sabendo de suas reservas... Quero que saiba Henry, você não está sozinho, estou aqui. E posso lhe afirmar que eu compreendo inteiramente o tamanho de sua dor. De verdade. E eu não menosprezo o seu sofrimento, jamais, longe de eu fazer isto. Mas, pense pelo lado positivo, ainda há esperança para você. Mas e eu? Irina se foi e nunca mais irá voltar. Todavia, sua Valerie está aqui, e ela pode voltar.
Por mais que Aquiles tenha razão, aquilo não é confortável de se ouvir, pois, ainda assim, eu gostaria de não estar vivendo esta situação. Agora sou eu que respiro profundamente e digo a ele.
— Obrigado Aquiles, por seu apoio e suas palavras. Porém, eu ainda não me conformo.
— Eu sei, e nem entenderia se você se conformasse. O que eu quero dizer, é que agora é que é o momento, de ser forte. Pois, ela vai precisar muito de você Henry, imagina como será para ela, ou já está sendo, pois, creio que neste exato momento, Suzete está com ela. Imagina como será para ela saber, logo após acordar, que ela tem uma vida maravilhosa, da qual ela não se lembra nenhum pouco. Imagino que deve ser apavorante, e atormentador. Ela ainda é o lado mais frágil desta história nestas circunstâncias. E por mais que esteja doendo, e eu penso que esteja doendo muito para você, é você que irá conduzi-la por este caminho desconhecido. Aliás, todos nós, pois, se ela não se lembra do que viveu com você, acredito que não se lembre de nada do que houve neste período, muito menos daqueles que adentraram a vida dela. Porém, você é a peça chave.
Aquilo que Aquiles diz, mexe comigo, pois, sei que é a mais pura verdade, e mais uma vez, as palavras de Valerie, retornam para mim:
“- ... E eu tenho medo amor, de decepcionar você e você desistir de mim. Ou de algo acontecer, que nos afaste, e você não tenha forças para lutar por mim. Já falei para você sobre isto, que tudo que nós estamos vivendo é maravilhoso demais para eu acreditar que nós não tenhamos de pagar um preço por isto.
... E se algo acontecer que nos afaste, e que você perca a fé e esperança no nosso amor, no que nós construímos juntos? No que você lutou para conseguir e conseguiu que é me fazer te amar como eu te amo?”
E estas palavras reverberam em minha mente, cada uma como se estivesse sendo pronunciada agora por seus lábios. E ao final, o que acordamos:
“- ... Faremos assim, não podemos antecipar as coisas, se caso algum dia acontecer e se realmente por algum motivo um se afastar do outro, o que tiver certeza do amor que nos uniu vai lutar até conseguir reverter o quadro, certo?”
E esta parte sou eu quem diz a ela. Ela me responde:
“- Claro amor. Concordo plenamente.”
Mais uma vez, fica claro, que tudo está em minhas mãos, eu não posso desistir, não há tempo para isto, eu preciso ser forte.
É o que minha mãe vem tentando me comunicar o tempo todo com os sonhos, é o que os sonhos de Valerie mostravam, que algo aconteceria, mas, que precisávamos ser fortes, porém, como no momento, ela está vulnerável, a responsabilidade está em minhas mãos.
Só que me ocorre, como Aquiles sabe?
— Aquiles como você sabe o que aconteceu com ela?
Ele me olha, o que acaba me fazendo olhá-lo. E eu surpreendo-me com seu rosto molhado de lágrimas, e compreendo exatamente, que minha dor, está o fazendo reviver a sua própria. Assim vejo, o quanto eu estou sendo egoísta.
— Assim, que eu coloquei os meus olhos em você, eu sabia que algo estava muito errado, pois, você seria a pessoa que, mais se alegraria com o retorno de Valerie. Então, como eu queria muito estar disponível para te apoiar, seja lá por qual motivo, eu percebi que a melhor forma seria vindo até você Henry, já sabendo com o que eu iria me defrontar. Porém, eu confesso que, mesmo perguntando e Dartanhã me explicando, longe de Valerie e por alto, nada poderia me preparar mais, do que o meu próprio passado. Desculpe por ter buscado informações antes de você, mas, foi tentando ajudar, me perdoe. E, desculpe pelo que vou dizer. Mas, eu conheço a sua dor, eu sei o que está sentindo. E, eu quero ser um ombro disponível para você, um ombro amigo.
Vejo toda a sinceridade de Aquiles em suas palavras, e desarmado eu digo:
— Obrigado Aquiles, e não se desculpe você agiu bem.
— Fico feliz Henry.
Respiro fundo, ciente de que agora terei de enfrentar a realidade.
— O que conversou com Dartanhã Aquiles?
— Bem, somente coisas superficiais. Afinal quem tem de fazer isto, é você. Mas, basicamente, ele me disse que ela realmente teve uma perda de memória. Só que de um determinado período específico.
— Sim, Amnésia Retrógrada Seletiva. Ele já havia me falado a respeito desta possibilidade.
— É isto aí. Mas, quer um conselho? Respira fundo, vamos dar uma caminhada por aqui mesmo no bosque de uns dez minutos, que assim daremos um tempo para que o Dr. Nestor termine com ela. E em seguida, você entra e conversa com Dartanhã. Então, você poderá ver a sua noiva. O que você acha?
Tento sorrir. Mas, o que sai, tenho certeza, que é uma careta. Mas, ainda assim, respondo:
— Claro, vamos.
***
Assim que retornamos, eu me sinto mais reconfortado. Aquiles passou o tempo todo mostrando o quanto tudo isto poderia ter sido pior. Valerie poderia ter morrido, ou ficado com uma sequela grave. Apesar de tudo, ela ainda era ela. Eu pelo menos esperava que fosse.
Também pedi a ele que enquanto eu conversasse com Dartanhã ele fosse a rua e comprasse um buque de rosas vermelhas e lírios brancos para Valerie. Pois, eu estava decidido a agir com o mesmo carinho de sempre, com ela.
Ao chegar a casa, Dartanhã conversava, na sala, com uma Suzette já mais calma, porém ainda aflita, e assim que ela me vê, ela corre até mim e me abraça dizendo:
— Henry meu filho, que bom que você retornou, eu estava preocupada. Como você está?
Respiro fundo e digo:
— Na verdade, em choque ainda, mas, um pouco mais calmo.
Minha avó que também está ali me beija e abraça também, e sei que mesmo sem palavras, está deixando claro que está do meu lado, dando-me todo o apoio.
E agora digo a Dartanhã:
— Aquiles me contou o que disse por alto, preciso saber de tudo Dartanhã.
— Sim, é claro, mas, primeiro, tome isto.
E Suzette me serve um chá, e, Dartanhã explica...
— É o mesmo que você tomou no Hospital. Preciso de você calmo e estável, tudo bem?
— Claro, eu vou cooperar, e me desculpe por minha reação.
— Tudo bem Henry, é muito mais do que compreensível.
Tomo o chá rapidamente e me sento com Dartanhã, Suzette, minha avó e Dr. Robert. Pois, Aquiles sai para nos dar privacidade, e para fazer o que eu pedi.
E, Dartanhã diz:
— Como já havíamos conversado antes, todo o quadro que ela tem apresentado, está dentro de tudo o que era previsível, muito embora nós torcêssemos para que ela se recuperasse por completo, ao acordar do coma. Como eu já havia explicado, ela sofreu uma queda, com uma concussão, e apesar do corte, ao que tudo indica não houve lesão muito mais grave Henry. Mas, infelizmente, houve uma sequela. E pelo que eu já sondei, pelos exames que a submeti, e conversas que eu tive com ela, ela realmente foi acometida de Amnésia Retrógrada Seletiva, ao acordar. Nós costumamos dizer que a origem deste tipo de Amnésia, é Psicogênica, ou seja, a mente bloqueia, ou “esquece” aquilo que é difícil de lidar no real. É como se fosse uma defesa psicológica, quando algo é insuportável de lidar.
O meu coração se entristece, embora eu já saiba mais ou menos desta possibilidade, o impacto ao ouvir a confirmação, é grande.
Dartanhã prossegue:
— E, pelo que eu entendi ao conversar com ela, ela realmente esqueceu todos os eventos, de um determinado espaço delimitado de tempo, que pode remetê-la ao evento traumático em si. Ou seja, tudo que aconteceu próximo à data do trauma ocorrido, foi esquecido, principalmente eventos intensos onde são dispensadas grandes descargas emocionais. Eu mencionei a você que a mente pode fazer isto.
Eu afirmo com a cabeça para Dartanhã. Ele continua:
— Isto ocorre como um boicote a possibilidade, da pessoa chegar ao que é insuportável, usando estes eventos próximos, como associação. E como eu também já disse, o fator positivo de um quadro deste é que a pessoa pode relembrar a qualquer momento, pois, não há lesão tecidual do cérebro, ou seja, não é de origem orgânica, mas, um bloqueio emocional. Como se fosse um mecanismo de defesa da mente. O importante, é que algo pode desencadear o desbloqueio. Assim, como algo encadeou o bloqueio. Mas, o grande risco, que é o ponto negativo, é que na tentativa de se fazer isto, acabar se causando um bloqueio maior. Ou seja, a mente precisa estar preparada para lidar com os eventos, assim é muito importante sim, que as memórias sejam estimuladas. Porém, com cautela Henry, e você é o ponto chave para isto. Pois, por tudo que investiguei até agora, as memórias esquecidas estão atreladas ao período em que vocês se aproximaram. E aí entra algo muito importante, você precisa estar bem, ter paciência, calma, e ser muito cauteloso. Eu sei que não será algo fácil, mas é algo necessário. Pois, precisamos evitar que ela se sinta pressionada, isto pode ter um efeito negativo. Agora no quesito físico, ela está ótima, a cicatrização dela, foi incrível, algo extremamente incomum. Eu jamais vi alguém que tenha uma cicatrização como ela, e eu já havia lhe dito sobre isto. O corpo dela responde plenamente bem. O que evidência ainda mais, que a questão dela é emocional. Ainda mais no caso dela, que, antes do evento, ela vivenciou um quadro de estresse pós-traumático. Outra questão importante, é que, podem haver mudanças no comportamento, e é absolutamente normal. Mas, elas precisam ser observadas e acompanhadas. Que mudanças podem ser estas? Dores de cabeça, humor irritadiço, desejo sexual aflorado ou até exacerbado, que está muito ligado a impulsividade dos comportamentos, por falha no controle inibitório da ação, ou seja, o cérebro vai direto para fase da execução da ação, pulando algumas etapas do processamento.
Fico extremamente constrangido pelo que ele diz, na frente de Suzette, mas, procuro me manter impassível. E também fico tentando imaginar: como seria isto? Ele conclui:
— Em alguns casos pode acontecer o contrário, inibição da libido, o que é menos comum, e isto, geralmente acontece quando o quadro é associado a um quadro depressivo, que pode aparecer após o evento, pois, devido a todas as mudanças e pressões causadas por estas mudanças, a pessoa pode desenvolver apatia. E também é papel de vocês, diminuírem esta possibilidade, trabalhando sempre em favor de aumentar a autoestima dela. Pode ocorrer também, aumento da ansiedade, e diminuição da tolerância a frustração. Eu preciso que tudo isto seja observado e seja me passado um relatório constante de tudo, certo? Isto serve para você, Henry, e você também, Suzette.
— Tudo bem.
Eu respondo e Suzette apenas balança a cabeça. Todo o esclarecimento de Dartanhã me deixa mais angustiado, pelo visto, eu teria uma Valerie, muito diferente do normal. Eu teria de conhece-la novamente. Voltaríamos a fase de conhecermos um ao outro. Como será que seria isto?
Dartanhã, parecendo conhecer a batalha dos meus pensamentos, diz algo que confirma o que estou pensando:
— Henry, eu não tenho o interesse de ser invasivo, mas, gostaria de lhe dar um conselho. Posso?
— Claro Dartanhã.
— Procure estar sempre perto dela, estar solícito. Na verdade, vocês dois terão uma fase agora, para se conhecerem novamente, pois, no momento, ela não é a mesma Valerie de antes do ocorrido. Porém, ela ainda é a Valerie a qual você se apaixonou. Na verdade, eu conversei com ela e ela me disse que, durante o coma, para ela era tudo muito confuso, mas também, me disse, que se lembra de não conseguir ver nada, pois, não conseguia abrir os olhos. Então, ela só enxergava uma escuridão. Porém, ela disse que era visitada por memórias que, depois de um tempo, em que ela foi reconhecendo e percebendo seus padrões, ela conseguia discernir, quando estava acordada e quando estava dormindo. E ela também falou que, as imagens que via dormindo, eram sonhos e as que ela via acordada, eram as que sua mente criava, referente as cenas que ela via em suas memórias a respeito do que as pessoas que a acompanhavam falavam, ou seja, você ou Suzette, ou outro que ficava com ela. No entanto, ela disse que haviam cenas, em que ela, sua mente na verdade, não conseguia reproduzir, era como se o que as pessoas diziam, não fizesse sentido para ela naquele momento. Mas, agora em que ela estava desperta, ela ainda não conseguia organizar a sua mente de uma forma que ela compreendesse claramente o que era sonho e o que era real. Ou seja, ela ainda está muito confusa. E certamente, precisando de apoio e cuidado. Aqui entra você, pois, eu não conheço alguém tão disposto a cuidar do outro com tanto afinco, quanto você tem feito por Valerie, Henry. Talvez o fato dela passar por isto justamente ao seu lado, seja uma providência do Criador. E outra coisa, ela pode buscar afastamento novamente, como aconteceu no caso do estresse pós-traumático lembra-se?
— Sim.
— Pois é, não permita, não dê a ela esta opção. Pois, na verdade ela não se encontra em condições de tomar decisões, realizar escolhas. Mais uma vez, eu digo, não a pressione, e seja paciente.
— Tudo bem Dartanhã, obrigado, mais uma vez. Então, quer dizer que há uma possibilidade de que seja real, que ela realmente ouvia durante o coma?
— Sim, pelo que ela disse, sim. Muito embora, ela não tenha clareza de tudo, e com o tempo, e talvez com apoio e estímulo, eu creio que ela consiga ter acesso a estas informações de forma clara.
— Obrigado!
Respondo por fim, e apreensivo. E ele diz:
— Acho que está na hora de vê-la.
E Suzette completa...
— Também acho meu filho. Eu só gostaria de entrar e perguntar se ela quer comer algo em especial, depois de tantos dias se alimentando por sondas. E por falar nisto... – Suzette agora diz reportando-se a Dartanhã. – Como será a alimentação dela Dartanhã?
— O mais saudável possível, e agora, como serão as primeiras, eu aconselho coisas leves, como: mingau ou sopas, pois, o estômago recebeu coisas líquidas por muitos dias. E Henry, eu gostaria de sugerir que caminhasse com ela todos os dias pela manhã para que ela tome sol, e também, ajudasse a ela, a passar algum tempo lendo, para estimular a mente, e também, assim que puder estimule-a a voltar a tocar, é possível que ela se surpreenda com o fato de poder fazê-lo, já que Suzette me contou que ela também aprendeu neste período. Mas, encare isto, e faça-a encarar também, da forma mais natural possível. Quem sabe não está na hora de você mesmo voltar a tocar, e tentar superar não só por você, mas por ela também, o seu trauma? Eu sei que já tem tocado, Érion me disse, mas, que tal voltar a fazer isto com mais frequência? São só sugestões, espero que não se ofenda.
— Tudo bem, eu não me ofendo, mesmo por que eu creio que está na hora mesmo.
Neste momento Suzette vai até Valerie, e minha avó a acompanha.
E Dartanhã se aproxima e diz:
— Eu queria muito lhe dizer isto, mas, precisava ser longe de Suzette para evitar constrangimento.
— Sim.
Eu digo apreensivo.
— Quando eu disse a respeito do aumento da impulsividade dos comportamentos, principalmente na área sexual, eu disse literalmente. E ela realmente pode apresentar comportamentos que nunca apresentou, inclusive falta de pudor, o que pode gerar situações um pouco constrangedoras, mas, ainda assim, é comum acontecer, o que você deve fazer, é estar atento, e encarar sempre de forma natural, mas, séria, pois, estes limites, terão que, provavelmente, ser ensinados a ela novamente. Porém, como eu disse pode não ocorrer ou ocorrer o contrário. Esteja atento. E mais Henry, este é o momento de você deixar as reservas de lado e procurar passar bastante tempo com ela. Para que ela consiga aos poucos ir percebendo os laços entre vocês, não se afaste por motivo algum.
— Pode deixar Dartanhã, eu estarei atento, e não me afastarei.
— Tudo bem, eu preciso ir. Qualquer coisa e a qualquer hora que precisar, entre em contato comigo.
Bem neste momento, Suzette sai do quarto de Valerie juntamente com minha avó e Dr. Nestor. E vem até mim.
Ele me cumprimenta e diz:
— Fisicamente ela está absolutamente bem, mas, por precaução, virei todos os dias nesta primeira semana, e aconselho que faça caminhadas com ela Sr. Lazar. E a propósito, apresento-me formalmente: Sou o Dr. Nestor, responsável por reabilitação física.
— Claro, um prazer. E Dartanhã tinha acabado de me falar sobre isto.
— Tudo bem, ótimo então, eu estou indo e amanhã pela manhã eu volto.
E Dartanhã diz:
— Henry, eu também passarei aqui toda manhã para vê-la nesta semana, porém, hoje também, voltarei após o expediente. Pois, eu quero saber com detalhes como foi seu primeiro dia após acordar, e dependendo de como for durante esta primeira semana, se for necessário, eu posso vir no fim do meu expediente, quero acompanhar o caso de Valerie bem de perto. E sei que deve estar desejoso por perguntar, quando poderá voltar para casa com ela?
— Sim, era minha próxima pergunta.
Eu respondo.
— Pois é, eu preciso dela por aqui por pelo menos uns vinte ou trinta dias, ou até mais, vai depender. Isto, é para que eu faça vários relatórios de acompanhamento, para acompanhar esta evolução, e aqui isto é viável. Já em Daggorhorn não seria possível.
— Tudo bem, vou me organizando como posso.
— Tudo bem, estou indo.
Ele e Dr. Nestor e Robert despedem-se e saem.
E agora Suzette me diz:
— Ela pediu para ver você Henry. – Fico surpreso com o comentário de Suzette e ela percebe e diz... — Estou falando sério. Assim que eu entrei ela perguntou se eu havia te visto, e se eu sabia se você estava bem. Ela está preocupada com você.
— Obrigado eu estou indo.
Bem quando estou indo, Aquiles chega e me entrega o buquê de rosas vermelhas e lírios brancos e diz:
— Eu tinha certeza que você faria isto.
Ele me disse sorrindo, e eu dou um sorriso bem leve e respondo:
— Se não fosse assim, este não seria eu.
Despeço-me dele e de Suzette e vou ao meu quarto antes de ir até Valerie. Tomo o meu bloco de anotações e escrevo:
Minha Querida Valerie:
Minha Noiva Linda, Minha Amada.
Seja bem-vinda!
Como é bom tê-la de volta. É um enorme prazer tê-la viva e vê-la bem. Todos aguardamos ansiosamente seu retorno.
Você nem imagina o quanto estive apreensivo por este dia e especificamente por este momento, o de nos reencontrarmos.
Quero que saiba que não me importo que não se lembre de muitas coisas, pois, se me permitir, poderemos, aos poucos e no tempo certo, trabalharmos juntos a respeito destas memórias, mas, quero que saiba que será tudo no seu tempo e do seu jeito.
Independente do que você sente neste momento, eu quero que saiba que eu amo você! Você foi uma escolha consciente de vida para mim, portanto, seja lá o que for, que eu tiver que passar ao seu lado, o farei com prazer. Desde que você me permita. Seria possível que me desse uma chance para isto?
Pois, saiba que se o fizer, este simples fato, me faria o homem mais feliz do mundo.
Estive e estou com saudades.
Mais uma vez, seja bem-vinda Minha Noiva, e Meu Eterno Amor.
Eu Amo Você!
Aliás, repetirei o que coloco em todas as cartas que lhe envio.
Te Amei Ontem, te Amo Hoje e Te Amarei Eternamente!
Do Sempre Seu, Seu Noivo: Henry Lazar.
˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜
Fecho a carta e escrevo no Envelope:
“Para minha Amada Noiva: Valerie.”
Assim que eu termino, tomo o buque com a carta e sigo rumo ao seu quarto. Ao chegar a porta, respiro umas quatro vezes, me enchendo de forças e coragem, e conto até três e entro.
Assim que o faço, sou surpreendido com uma belíssima visão.
Ela estava de costas para mim, olhando pela janela. Havia tomado banho, e estava de cabelos lavados e muito bem penteados. Ela estava linda e cheirosa demais, eu sentia seu cheiro mesmo à distância em que me encontrava.
Porém, algo me surpreendeu completamente, ela estava com o vestido que havia comprado para usar após o casamento, pois, o seu decote era extremamente provocante. E, embora ela ainda não houvesse se virado para mim, eu já previa que ela estaria tentadora, assim, eu me preparo para vê-la.
No momento em que ela sente a minha presença, ela se vira.
Ela cora profundamente ao me olhar, pois, por mais que eu tente olhar apenas para o seu rosto, o seu decote, faz-me desviar o olhar para o seu colo exposto, o tempo todo, me fazendo engolir seco. Porém, eu uso todo o meu esforço para concentrar minha atenção em seu rosto e digo, enquanto me aproximo e lhe entrego o buque:
— Seja bem-vinda de volta Valerie!
Ela cora mais, porém diz:
— Obrigada, desculpe pelo vestido, eu não me lembrava dele, porém, eu achei a estampa linda. Não imaginava que fosse tão decotado, posso trocar se preferir.
Resolvo ser sincero.
— Na verdade, eu nunca havia visto você com ele, você o comprou para usar em nossa lua de mel, após nos casarmos. Pois, havíamos combinado que algumas roupas, que são muito provocativas, você não usaria mais, até o casamento. Mas, devo dizer que você ainda está mais linda com ele. Mas, também, muito tentadora.
Ela cora mais.
Dou-lhe um sorriso enquanto lhe entrego as rosas, e digo:
— Para você, espero que goste.
Ela pega o buque e lê a carta logo, na hora. Então, olha-me surpreendida ao terminar. E diz:
— Obrigado Henry, são lindas! Amo rosas e lírios, são de longe, as minhas flores favoritas.
E, eu respondo-lhe feliz:
— Eu sei. E eu sempre as dou a você.
Ela cora de novo. Então, resolvo fazer algo...
— Posso?
Digo-lhe apontando para sua mão esquerda, que está livre, sem o buque.
Ela responde:
— Sim, tudo bem.
Pego sua mão com reverência, e a levo aos meus lábios. Primeiro beijo seu dorso, logo após os seus dedos, e por ultimo, a sua palma, para em seguida fechá-la, como para que guardasse o beijo.
Surpreendentemente, ela leva a mão fechada ao coração, com um gesto que demonstra que irá guarda-lo. Ela está muito vermelha, mas, ainda assim, diz:
— Obrigada por isto também.
Ela vem até mim e quando está bem próximo, meu coração acelera mais. E pergunta:
— Posso?
Ela pergunta enquanto aponta meu rosto.
E eu respondo num fio de voz:
— Claro, as ordens Sta. Valerie.
Ela sorri e fica ainda mais vermelhinha, porém se aproxima e ficando na ponta dos pés, beija o meu rosto.
E devo dizer, que após tantos dias, a sensação é maravilhosa.
Assim que ela se afasta, vejo seus olhos brilhando e intensos, acredito que espelham os meus.
Porém, ela diz:
— Vou trocar este vestido para ficar mais à vontade e depois conversamos, mas, acontece que a maioria das roupas, eu não conheço, ao que parece, você trocou o meu guarda roupa.
Ela sorri. E eu digo sorrindo...
— Na verdade, só algumas coisas. Eu posso te ajudar a escolher.
Ela me olha surpresa e diz:
— Você faria isto Henry?
— Claro amo...
Eu iria chama-la de amor, porém, me lembrei que talvez não fosse uma boa. Porém, ela pergunta:
— Era assim que você me chamava?
Mais uma vez, eu sou sincero.
— Também.
— Posso saber como eram as outras formas?
— Claro que sim, adoraria pronunciá-las a você, porém, será que não quer se trocar primeiro? Eu realmente posso ajudar nas escolhas, e depois, poderemos fazer o que quiser, e eu repondo tudo o que quiser saber.
— Que bom, é melhor mesmo. E fico feliz por querer responder, tenho muitas perguntas. Mas, eu estou com fome. Pode ser após o café? Pois, acho esta, uma conversa particular e só nossa, e que eu gostaria de ter só com você é possível?
— Caro Valerie, eu também prefiro.
— Que bom então, venha me ajude.
Ela coloca o buque na cômoda juntamente com a carta e segue ao guarda roupa e abre-o. E assim que o faz, olha seus vestidos e depois olha para mim...
— E aí o que você prefere?
Eu a olho surpreso e respondo.
— Deixa eu ver...
Me aproximo das peças e toco-as.
E imediatamente, eu sei qual eu quero que ela use.
— Que tal este?
— Este eu conheço, pois, já era meu. Por que quer ele?
— Na verdade, eu quero o que você quiser, porém, ele me faz lembrar do dia em que te levei a Grewnville pela primeira vez. Traz ótimas lembranças para mim.
Ela sorri, então, diz.
— Então, será este, mas é interessante, eu não sabia que eu havia ido a Grewnville.
E eu respondo...
— Sim já fomos algumas vezes. Temos uma família que amamos muito, que mora lá.
Percebo que seu rosto fica tenso e digo:
— Se não quiser, não precisamos falar sobre isto agora.
— Não é isto, não é que eu não queira, é só que é desconfortável entende? Você não se lembrar de uma parte de sua vida, e pelo visto uma parte importante. Pois, pelo que eu estou vendo, nós tínhamos muitas afinidades, as coisas acontecem naturalmente entre agente, é sem esforço. Por mais estranho que seja para mim, eu não posso negar isto.
Fico feliz que algo que amo tanto em Valerie, não tenha sido perdido enfim, sua sinceridade e sua espontaneidade. Ela diz tudo com tanta tranquilidade que eu fico admirado.
Porém, para evitar que o clima fique tenso eu digo-lhe:
— Acho bom você se trocar para poder comer.
Ela me olha pensativa e diz:
— Sim, eu já volto.
Assim que ela sai, respiro profundamente para acalmar tudo em mim, pois, por dentro eu estava um turbilhão. E ocorre-me uma ideia...
Assim que ela volta, eu digo:
— Está ainda mais linda, eu simplesmente amo você de vermelho, Valerie. E eu tenho uma ideia, só aceite se você quiser, de verdade...
— Claro, pode dizer Henry.
Será que eu vi demais? Senti ela pronunciar meu nome com carinho. Será?
Como ela está esperando com uma interrogação no rosto, digo-lhe:
— Quer fazer um piquenique? Tem um lugar bem pertinho daqui, em que adorávamos ir para lá passarmos um tempo juntos e com privacidade, o que você acha?
Ela dá um sorriso enorme:
— Sério? Ao ar livre?
— Sim, é próximo a um riacho.
Ela dá um pulinho sorrindo, mas, fica vermelha ao notar que eu a olho admirado e encantado com a sua reação. E, diz:
— Desculpe, mas é que eu amo natureza e eu fiquei feliz por poder ter contato com ela após, pelo visto, ficar tantos dias sem.
— Claro, e não tem o que se desculpar, foi por isto que eu indiquei o local, eu sei que você gosta da natureza. E muito!
Ela sorri mais e diz:
— Pelo visto você sabe muito sobre mim Sr. Lazar. Posso te chamar assim?
Agora é minha vez de ampliar o sorriso.
— Claro, afinal era uma das formas carinhosas e provocantes de você me chamar Sta. Valerie.
— Obrigada, então vamos.
Ela disse eufórica e sorridente.
Assim que chegamos à cozinha, vemos Made, que acabou os cuidados com a sua mãe, pela parte da manhã. Ela está na companhia de Suzette e minha avó. Ela vem alegremente e abraça Valerie e eu chamo Suzette num canto e peço:
— Suzette, por favor prepare uma bela cesta de piquenique com as coisas que Valerie pode comer para mim.
Ela me dá um sorriso feliz e diz:
— Claro, farei agora Henry.
Enquanto Suzette o faz, Made e Valerie estão conversando animadas, percebo que Made está aconselhando Valerie a algo, porém, eu não consigo ouvir o que, e vejo que as duas estão muito felizes juntas. Enquanto isto minha avó me abraça e beija o meu rosto e diz:
— Seja forte, dará tudo certo, amo você meu filho!
Dou-lhe um sorriso pequeno, e digo.
— Obrigado vovó.
Pelo olhar que ela me lança, sei que está preocupada. E ela diz:
— Henry estou preocupada com você, pois, dentro de dois dias, eu preciso ir embora, para cuidar das coisas e vou angustiada por seu momento.
Vejo o seu desespero, porém, eu respondo.
— Olha, eu sei que se preocupa vovó. Mas, ficará tudo bem.
Ela me abraça e me beija e sai.
Assim que Suzette termina com a cesta de piquenique, digo a Made:
— Made, você nos empresta a esteira?
— Sim e mais algumas coisas que acho que precisarão.
E, Made sai para buscar. E noto que Valerie vem para o meu lado.
Suzette me entrega a cesta pronta e Made volta com a esteira, dois travesseiros, uma toalha de mesa e uma coberta.
E quando olho para ela, com uma interrogação, ela diz:
— O dia está lindo, estou mandando tudo o que podem precisar caso queiram passar mais tempo por lá. E o motivo de enviar a coberta, é que, as vezes o tempo pode virar e pode fazer frio. E Made da para Valerie um olhar estranho e que me soa conspiratório e eu não entendo e procuro não entender.
Assim que pegamos as coisas, eu e Valerie saímos em direção ao portão dos fundos. Percebi Valerie leve.
Antes de chegarmos ao portão, ouço passos apressados se aproximarem e Valerie pelo visto também, e nós dois nos viramos.
Deparamo-nos com Aquiles bem a nossa frente com um sincero sorriso. Porém, percebo que, além de Valerie estar tensa, ela está mais próxima a mim, como se estivesse se escondendo atrás de mim.
Aquiles parecendo perceber o que está acontecendo, diz:
— Oi Sr. Lazar, olá senhora. Bom dia, não se preocupe, pois, apesar da aparência de guerreiro dar medo, eu não mordo e não sou mal. Pelo menos com vocês, ao contrário, minha função é proteger vocês. Desculpe o susto senhora, é bom tê-la de volta. Fico feliz que tenha voltado para o senhor Lazar.
Dou um sorriso a Aquiles, mas percebo que Valerie não demonstra reação, e como eu percebo que a aflição dela não passa, eu digo:
— Aquiles é um dos guerreiros que contratei para cuidarem da nossa segurança.
Valerie olhava alarmada de mim para Aquiles, e eu prossigo.
— Sei quais são suas dúvidas posso reponde-las aos poucos.
Eu digo-lhe e ela responde...
— Não. Não é isto, Aquiles não é um dos Cinco Cavaleiros Lendários?
Ela lembrava disto.
— Sim é. Mas, por que da pergunta?
Noto que Aquiles também está curioso.
— Nada... É que fico pensando, do que está nos protegendo para que seja necessário que você contrate os melhores guerreiros do Reino?
Noto Aquiles constrangido com a pergunta. E eu na verdade fico pensando no que dizer. E é Aquiles quem me salva.
— Bem, Henry tem planos de expandir, aos poucos, os negócios, e tem feito alguns investimentos visíveis, e isto desperta olhares, desavenças, então, como agora ele tem praticamente uma família para defender, ele precisa ter olhos atentos sobre cada um o tempo todo. E como em breve se tornará sua esposa, certamente você é o maior alvo de proteção, visto que, se alguém a tocasse, certamente chegaria até a ele.
Aquiles foi brilhante em sua explicação, e de certa forma ele não mentiu. Mas, é claro que omitiu o ponto crucial: Mildrad. Não era o momento de Valerie saber. E aquelas palavras a tranquilizaram um pouco.
Aquiles prosseguiu:
— Bom, vou deixa-los aproveitar o passeio. Senhor, eu estarei por perto se precisar.
Ele disse e eu respondi:
— Obrigado Aquiles.
Assim que Aquiles saiu, deixamos o terreno e logo alcançamos a trilha.
Ao chegarmos ao riacho, Valerie, prendeu a respiração por um tempo pelo choque da visão, e em seguida a soltou extasiada. Ela estava feliz. Após longos dias de confinamento, a natureza enfim, lhe fazia bem. Ela estava radiante!
Enquanto ela olhava de um lado a outro maravilhada, como se estivesse olhando o lugar pela primeira vez, disse:
— É lindo aqui Henry! Obrigada por me trazer.
Ela disse virando-se para mim, e quando percebeu que eu estava ajeitando tudo sozinho, ela rapidamente se colocou a me auxiliar.
Estendemos a esteira debaixo de uma árvore. E a toalha de piquenique ao lado com a cesta já vazia, pois, a nossa refeição já havia sido muito bem distribuída por Valerie.
Assim que concluímos tudo, eu disse:
— Vamos comer?
— Claro, eu estou faminta.
— Imagino. Vamos começar por coisas leves. Um curau de milho primeiro, o que acha?
Eu lhe perguntei, pois, eu sabia que ela adorava. E ela não me decepcionou.
— Nossa, isto, é ótimo Henry, eu adoro curau!
Sorri para ela e disse:
— Eu sei.
Ela sorriu de volta, mas, o sorriso logo sumiu. Levando-me a perguntar:
— O que foi?
— É que... Você pelo visto sabe tudo que pode me agradar, sabe tudo sobre mim, e eu não consigo me lembrar de nada. Me sinto em débito. Aliás, eu sempre me senti em débito, por não... Poder corresponder ao que você sentia.
Ela estava começando a trilhar o caminho da inevitável conversa, então, eu disse:
— Olha, eu sei que temos muito para conversar, e precisamos, necessitamos, na verdade. Porém, eu sugiro que comamos primeiro. E Valerie eu sugiro que o façamos isto bem devagar, e saiba que, eu acho que ninguém deseja mais que suas memórias retornem do que eu. Mas, eu quero fazer isto direito, de forma segura, o próprio Dartanhã disse que não podemos força-la demais. Então vamos com calma, temos tempo, estou a sua disposição. Eu só preciso ir a Daggorhorn semana que vem.
Foi coisa de minha cabeça ou eu a vi cair o semblante quando disse que iria viajar?
— E quantos dias você pretende ficar fora?
Ela por fim, perguntou com uma leve pontada de aflição na voz.
— Dois, eu sempre fico no máximo, dois. Por que?
Ela corou e disse, porém, rápido demais.
— Nada, curiosidade.
Comemos, conversamos, era impressionante, pois, ela naquele instante, havia voltado a ser a Valerie cheia de vida pela qual me apaixonei. Espontânea, alegre, sapeca e linda, como sempre. E eu pude perceber que a ciência de toda a pressão que ela vivia com a iminência do aparecimento de Mildrad, antes da captura, a deixava, muito mais acuada, menos livre. Realmente frágil e doente.
Ali, não havia se quer, resquícios daquela Valerie. E sinceramente, eu estava gostando disto. Mas, acontece que esta Valerie de agora não sabe que me amou e que me ama. Mas, a outra sabia. Minha mente as vezes dava um nó quando eu tentava pensar a fundo sobre isto.
Por vários momentos, trocamos alimentos, ela dava pedaços na minha boca, pois, como ela tinha que dar preferencia aos mais pastosos ou líquidos, eu podia comer bolo, pão, frutas, e as vezes ela queria me fazer experimentar os dela, alegando que não estavam ruins. E eu para agradá-la, aceitava. O que sempre a levava a sorrir vitoriosa. Porém, num determinado minuto, ela disse, e a esta altura ela já havia recolhido tudo na cesta e dobrado a toalha, e agora estávamos na esteira.
— Henry, acho que agora eu realmente gostaria de conversar sobre tudo o que aconteceu.
Respirei fundo, pois, eu sabia que não teria mais como fugir e disse:
— Tudo bem, iremos falar. Mas, antes eu preciso te fazer uma pergunta....
— Claro, qualquer uma!
E ela me olhava com intensidade.
— Qual foi sua última memória antes do coma?
Ela fica pensativa por um tempo e então, diz:
— Bem a última coisa de que me lembro é da noite em que tive um sonho em que Peter morria. E neste sonho você estava presente, mas, não era você que o matava. Ao contrário você o ajudava. Peter deixava você responsável por cuidar de mim. E ele dizia que você sempre soube dele e nos vigiava ao longe com receio dele perder o controle e me machucar. Ele permitiu, pois, confiava em você.
Ela parou e ficou esperando que eu dissesse algo...
— Bem, Valerie... Foi exatamente o que aconteceu. E a partir daquele dia nossa aproximação ocorreu. Eu preparei o funeral do Peter. E na verdade, ninguém soube de sua morte. Você optou, devido aos riscos que isto poderia acarretar.
— Entendo. Me diga uma coisa Henry...
— Sim.
— Há quanto temo tudo começou?
— Bem, para mim desde a infância, você sabe. Mas, no seu caso ainda era uma incógnita para nós. Pois, você não chegou a conseguir discernir se tinha aprendido a me amar, ou se já me amava e pela presença de Peter, não se permitia perceber. Mas, de uma forma geral, nossa aproximação que nos permitiu chegarmos onde chegamos ocorreu a mais ou menos dois meses. Pois, você ficou em coma por vinte cinco dias, e já estava a mais ou menos a vinte e dois dias aqui. E o nosso tempo desde que Peter faleceu em Daggorhorn, foram duas semanas, ou seja, mais ou menos quinze dias. Assim, somando-se dá em torno de dois meses.
— Entendo, foi bem rápido, não é?
— Sim, principalmente se você tirar fora, os vinte e cinco dias do coma. Fica um pouco mais de um mês. Aí a consideração do tempo fica ainda mais rigorosa. Na verdade, foi muito rápido mesmo.
— Interessante, pois, pelo que percebo, que, mesmo sem minhas memórias, temos tanta cumplicidade.
Dou-lhe um sorriso por ela constatar isto.
— Sim, e sempre foi assim, desde o início, parece que o que faltava para que nossa conexão e cumplicidade se desenvolvesse era justamente a convivência e o contato.
— Embora, eu não compreenda, eu acredito, pois, mesmo agora eu tendo acabado de voltar do coma, onde tudo ainda é muito estranho, tudo corre tão normal conosco.
— Sim, você ficaria surpresa se eu dissesse que sempre foi assim? E que foi se intensificando a cada dia?
— Não. Não ficaria. Primeiro por que isto é a minha cara. Eu sou muito espontânea, e não costumo esconder o que sinto. E você é por natureza uma pessoa intensa Henry, esta combinação por si só poderia gerar isto.
Mais uma vez, a análise dela me surpreende. Dou-lhe um sorriso.
— Sim é mesmo a sua cara.
Ela sorri de volta, e diz:
— A sua também.
— Sim a minha também, eu costumava te dizer que você foi feita sob medida para mim.
Ela sorri e cora um pouco. E agora toma um semblante um pouco mais sério.
— Sabe Henry, eu preciso te contar que eu ouvia algumas coisas durante o coma.
— É Dartanhã me disse por alto, mas, eu quero realmente ouvir de você. O que você ouvia?
Eu digo-lhe com ansiedade. E ela responde:
— Depois de algum tempo, tudo. Mas, haviam vozes de pessoas que eu não reconhecia, haviam coisas que você dizia que eu não me lembrava. Mas, o que era mais estranho... – Ela hesitava. – Era que mesmo eu não me lembrando, estar perto de você, sentir ou ouvir você, não me gerava estranhamento. Minha mente questionava... Mas... – Ela hesita novamente e cora intensamente. — Mas, para o meu corpo, era confortável, era como se houvesse uma guerra dentro de mim.
A revelação dela, confirma o que eu acreditava devido as suas reações, quando eu tinha contato com ela durante o coma. E ela prossegue.
— E já nos últimos momentos, eu sonhei com Peter. E ele me disse que eu precisava voltar, e me disse que não poderia vê-lo mais quando eu o perguntei. E então, eu perguntei por que, e ele disse que eu precisava me lembrar, e que eu precisava voltar, pois, você me ajudaria a lembrar. Ele disse que eu precisava voltar por você, pois, você precisava de mim, e estava sofrendo muito. Ele também disse que eu precisava confiar em você, em tudo o que você falasse ou fizesse. E estranhamente, eu senti o desejo de voltar por você, mesmo não entendendo por que.
Estranhamente, a revelação dela me reconfortou. Era como se algo dentro de mim confirmasse que ela me ama sim. E que esta informação, no atual contexto, apenas está guardada em algum lugar que, momentaneamente, encontra-se sem acesso.
Assim digo-lhe:
— Não sabe o quão reconfortante é ouvir isto.
— Que bom, eu fico feliz. Sabe Henry, independente de qualquer coisa, nunca foi confortável para eu ver o teu sofrimento, eu te disse isso em nossa última conversa, na ferraria. Antes do evento com Peter, que você acabou de me confirmar.
— É eu sei.
— Pois, é a única coisa que quero saber, no momento, é como ficaremos? Para todos os efeitos eu sou sua noiva. Como devo me comportar? Eu tive uma longa conversa com minha mãe e ela me aconselhou para deixar as coisas como estão, para eu não mudar nada, pois, eu posso vir a me arrepender depois. Mas, eu tenho medo só de uma coisa: e se eu não me lembrar? Por quanto tempo você irá esperar? Não acho justo te prender. Não posso ser egoísta. E aí como será?
A pergunta dela me traz para o mundo real. Mas, eu estava tão convicto de que ela se lembraria que eu disse.
— Bem, na verdade, eu não tenho dúvidas de que você se lembrará. E eu esperei tanto tempo por você e o tempo em que vivemos juntos foi tão perfeito, que eu não tenho dúvida alguma, eu vou te esperar Valerie, o tempo que for preciso.
Percebo que minha declaração, mexe com ela. Ela continua me contemplando em silêncio. E agora ela me pede:
— Me conta tudo, por favor, desde o início, eu quero saber.
— Contarei, cada detalhe, de tudo o que quiser saber e que for seguro. Mas antes, eu quero perguntar algo: não é desconfortável para você ser minha noiva, não se lembrando de nada?
Ela me olha intensamente.
— Sinceramente... No início, logo que eu conversei com a minha mãe, eu achei que seria demais. Mas, quer saber? Agora depois de conversarmos e de ver como eu me sinto bem ao seu lado, não. Você me traz confiança Henry, em meio a toda esta confusão. Sinto como se você fosse o meu ponto de equilíbrio e segurança, toda a sua serenidade e determinação, em cuidar de mim, me fazem bem, Obrigada!
— Obrigado você, por me permitir isto! Sempre é um prazer, cuidar de você.
Eu disse emocionado com suas sinceras palavras. E ela prossegue a conversa...
— E a primeira coisa que eu quero saber, é como você me chamava. E como eu te chamava...
Ela sorri muito corada.
— Claro.
Quanto, a como chamávamos um a outro, é uma lista bem grande e dou a ela um sorriso e ela corresponde com outro em expectativa... E eu prossigo...
— Você me chamava de: Sr. Lazar, príncipe, amor, lindo... – Percebia que a cada revelação ela corava muito. – De seu Guerreiro, de seu homem, seu homem lindo, seu noivo, seu futuro maridinho, seu Henry! Bem, e eu a chamava, de Sta. Valerie, princesa, amor, linda, minha vida, minha noiva, minha princesa, minha Valerie, minha futura esposa, minha futura senhora Lazar, meu coração...
Ela ouvia tudo atentamente, então disse:
— São lindas, cada forma desta é linda Henry!
Ela diz sincera.
E ali eu começo, falando de cada detalhe, de tudo, meus traumas e como ela me curou... Cada momento, ela se atém ao noivado, me pergunta cada detalhe. Noto que ela degusta cada um. Conto sobre os Lancelot’s, sobre Ananda, Elise, sem falar que ela aprendeu a tocar, conto tudo, exatamente tudo que posso e que é seguro, até o que sei sobre ela, sobre seu pai e Peter, serem lobos, confirmando os sonhos dela da época, sobre minha espera por ela, meu acordo com Peter. Cada construção do nosso relacionamento, tudo que é seguro, passo a passo.
Até que num determinado momento, ela pergunta:
— Henry. Durante o coma, você me disse que nós... Que nós... — Ela estava hesitante.
Sabia que estava sendo difícil para ela perguntar sobre isto, então resolvi ajudar.
— Você quer saber se já fizemos amor?
Ela cora tão profundamente, respira e diz:
— Sim, você me disse que sim...
— Sim, eu disse e foi verdade.
Aquilo a deixou pensativa. E depois ela disse.
— Então eu realmente amava você!
Ela disse como se houvesse descoberto uma grande e profunda verdade, ela estava admirada.
— Sim. E posso lhe afirmar, com certeza, que você me amava muito. Assim como...
— Pode dizer Henry, também quero ouvir você.
— Assim como eu amo você Valerie. Muito, demais.
Ela me olhava com um enorme carinho.
— Eu acredito em você Henry, de verdade, afinal, ninguém faria o que você tem feito por mim sem amar. E quanto a mim, eu também acredito que eu amava você, mesmo porque, eu nunca fui o tipo de pessoa que iria para cama com um homem que eu não amasse. Perdoe-me, não deve estar sendo fácil para você. E quero dizer mais uma vez, que, eu não gosto de te ver sofrendo.
Ela é bem sincera em dizer. E eu respondo:
— Não. Não está sendo fácil. Mas, eu sei que você não tem culpa. E no mais, poderia ser pior. Você poderia não estar aqui, Deus me livra disto. Ou ter ficado com sequelas piores. Sou grato a Deus por você de certa forma, estar bem.
Ela sorri para mim. Então, diz:
— E no mais, você irá me ajudar não é Henry?
— Claro. Farei tudo o que for preciso para te trazer de volta Valerie.
Ela me olha com olhos brilhando e diz:
— Obrigada! Se você vigiava a mim e ao Peter então, você sabe que eu e ele...
— Sim, e eu e você conversamos sobre isto. Nós não tínhamos segredos Valerie. Nunca tivemos. Tanto eu, quanto você, tentou uma vez esconder algo um do outro, e foi péssimo, um verdadeiro desastre.
— Sério?
— Sim nós chegamos até a brigar. Mas, graças a Deus resolvemos logo. Outra coisa que, sempre, nós sempre combinamos, era de nunca permitirmos que um clima ruim se instalasse entre nós. E assim que os problemas surgiam, nós sentávamos para resolver logo.
— Uma relação madura.
— Muito, afinal em breve nos casaríamos.
Ela me olha constrangida agora e pergunta:
— Quando seria o nosso casamento?
Respiro fundo antes de responder, pois, esta ainda é uma questão muito difícil de falar para mim.
— Bem, seria assim que retornássemos a Daggorhorn.
Ela me olha triste e diz...
— É mesmo? Está tudo pronto?
— Sim o que faltava você comprou aqui com Made.
— E os trajes?
— Você os comprou aqui também, os nossos, os das damas, o da sua mãe o de minha avó tudo. Até o meu foi você quem escolheu. Você só não quis ver a minha prova. Disse que preferia surpresa.
Ela me sonda mais algum tempo.
— E onde moraremos?
— Bem a princípio decidimos que seria no chalé. Eu combinei de reforma-lo, mas, comprei um terreno para você e estou construindo uma casa na vila pensando no futuro.
— Mas, eu não tenho desejo de voltar para vila.
— Eu sei, mas ainda assim você concordou, por causa das crianças. Para elas poderem desfrutar da presença das avós. Já que estarei fazendo uma casa para elas no terreno dos fundos do nosso.
— Sério, então já fazíamos planos futuros, até sobre filhos?
Ela perguntou surpresa.
— Sim. E tudo foi em comum acordo.
— Nossa que interessante Henry. Então, você sabe o quanto eu desejo ser mãe?
— Sim, eu sei.
Eu sorri.
Passamos muito tempo conversando, eu estava ajudando Valerie juntar as peças perdidas, e apesar de tudo, era gostoso poder relembrar.
A manhã ao lado de Valerie estava sendo muito agradável. Eu até estava feliz, pois, tudo estava sendo melhor do que eu esperava. Ela estava falante, receptiva. A única, coisa ruim, era que ela não agia como minha noiva. Mas em meu coração, algo me dizia que seria questão de tempo.
Made nos mandou almoço através de Aquiles. E pude perceber que de certa forma todos estavam se esforçando para que eu passasse cada vez mais tempo com ela. Creio que na esperança das coisas acontecerem rápido.
No final da tarde, após as quatro horas, num dado momento ela pergunta.
— Henry quanto tempo eu levei para me declarar a você?
— Advinha...
Ela me olhava pensativa...
— Sinceramente eu não sei.
— Primeiramente, você descobriu logo, que me desejava, e quase me “atacou” um dia na ferraria.
Eu sorri com a lembrança, porém, eu logo tive receio de magoá-la. Mas, surpreendentemente, ela começou a rir muito. E eu perguntei por que, e ela respondeu:
— Isto é a minha cara Henry. Eu sou teimosa quando quero algo.
Eu ri muito desta vez, depois falei:
— Eu que o diga, enquanto você não me seduziu não sossegou.
Disse em tom de brincadeira, porém, parei para olhá-la com receio. E prossegui:
— Mas, respondendo a sua pergunta, você se declarou na primeira semana em que começamos a ficar juntos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela fica vermelha e pergunta...
— E como foi a nossa primeira vez juntos, você sabe...
— Fazendo amor?
— Sim.
— Foi maravilhoso, apesar de que, foi inesperado, como eu te contei antes, por causa de meus traumas era difícil me envolver. Mas, foi a melhor experiência da minha vida. Foi incrível, nós nos completamos em tudo. Nas carícias, nos beijos, nos gestos, nas manifestações de afeto, seja por palavras ou ações. Foi algo inesquecível.
Ela me lança um olhar diferente. Como se estivesse fazendo um esforço para se lembrar. Então, mesmo vermelhinha ela diz:
— Gostaria de me lembrar.
Eu a olho surpreso.
— Por que?
Ela dá um sorriso sem humor e diz:
— Tente imaginar como é para mim, passar um tempo fora de minha vida, e ao acordar, perceber que coisas tão importantes, inclusive para mim, não fazem parte das minhas lembranças, e ter as pessoas olhando para você com compaixão, e os olhos delas te dizerem o tempo todo: “Coitada, ela esqueceu a melhor parte de sua vida.” E eu querer o tempo todo acessar isto e não conseguir, imagina? É muito doloroso Henry. Muito mesmo. Ainda mais quando me deparo com o quanto isto faz você sofrer. Eu nunca quis isto, mesmo antes de saber que amava você. Você se lembra de nossa última conversa na ferraria? Antes de acontecer o que houve com Peter? – Eu confirmo com a cabeça. — Pois é. Realmente eu jamais quis isto e não o quero, me perdoe.
Dou-lhe um sorriso, ainda que fraco, mas, sei que está sendo verdadeira, pelo fato dela tocar nisto de novo, sei que é um ponto de incômodo para ela. O fato é que nenhum de nós dois, esperava passar exatamente por isto.
— Eu sei Valerie e não te culpo querida, eu jamais faria isto.
Ela sorri um pouco mais.
Conversamos bastante, porém, o contato físico quase não existia, eu tinha receio de me aproximar desta forma e afastá-la.
Quando começou a dar indícios de que escureceria, e Valerie tomou mais uma dose do seu chá recomendado por Dartanhã e eu disse:
— Precisamos voltar, Dartanhã virá te ver.
— Claro, tudo bem.
Levanto-me, e quando vou auxiliá-la a se levantar, tomo sua mão e a puxo, porém, o impulso foi um pouco forte, e ela veio direto aos meus braços. Fico quieto, olhando em seus olhos, e esperando sua reação, e o que ela faz, é olhar-me profundamente. E não me afasta em momento algum, porém, cora muito, a medida que o tempo passa. E eu, para não a deixar desconfortável, ajo naturalmente e casualmente.
Voltamos a casa dos Oxford’s e tanto Marvel quanto Marverick e Camelot, que agora estava com eles, se aproximam, para cumprimentar e abraçar Valerie e dizer que ela é bem-vinda. E com Camelot, ela teve quase a mesma reação que teve com Aquiles. Mas, logo se recuperou.
Ela sai para o banho e Aquiles chega, juntamente com Suzette e Made que nos diz:
— Teremos um jantar de ação de graças por Valerie hoje Henry, faremos uma surpresa. Aproveitarei que Araon e Érion estão vindo, pois, Érion tem consulta com Dartanhã amanhã cedo. Eu já avisei Ananda, Elise, Dartanhã e Helena, e gostaria de dizer que pode convidar Constantine se quiser, pois, ele te apoiou tanto.
— Claro! Vou ligar para ele.
Assim, todos saem para seus afazeres, porém, Made e Suzette, e agora minha avó, permanecem e Made diz:
— E... Henry?
— Sim.
Respondo.
— Que tal fazer uma surpresa para ela? Algo especial de você para ela, você sempre foi muito bom com isto...
— Assim que você falou, pensei nisto Made, mas, tenho receio da reação dela.
E Suzette agora toma as minhas mãos e diz:
— Faça meu filho, não tenha medo, por favor. Estamos aqui para te apoiar.
Respiro fundo e digo:
— Tudo bem.
***
Dartanhã chega e faz mais alguns testes e perguntas a Valerie. Ele a atende no quarto dela e ela permite que eu e Suzette a acompanhemos.
Após terminar com ela, ele deixa-a com Suzette e pede um tempo para conversar comigo. E u o chamo para a sala e nos trancamos lá para falarmos com privacidade.
— Henry como foi o dia?
Passo um histórico detalhado de tudo a ele, falo do seu ótimo humor, dela estar apreensiva, mas, ainda assim muito receptiva a tudo, a mim, ao que eu faço. Porém ele me diz:
— Isto é ótimo Henry, no entanto, eu preciso te preparar, que as coisas podem nem sempre ser assim, ela pode ter dias em que acorde arredia, distante, devido as oscilações de humor que podem ocorrer, mas, ainda assim é normal. Só que aí entra a questão, você vai precisar ser forte para lidar com isto, e procurar manter o mesmo ritmo de carinho e cuidado, para que ela aos poucos reestabeleça o vínculo de apego e confiança que tinha com você, e isto é bem importante, mas, vou logo avisando, não será uma tarefa fácil, e pode ser bem desgastante.
— Tudo bem.
Eu respondo apreensivo. E Dartanhã diz:
— Henry, eu gostaria de ter alguns horários com você neste período, quero te acompanhar, para te dar suporte, não como amigo, mas, como profissional, acho que isto poderá fazer uma diferença enorme.
Fico o observando, e por mais desconfortável que aquilo pareça para mim, eu concordo e digo:
— Tudo bem Dartanhã, eu aceito, mas quero que saiba que não será tarefa fácil, tenho muitas dificuldades em me abrir.
— Eu sei, e garanto que saberei lidar com isto. Amanhã já começaremos, logo após o horário com Érion, tudo bem para você?
Ele sorri para mim e eu digo:
— Claro. E obrigado, venha jantar conosco mais tarde, e traga Helena. Pois, faremos uma surpresa para Valerie. Um jantar de ação de graças.
— Claro que virei e com prazer.
Ele se despede e sai.
***
Todos que convidamos comparecem ao jantar. Inclusive alguém que eu não esperava: Louise. Ela vem com Constantine. Percebo que ela procura se aproximar de Valerie e aquilo me preocupa.
Porém, também noto que Ananda, Elise e Made, fazem tipo que um complô para não deixar Valerie sozinha com ela, e isto me agrada. Inclusive fiquei impressionado que mesmo Valerie não se lembrando de Ananda e Elise, após as apresentações e após eu e Made termos explicado a ela de quem se tratavam, ela foi extremamente receptiva com elas e nem parecia que não se lembrava.
Com Araon e Érion, foi parecido, e ela relaxou ainda mais, quando Araon fez suas costumeiras brincadeiras para deixa-la à vontade.
Eu percebo que Aquiles, Camelot, Araon e Érion fazem o mesmo que as meninas fizeram com Valerie, de não a deixar sozinha, por causa de Louise, comigo. Creio que a pedido das meninas. E noto que isto deixa Louise descontente.
Constantine conversa muito conosco, juntamente com Dartanhã. E Helena, após passar um tempo conversando com Valerie e com as meninas, junta-se a Suzette e minha avó.
Porém, durante o jantar, nem tudo corre perfeitamente, pois, algo desconfortável acontece.
É óbvio que procuro me sentar próximo a Valerie, só que antes olho para ela nos olhos, e pergunto próximo ao seu ouvido:
— Posso me sentar ao seu lado?
Ela sorri corada para mim e diz:
— Claro, seria um prazer Sr. Lazar.
Devolvo-lhe o sorriso e digo-lhe:
— Fico imensamente feliz Sta. Valerie.
Assim, quando me sento ao seu lado, sinto uma cadeira ser arrastada do meu outro lado. E procuro ver quem é para ter a decepção de ver que era Louise. Eu sabia que aquilo não seria bom. Imediatamente, vejo em alguns olhares, preocupação, em especial, nas meninas, em Aquiles e Camelot.
Antes de iniciarmos a comer, Marvel se levanta e diz:
— Bem é com muita alegria que hoje recebemos a todos vocês. Pois, temos um enorme motivo para comemorar. O Criador hoje, nos deu a graça de trazer a nossa Branquinha de volta para nós.
Valerie o olha com uma interrogação e digo-lhe no ouvido:
— É o apelido que Araon colocou em você, e você não ligava por achar carinhoso, muitos pegaram a mesma mania.
Ela sorriu para mim e também disse em meu ouvido:
— Não tem problemas, eu gostei, realmente é carinhoso.
Por falar em Araon, ele e Érion ao chegarem tiveram uma crise de choro comigo. Pois, ao cumprimentarem Valerie e ver que por mais receptiva e carinhosa que ela fosse, ela estava diferente e ainda distante por não se lembrar deles, aquilo foi um choque e uma tristeza para cada um e principalmente para Érion que era tão apegado a ela.
Eu fiquei imaginando como seria então, para o tio e a tia e Sophie. Assim, nos trancamos no meu quarto e lá eles extravasaram a sua tristeza pelo que presenciaram, para não demonstrarem perto de Valerie e obviamente, coloquei a minha para fora também, o que me permitiu ficar mais aliviado.
Voltando ao jantar, Marvel prossegue:
— E claro, o primeiro ao qual devemos e vamos agradecer é a Ele que tem sido tão fiel e misericordioso conosco, mesmo diante de tantas adversidades. Eu quero começar este agradecimento em uma oração, mas, depois, eu sugiro que aquele que o desejar também o faça.
E Marvel continua:
— “Senhor te agradecemos por esta noite, por todos nós reunidos como uma grande família. Te agradecemos pela benção que nos deste de trazer Valerie de volta do coma. E por fim quero te agradecer em especial por: apesar das dores que passamos e temos passado, a paz ter voltado a reinar no meu lar, na minha família e entre eu e meus irmãos. Agradeço-lhe meu Deus em Teu Fillho. Amém!”
E todos respondemos em uníssono:
— Amém!
E sei em meu coração, que este era o meu momento, assim, lanço minha timidez de lado e levanto-me para minha vez.
— Bem, eu tenho inúmeros motivos para agradecer, primeiro a vocês, por estarem aqui, por compartilharem comigo de tudo o que eu tenho vivido, sendo muitas vezes meu suporte e amparo, cada um a seu tempo e a sua maneira. E a você Valerie. – Ela já me olhava admirada, porém, assim que eu pronuncio o seu nome, ela aprofunda o olhar. – Por você ser forte, uma guerreira. Que após ter passado por todos estes dias, naquela cama, em coma, ter superado e está hoje aqui firme, lutando para prosseguir, enfrentando pouco a pouco cada situação de estranheza ao seu redor, da melhor maneira possível. Sendo gentil, quando muitas vezes sei, que, o seu desejo é sair correndo e se esconder, principalmente quando alguém que você vê que a ama a trata com carinho e você não se lembra de quem se trata, mas, vejo o quanto você se esforça para ao menos, ser agradável. Obrigado querida, por você ser tão forte, valente e especial.
Ela sorri para mim, mas, tem seu rosto vermelho e lágrimas nos olhos e sei que é por que minhas palavras foram de encontro aos seus receios.
Assim, eu prossigo:
— “Senhor, neste primeiro momento também quero agradecer. Agradecer pela vida, por estarmos aqui. Por estas pessoas queridas que o Senhor me deu não só como amigos, pois, a maioria hoje, é uma extensão de família para mim. Obrigado por que tem usado a Marvel e seus irmãos para me acolherem em sua casa neste momento de precisão, retribua aos teus filhos tudo o quanto eles têm me feito, galardoe-os em dobro Senhor. Abençoe a Araon e Érion e sua família por serem um apoio constante e ombros que se dispõe a me acalentar. A Aquiles e Camelot, que muitas vezes arriscam suas vidas para manterem segura a minha e de minha noiva e de minha sogra e minha avó. A Dartanhã e Helena que o Senhor tem usado maravilhosamente não só em favor de minha vida e de Valerie, nesta terra, com os talentos que o Senhor os presenteou. A Constantine e sua família, que também o Senhor tem usado para me abençoar e apoiar. A Ananda e a Elise que tem estado sempre por perto nestes momentos. E agora te agradeço por minha sogra e minha avó, e suas sempre bem-vindas, palavras de sabedoria e conselho nos momentos mais sombrios, onde elas são capazes de olhar acima de suas próprias dores. E em especial quero te agradecer Senhor pela vida de Valerie, e pedir que abençoe infinitamente a minha noiva, sim, pois, apesar de tudo, é o que ela é, não tenho dúvidas que o Senhor foi quem me deu a ela, para amar, cuidar, proteger e zelar não só nos bons momentos ao qual vivemos, mas, em dias difíceis e sombrios como estes têm sido. Peço-te que me dê forças e amparo quando eu fraquejar, me sustente para que eu possa prosseguir com esta jornada. E que no tempo certo, reestabeleça toda a sua saúde. Por completo, mas, enquanto este dia não chegar, nos ensine a lidar com este momento de adversidade. A mim e a ela. Te peço, e também te agradeço por tudo, em Nome do Teu Filho, Amém!”
Foi uma surpresa para mim, ver que todos os améns, em resposta, foram embargados por choro, todos menos um, o de Louise que me olhava irritada, porém eu ignorava. Até Valerie tinha lágrimas correndo em seus olhos e me olhava com gratidão.
Por fim, eu deixei as minhas, que eu vinha retendo, correrem, e ao voltar ao meu lugar, e me sentar ao lado dela, ela discretamente tomou minha mão na sua e me deu um sorriso, e pedindo-lhe com o olhar, fiz um discreto sinal de que iria beijar seu rosto, e ela assentiu que sim e eu o fiz.
Muitos outros agradeceram. E assim o jantar prosseguiu.
Procurei ignorar Louise, mas, durante todo o tempo, ela parecia não querer deixar que eu conversasse com Valerie. Entrava no meio, puxava assunto. E por fim, eu já estava ficando irritado, pois, eu percebia Valerie acuada de conversar, por receio de estar me interrompendo, já que Louise demonstrava-se solícita demais de minha atenção. Porém, algo acontece: Ananda pede licença e se retira da mesa com Camelot, eles vão em direção à cozinha. Minutos depois, Camelot volta e me solicita rapidamente. Sem compreender, eu peço licença para Valerie e depois a todos e saio. Todavia antes de me afastar beijo a testa dela, que sorri para mim.
Ao chegar a cozinha, Ananda me olhava furiosa, e Camelot estava ao seu lado, e então, ela diz:
— Henry eu vou direto ao assunto, você sabe que não sou de rodeios: o que, esta, “biscate” da Louise, faz aqui?
— Ela infelizmente é filha de Constantine, e veio com ele.
Digo simplesmente e Ananda exala raiva.
— Olha não só eu, mas todos nós, estamos percebendo que ela não está aqui só para acompanhar o pai, nem muito menos por Valerie. Então, por favor, tome providência, pois, se aquela mulher magoar Valerie eu não respondo por mim, muito menos Made, nós estamos enfurecidas com isto.
— Eu sei, e eu também não estou feliz, pois, está sendo constrangedor para mim, eu já disse a ela que não tenho interesse, e que ela deve seguir seu caminho, mas, você conhece Louise. Ela é persistente.
Ananda nem me deixa terminar...
— Ela é uma víbora isto sim, nem sei como um homem maravilhoso como Constantine pode ter feito uma filha daquela. Olha Henry, vou ser clara e sincera, não estou com bom pressentimento quanto a isto, acho que você deveria fazer algo, sei lá, conversar com Constantine...
Neste instante Aquiles chega. Acho que estava preocupado. E, Ananda continua.
— Mas, ouça-me fique atento, e faça algo, pois, eu te juro que se você permitir aquela mulher ferir ou magoar Valerie eu mesmo mato você.
Todos ficam surpresos com o tom de Ananda e até eu, pois apesar de conhecer seu jeito, sei que algo está fora dos limites, e ela parecendo entender diz:
— Já vi Louise destruir a relação de um casal muito amigo meu, ela é uma cobra Henry, você e os rapazes não tem noção do que ela é capaz de fazer, quando ela quer algo. Por isto estou insistindo, afaste ela daqui, de Valerie e se necessário for, conversa com Constantine, dane-se se ele ficar aborrecido, é sua noiva em jogo aqui. E outra, você foi dormir com ela por que quis, arque com as consequências agora. E no mais, um conselho, corra dela como o diabo corre da cruz, não a subestime Henry, pelo amor de Deus, ela é sagaz. É só isto, é meu único aviso, eu estou de olho. E mais, vou me sentar no seu lugar e você se senta no meu, do outro lado de Valerie, desculpe Camelot, mas, quero ele longe de Louise.
— Tudo bem, eu entendo e apoio.
Camelot diz.
Ananda sai, me deixando a sós com Aquiles e Camelot.
Neste momento é Camelot que diz:
— Desculpe senhor, não tive intenção de te desrespeitar, mas, ficaria complicado deixar Ananda vir sozinha para cozinha com o Senhor, e no mais, me perdoe, eu concordo com ela em tudo, de verdade, acho que precisa tomar muito cuidado com Louise. Posso retirar-me?
— Claro Camelot, e não se desculpe eu compreendi tudo, e fico feliz que se preocupem com Valerie a este ponto.
Camelot sai e Aquiles se aproxima mais de mim e diz:
— Henry desculpe, apesar de não aprovar o tom de Ananda, também concordo com tudo o que ela disse e sei que o Heitor já tinha te alertado também, até mais a fundo, pois, ele compartilhou de sua preocupação comigo, e eu reforço o que ele disse naquele dia. Tome cuidado por você também. E realmente acho viável que converse com Constantine.
Respiro fundo e respondo:
— Obrigado Aquiles, pensarei no que irei fazer.
Volto a sala de jantar, ao meu novo lugar, e ao entrar, vejo Louise incomodada e olhando indignada para mim, e eu a ignoro. Sento-me no local que Ananda deixou para mim, ao lado de Valerie.
O restante do jantar corre bem, e ao término, todas as mulheres se deslocam até a cozinha para ajudarem com as louças, inclusive Valerie.
Eu e os homens, saímos para sala, para conversarmos.
Num dado momento, grupos de afinidades de assuntos vão se formando, e percebo que eu fico com Constantine por um tempo, e percebo que de certa forma aquilo foi proposital. Porém, não me incomoda, pois sei o quanto todos estão preocupados com a questão de Louise. Assim resolvo intervir.
— Constantine, tenho algo delicado para te falar e uma ajuda a pedir.
Ele me olha profundamente, aguardando.
— Me desculpe nem sei por onde começar, mas, é que eu estou tendo problemas em manter Louise distante, já conversei com ela, disse que eu não tenho interesse, e ela insiste. Ela dizia que Valerie poderia não acordar, dizia que se acordasse poderia ter sequelas, e agora que Valerie acordou com a Amnésia, ela parece que continua firme no propósito de me fazer desistir de Valerie, não que eu corra risco disto, pois, eu jamais o faria, tenho certeza e ciência do eu sinto e o que quero. Porém, ela tem gerado situações muito constrangedoras... Meus amigos também estão insatisfeitos, pois, todos nós tememos o que estas coisas podem causar a Valerie. O que você pode me dizer?
Ele me olhava impassível e assim ficou por um longo tempo e neste instante, Aquiles se aproximou.
E, Constantine disse:
— Está aqui um homem que jamais me deixaria mentir. Aquiles me conhece Henry, e ele sabe o quanto já passei desgostos por causa deste jeito de Louise. Porém, quando eu me dei conta de tudo, era muito tarde. E eu tenho percebido o que ela tem feito em relação a você e eu já lhe chamei a atenção. Mas, como sempre ela não houve, hoje mesmo eu não a traria, mas, ela insistiu e quando eu vi, ela já estava pronta e se não viesse comigo viria sozinha.
— Entendo, mas, quero que saiba que se precisar tomar atitudes drásticas eu tomarei, Valerie está em meu primeiro plano, sempre.
— Claro Henry, respeito isto.
— Tudo bem, obrigado.
***
Assim que as mulheres terminam com a cozinha elas se juntam a nós na sala, reservo um lugar ao meu lado para Valerie, e incrivelmente, quando elas voltam, quem vem imediatamente para se sentar ali é Louise. Porém, antes de que ela o faça, eu digo:
— Este lugar está reservado Louise, este lugar é de minha noiva.
Ela me olha furiosa, e quando iria argumentar, Constantine diz:
— Louise, você ouviu o Henry? Este lugar é de Valerie.
Valerie me olha constrangida, porém, faço sinal para que venha até mim e ela o faz. Todavia, ela faz algo surpreendente:
— Deixe ela se sentar Henry. Vá Louise sente-se.
Louise me olha vitoriosa e todos ficam estáticos, porém, é Valerie que, mais uma vez, surpreende a todos, pois, diz:
— Tenho um lugar melhor para me sentar.
Então, ela me olha e pede permissão no olhar para sentar-se no meu colo.
Dou-lhe um amplo sorriso em resposta. Mas, ainda estou surpreso.
Assim que ela se senta, sinto-a um pouco tensa e digo em seu ouvido:
— Fique à vontade, este lugar é seu, desfrute dele com prazer.
Ela me olha curiosa, sorri tímida e diz em meu ouvido:
— Eu quis ajudar você, me perdoe, pois, senti que ela estava constrangendo você.
Sorri para ela e disse:
— E estava mesmo, obrigado por me proteger.
— É o mínimo que posso fazer por você, pelo tanto que você tem feito por mim.
Dou-lhe um sorriso e beijo sua bochecha e pergunto:
— Algum problema fazer isto de vez em quando?
— Não, fique à vontade Sr. Lazar.
Ela diz sorrindo.
As conversas seguem normalmente, e percebo que todos agem naturalmente com relação a atitude de Valerie vir para o meu colo, creio que para deixa-la à vontade.
Passa-se mais algum tempo e eu resolvo colocar meu plano de minha surpresa para ela em ação.
Beijo seu rosto novamente e digo em seu ouvido:
— Preciso dar uma saída rápida e já volto, se importa?
— Não. Eu te espero, e guardo o seu lugar.
Ela diz me dando um sorriso travesso, eu devolvo-lhe outro e saio. Assim que o faço, Dartanhã vem atrás. Vou até o quarto para pegar o alaúde e ele me segue e quando entro no quarto ele diz:
— Que situação desagradável com Louise, como você está?
— Muito bem, apesar disto, afinal, a reação de Valerie foi melhor do que eu esperava.
Ele me olha estranhamente e diz:
— É sobre isto que quero falar Henry, vá com calma, não crie expectativas ainda, pois, creio que a atitude dela está ligada aquilo que te falei sobre impulsividade, você se lembra? Falta de pudor, pois, pelo que me lembre, ela não era exatamente assim.
Paro para refletir e vejo que é verdade. Porém, fico pensando em algo e digo...
— Você quer dizer que ela só tem agido assim comigo, por impulsividade?
— Não Henry, é claro que não posso afirmar uma coisa destas, mas, que posso afirmar que isto contribui, sim, eu posso. Só quero que seja cauteloso, e não crie expectativas, pelo simples fato de poder deixa-la coagida, mesmo que sem querer, o que pode gerar estresse o que não é bom no quadro dela. Mas, ouça, isto não quer dizer que não deve aproveitar um pouco isto para se aproximar, é claro que pode, só lhe peço cautela.
— Tudo bem Dartanhã eu terei. Obrigado.
Confesso que assim que ele saiu, meu coração se entristeceu com a possibilidade das atitudes de Valerie terem sido incentivadas por impulsividade. Aquilo na verdade me quebrou e abalou minhas certezas.
Mas, não desistiria de fazer o que planejei.
Pego o arranjo de Orquídeas que comprei para ela, e o presente que havia comprado para quando acordasse e o alaúde e saio do quarto em direção a sala.
Faltando um metro para deixar o corredor e passar pela porta, coloco as flores e o presente na mesinha, eu começo a dedilhar:
Ouço as conversas diminuírem, até que o silêncio impera e sussurros começam. Assim entro cantando para ela.
Sinto que ela se perde no gesto de me olhar enquanto canto e toco para ela, e tem seu olhar o tempo todo, imerso no meu. Vejo que ela está sem reação.
Quando estou terminando, percebo Elise vir até mim, ela aproxima-se perguntando baixinho:
— Quer que eu ligue o som para que os outros se distraiam para que você possa dar atenção a ela?
Aceno que sim com a cabeça e ela caminha até o som e assim que eu termino, algo começa a tocar, e volto ao corredor, e pego o arranjo e o presente, na mesinha e deixo o alaúde, e chego-me até Valerie.
Tomo-a pela mão e a conduzo até o jardim dos Oxford’s e percebo que ela está tensa, mas, não hesita em me acompanhar.
Assim que chego até lá, fico de frente para ela e digo-lhe entregando uma pequena bolsa, com uma caixinha:
— Este, é um presente meu para você. E as flores, são para você deixar no seu quarto. E a carta eu gostaria que lesse esta noite. Antes de dormir, é mais poética um pouco que as que eu costumo escrever, acho que estes dias de melancolia profunda, sem você, me deixaram mais inspirado, mas, foi escrita com o coração e com a minha alma Valerie. Quanto a canção, a letra dela é toda a verdade do que se passa comigo.
Vejo que ela ainda está sem palavras e recebe cada presente com a respiração alterada, assim que ela os pega em suas mãos ela me olha. E ali, eu posso ver o que realmente se passa em seu coração, pois apesar de ela não ter nossas memórias, a essência de Valerie é a mesma para mim, ali não havia como eu me enganar.
Ela estava emocionada e tinha lágrimas em seus olhos. Para não a deixar desconfortável com o silêncio eu disse:
— Abra e veja se gosta.
Ela me dá um sorriso tímido e põe o arranjo na mesinha da varanda.
Assim, ela pega a pequena bolsa e retira a caixinha lá de dentro.
Ela coloca a bolsinha também na mesa, e agora, enquanto abre a caixinha, tem seu olhar preso no meu.
Quando termina e olha dentro, ela sorri maravilhada enquanto retira entre seu polegar e indicador, uma linda corrente italiana com um Relicário no formato do meu, oval, mas com um designe totalmente feminino, pois, além de entalhado, na parte da frente tinha minúsculas safiras cravejadas, intercaladas com diamantes em todo o seu contorno para combinar com seu anel de noivado, que tinha uma grande safira ao centro e era rodeado de pequenos diamantes.
Ao centro do Relicário, eu mandei gravar da mesma forma que havia gravado no meu:
~ Henlerie~
Henry e Valerie
Para Sempre!
E ao abrir, por dentro, assim com o meu, havia um compartimento onde poderiam ser gravadas mais algumas mensagens. E estava escrito de um lado:
~ Valerie ~
Dona
Absoluta do
Meu Coração!
E do outro Lado:
Amo Você!
Seu Henry.
~ Eternamente~
Ela o olha com carinho e diz:
— É lindo, muito obrigada!
— É uma cópia quase exata do que você mandou fazer para mim, a diferença é que o designe, é feminino e o seu é cravejado com pedras para combinar com o seu anel de noivado. Mas o que está escrito é quase a mesma coisa, olhe.
Toco o meu em meu pescoço e sem retirá-lo estendo para ela. E como ainda está em meu pescoço, quando ela se aproxima para ver, nós ficamos bem próximos, de uma forma que seu rosto está a centímetros do meu. Sinto sua respiração próxima já que tem seu rosto levantado para admirar o meu relicário, ela compara os dois. E, admirada diz:
— Foi eu que mandei fazer este?
— Sim, você escreveu e desenhou tudo como queria e pediu a Érion que o comprasse para você e você me deu ele de presente nas vésperas de viajar para cá. Eu não o tiro para nada. Eu amei o meu. Já o seu durante o seu coma, ei fui a uma loja e mostrei o meu e seu anel e pedi que o fizessem assim, eu queria dar-lhe no dia em que acordasse. E, aqui está.
Ela respira fundo e diz:
— Também amei o meu, pode coloca-lo para mim?
— Claro! Vai usá-lo?
Ela sorri e diz:
— Sim e por que não? É lindo e foi você quem me deu, e, eu sei que foi de coração.
Movimento-a para que se vire de costas para mim, e delicadamente envolvo seu pescoço com a corrente italiana.
Quando vou fechá-la acabo tendo que me aproximar muito, quase colando nossos corpos. Ela está de costas para mim, e o perfume que exala de seu pescoço, quando afasto suavemente seus cabelos para poder manusear o fecho da corrente, é delicioso. E assim que me alcança, faz minha boca salivar de desejo de correr meus lábios e meus beijos em sua pele. Sinto-a tensa e leves tremores percorrer seu corpo, porém, eu não sei se é receio de que eu tente algo como beijá-la ou abraça-la ou por que justamente quer isto...
E as palavras de Dartanhã sobre ela agir por impulsividade dançam em minha mente e, convenço-me de que ela somente está agindo por impulso. E afasto-me.
E assim que o faço ouço um pequeno gemido de frustração dela. Mas, me convenço que foi algo da minha cabeça que está me fazendo ouvir o que quero e desejo.
Assim, agora viro-a de frente para mim e ela toca seu relicário e o abre e o expõe para que eu veja e diz:
— É realmente lindo, eu amei Henry. Você é um perfeito cavalheiro, estou encantada. Assim, como eu amei ter cantado para mim, eu me lembro de você fazendo isto no coma. E você é perfeito fazendo isto, cantando e tocando.
Dou-lhe um sorriso e digo-lhe, provocando-lhe:
— Sempre as ordens, madame. E você deve saber que foi uma das curas que você provocou em mim, meu trauma da perda de minha mãe, não me permitiu fazê-lo por longos anos, voltei a cantar e tocar por você, apesar de que, tocar ainda seja penoso. Por falar nisto, amanhã eu quero lhe mostrar algo...
Passamos um longo tempo na varanda conversando, e assim que percebo que ela está com sono digo:
— Você precisa dormir, está cansada.
— Estou sim, mas, onde vou dormir? Não será mais necessária a cama do Hospital será?
— Não, já pedi que Aquiles e Camelot a substituísse hoje. Sua cama já está lá.
— Há sim, quem dorme lá comigo? Já que lá tem duas camas.
— Durante o coma era, eu ou sua mãe, ou Sophie ou a minha avó. Mas...
— Mas...
— Antes era eu...
Ela me olha de olhos arregalados e diz:
— Mas, nós dormíamos separados?
Vejo curiosidade nos seus olhos.
— Na verdade, no início não, mas depois, sim, pois, quase cedemos ao desejo e achamos melhor a partir daquele dia, dormirmos separados.
— Mas, Henry por que deixamos de fazer amor? Me explica os detalhes, eu ainda não entendi.
— Bem eu demorei a ceder, pois, eu queria fazê-lo só após me casar com você, porém, aconteceu algo que nos fez ceder, mas, assim que ocorreram as duas vezes que eu te falei, fizemos um compromisso de esperar até o casamento por mim, meus traumas e questões, no entanto, não foi fácil, pois, logo depois eu fiquei curado, mas, ainda assim, você quis manter o compromisso. E acordamos continuar. Como eu disse, aconteceu uma vez lá em casa...
— Sim, no seu quarto...
Ela disse...
— Sim e depois no chuveiro, que foi perfeito, maravilhoso. E depois, no chalé. Eu conto como duas, mas, a primeira foi com dois tempos.
— Hum, entendi... E no chalé foi onde?
— Começamos na cama e finalizamos no chuveiro, você havia gostado de algo que fizemos no chuveiro, lá em casa, e quis repetir.
Ela enrubesceu-se completamente, mas, disse:
— Posso saber do que eu gostei tanto?
— Claro! – Aproximei-me dela e toquei seu pescoço, e cheguei meus lábios próximo ao seu ouvido e sussurrei. – A maneira com que eu penetrei você, erguendo-a em meu colo, foi intenso e gostoso demais.
Não sei dizer se foram minhas palavras ou a proximidade dos meus lábios de sua pele, ou mesmo as duas coisas, porém, o seu corpo estremeceu visivelmente e eu senti puro calor irradiar de sua pele, e seu pescoço aqueceu minha palma. Senti a pulsação de sua artéria ali, aumentar consideravelmente. Ela tinha desviado o seu olhar para o chão, e lentamente eu fui erguendo sua cabeça pelo seu queixo, até alcançar seus olhos.
Então, ela me pergunta, num fio de voz:
— O que foi?
Respondo com toda sinceridade que tenho e sem pensar.
— Quero te beijar. Não... Na verdade, eu estou louco para beijar você.
Seus olhos brilham e sinto uma enorme onda de eletricidade correr entre nós, fazendo-me arrepiar completamente, mas, penso: só eu estou sentindo isto?
Por fim, Valerie responde:
— Por que não experimenta?
Sou sincero:
— Mas, e você?
Ela também é sincera:
— Eu também quero experimentar.
Sem pensar em mais nada, com minha mão livre, eu envolvo a sua cintura, e a que tenho em seu pescoço, eu levo até sua nuca entre os seus cabelos e com a duas, puxo-a com delicadeza para não a assustar e colo o seu corpo ao meu. E a sensação daquele calor, após tanto tempo, é esplêndida. Passo ainda um tempo contemplando os seus olhos, até que ela olha para meus lábios e eu vejo ali o sinal de que ela estava pronta, ela estava pronta para provar mais uma vez dos meus lábios.
Aproximo os meus dos seus, e primeiro roço-os com carinho, levando-a a gemer baixo, o que me leva a sorrir por aquela pequena reação, faço de novo. Ela geme mais alto um pouco... Agora, eu colo os meus lábios no seu e começo a correr a pontinha de minha língua com suavidade em toda a extensão dos seus, e aquilo é tão gostoso, realmente é como se estivéssemos explorando a boca um do outro pela primeira vez. Faço isto novamente e agora ela envolve minha nuca com suas mãos quentes.
Com este incentivo, eu pressiono seus lábios com minha língua pedindo passagem, e ela não hesita, pois, além de abri-los ela recebe minha língua com a sua de maneira tímida, mas, deliciosa.
E assim, como em todos os nossos beijos, puro calor a partir daquele contato começa a irradiar por meu corpo. Será que apenas eu estou sentindo? Parece que respondendo à pergunta de minha mente ela agora leva uma de suas mãos entre as mechas dos meus cabelos e as entrelaça ali. E puxa ainda mais meu rosto contra o seu e eu, instintivamente, puxo-a contra mim pela cintura e pelas suas costas, onde tenho uma mão correndo, buscando contato. E assim, que realizo este gesto, ela geme novamente e creio que é por satisfação, pois cola mais ainda seu corpo ao meu.
O beijo é delicado, porém, ainda é quente e sensual. Talvez eu sinta isto por ser Valerie, pois, acho minha noiva uma mulher extremamente sensual.
Quando ele cresce em intensidade, de repente, somos surpreendidos por uma voz dizendo:
— Henry eu estou indo... – Ela hesita. – Eu vim me despedi de você.
Era Louise, e quando olhei seu rosto. Ela estava chocada e decepcionada...
Senti Valerie querendo se afastar, mas, eu não permiti, ao contrário, mantive ela presa e colada ao meu corpo pela cintura.
Disse secamente a Louise:
— Boa noite e tchau Louise, desculpe, eu estou muito ocupado com a minha noiva no momento.
Valerie com a sua costumeira educação, que coma algum tocou, diz:
— Boa noite Louise, obrigada por ter vindo.
Louise tenta sorrir, mas, na verdade, sai exibindo uma careta.
— Henry, o que houve entre você e Louise? É óbvio que esta obstinação dela por você só é pertinente a alguém que já tenha experimentado de algo que gostou. O que me leva a crer que já tiveram algo, mas, a pergunta é, o que?
Apesar da pergunta de Valerie, me pegar desprevenido eu conto tudo a ela, sobre os outros envolvimentos que tive antes dela, sobre Ananda, sobre como reencontrei Louise, sobre já tê-la dito que não a quero. Sobre o fato dela saber de tudo antes do coma, e agora não se lembrar mais, disse que ela havia aceitado, pois, infelizmente era o meu passado.
Conto tudo exatamente tudo, e não escondo nada, ela fica surpresa quanto a Ananda, mas, entende pelo fato de ver como Ananda é bem resolvida e ama Camelot e compreende que aquilo foi mesmo passado. Porém, ela me diz sobre Louise:
— Não confio nela, desde o momento em que a vi pela primeira vez, no primeiro contato.
E eu digo.
— Pode ser seu instinto de autopreservação, de sangue de lobo te alertando. Acredite nele, pois, os nossos verdadeiros instintos não mentem.
— Verdade, eu sei. Mas, acho que você também, deve estar atento.
— Obrigado, eu estarei. Mas, agora acho que você precisa dormir, vamos. Eu vou preparar seus chás, enquanto se prepara para dormir.
Levo Valerie até seu quarto e enquanto ela entra, sigo até a cozinha para preparar seus chás.
Ao chegar lá encontro Ananda e Camelot, Made e Araon e Elise e Érion e Ananda diz:
— O que Louise viu que saiu daqui cuspindo marimbondo?
— Imaginem?
Simplesmente respondo sorrindo, sem entrar em detalhes...
Mas as meninas ficaram tão elétricas, que mesmo sendo eu, como meu senso de privacidade, elas não se contiveram...
— Você a beijou?
Foi Ananda quem perguntou, e em seguida Made:
— Responde Henry, como foi?
— Epa!
Eu disse tenso e não as deixo terminar.
— O que leva vocês a acreditarem que eu darei detalhes?
Disse sério, porém, Ananda disse:
— Só reponde então, que me dou por satisfeita... Você a beijou?
Por mais que o meu rosto estivesse queimando, eu disse:
— Sim.
E ela, Made e Elise, começaram a pular, e antes que a coisa aumentasse demais eu disse, e fui ajudado pelos rapazes a contê-las.
— Calma aí gente, não é nada do que estão pensando, vão com calma está bem, não quero pressioná-la.
— Mas, ela correspondeu?
Agora foi Made. E mesmo impaciente respondi, me lembrando das reações de Valerie que foram encorajadoras para mim.
— Sim Made, correspondeu e agora chega! Me deem licença.
Saio em direção ao quarto de Valerie para levar seu chá. E deixo as meninas eufóricas na cozinha e os rapazes tentando contê-las.
Ao chegar até lá, bato a porta e Suzette abre, e digo:
— Desculpe Suzette, vim trazer os chás dela.
— Claro. Entre já estou saindo. Ela está no banho. Mas, Henry, quero te dar um conselho, posso?
— Sim, certamente.
— Primeiro devo dizer que ela me disse que se beijaram. – Fiquei constrangido. Mas continuei ouvindo. – Eu estou feliz e vi que de certa forma mexeu com ela. Mas, acho que você deveria dosar as demonstrações de contato, deixe ela sentir falta. Deixe ela te procurar. Por exemplo, imagino que esteja morrendo de vontade de dormir com ela. – Aquilo fez meu rosto queimar de vergonha. Suzette percebeu que eu me constrangi e disse. — Desculpe, não se envergonhe meu filho, não é esta a minha, intensão. O que quero fazer é te aconselhar mesmo. Não o faça. Não ainda, espere, vá instigando-a a desejá-lo por perto, a sentir falta de ter mais contato, até que ela mesma o procure. Mas, nem assim, deixe de dar atenção, se houver oportunidade se aproximem sim, se beijem, mas, com cautela, conheço minha filha, estou te dando dicas que não é qualquer sogra que faria...
Sorri para Suzette, pois, compreendi que minha sogra estava tentando me ajudar a novamente seduzir minha noiva, e aquilo soava engraçado.
Ela compreendeu que entendi, pois, ficou vermelha e disse:
— Estou indo, assim que terminar com ela me chame, pois, eu dormirei aqui com ela.
— Sim.
Passaram-se mais algum tempo e Valerie saiu do banho, e seu cheiro era delicioso. E ela disse:
— Não se arrumou ainda?
— Não, eu vou me arrumar em meu quarto. Assim que eu sair, sua mãe virá para dormir com você.
Senti que seu semblante se entristeceu, mas, logo ela disfarçou.
Então, eu disse:
— Vem, eu vou coloca-la para dormir.
Retiro a colcha da cama e pego um cobertor enquanto ela se deita. Assim que ela o faz, dou-lhe seus chás e ela toma. Um a um. Porém pergunta.
— Para que serve cada um?
— Este, para você dormir e abaixar sua taxa de ansiedade, este para que você passe o dia mais calma, e este... — Hesitei um pouco. – Este é para evitar a gravidez.
Ela corou e disse:
— Ah, sim... Então era desta maneira que evitávamos?
— Não. Na verdade, nós evitamos por camisinha, mas, pedimos a Helena as medicações, pois, não queríamos utilizá-la sempre após o casamento. Assim, como demora pelo menos dois meses para fazer efeito, você já o toma.
— Entendi, obrigada.
— Por nada, quero fazer algo que sempre fazíamos juntos que você adorava...
— O que?
Ela me olhava curiosa.
— Ler a Bíblia.
Digo e vou em busca da dela. Ela me olha surpresa e maravilhada e diz:
— Nossa que linda, é feminina?
— Sim é sua, eu a dei a você, também te dei uma biblioteca para voltar a ler, como sei que gosta!
Ela levou a mão na boca para abafar um grito eufórico e disse:
— Nossa! Uma biblioteca para mim Henry?
— Sim, Valerie. Era de minha mãe, e meu pai deu a mim, e eu dei a você.
— Obrigada Henry!
Ela me disse feliz e pulou em meu pescoço. Minha vontade foi abraça-la forte, e toma-la num beijo voraz. Porém, lembrei-me que precisava ir com calma e a abracei com cuidado, beijando o topo de sua cabeça.
Ela então, se afastou constrangida e disse:
— Desculpe, eu me empolguei.
Porém, eu disse:
— Não tem problema, é até bom, fica cada vez mais parecida com você.
Ao dizer estas palavras, uma pontada de tristeza cruza seu olhar e não compreendendo, eu pergunto:
— O que foi?
— Nada.
Ela responde rápido demais e depois diz:
— Vamos ler?
E eu repondo:
— Sim, e hoje eu escolhi um texto que fala um pouco a respeito do momento em que estamos vivendo, está no livro de Romanos, no capítulo 8, no versículo 28:
“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”
— Este texto vem falar conosco Valerie, exatamente sobre o que estamos vivendo. Aqui diz que todas, todas as coisas contribuem em conjunto, para o bem daqueles que amam a Deus. E são chamados ou escolhidos, ou separados, como queira, segundo o propósito, Dele para nós. Eu te pergunto, você ama a Deus?
— Claro, tanto que lutei para meu pai não me morder, não queria ser um ser amaldiçoado, Deus me livra!
Sorri com sua sinceridade. E disse-lhe:
— Devo dizer que também amo, embora pelas coisas que vivi através da perda de minha mãe, eu tenha andado muito distante da fé, não da fé na existência, Dele, eu continuei crendo que Ele existia, somente não cria que Ele me amava. Mas, aí Ele milagrosamente me deu você e mesmo diante de tantas adversidades, continuamos juntos, e aí aconteceu o incidente com você e Ele te manteve viva, e mesmo após este tempo todo em coma, Ele te trouxe de volta para mim. E ainda continuo crendo que Ele no tempo certo te permitirá recobrar a memória. Na verdade, Ele permitiu que eu passasse tudo que eu vivi para que eu pudesse ser forte o bastante para cuidar de você. Não que eu me ache ou me considere forte assim, mas, acho que Ele me vê assim. Desta forma, não tenho como duvidar que Ele me ame, não só me ama, como tem me dado o grande privilégio de ter e cuidar de um tesouro tão precioso como você. E ao mesmo tempo, Ele usou você para me curar nas áreas que eu precisava. Enfim, eu sei que Ele me ama!
Ela tinha lágrimas nos olhos. E disse:
— Olha eu sei o quanto você está sofrendo, mas, Ele te recompensará.
— Sim eu sei, Ele nos recompensará. E eu repito as palavras que a minha mãe sempre dizia e que tio Heitor costuma dizer, “Para tudo há um propósito”. Deus tem um propósito em tudo isto meu amor, perdoe te chamar assim, mas, independente de qualquer coisa, é o que você é, meu amor, minha vida, minha Valerie, minha noiva, e ainda creio que será minha esposa, se você ainda não consegue ver assim, eu vejo por nós dois. E creio por nós dois, pois, eu amo você Valerie, muito. E agora eu preciso ir, pois você precisa dormir. Durma com Deus, descanse e se precisar de qualquer coisa, eu estou no meu quarto. Eu quase não durmo a noite.
Ela me olhava profundamente e suas lágrimas corriam, beijei seu rosto e o topo de sua cabeça e já ia me levantar para sair, porém, ela de repente, envolveu meu pescoço e me puxou num beijo urgente e profundo. Ela procurava aumentar a cada instante, a intensidade do beijo...
Surpreendentemente, ela me empurra na cama, de costas, e sem deixar de me beijar... Sobe em meu quadril, sentando-se com as pernas uma de cada lado. Lentamente, ela começa a acariciar meu peito, me desorientando... Suas carícias são sensuais e gostosas demais, seu beijo é cheio de fogo, e me aquece em segundos...
Sem pensar, minhas mãos se fecham em seu quadril, puxando-a contra o meu, fazendo-nos gemer. Então, ela abandona meus lábios e corre os seus, por meu queixo e pescoço em direção ao meu peito e vai agora tentando desabotoar minha camisa. Porém, neste instante, tomo o seu rosto em minhas mãos e olho nos seus olhos. E o que vejo ali, me gela completamente...
Vejo desejo líquido em seu olhar, mas, não há aquela, familiar, chama de amor. Não... Ali havia somente necessidade física. Não era ela, aquela não era a minha Valerie, o que gritava nela naquele exato momento, era impulsividade, instinto e desejo carnal puro.
Esta percepção, foi a pior coisa que eu já senti. Pois, por mais que eu ficasse feliz por saber que eu era desejado por ela, como homem, isto pode ter sido o suficiente algum dia, mas, hoje, agora, depois de tudo que vivemos e da forma com que nos amamos. Sentir aquilo foi terrível.
Eu não quero só o corpo desta mulher, minha necessidade dela não é só física, eu quero tudo dela, o corpo, o coração e a alma, como eu já tive um dia. Como tudo em mim pertence a ela, coração corpo e a alma.
E lembrei-me do que Dartanhã me disse mais cedo, e claramente:
“- É sobre isto que quero falar Henry, vá com calma, não crie expectativas ainda, pois, creio que a atitude dela está ligada aquilo que te falei sobre impulsividade, você se lembra? Falta de pudor, pois, pelo que me lembre, ela não era exatamente assim.”
Esta percepção foi tão dolorida, que senti que tudo em mim se modificou e se fechou naquele instante. Porém, para não ser indelicado, esforcei-me por ser cavalheiro. Beijei sua testa e depois, dei um selinho em seus lábios e disse:
— Desculpe ter deixado ir tão longe, mas, temos o “compromisso” e eu fiz uma promessa a você sobre não te tocar intimamente mais, se continuasse assim, eu quebraria minha promessa.
— Mas, eu quero que você quebre...
Ela insistiu. E mais uma vez, ficou claro que não era ela. Por mais que Valerie fosse impulsiva nesta área, fogosa... E ela era uma mulher quente, sensual... Mas, ainda assim, ela não perdia seu jeitinho de menina sapeca que me encantava tanto, no entanto, ela jamais insistiria em algo que percebe que claramente, que eu não quero. Principalmente, algo que pudesse me fazer sentir culpa depois.
Ela sempre presou por meu bem-estar, acima do seu próprio. E com esta percepção, eu fui firme:
— Mas, eu não vou quebrar Valerie, faremos amor, somente depois de casados, me desculpe, mais uma vez, por ter ido longe demais. Estou indo...
Levantei-me com ela no colo, e, deitei-a sobre a cama com todo o carinho. Beijei o topo de sua cabeça e saí. Na porta me virei para ela e disse-lhe:
— Dorme com Deus, e lembre-se de que: eu amo você!
***
POV VALERIE
Como me senti estranha quando Henry se afastou. Foi como se ele houvesse despertado de um transe, de uma hora para outra.
Foi impressionante observar, como uma explosão de desejo, poderia ser contida e aplacada da forma que ele fez. Por mais que ele tenha sido cortês, cavalheiro, ele não conseguiu deixar passar totalmente, a forma com que recuou visivelmente quando olhou em meus olhos. E a pergunta era, o que ele havia visto ali?
Algo dizia para mim que eu sabia, mas, eu tentava a todo custo ignorar aquela voz, pois, eu sabia que era a voz da verdade: Eu não era ela. Eu não era mais a sua Valerie.
E por mais confusa que eu estivesse, e eu estava, eu havia acordado do coma com um objetivo, de voltar por Henry. Principalmente depois do aviso de Peter, que agora realmente tenho certeza que está morto, e o que vi, foi um sonho.
Especialmente, depois da longa conversa que eu tive com a minha mãe, onde ela me revelou que Henry era meu noivo, e que ele me amava ainda. E muito mais do que antes. E, que eu também o amava. Ela foi me contando tudo o que ele estava fazendo por mim. E, a forma com que eu cuidava dele e não me desgrudava dele nenhum minuto sequer. Existia também o fato de ela ter me dito que eu não o afastasse, para que quando eu me lembrasse, eu não viesse a me arrepender. A própria Made me aconselhou muito, me incentivou a acolhê-lo.
Foi terrível constatar o envolvimento de Louise com ele. É inegável o quanto Henry é um homem lindo, zeloso, cuidadoso, romântico, preocupado, sincero, responsável e claro, muito sensual, é óbvio que não há como negar isto. Às vezes, eu fico pensando como pode, ele, que realmente poderia ter qualquer mulher, se interessar justamente por mim, tão comum?
Mas, uma coisa eu tenho certeza, o que ele quer, é a Valerie antiga, a que tem as memórias, que se lembra com detalhes de tudo o que viveram, não vejo a possibilidade de ele continuar me amando se eu não conseguir me lembrar. E de uma maneira muito estranha este entendimento dói em mim. Pois, e se ocorrer de eu não me lembrar?
Outra questão me assombra quando penso sobre isto: É justo prendê-lo a mim, já que há este risco? Esta possibilidade de eu não me lembrar? Será que não seria melhor eu me afastar, retirando logo suas esperanças para que ele pudesse seguir em frente? Haviam mulheres lindas que certamente o desejavam, e mais uma vez, estranhamente meu peito doeu ao pensar naquilo. Por que?
E eu? Eu conseguiria seguir em frente? Seguir sem Henry? O que seria de mim? Muitas perguntas sem respostas, e isto era tão frustrante, tão angustiante.
Olhar e observar todas aquelas pessoas, Ananda, Elise, Aquiles, Camelot, e as outras que ainda virão me ver. Sentir o carinho que sentem por mim e eu não me lembrar delas, de como entraram em minha vida, ou como construí os laços de amizade com elas, também não e algo fácil, mas, elas eu poderia estreitar os laços reconstruir uma nova amizade.
No entanto, com Henry era diferente, ele sempre deixava claro para mim que ele queria a Valerie com suas lembranças. Mas, será que esta Valerie ainda existia?
O mais terrível é que eu não tinha a resposta...
~~~~~~~~~~
Letra da Música:
Sem Você
Eu não posso vencer, eu não posso reinar
Eu nunca vou ganhar este jogo
sem você
Sem você
Estou perdido, eu sou vaidoso
eu nunca vou ser o mesmo
Sem você
Sem você
Eu não vou fugir, não vou voar
Eu nunca vou fazer isso
Sem você
Sem você
Eu não posso descansar, eu não posso lutar
Tudo que eu preciso é você e eu
Sem você
Sem você
Oh, oh, oh
Você, você, você
Sem
Você, você, você
Sem você
Não é possível apagar, então eu vou assumir a culpa
Mas eu não posso aceitar que estamos afastados
Sem você
Sem você
Eu não posso sair agora, isso não pode estar certo
Eu não aguento mais uma noite sem dormir
Sem você
Sem você
Eu não vou subir, não vou subir
Se você não está aqui, eu estou paralisado
Sem você
Sem você
Eu não posso olhar, eu sou tão cego
Perdi meu coração, eu perdi minha mente
Sem você
Sem você
Oh, oh, oh
Você, você, você
sem
Você, você, você
Sem você
Estou perdido, eu sou vaidoso
eu nunca vou ser o mesmo
Sem você
Sem você
Sem você
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