A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
57 VL – DIAS SOMBRIOS PARTE 3 - Capítulo 54
Notas iniciais
POV VALERIE
Será que ela era tão necessária assim? Por que simplesmente ele não se contentava com a Valerie de agora? Não. Melhor não pensar nisto e não me apegar a esta ideia, para não sofrer com a realidade depois.
Minha mãe voltou para o quarto e passamos algum tempo conversando, mas, percebi que o meu humor já não estava mais para conversas, eu estava mais recuada e ela percebeu e logo foi dormir. E, eu, antes de fazê-lo, fui ler a carta de Henry.
Minha querida Valerie,
Preludio esta carta com um doloroso pedido de desculpas. Um doloroso pedido de perdão pelo atrevimento de usar de termo tão blandicioso para referir-me a alguém que talvez nem me conheça. Que talvez nem saiba quem sou.
Preludio esta carta, minha querida Valerie, mesmo sabendo que talvez o desconforto após defrontar-se com este curto e singelo prólogo a envolva por completo, desde os lindos fios cor d’ouro até a planta dos delicados pés.
Mas ainda assim eu peço, minha querida. Na verdade, eu imploro. Imploro com todas as forças que residem em mim neste momento tão difícil: leia palavra por palavra, cada uma delas, até que a última salte aos seus belos olhos, cujos quais são impossíveis de me desvencilhar.
Poder-se-á ser impactante em alguns momentos; poder-se-á que lágrimas pérolas e castas escorram desta tua linda face, tão alva quanto neve – e porventura possa lhe parecer à fisiologia mais adversa, – mas eu imploro, minha Valerie: mesmo que não saiba as razões por detrás disso; mesmo que o desconforto e o sentimento de longitude seja grande em ti, encontre dentro de si a força para ler estas palavras até o fim.
E a este momento em que põe teus olhos nestas linhas, gostaria de ensejar-me a novamente me desculpar, contudo agora pela minha rudeza em não dizer o assunto que elas trazem. É tudo obra de um coração solitário, desolado, em completo declínio e que se principiou ao fim por ele já não ser mais parte de ti.
O desagradável pairou em nossas vidas e justo no momento no qual pensei que poderia ter o teu amor pela eternidade. Oh, céus! Será possível que não se lembres do quanto nos amávamos? Será possível que não se lembres das vezes em que entrelaçava meus dedos nos teus e juntos alcançávamos uma só existência? Uma existência magnânima e perfeita?
Minha querida Valerie... Será possível que não se lembres de que um dia me escolhera como homem de tua vida? E eu a escolhi como mulher de toda a vida minha? Sim, minha querida. Outrora éramos noivo e noiva. Por pouco não, marido e mulher.
E tudo o que eu mais queria era sentir o teu calor nos meus braços, minha Valerie. Queria sentir a tua respiração, o teu tato. Queria ser o teu abrigo: rijo, infindável; teu porto seguro: ameno, consolador; queria ser o apreciador eterno da tua beleza sílfia. Queria te livrar das mazelas do mundo. Queria ser, verdadeiramente, o teu cavaleiro dos contos épicos. Seu Príncipe!
Ah, minha Valerie... Será que poderei ainda chamar-te de minha? Será que ao menos uma gota de piedade – nem que um átomo ou menor – da essência de Deus poderá cair sobre nós? Eu não sei... Se puder, farei tudo ao meu alcance, e até fora dele, para que essa gota seja derramada em você. Para que seja derramada em nós. E após nos tocar, minha querida, possa devolver o esplendor às nossas vidas.
Mas eu não sei o que pensar e nem o que fazer. Estou completamente destroçado e perdido. Ainda agora enquanto me ponho a escrever estas frases finais, um misto de sentimentos empoçam minha consciência e Minh‘alma.
Sem tua presença, sem teu afeto, e sem a troca do nosso amor, sou impotente, sou fraco. Definho em mim mesmo enquanto busco respostas para tudo, mas a falta de possibilidades me cega e bloqueia. Sinto-me completamente inapto para tomar qualquer tipo de decisão. Qualquer tarefa trivial atinge proporções imanes.
Minha querida Valerie, eu estou com medo. Estou com medo de te perder para sempre. Eu... Logo eu, que já a tive tão perto, e tão perto, por tão pouco...
Perdoe-me novamente por este atrevimento. Talvez nada do que principiei por estas linhas faça algum sentido para ti. Neste caso, trate-me apenas como um louco que se apaixonou à primeira vista por ti.
Mas de uma forma ou de outra, não posso – realmente não consigo – simplesmente não quero não chamar-te de ‘querida’, de ‘minha’, e, principalmente, de ‘minha querida Valerie’.
E mesmo que as coisas estejam diferentes agora,
Do Seu Eterno Henry.
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Eu confesso que não foi fácil ler cada palavra daquela. Cada palavra que Henry deixou nesta carta, fez-me compreender o quanto, ele me ama, e sente falta do que vivemos juntos. Eu pude sentir o seu desespero em cada linha, cada ínfimo caractere. E esta percepção, me deixou ainda mais ciente de minha responsabilidade. Com posso submetê-lo a esta vida de expectativa de algo que pode não vir a mudar? Ele já tem sofrido tanto...
Sinto um enorme incômodo, ao tentar dormir. Não encontro posição para fazê-lo. O tempo inteiro, a sensação que tenho é de que, falta algo...
Começo a pensar em minha vida, em tudo o que me lembro de antes de ocorrer o coma, fico tentando forçar as minhas memórias, e a única coisa que eu consigo, é lembrar-me da voz de Henry, contando cada fato para mim. Cada detalhe que ele dizia, eu lembrava-me fielmente, mas, as imagens a respeito daqueles fatos, eram apenas construções de minha mente, e não lembranças. Mas, sinto o quanto eu gostaria de me lembrar de cada coisa daquela.
Sento-me na cama, recostada em sua cabeceira, e fico observando o meu anel e a minha aliança de noivado, e toco o bracelete, tentando me lembrar dos detalhes do dia em que Henry me deu cada um destes símbolos do nosso compromisso.
Retiro a aliança e fico focada em seu formato, na beleza do entalhe e logo sou remetida ao quanto Henry é detalhista, tem bom gosto, e claro, sou levada a compreender o quanto ele tem feito o melhor por mim, ainda que eu não me lembre, entretanto, a minha mãe descreveu para mim, quando eu acordei.
O fato dele se dispor a custear o meu tratamento em casa; apesar de ele ter sido agraciado pela Guarda; o fato dele não deixar faltar as minhas medicações; os cavaleiros para garantir minha segurança. Ela também me contou sobre o projeto da reforma do chalé, da casa nova na vila, da casa que ele fará para ela e para a sua avó. O fato de ele custear os melhores médicos para o período em que adoeci.
É inegável o quanto Henry tem se disposto a fazer o melhor por mim. Eu fico pensando, como eu poderei recompensá-lo? Realmente, eu gostaria de amá-lo como ele me ama, gostaria de não ter me esquecido. Com estes pensamentos, apago a luz, e pego no sono.
***
Sinto um grande desconforto, e percebo que já estou desperta, olho para os lados e vejo que ainda é noite. Tento dormir mais e fico apenas na tentativa. Infelizmente, o sono já me deixou completamente.
Silenciosamente levanto-me, vou até o banheiro, penteio os cabelos e me ajeito, para sair do quarto. Desloco-me até a sala.
Vejo que a porta que dá acesso ao jardim está aberta. Vou até ela e ao chegar à varanda, vejo Aquiles ali. Fico sem jeito. Porém, ele me olha e sorri. Então, ele pergunta:
— Sem sono, senhora?
— Sim Aquiles. Não consigo mais dormir.
Ele me olha estranhamente e pergunta:
— Posso dar uma sugestão?
— Claro Aquiles, pode sim.
— Vá até o Sr. Lazar, ou se preferir, eu o chamo até aqui.
A proposta de Aquiles é bem tentadora, porém, eu percebo que é melhor não.
— Acho melhor não Aquiles, eu não quero acordá-lo.
— Duvido muito que ele esteja dormindo senhora, o senhor Lazar quase não dorme. Principalmente, depois do incidente com a senhora. Por isto eu sugeri.
Aquiles insiste e eu digo, após refletir um pouco.
— Tudo bem, deixe que eu vá então. Boa noite Aquiles.
— Boa noite senhora.
Saio dali em direção ao corredor.
Assim que me encontro em frente da porta do quarto de Henry, a coragem me deixa. O que eu diria? O que fui fazer ali? Meus esforços deveriam estar focados em me afastar e não me aproximar dele. O que estou fazendo? Tento me afastar e sair dali, porém, uma dor me atinge. Mas, por quê? Por que é tão difícil de me afastar do Henry, sendo que isto no momento é o mais sensato a se fazer? Como eu posso sentir isto, se eu não me lembro conscientemente do que vivemos?
Com esta dúvida, recobro minha coragem e bato em sua porta levemente e espero. Em menos de um minuto, a porta se destranca e é aberta rapidamente.
Henry fica surpreso ao me ver, e eu também fico, ao constatar que ele tem um semblante de quem já está acordado há muito tempo e pela penumbra do quarto, sei que está com seu abajur ligado.
Percebo que ele está sem camisa, porém a tem pendurada em um dos ombros e aí sim, eu me dou conta de o quanto eu estou sendo intrusa, principalmente após ele ter me evitado tão evidentemente ontem.
Penso que não deveria estar ali. E fico mais constrangida ainda, quando não consigo desviar os meus olhos do seu peito magnífico e nu. Tento achar as palavras para dizer algo, mas, não consigo. Na verdade, o que fui fazer ali? Bom, digo a primeira coisa que me vem à cabeça. Porém, era a mais pura verdade.
— Eh... Eu acordei e não consegui mais dormir, fui para a varanda, e vi que Aquiles estava lá, e ele me sugeriu vir aqui. Confesso que, no início, eu fiquei com receio, mas, ele me disse que você deveria estar acordado, porque quase não dorme. Eu estou atrapalhando?
Ele primeiramente, me sonda com o seu olhar, e creio que, ele percebe que eu não consigo desviar os meus olhos, da sua seminudez, pois, em seguida, diz:
— Claro que não Valerie, você nuca me atrapalha, entre e fique à vontade, e desculpe por estar sem camisa, eu não esperava receber visita.
Ele diz e se afasta um pouco e deixa-me entrar. E o faz sorrindo enquanto fala. E eu respondo:
— Desculpe a minha intromissão, eu não quero retirar a sua privacidade Henry, eu posso ir embora e amanhã nos falamos.
Eu já ia me afastando e voltando para o corredor, porém, ele é mais rápido, e puxa-me pelo meu braço, e simultaneamente fecha a porta. A maneira com que puxa meu corpo leva-me muito próximo a ele, de forma que eu sinto o seu calor irradiar em ondas de seu torso nu, até mim e trazendo junto, seu inebriante cheiro amadeirado.
Aquilo me desorienta um pouco, meu coração dispara, e minha respiração altera-se também, mas procuro a todo custo manter o foco.
Eu não tomaria mais nenhuma iniciativa que o levasse a se afastar novamente como ontem à noite. Foi terrível sentir aquela rejeição, não pelo fato dele querer esperar até o casamento, mas, porque eu sinto que na verdade, o que o afastou, no fundo, não foi isto, mas, o fato de eu não ser mais a Valerie de sempre.
A rejeição foi em relação a mim, e, não em relação a sua determinação, eu vi isto em seus olhos ontem. Só, que, é confuso para mim, por que eu percebo que apesar de tudo, quando ele me olha como está me olhando agora, com os nossos corpos tão próximos, eu vejo o desejo em seu olhar.
Mas, logo a minha mente processa: ele deseja o meu corpo, certamente, pois, o meu corpo ainda é o mesmo. Mas, a emoção que ele almeja ter acesso, é da Valerie que se perdeu no esquecimento. Assim, eu sei que ele não me quer completamente, como estou agora. É dolorosa esta percepção, de tal forma, que eu me afasto instintivamente.
Henry se assusta um pouco, e pergunta:
— Algum problema?
— Sim, eu prefiro evitar um contato tão próximo, para não acontecer como ontem.
Fui sincera com ele. Ele me olhou com um olhar tristonho e disse:
— Eu percebi que você ficou entristecida por eu ter me afastado. Mas, eu achei melhor assim Valerie, eu me sentiria mal se algo acontecesse no momento. Mas, é o que eu mais quero, acredite. Não é sem esforço que eu me afastei.
Seu olhar era totalmente sincero.
Então respondi:
— Tudo bem. Desculpe, mas, você pode vestir a sua camisa?
Tive que dizer, porque estava difícil me concentrar em outra coisa. Henry ficou vermelho e disse:
— Claro, me desculpe.
Assim que eu disse isto, ele a tirou do ombro, e fiquei assustada e ao mesmo tempo admirada com o que vi.
Henry tem uma cicatriz enorme num local semelhante a uma que eu tenho, que inclusive eu não me lembrava de sua existência ao acordar do coma, e creio que a adquiri durante o período das memórias perdidas.
Involuntariamente, eu ergo a mão, exclamando quando a vejo, na curiosidade de tocá-la, mas, sem maldade alguma. Porém, quando me dou conta do que eu vou fazer, recuo rapidamente, constrangida e digo rápido:
— Desculpa Henry, é que eu fiquei impressionada, pois, é muito parecida com uma que tenho e praticamente...
Ele não me deixa terminar...
— Na mesma região e quase do mesmo formato, só que é uma cicatriz de contorno mais forte. Eu sei, ela fica aqui.
Ele diz erguendo a mão para tocar a exata região onde se encontra a minha cicatriz por sobre a minha blusa. Ele toca e aponta, e desliza o indicador, com cuidado, mostrando o tamanho exato de sua extensão, e sua localização.
Seu gesto, me faz corar, e ele acaricia a minha bochecha com a sua outra mão, que agora está livre, pois, a camisa foi ao chão. E ele prossegue:
— Eu sei, conheço cada detalhe da sua, assim como a minha. Elas são irmãs...
Ele diz isto sorrindo para mim, com uma malícia boa. Eu o olho com uma enorme interrogação no rosto, e digo:
— Como assim?
Ele sorri mais.
— Elas nasceram no mesmo dia. Estávamos num lugar muito bonito que eu te levei para passear em nossa despedida, antes de você vir a Livergoorn, e lá havia um lago de águas quentes, e nós não resistimos a um banho. Só que o local tinha um lado repleto de pedras cortantes, e em um dado momento, você se cortou e prendeu-se pelo pé. E na tentativa de te resgatar, pois, era um local de difícil acesso e qualquer movimento em falso você poderia rasgar seu pé, eu acabei me cortando no processo. Mas, graças a Deus, ficou tudo bem, você cuidou de mim e eu cuidei de você. Nós éramos muito bons nisto, aliás, nós éramos os melhores em cuidar um do outro.
Eu dou-lhe um sorriso e digo:
— Acredito.
Bem neste momento, ele vira um pouco e vejo outra cicatriz, um pouco mais grossa e mais alta, e pelo visto pertenceu a um corte bem profundo que dava todos os indícios de ser um corte de lâmina de espada. Aproximo-me, aponto e digo:
— E esta? Ela parece ter sido de um ferimento de espada!
Ele me olha sombriamente por um considerável tempo, depois diz:
— Sim foi.
— Foi combatendo?
Algumas emoções negativas passam por seu rosto, e vejo-o sendo cauteloso para não me deixar transparecer o que ele estava sentindo.
Assim ele diz:
— Não. Foi em uma emboscada que prepararam para mim. E, mais uma vez, Graças a Deus, eu estou aqui, seus sonhos, parecidos com aqueles que você teve, que também lhe prepararam para o que iria acontecer com Peter, me salvaram.
Ele diz sorrindo e eu lhe retribuo o sorriso, e peço-lhe:
— Posso tocá-la?
Digo me referindo a sua cicatriz do braço.
Seu sorriso se amplia e ele diz:
— Claro.
Eu a toco e vejo o quanto foi profunda. E algo se clareia em minha mente e digo...
— Henry você disse que foi uma emboscada, mas de quem?
Ele primeiro congela e depois diz:
— Alguém que não gostava muito de mim.
Aquela percepção de Henry correndo perigo nas mãos de alguém, foi muito desconfortável, a ponto de fazer o meu corpo estremecer e o peito doer, uma dor, terrivelmente familiar, mas, ao mesmo tempo desconhecida para mim. Só que também, neste momento, minha percepção se dá conta de algo: Henry disse – “alguém que não gostava de mim” – Por que ele disse gostava? E por que não gostava?
Notei que ele me observava atentamente e também notei que, o seu corpo agora, estava mais quente ainda, e seu calor irradiava-se muito mais até mim, juntamente com o seu cheiro, e como o seu cheiro era bom.
De repente, eu senti o desejo de fazer uma coisa, mas, eu não queria que ele entendesse algo diferente, então, eu disse:
— Quero fazer algo, mas, eu não desejo provoca-lo, tudo bem? Se não quiser, pode me deter, eu entenderei numa boa.
Ele sorri e diz.
— Tudo bem, eu estou a sua disposição Sta. Valerie.
Devolvo o sorriso e lenta e timidamente, levo minha mão e espalmo-a em seu peito, do lado esquerdo, bem acima do seu coração. Henry estremece ao contato.
Sinto o seu coração trabalhar desesperadamente em batidas erráticas. O que me deixa claro, o quanto a nossa proximidade mexe com ele, e isso fica ainda muito mais evidente, quando ele acelera ainda mais, como era possível? Pelo simples fato de agora eu o estar tocando naquela região.
Neste momento, sou acometida pelo desejo de encarar os seus olhos e surpreendo-me quando olho para o rosto de Henry e ele está de olhos fechados, fortemente, como se estivesse se concentrando em algo, e na hora, o óbvio me atinge: ele está se controlando para não agir impulsivamente e me tocar de volta, ou avançar a partir dali.
Então, eu compreendo: Henry me quer, ele me deseja, tanto quanto eu o desejo, porém, se contém para não me magoar, ou talvez, magoá-lo também.
Nós dois estamos vivendo dias sombrios, sem certezas e sem a plena compreensão do que está acontecendo. Tudo isto é novo para os dois, porém de forma diferente.
No entanto, agora eu compreendo que, para ele é muito pior. Pois, ele não se esqueceu de nada, ele tem a exata noção de tudo e sabe perfeitamente o que ficou para trás, após todo o ocorrido, porém, eu não. E esta nova compreensão sobre o seu sofrimento, me angustiou e eu faço algo agora:
Pego uma de suas mãos que estão trêmulas, creio que, pelo esforço que está fazendo para manter seu autocontrole, e levo até o meu coração. Ele arfa e abre os olhos, imediatamente, surpreso... Porém, eu digo:
— Desculpe. Eu precisava que você sentisse isto. Assim como no coma, é assim que eu fico quando eu estou perto de você, mas, eu não consigo entender, ou compreender Henry. Talvez você pense: é desejo, você tem um corpo com necessidades. E, eu tenho mesmo, mas, ainda assim, é diferente, mas, não de uma maneira que eu consiga explicar. As sensações quando estamos próximos, ao mesmo tempo em que são excitantes, elas também são familiares, mas de uma maneira estranha que eu não consigo entender. Você disse na carta que está com medo, aliás, obrigada, ela foi linda, eu precisava daquilo, clareou algumas coisas para mim. – Neste momento ele sorriu, embora fosse um sorriso fraco – Mas, você precisa saber que eu também estou. Porém, o meu maior medo, não é me ferir, ou de me aproximar. O meu maior medo, Henry, é de magoar você. Já sinto o quanto você está sofrendo, e já te disse que isto não é confortável para mim.
Seus olhos brilham, e brilham muito, e agora se acumulam de lágrimas que rapidamente escorrem, e ele diz:
— Amo você, Valerie, você não imagina o quanto! E desculpe por isto, eu não consigo resistir, dói muito, muito mesmo, estou vivenciando em minha vida o que mais temi, e acho que ninguém tem a exata noção desta dor.
Toco agora o seu rosto, com a mão que tenho livre e digo-lhe:
— Eu sei, eu sinto. Eu não sei como, nem sei se eu vou conseguir, pois, tudo ainda é confuso para mim, mas, me deixa tentar te ajudar, Henry? Seu sofrimento não é confortável para mim, saiba disto.
Ele sorri e diz:
— Ele nunca foi! Enfim, isto não mudou, e é bom saber disto!
Ele agora, ele retira sua mão, que está em meu coração, e a leva até a minha no seu, a toma para si e a leva nos lábios e a beija e diz:
— Você precisa dormir. Seu estado de saúde ainda requer cuidados.
— Eu sei só que, o que posso fazer? Eu não consigo, parece que o sono me deixou definitivamente.
Ele me sonda com o seu olhar penetrante e diz:
— Posso tentar algo, você confia em mim?
A pergunta dele me pega desprevenida, mas, estranhamente, lá no fundo da minha alma, uma certeza, tão crua, desponta me mostrando que mesmo sem compreender, eu confio, todo o meu ser, se irradia em segundos desta certeza que floresce e expande-se agora em mim: eu confio em Henry. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa que ele me pedisse, principalmente quando ele faz o que está fazendo agora, me prendendo naquele seu olhar, que me passa tanta segurança, confiança, certeza e amor.
Sim, sem dúvida alguma, o que direciona cada ato de Henry é o mais pleno e puro amor, é inegável, e totalmente impossível de ignorar, o quanto Henry me ama. Assim com todos os meus receios, desfeitos e dissipados, pela profundidade daquele olhar, eu respondo:
— Sim, pode. E sim, eu confio em você, Henry.
Ele sorri. E diz:
— Obrigado, só um minuto, então.
— Ele toma a sua camisa ao chão, e agora se veste rapidamente e assim diz com um sorriso divertido:
— Você disse que confiava, veremos agora.
Repentinamente, ele curva-se muito rápido e leva um de seus braços atrás dos meus joelhos e o outro, apoia em minhas costas e com uma habilidade de tirar o fôlego, como se estivesse acostumado a fazer isto, constantemente. Ele ergue-me em seu colo, me fazendo arfar e em seguida levar uma mão ao seu pescoço me segurando e a outra nos lábios pelo susto, para abafar um grito que se formava em minha garganta.
Assim que o susto passa, eu digo:
— Henry!
E começo a rir, porém contendo o volume, pois, estamos por volta da madrugada.
Ele me acompanha, porém logo para, pois, beija a minha testa e leva-me para a sua cama. E agora é que noto que o seu quarto é de casal. Ele me deita ali e logo após ele deita-se ao meu lado. Porém, percebo que mantém distância.
Em seguida, ele começa a acariciar os meus cabelos e cantarolar uma melodia para mim. Estranhamente, e reconfortantemente, aquilo, faz minha agitação começar a se dissipar imediatamente, me deixando perplexa, pela intensidade do poder, que aquele pequeno gesto dele, tem sobre mim. Aquele pequeno ato, faz-me relaxar completamente, e em segundos o sono começa a me alcançar. E, surpresa, eu digo:
— Como isto? O que você fez, que fizesse com que meu sono voltasse?
Ele sorri lindamente para mim, e percebo que seus olhos brilham com a minha pergunta e ele diz:
— Não fiz nada diferente do que eu fazia antes. Aliás, há uma diferença, dormíamos colados, um no outro, mas, no momento, eu acho melhor assim.
Ele disse visivelmente saudoso, porém, firme para evidenciar que, embora sentisse falta, não iria avançar.
Passam-se mais algum tempo e, após eu refletir um pouco, outra compreensão me atinge: Embora minha mente não se lembre, o que nós vivemos, foi tão forte, que está gravado e marcado em mim, e a cada momento que ele acessa alguma coisa que foi significativa, algo em mim faz o reconhecimento daquilo, me gerando paz e segurança, ainda que eu não me lembre.
Pois, na verdade, está ali, guardada em alguma gavetinha dos infinitos arquivos de memórias de minha mente, alguma gavetinha que foi lacrada por algum motivo. Mas, ao mesmo tempo, cada pequena célula do meu corpo, reconhece, cada vez que ele faz algo que remete ao que já vivemos, pois, no fundo eu sinto falta.
Então, já quase inconsciente eu digo, olhando em seus olhos, e agora tocando o seu rosto:
— No fundo, eu sinto falta, embora eu não saiba nem explicar de quê na verdade, ou como. Mas, é bom estar assim com você!
Ele sorri com os olhos cheios de lágrimas e diz:
— Eu sei, eu posso sentir, e eu também sinto falta, você nem imagina meu amor: Amo você, Valerie, tente não se esquecer disto, aconteça o que acontecer, tente ainda ter isto em mente.
Dou-lhe um sorriso e digo:
— Tentarei, me desculpe mais uma vez...
Ele disse mais alguma coisa, mas, eu não consegui processar mais nada, pois, a inconsciência me pegou...
***
POV HENRY
Sinto um enorme e reconfortante calor, envolver cada parte do meu corpo. E, passo a ficar consciente de cada parte de mim. Assim, compreendo que estou desperto e ao abrir os olhos, um imenso prazer me preenche, ao constatar que tenho a pessoa que mais amo no mundo, totalmente envolvida em mim.
Valerie está envolvida em mim, da mesma maneira que fazia antes. No entanto, com uma grande diferença, embora esteja totalmente inconsciente, ela tem um enorme sorriso no rosto, ela está sonhando. Ela está com a lateral do seu rosto, colada em meu peito. E, um braço envolve a minha cintura e a outra mão, está sobre o meu coração. Pela sua respiração, sinto que ela ainda dorme profundamente.
Ela está sorrindo enquanto conversa:
— Queria me lembrar Henry. Na verdade, eu queria demais me lembrar. Mas, eu tenho medo de não conseguir. O que aconteceu que fez com que eu esquecesse? Quando eu vou poder saber?
Ela estava sonhando que estava falando comigo. E em seu sonho expõe a sua angústia para mim.
Ela tem desejado saber tudo o que houve. Mas, Dartanhã deixou claro que eu devo evitar as memórias que envolvem o que provocou o seu trauma emocional. Tudo leva a crer que a mente dela interligou o trauma da infância, o de estar no domínio de Mildrad, com o de agora. Mas, a pergunta é, por que ela esqueceu justamente o período da perda de Peter até o dia de sua captura, e justamente o período em que está comigo? Qual é a ligação? Eu ainda não compreendo.
Mas, uma coisa fica clara: ela tem se esforçado para tentar lembrar para tentar prosseguir. Fico pensando: o que mais eu posso fazer?
Sinto que ela também está sofrendo.
Beijo o topo de sua cabeça, e assim que o faço ela se aconchega mais em mim e beija meu peito e afunda o nariz ali e inala, sorrindo... E é impressionante como ela está satisfeita ali dormindo.
Observo-a por um tempo, tão linda e serena naquele sono. Fico pensando quando a terei plenamente de volta? Mas, ainda assim, eu estou feliz por tê-la comigo. Realmente poderia ter sido pior.
Percebo que está na hora de me levantar
E quando vou fazê-lo, tomo todo o cuidado para afastar Valerie de mim. Porém, algo incrível ocorre. Pois, ela diz:
— Não vá Henry, fique aqui. Eu sei que eu não sou a mesma Valerie, mas, não vá.
Olho assustado para ela, por causa da intensidade da dor em sua voz, pois, é tão grande e real, que para mim ela havia acordado. Porém, ela ainda dormia, e fico angustiado de ver o quanto ela está sofrendo. Por mais que ela não saiba de nada sobre o que vivemos, ela ainda sente e sofre com receio de me perder, incrível ver isto. Mas, por que será que ela pensa que eu a deixaria?
Assim que ela se acalma tento levantar-me de novo, com todo o cuidado. Porém, agora ela realmente acorda, e quando percebe como está envolvida em mim, arregala os olhos e automaticamente fica vermelha.
Eu fico só a observando. Ela olha como estamos e diz constrangida, me fazendo rir:
— Desculpa Henry eu estava dormindo...
Não a deixo terminar e sorrindo digo:
— Sem problemas amor! Eu gosto de acordar assim com você. Este é um hábito antigo e absolutamente saudável.
E começo a rir muito. Ela cora mais e diz ainda constrangida...
— Henry por que você está rindo de mim?
— Eu não estou rindo de você meu amor, é da situação. Pois, já passamos por isto, quando começamos nossos primeiros contatos, e foi engraçado passar de novo.
Ela também riu e o clima tenso desapareceu.
Beijo a sua testa e digo:
— Bom dia querida! Eu preciso me levantar amor, hoje o dia será corrido. Pois, tenho treinamento com os rapazes, e consulta com Dartanhã. Mas, pode descansar mais um pouco. E a propósito, amei acordar com você em meus braços. Amo você Valerie! Durma mais um pouquinho, seu semblante está cansado.
Ela me dá um lindo sorriso e diz:
— Vou ficar mais um pouquinho então, pois, dormi pouco Henry. – Ela cora muito e diz. – Também amei acordar em seus braços, bom dia para você Sr. Lazar.
Dou-lhe um sorriso e levanto-me.
***
O dia começa tranquilo. Embora, haja muitas coisas a fazer.
Pela manhã, depois que Valerie saiu do quarto, pois, ela realmente ficou para dormir mais, tomei café com ela. E depois, nós saímos para as caminhadas que Dartanhã orientou. Percebo que, embora ela esteja bem e satisfeita, ela está mais introvertida e recuada.
Aquilo me entristece um pouco, porém, lembro-me das palavras de Dartanhã me orientando para suas oscilações de humor, e quando ele vem para atendê-la, passo para ele e ele me diz que é absolutamente normal. E mais uma vez ele me pede paciência. Ele lembra-me do meu horário com ele hoje, logo após o de Érion e confirmo que vou.
***
Toda a minha consulta com Dartanhã acaba sendo muito boa, falamos sobre muitas questões minhas, o que acaba sendo uma surpresa para mim. Porém, eu observo que o que me incentivou foi o fato de saber, que aquilo também poderia ser bom para Valerie, pois, eu estando bem, estaria um pouco mais preparado para lidar com ela neste momento.
Consigo me abrir aos poucos, falar dos meus temores e anseios. Falo da frustração que sinto por ter meus planos para o futuro, adiados. Falo sobre minha grande dificuldade em dormir. E relato a Dartanhã que quando eu e Valerie dormimos próximos, eu me sinto e durmo melhor.
Ele diz que provavelmente minha dificuldade com o sono, tem relação com toda a minha ansiedade, na verdade é uma forma do meu organismo externar isto. Ele me dá algumas estratégias para utilizar. As caminhadas com Valerie são uma, agora eu caminharei não só por ela, mas, por mim também.
Conversamos sobre a minha privação sexual, e o porquê dela, tanto dentro do meu contexto antes do coma, como o de agora, suas motivações, e ele respeita o meu posicionamento, embora me oriente que certamente o meu organismo sinta o impacto disto.
Consigo falar um pouco também, das questões que envolvem a perda de minha mãe, e sobre o quanto lidar com perdas é penoso para mim, principalmente em relação à Valerie. Noto, e depois ele confirma, que na consulta de hoje, ele vaga superficialmente sobre várias questões e aspectos, como se quisesse mapear as prioridades, para depois começar a focar especificamente.
Dartanhã diz, que depois de algum tempo, conforme for o andamento das coisas, ele fará seções em conjunto, entre Valerie e eu. Ele diz que será importante para nos orientar nesta nova reconstrução de uma vida como um casal. Confesso que aquilo me agrada.
***
Passo as tardes, geralmente treinando com Araon e/ou Érion e/ou Aquiles e/ou Camelot e/ou todos, depende de quem esteja disponível, principalmente com espadas. E, a cada dia que treinamos, percebo como tenho ficado cada vez melhor.
Quando Marvel e Marverick chegam do trabalho, sempre se aproximam. Marvel nem cogita se envolver, ele odeia coisas do gênero. Porém, Marverick gosta e pede para experimentar. Assim, eu e Aquiles nos revezamos em ensiná-lo alguns movimentos e ele se empolga.
Certa tarde, no meio do treino, chegou uma correspondência para mim. Fiquei imensamente surpreso ao abrir, e observar que era do meu mais recente amigo e aliado em proteger Valerie, ainda que meio distante: o Lobo Prateado.
Nesta carta, ele disse-me que soube que Valerie acordou do coma, e que mesmo ela tendo perdido a memória, ele está feliz por ela estar viva e bem, e disse também que crê que ela se recuperará plenamente e me pede para que eu tenha fé, e acredite. Disse que é solidário comigo, e que o que eu precisar, ele e seu clã estão à disposição.
Ao final, fico surpreso ao constatar que ele me pede para vir ver Valerie, diz que será discreto, mas, que gostaria que eu permitisse-lhe ver o “milagre” de perto, pois, ele diz que acredita que o fato dele chegar no momento exato em que pode impedir que acontecesse uma tragédia maior a ela, foi um milagre, e que sua sequela não ter sido pior, também é um milagre, pelo impacto da batida da cabeça. Então, ele diz que ela é o “Meu Pequeno Milagre”, e, ela é mesmo.
Peço a Aquiles que deixe a minha carta de resposta para ele, nas rochas como ele já havia me orientado, presa por uma Adaga. E ele o faz.
***
Os momentos dos treinos continuam sendo excelentes para mim, pois, tornam os meus dias mais leves, e permitem que eu extravase a minha tensão.
Percebo que Valerie adora ficar perto, só observando. E Made, aos poucos, vai se aproximando para participar da plateia também.
As coisas correm bem no decorrer de cada dia. Durante o período diurno, sempre variamos o que fazer, mas, as noites costumam ser um pouco mais rotineiras: como o jantar, o tempo de leitura com Valerie, momentos no jardim, o tempo com ela lendo a Bíblia antes de dormir...
É interessante, pois, tenho sentido que ela quer falar sobre onde dormir, mas noto-a sem jeito. Porém, não digo nada com o propósito de que ela também consiga reconstruir a ponte de ligação que a conduz até mim. E como eu previa, e já de certa forma esperava, ela continua a vir para o meu quarto pela madrugada. O que me deixa satisfeito. Pois, é um momento, onde conversamos um pouco e, assim que ela se deita ao meu lado, tenho o prazer de contemplar ela relaxar, e em seguida, adormecer tranquila e feliz, e eu também.
Acordamos sempre da mesma forma, unidos um ao outro. Porém o humor de Valerie não é sempre igual. Há dias em que ela está mais arredia ainda.
Levam ainda algumas noites para ela vir de vez para o meu quarto na hora de dormir, porém eu não a cobro, ou muito menos, toco no assunto. Deixo as coisas correrem naturalmente, embora seja penoso demais...
***
Cada dia que passa, tem seus altos e baixos. Há dias em que Valerie quer estar perto, outros em que se afasta, outros, em que ela está feliz, outros em que está melancólica, tudo oscila e muda muito. E, eu confesso que, toda esta montanha russa emocional dela, me deixa ainda mais ansioso por sua recuperação.
Eu tento trabalhar isto com Dartanhã, mas, não é algo fácil.
***
Em uma determinada tarde, em que eu estou treinando com os rapazes, sou surpreendido com uma ilustre visita: Lobo Prateado, e um de seus companheiros, que também está em sua forma humana. Porém, ele se mantém distante e somente Lobo Prateado avança.
Ele aproxima-se de nós durante o treinamento, mas, estanca completamente ao ver a cena a sua frente... Tudo aconteceu assim:
Naquela tarde, Valerie assistia ao treino como sempre costumava fazer. Porém, num dado momento, Marverick chega do trabalho e vem até nós para que pudesse também participar, pois, ele tem se empenhado e tem ficado a cada dia melhor, pouco a pouco.
Só que nesta tarde, todos nós estávamos em espírito de competição e batalha, portanto, mais ousados e agressivos, assim, ficamos com receio de arriscar lutar com ele e não sabermos dosar os golpes e machuca-lo, pois, sabíamos que Marvel não nos perdoaria.
Assim, quando ele se afasta com a espada reserva, que Camelot sempre o empresta. Surpreendentemente, Valerie se aproxima com uma espada na mão, e eu, estremeço com a cena, desesperado com a possibilidade dela se machucar, e na hora, dou um olhar de censura a Aquiles, quando percebo que é uma das espadas dele que ficou sobre o banco enquanto ele lutava com a outra, com Camelot. Aquiles me pede desculpa no olhar, mas, percebe que eu estou furioso.
Valerie então, diz:
— Já que ninguém se habilita Marverick, eu me voluntario a duelar com você.
Embora ela esteja séria, todos começam a rir, inclusive Araon faz uma de suas piadas. Todos, exceto eu, pois, eu conheço a minha noiva, com ou sem amnésia, para saber que, quando ela diz algo com seriedade, sei que não está brincando, ela realmente quer aquilo, e, o meu desespero cresce, pois, só eu sei o quanto Valerie consegue ser teimosa quando quer algo, e ela ignora os risos e diz:
— Estou falando sério Marverick. Eu quero lutar com você.
Ele olha para mim em desespero, e percebe a negativa em meu olhar. Assim diz:
— Não posso Valerie, você nem sabe duelar, se machucaria.
Percebo que ele não envolve meu nome, para me poupar de um embate com ela.
Porém, Valerie, irredutível diz:
— Você também, não sabia e foi ensinado, o que é? Está com receio de lutar com uma mulher e sair perdendo?
Valerie é terrível quando quer, ela colocou Marverick em uma situação difícil demais, ela o desafiou, e vi quando os olhos dele brilharam. Apesar de Marverick ser muito responsável, ele ainda era novo, e claro, mais impulsivo que o resto de nós, ele simplesmente movido pela vergonha de recuar do desafio, disse:
— Desculpe Henry, prometo que eu serei cauteloso, mesmo por que, eu sei que você me mata, se eu, machuca-la, mas, sou homem e não vou correr de um desafio de mulher.
Aquilo me faz congelar de raiva e percebo que todos ficam tensos com minha a reação, mais ainda Aquiles, que foi imprudente em relação à espada. Então, aproximo-me de Marverick para pará-lo dizendo em pura fúria:
— Não se atreva!
Porém, quando estou no último passo de alcança-lo, sou surpreendido com uma espada apontada em meu peito, me intimidando com firmeza, e uma voz:
— Não se atreva você meu noivo, você teve a sua chance de lutar com ele, é a minha vez! Depois, eu posso te dar uma chance de duelar comigo!
Ainda que Valerie diga isto brincando e com um sorriso maravilhoso para mim, para não me envergonhar, a maioria presente ri. Porém, eu e Aquiles estamos estáticos e congelados no lugar, olhando para ela. Pela postura que tem ao segurar a espada com firmeza, e a elegância em manuseá-la, como se já fosse uma guerreira treinada. Percebo que só neste momento a ficha cai para os outros e o silêncio agora impera.
E digo olhando sério e firmemente para ela e Marverick:
— Tudo bem, mas, cuidado vocês dois. Estou de olho e irei interferir quando EU achar que devo.
Falo com autoridade e Valerie recua como sempre faz, quando exerço a minha autoridade de homem com ela, fico feliz que isto também não tenha sido tocado. Ela acena que sim com a cabeça, mas, se posiciona para lutar.
Confesso que o meu coração está na mão, mas, uma onda poderosa de desejo por aquela mulher me percorre ao vê-la daquela forma: destemida, e totalmente preparada de forma exemplar para o ataque.
Ela está linda! E aquela cena é incrivelmente sexy. Notável isto! E a compreensão me atinge: aquela foi a Valerie pela qual me apaixonei perdidamente, a menina destemida, guerreira, que subia em árvores desde a mais tenra infância, que matava coelhos para fazer pantufas, que corria para levantar o pai das poças de vômito, após ter desmaiado bêbado, para leva-lo para casa.
Aquela que foi capaz de recusar um casamento confortável comigo, pelo simples fato de acreditar que não me amava, e que amava um lenhador, e embora soubesse que viveria privações com ele, arriscaria fugir e se casar com ele por que era naquilo que acreditava.
A Valerie forte, guerreira, valente, e ainda meiga, gentil, carinhosa e sapeca, minha Valerie ainda estava ali. Linda e sensual, bem a minha frente, a amnésia não conseguiu apagar isso!
Marverick se posiciona e percebo que em seu olhar ele tem desespero, pois, tem a exata noção que eu realmente posso mata-lo se ferir Valerie.
Assim, o duelo começa!...
Fico impressionado com a desenvoltura de minha noiva, os golpes precisos, mesmo dificultados pelo peso da espada, desproporcional a seu tamanho, o jogo dos pés, o posicionamento das mãos na espada e dos braços para erguê-la, automaticamente me vejo curioso por saber quem a ensinou, se foi Peter, ou Cesaire.
— Valerie quem te ensinou a manusear uma espada?
Pergunto-a, ela mantém-se concentrada no duelo, porém responde:
— Ninguém, é a minha primeira vez.
Fico chocado com sua resposta, mas, como a conheço muito bem, sei que está sendo sincera. Percebo que o choque por sua resposta, está em todos.
Seu desempenho é incrível, e muito compatível com Marverick, e percebo que ela o provoca com investidas mais ousadas para não permitir que ele faça corpo mole, para dar a ela vantagem, ela é esperta e quer uma luta justa, e quase morro do coração quando a coisa esquenta, pois, a esta altura os dois já foram tomados pelo espírito de competição, tão comum aos guerreiros quando mergulham de corpo e alma a um bom combate.
Eu já estou perto de intervir, quando de repente sou surpreendido, novamente, com uma Valerie eufórica que desarma e encurrala um Marverick envergonhado e perplexo.
O único grito de “UAU, O QUE FOI ISTO?” que ouço só poderia vir de Araon. Pois, o resto de nós, está chocado.
Valerie, como sempre é uma lady e para não constranger Marverick, ela diz:
— Eu só ganhei por que você se conteve muito, com receio de Henry te matar caso você me machucasse. Não foi uma vitória justa para mim.
Porém, todos nós, inclusive Marverick, sabe a verdade. Ela duelou com perfeição, esmero e êxito, e eu, estava a ponto de ter uma reação constrangedora na frente de todos, pois, como ver Valerie daquela forma e com aquela desenvoltura, me deixou excitado.
Eu nunca havia passado por isto desta maneira, mas, meu baixo ventre queimava de desejo por ver minha noiva preciosa, encarnada de guerreira. Um papel tão pertinente a ela, pois, é isto que ela é: uma guerreira diante de todos os obstáculos que a vida tem lhe apresentado.
Assim, que ela e Marverick se cumprimentam, Lobo Prateado, pede para falar comigo. Porém, seu semblante é perplexo. E ele não resistindo pergunta:
— Boa tarde Henry, bom ver você! Mas, responda-me, desde quando a senhorita Valerie luta?
Dou-lhe um sorriso, e respondo:
— É a primeira vez dela.
Ele me olha espantado e pergunta:
— Ela nunca havia pegado em uma espada?
— Não. É a primeira vez, segundo ela.
Ele está embasbacado e pede:
— Henry eu vim, pois, eu gostaria de conhecê-la, você me permite?
— Claro que sim!
Respondo e chamo Valerie, que está conversando com Érion e Araon.
— Valerie, querida, venha até aqui, por favor.
Ela o faz imediatamente e vem sorrindo. E digo-lhe:
— Este é um amigo recente, que eu fiz aqui em Livergoorn...
E neste momento me dou conta que não sei o nome do homem que salvou a minha noiva. Mas, antes que eu me constranja, ele diz:
— Prazer senhorita Valerie, eu sou Will, na verdade Willian, mas, sou mais conhecido por Will.
Valerie, o olha constrangida e leva a mão até a dele estendida e diz:
— O prazer é meu, é sempre uma honra conhecer as pessoas próximas a Henry!
Ela agora me olha feliz e sorrindo e eu retribuo o seu sorriso com outro e um beijo na testa.
Assim, Will diz:
— Olhe, eu fiquei perplexo com o seu desempenho com a espada, mas, Henry quis caçoar de mim, dizendo-me que é a primeira vez que a usa, acredita?
Valerie faz um semblante não satisfeito com o comentário de Will e diz:
— Ele não caçoou de você, eu nunca havia se quer, pego numa espada Will, de verdade.
Ele a olha espantado e diz:
— Bem... Sendo assim, desculpe por não acreditar Henry, e estou extasiado. – Ele reflete um pouco e depois diz... — Sabia que estas coisas acontecem somente com quem tem algum dom? Valerie, eu posso lhe perguntar uma coisa?
Valerie responde sincera, mas, noto-a receosa:
— Sim, pode.
Ele me olha e depois a olha e pergunta bem baixo, para que ninguém além de nós ouça:
— Você tem linhagem de lobo? Só me responda se confiar em mim.
Valerie fica quase transparente de tão branca, e sei imediatamente que ela não quer falar sobre isto, porém, quando vou intervir Will diz...
— Olha se te ajuda, vou lhe contar um segredo meu: Eu sou lobo. E Henry sabe que eu não estou mentindo.
Valerie me olha apavorada e confusa, e na hora entendo o por que: ela não tem a mínima ideia que existam lobisomens pacíficos e está infeliz por eu ter ligação com algum, acho que está decepcionada, Will parece perceber também e diz:
— Henry soube há pouco tempo, Valerie, eu o prestei um grande favor num momento de extrema precisão, num caso de vida ou morte. Assim ficamos amigos. E quero dizer a você que, no momento, ignore tudo que sabe sobre a minha raça. Tudo que já viu e ouviu sobre as feras serem más, ou diabólicas, é verdade. Porém, não é toda a verdade, há mais, que poucos sabem, mas, você precisa saber que alguns de nossa espécie são especiais. — E agora Will diz algo que desarma Valerie. – Nem todos são como o seu pai Valerie!
Ela fica chocada, leva a mão na boca e os seus olhos enchem-se de lágrimas e eu vendo aquilo, a puxo para mim e digo:
— Will eu acho que já chega, Valerie não pode sofrer emoções fortes.
— Desculpe Henry, eu só quero ajudar, olha Valerie, eu sei de seu pai há muito tempo, pois eu o conheci. E eu jamais te exporia primeiro porque, te expor, é me expor também. Conheci seu pai há muitos anos, e eu e meu Clã nunca aprovamos o que ele fazia. Mas, não interferimos, por uma questão territorial, nós lobos, respeitamos isto. Fica tranquila, o seu segredo está seguro comigo. Só que, eu preciso lhe dizer algo que já disse a Henry, eu sempre estarei por perto, de certa forma para proteger vocês, é minha função, os da minha espécie, que são como nós. – E ele aponta para si e seu amigo. — Temos uma função semelhante à de guardiões terrenos: protegemos humanos, principalmente os especiais. Como você! Desculpe te passar tanta informação. Mas, é que eu quero que você saiba que, o seu noivo, de alguma forma, também é especial, ele certamente foi designado com algum propósito para estar do seu lado, é por isto que ele cuida tão bem de você. E, eu posso afirmar com certeza: eu nunca vi alguém desempenhar tão perfeitamente esta função de proteção, sendo um humano comum. A única coisa que permite a um humano comum, desenvolver esta função com tanto desempenho, é um grande, puro e verdadeiro amor. Acho bom que você saiba disto, eu posso garantir, com toda a certeza e convicção, que Henry daria a vida dele por você se a visse em perigo.
As palavras finais de Will mexeram com Valerie, pois, ela me olhava agora com olhos repletos de lágrimas. Assim, disse:
— Não sei o que te levou a me dizer estas coisas Will, mas, obrigada, eu precisava mesmo, ouvi-las.
Will sorri e diz:
— Não há de quer, as ordens. Se algum dia, você precisar de mim, Henry sabe como me encontrar.
Will se despede.
Valerie e eu dizemos:
— Obrigado! E até mais Will.
E ele se vai.
Valerie me olha agora e toca o meu rosto e diz:
— Sei que o que ele disse é verdade: morreria por mim! Sinto isto, e quero agradecer a você Henry, por todo o cuidado que dispensa a mim. Obrigada!
Ela toca o meu rosto novamente e eu toco o seu e respondo:
— Cuido do que é mais valioso para mim: Você, eu a amo mais que a minha própria vida Valerie!
Ela sorri e diz:
— Eu sei, eu tenho sentido e visto isto.
Passamos um grande tempo nos olhando e ela diz, agora com um sorriso matreiro brincando nos lábios:
— Mas, você não irá me enrolar, quero duelar com você meu noivo, você me daria à honra? Sei que eu não estou a sua altura como guerreiro, mas, posso considerar isto como as lições de um professor, meu professor particular.
Ela diz me provocando, o que me deixa feliz por mais uma vez constatar, que minha Valerie ainda está ali, em algum lugar, e de vez em quando se mostra para mim. Eu respondo:
— Claro, serei seu professor com prazer minha noiva, mas, confesso: eu estou com medo querida.
E agora, caminhamos de volta ao local dos treinos próximos aos outros, ela pega a sua espada, e eu desembainho a minha e ela diz:
— Está com medo de lutar comigo Sr. Lazar?
Ela diz em tom provocativo, mas, também de maneira muito sensual, porém respondo:
— Sim, claro que eu estou!
Digo sincero...
Ela me olha perplexa e diz:
— Henry, eu não acredito, você está com receio de perder para mim?
E, eu respondo:
— Claro que não amor!
Agora, eu me aproximo dela e digo provocantemente a ela em seu pescoço logo após beijá-la ali, porém, eu não controlo o tom de voz. Pois, nem me dava conta da plateia ao redor.
— Valerie eu perderia mil batalhas para você de bom grado e sorrindo querida, e ainda me sentiria vitorioso! Porém, ficaria destroçado se ao menos provocasse um mísero arranhão nesta sua bela pele, que eu amo tanto!
Ela cora intensamente, e muito mais ainda, quando ouvimos:
— Hum... Estou de saída, a coisa está esquentando aqui.
É Érion que diz e realmente ele se levanta e sai. E é acompanhado de Camelot e Aquiles, que estão bem constrangidos, mas, noto Aquiles feliz. Acho que por meu contato com Valerie, estar aumentando.
Porém o sem graça de Áraon diz:
— Eu não! Vou ficar bem aqui, eu não perderia isto por nada! E no mais, eu já vi coisas piores sobre estes dois.
Eu e Valerie o olhamos na hora. Eu, furioso pelo comentário, e Valerie confusa, pois, não se lembra do que Araon diz. Ele se refere ao flagra que nos deu debaixo da mesa no jantar de noivado, no dia em que constrangeu Valerie.
Ele entende minha desaprovação e diz:
— Desculpe.
Porém, Valerie percebeu e pergunta:
— O que Araon viu?
— Ele nos flagrou no jantar de noivado, você me provocando por debaixo da mesa, e na época ele não foi discreto e te constrangeu.
Valerie ficou vermelha demais, e escondeu o rosto na hora em meu peito, e disse:
— Não acredito! É sério isto?
Ela pergunta morrendo de vergonha.
— Sim amor, mas já passou. Deixa para lá. Desistiu de lutar?
Ela imediatamente, levanta a cabeça e já tomando a postura para se preparar me diz:
— De jeito algum, eu quero lutar com você Sr. Lazar. Quero que me ensine.
Ela me olha de forma tão sensual, e naquele momento, eu percebo: que aquela não será uma simples luta e eu compreendo na hora, Valerie está, do jeitinho dela, se aproximando de mim, me seduzindo.
Ela posiciona-se com sua perna direita a frente e a esquerda em posição de apoio e suporte, atrás. Os braços estão estendidos, porém, não totalmente tensionados, para erguer a espada, e suas duas mãos, a seguram, sendo que a direita, serve de guia para os movimentos e a esquerda de apoio.
Posiciono-me, porém, inverto as posições das pernas, ergo a espada, mas, não tanto quanto ergueria no normal, pois, Valerie é bem menor. E agora digo:
— Primeiro, nós vamos fazer cada movimento em câmera lenta, um a um, e você irá prestar atenção, em cada movimento meu e tentar manter o mesmo ritmo, tudo bem?
— Claro, farei direitinho.
— Outra coisa, procure nunca desviar os olhos dos meus e dos meus movimentos, não se distraia, e coloque força nos seus movimentos.
— Tudo bem, eu farei.
Agora eu digo:
— Quero que comece me atacando. VAI!...
Os olhos de Valerie brilham. Ela simplesmente ataca com um passo a frente, ela aproxima-se com a espada posicionada e sua lâmina cruza a minha pela minha esquerda, com firmeza e precisão. Imediatamente firmo minha posição de bloqueio com minha lâmina, mantendo-a firme para conter a força que Valerie aplica em seu golpe, e devo dizer, que não é pouca força.
E agora digo:
— Minha vez.
Agora eu me aproximo um passo, o que leva Valerie a se afastar meio, e fico impressionado que ela não se distrai com o jogo de pés, e mantém a postura e posição de defesa em sua espada.
Agora eu, calculando meticulosamente, minha força, desfiro um golpe pela minha esquerda que golpeia a direita de Valerie. Fico impressionado como, sua defesa, também é firme e forte. Pois, quando minha lâmina cruza a sua, ela consegue manter sua formação sem se desequilibrar um milímetro. Aquilo além de ser incrível, é formidável e muito sensual de se ver, pois a cada minuto que ela percebe que me impressiono com seu desempenho, seu olhar se torna mais sedutor e provocativo. Nosso duelo parece mais uma dança sensual.
Principalmente, quando agora, eu giro, pela esquerda, para golpeá-la, com imprevisibilidade e supostamente com mais força, embora me contenha muito, ela reproduz o meu giro, pelo lado contrário, e sua lâmina cruza com a minha no mesmo momento em que o nosso olhar se cruza.
Golpeio-a com a espada abaixo do nível de minha cintura e ela imediatamente bloqueia o ataque e rapidamente desfere outro golpe, no alto de sua cabeça, levando-me a bloqueá-la.
Assim permanecemos: golpeando e defendendo, defendendo e golpeando. Bloqueando e atacando, girando e girando, aproximando e afastando, e sem que déssemos conta, o ritmo ia aumentando pouco a pouco, e o desempenho também, exigindo cada vez mais dos nossos corpos.
Fico concentrado o tempo todo nas reações de Valerie, as variações em sua respiração, o subir e descer do seu peito, com a respiração pesada por seu esforço. Sua pele suando no pescoço e na testa, o seu rosto corando, pelo agitar do seu sangue e também se intensificando quando cora, certamente por meu olhar devorador em seus olhos, quando em alguns minutos me torno consciente da sensualidade daquilo.
E cada vez mais, o ritmo aumenta, até que por fim, eu sinto suas mãos trêmulas, evidenciando a fadiga dos seus músculos, mas, eu sabia que ela não cederia, e claro que se ela notasse que eu simplesmente, deixei-a vencer, ela se entristeceria, então eu disse:
— Acho que por hoje chega meu amor, vou te ensinar a encerrar, com êxito e elegância.
Eu posiciono-me para o giro e ela me segue, e por fim, cruzamos nossas lâminas finalizando, com um giro completo em lados opostos.
Porém, ao pararmos, ficamos estáticos com os olhos vidrados um no outro, e compreendo que: toda aquela adrenalina, aliada a todo o jogo de provocação e sedução dos dois, enquanto duelamos, nos deixou mais cientes do desejo latente entre nós.
Calor e eletricidade correm entre nossos corpos tão próximos, em espessas camadas. É palpável a tensão.
Sou tirado brevemente do transe quando ouço:
— Araon, eu preciso de você aqui amor! Agora e rapidinho.
Era Made e só aí me dou conta de que, aos fundos tínhamos plateia, porém, creio que todos perceberam o clima e saíram, e Araon não o tinha feito, mas ao sair, percebo em seu olhar, que não era por que não quis, mas, por que estava petrificado e paralisado com o que via.
Ele sai e percebo que surpreendentemente ele está constrangido, algo não comum para Araon...
E aí é que compreendo o quão sensual e realmente surpreendente foi aquele momento meu e de Valerie, e ao mesmo tempo, a grande e admirável conexão e cumplicidade que compartilhamos o tempo todo.
Aquilo também, me desarma, pois, eu não esperava compartilhar isto com esta Valerie de agora, pois, ainda que estivesse presente, era algo totalmente pertinente a minha relação com a Valerie antes do coma. Fico confuso.
Porém, isso só dura alguns segundos, pois, ao voltar o meu olhar para ela que também está na mesma posição, ela me sonda completamente com os seus olhos. E uma onda avassaladora de desejo por ela se apodera de mim. E vejo que aquilo está nela também. Pois, ela repentinamente recolhe a espada, deixando-a baixa, o que me leva a embainhar a minha.
Entretanto, assim que o faço, ela aproxima-se e habilmente desafivela o cinto da minha espada e retira-o com bainha, espada e tudo, e juntamente com sua espada coloca-os na carruagem que está próxima.
Ela volta no mesmo ritmo até mim, e ainda estou sem reação, tentando compreender o que está acontecendo... Ela toma a minha mão me olhando nos olhos, e quando vou dizer algo, ela cola seus lábios no meu rapidamente e os retira na mesma velocidade e sussurra para mim:
— Venha... Acompanhe-me se confiar em mim.
Por mais que eu queira protestar, eu não consigo, estou completamente enfeitiçado por seu olhar e suas ações que refletem a espontaneidade de minha Valerie, estou hipnotizado por ela.
Ela conduz-me pelo terreno e ao cruzarmos o portão dos fundos, eu percebo que estamos indo em direção ao nosso refúgio: o bosque próximo ao riacho.
Ao chegar à trilha, ela parece perceber a pergunta em meus olhos, e agora para em minha frente e diz:
— Quero um momento de privacidade com você, você me concederia?
Saio do estado de choque, e dou-lhe um sorriso e digo:
— Claro! Mas, é melhor fazermos assim:
Dizendo isto, ergo-a em meu colo pelas coxas e automaticamente e sorrindo abertamente, ela envolve suas pernas em minha cintura, e, seus braços em meu pescoço. Então, diz:
— Muito melhor agora!
Devolvo-lhe o sorriso e sigo para o nosso refúgio...
Ao chegar lá, quando vou sentar-me na grama com ela, ela diz:
— Por favor, me deite na grama!
Mil coisas se passam em minha mente que protesta, mas, o meu corpo não obedece a minha mente, e sim, obedece a sua voz.
Deito-a e quando vou erguer-me para levantar-me, ela me prende em seu abraço e perco o equilíbrio, fazendo com que o meu corpo caia sobre o seu, prensando-a totalmente...
Rapidamente posiciono meus braços um de cada lado de sua cabeça para tirar meu peso de sobre o seu corpo apavorado com a possibilidade de machuca-la, e assim que eu o faço, ela toma meus lábios, e me beija perdidamente, e eu, por mais que minha mente mande milhões de sinais de alerta, não consigo resistir. Retribuo seu beijo com paixão e amor.
Assim que o ar nos falta, olho em seus olhos e digo-lhe:
— Eu amo você Valerie! Eu sou perdidamente apaixonado por você meu amor.
De uma forma impressionante aquilo mexe com ela, pois, ela começa a chorar, lágrimas correm de seus olhos, enquanto ela me olha. Imediatamente me levanto e puxo-a para o meu colo, sentada de lado e digo:
— O que foi querida?
Essas oscilações de humor dela é o que é mais difícil de lidar. Sim, eu digo oscilação, pois ela estava tão bem, bem demais, e agora seu olhar e choro é de pura tristeza.
Ela toca o meu rosto e diz:
— Eu gostaria de me lembrar de tudo Henry. Dói ver você se esforçar tanto e nada acontecer.
Olho-a com amor e acaricio o seu rosto e digo:
— No tempo certo, você se lembrará princesa, eu tenho certeza. O que vivemos foi muito forte Valerie. Amor, eu estou te sentindo muito apreensiva fale para mim o que é, deixe-me te ajudar.
Ela continuou pensativa, e por fim disse:
— Henry, e se eu não me lembrar? E se... E se...
E ela desaba a chorar.
— Ei minha querida não se preocupe com isto, amor minhas atitudes têm feito você se sentir pressionada não tem? Perdoe-me, não é minha intenção Valerie.
— Não Henry... Não é isto. – Ela diz soluçando. — Eu só tenho medo demais de te fazer esperar por algo que não venha acontecer.
Aquilo de certa forma, colocado da maneira que ela coloca, com aflição, mexe comigo e muito. Sei que esta é uma possibilidade, mas e daí? Eu resolvo ser sincero:
— Ei querida, quer saber, se isto acontecer, paciência, não poderemos fazer nada, a não ser conviver com isto, e no mais, nem tudo se perdeu, a cada dia, eu vejo tanto de você sendo revelado, como uma redescoberta. E é tão lindo presenciar isto Valerie. Amor, agora mesmo na luta, eu tive que me conter o tempo todo. Pois, toda aquela sensualidade que eu sempre vi em você, mas, ao mesmo tempo, permeada do seu jeitinho sapeca de menina que eu amo tanto, aflorou ali, aquilo me encheu de desejo, e não foi desejo de ter a Valerie de antes do coma, foi desejo de ter a Valerie de agora, que por sinal é a mesma... E aos poucos está voltando ao normal, o que falta é somente as memórias, e tenho certeza meu amor, é questão de tempo.
Ela me olhava aliviada e maravilhada e eu perguntei.
— O que foi?
— Então você realmente me ama, e também... Deseja-me? Estou falando desta Valerie de agora?
Enfim eu percebi: Valerie temia este tempo todo, desde que acordou que eu só a quisesse se ela recobrasse a memória. Então, eu pergunto:
— E você tem dúvidas disto, querida minha?
— Henry não é isto, é que é confuso, e eu sei que o é para você também. Meu corpo é o mesmo que você desejou e amou. Mas, minhas emoções e lembranças mudaram, e querendo ou não, isto me faz alguém diferente.
— Enfim, eu compreendo seu ponto amor. Mas, quer saber Valerie, nem tudo se perdeu.
Ela sorri tão aliviada e puxa uma enorme lufada de ar, e em muito tempo, pela primeira vez, vejo o seu semblante relaxar. E ali vejo o quanto isto a tem atormentado e digo-lhe:
— Amor, é por isto que você às vezes fica tão recuada e receosa? Você tem medo de eu não querer você se você não se lembrar?
Ela olha profundamente para mim e seus olhos brilham, e vi que era importante para ela que este medo se dissipasse, pois, ele a atormentava. E ela pergunta:
— Você já pensou nesta possibilidade?
Sabia que eu não poderia mentir, eu nunca havia pensado, e se realmente Valerie não se lembrar? Ela não tem certeza de nada, nunca disse que me ama, ainda é tudo confuso para ela. Ela tem lidado muito bem com a situação de acordar noiva e levar isto adiante mesmo sem memórias. Mas, isto não pode ser carência? Querendo ou não eu tenho sido seu apoio, e se ela estiver confundindo o que sente hoje?
E ela, então, disse:
— Como eu havia pensado: você nunca se quer, pensou nesta possibilidade.
Eu tinha de ser sincero:
— Sim Valerie, eu nunca pensei, mas, pense bem, eu também não tenho tanta segurança assim. Aliás, eu sou o que menos a tem.
Ela fica muda e eu prossigo.
— Veja bem, querida. Eu me lembro de tudo, sei que a amo, o que eu sinto não mudou com as mudanças do seu comportamento, nem com suas manifestações de recuo. Mas, e você? Você nunca mais disse que me ama, e eu sei que você só não o fez, pois, não o sabe, não tem certeza... Você tem lidado bem demais, com o fato de acordar com um noivo, o qual não se lembra de nada que viveu com ele, mas pense bem, eu tenho sido como um refúgio para você, sua carência pode muito bem, propiciar esta sua aproximação a mim. Por outro lado, pode não ser isto. Também sei que, pode ser seu amor por mim, guardado em algum lugar, mas, como eu posso saber e ter certeza se nem você a tem? Imagina? Pensa em como é isto para mim? Portanto, eu acho que às vezes pode ser isto que eu nunca parei para pensar, talvez seja mais fácil acreditar que você se lembrará do que vivemos e ficará tudo bem, Valerie.
Ela me olhava com intensidade me avaliando e me sondando.
— Eu compreendo Henry, eu sei que não é fácil para nós dois, estes têm sido tempos muito difíceis para nós. Mas, acho que o que é mais válido, é o quanto, nós temos nos, esforçado para lidar da melhor maneira, você principalmente. Eu realmente me orgulho da sua paciência e perseverança em lidar com tudo isto. Na verdade Henry, eu preciso dizer que, eu fiquei imensamente feliz em saber que você ainda me ama e me deseja mesmo sem as memórias... Eu esta Valerie de hoje, com todas as mudanças e inseguranças. Mas, eu sei também, que exigir de você, que espere eu ter as minhas certezas, quanto a nós, é demais...
Eu não sabia o que dizer, pois, eu realmente eu não considerei isto. Mas, havia algo seguro que no momento eu poderia fazer. Aproximo mais o seu corpo do meu e os nossos rostos, e olhando-a como se tentasse desnudar minha alma para ela, eu disse:
— Eu te amo! Amo a você Valerie, aqui e agora, mesmo sem memórias, mesmo cheia de medos e com uma mente confusa. Mesmo sem saber se você ainda me ama. Amo-lhe e desejo-lhe com todas as minhas forças.
Ela me olha lindamente e feliz, e diz com olhos marejados:
— Repete. Por favor?
— Eu te amo e te quero, te quero como minha esposa, eu te quero como minha amante, eu te quero como mãe dos meus filhos, eu te quero como o meu refúgio... E eu te quero ao meu lado para sempre!
Disse com toda a sinceridade e ela simplesmente sorriu e me beijou, um beijo cheio de desejo... E sério, não sei se era coisa de minha cabeça ou por que eu queria demais sentir aquilo, eu podia, às vezes, sentir as nuances do seu amor ali.
Como sempre acontece conosco, o beijo logo se tornou cheio de fogo, de intenso desejo e paixão. Então, eu hesitei um pouco.
Por fim, ela se afasta e posso sentir alívio, em nós dois, como se um peso tivesse sido retirado de nossas costas. E ela diz:
— Então, você ainda me deseja? Mesmo sabendo que sou uma Valerie diferente?
Ela precisava de certezas, e eu a daria e era agora.
— Venha cá, acabarei com as suas dúvidas.
Subitamente, mas, com todo o carinho, deitei-a novamente de costas, na grama, eu não pretendia em hipótese alguma, provoca-la ou quebrar o nosso “compromisso” eu só queria mostrar-lhe.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Afastei suas pernas com as minhas e cobri lentamente o seu corpo com o meu, de uma maneira mais íntima, como não tenho feito há muito tempo, até que nossas intimidades se tocassem.
Imediatamente os seus olhos se arregalaram de surpresa, brilharam e escureceram-se de desejo. Eu não deixava de olhá-la nem um segundo se quer. E disse-lhe:
— Sente isso? Sente o que você, aqui e agora, você, hoje, e neste exato momento, é capaz de fazer comigo? Eu estou pronto para você Valerie, em todos os sentidos, eu sempre estive. Sou seu amor, totalmente seu.
Ela me olhava insondável e imediatamente me beijou, colando os nossos lábios... E antes que eu raciocinasse, ela foi rápida: arqueou o quadril contra o meu e sua intimidade acolheu ainda mais minha masculinidade, e aquilo me enlouqueceu de desejo latente, mas, antes que eu perdesse completamente o raciocínio coerente e não conseguisse mais conter tudo aquilo, eu afastei os meus lábios dos seus, e olhei nos seus olhos e disse:
— Não querida, eu não vou ceder, eu só quis provar a você o que eu sinto e o quanto eu te quero. Para que você tire estas coisas de sua cabeça...
Ela não me deixa terminar e ergue o quadril novamente me fazendo arfar e gemer:
— Hum... Amor pare, por favor, Valerie.
Seu olhar devora o meu e ela diz:
— Eu quero Henry.
— Eu sei e eu também, mas, entenda...
Digo, reunindo todo meu esforço, me levantando e sentando e colocando-a sentada em meu colo de lado novamente...
— Nós não podemos, não ainda, me entenda amor. E, por favor, agora não conteste mais o quanto eu te desejo.
Ela me olha me sondando e depois de algum tempo, diz:
— Tudo bem. Mas, vamos nos deitar um pouco Henry? Eu preciso descansar e quero fazê-lo com você!
— Sim, claro!
Deito-me de costas para grama e estendo o braço para que ela o use de travesseiro, e assim que ela o faz, diz virando-se para me olhar:
— Sabe, eu nunca desejei ninguém como eu desejo você.
Dou-lhe um sorriso e toco-lhe o rosto e ela pergunta:
— O que foi?
— Você já me disse isto antes, então, fico pensando... De certa forma, tudo está evoluindo igualmente ao nosso início.
Ela sorri. E agora sou eu que começo a rir, e ela me olha confusa...
— O que foi Henry?
— Amor, eu me lembrei de o tanto que eu tinha que me conter com você, no início, pois, você quase me enlouquecia. E depois... – Aumento o riso. – Você pagou todos os seus pecados, pois, depois que eu fiquei curado, eu é quem quase te enlouquecia. – Ela sorri e faz uma expressão de quem está tentando imaginar a cena... – Ao ponto de eu nem poder mais tocar as suas coxas que você congelava nos meus braços, chegava a ser engraçado! – Ela sorri literalmente e diz:
— Sério Henry?
— O que? Nossa já teve “momentos íntimos e quentes” nossos, interrompidos por minhas risadas, por eu não me conter ao notar seu desespero.
E agora, nós dois rimos juntos, e muito! Era tão bom, após tanto tempo estarmos os dois tão relaxados. E agora a olhando, eu vejo: como eu amo esta mulher, nada no mundo poderia mudar isto. Nada!
Ela me olha retribuindo o meu olhar, e depois de um longo tempo diz, acariciando o meu rosto:
— Gosto de ver você feliz e relaxado assim Henry, você fica mais lindo do que já é sabia?
Aquilo acelera o meu coração, ela me chamou de lindo novamente, mas, sinto o meu rosto queimar e sei que estou corado o que Valerie não perde:
— Henry, que lindo você vermelhinho! Hum.... Que gracinha!
Sinto-me mais constrangido ainda e ela diz:
— Hum.... Você fica uma delícia assim Henry!
Nossa! Por apenas um segundo, eu achei que Valerie tinha voltado, pois, ela pronunciou aquilo igual ao seu modo antigo de falar comigo, antes de perder as memórias. Então, peço-lhe:
— Diz de novo amor.
— Hum... O que? Que você fica delicioso coradinho?
Nossa, meu baixo ventre esquentou e latejou na hora, ai! E eu disse:
— Querida, você sempre dizia isto para mim e eu amava ouvir, como ainda amo Valerie.
Ela dá um sorriso enorme e diz:
— Bom saber, direi sempre meu lindo e delicioso! Já que você disse que é meu!
— Obrigado! E sou mesmo seu Valerie, para sempre seu e só seu, amor!
Ela sorri divinamente para mim, enquanto me aproximo para experimentar mais uma vez da doçura dos seus lábios, que amo.
Assim digo, a ela, algo que tenho tentado criar coragem há dias, mas, sempre fico com receio:
— Sabe amor, tem algo que eu preciso te falar, não será fácil para você ouvir, mas, creio que chegou o tempo.
Ela me olhava curiosa, mas, apreensiva.
— Sabe quando eu disse que eu e você, comemoramos o nosso noivado com Prudence e Cedrico e Marvel e Rox, juntos num mesmo jantar?
— Sim Henry, eu me lembro de você me contando e fico tão triste por não me lembrar destes momentos mágicos...
— Pois é. Há outra coisa mágica e maravilhosa sobre Prudence e Cedrico que você não se lembra, mas, acho que está na hora de lembrá-la.
— O que Henry?
Ela pergunta aflita.
— Eles serão pais, e nós fomos escolhidos por padrinhos, princesa.
Valerie me olha espantada, na hora, e após dar vazão ao choque, cai num choro convulsivo e cortante, enquanto me abraça forte buscando conforto.
Aquilo me entristece demais, ver o quanto ela sofre por não se lembrar de coisas tão importantes, e ela diz, ecoando os meus pensamentos:
— Como eu posso ter me esquecido de coisas tão lindas e importantes da minha vida meu Deus? Eu não suporto mais isto Henry!...
Ela chora e soluça mais, e eu a conforto muito, pois, eu sinto a sua dor em cada célula do meu corpo...
Eu sabia que este momento seria difícil. Aliás, trabalhar as memórias de Valerie trazendo-lhe de vez em quando pequenos e seguros elementos, era uma tarefa exaustiva, pois, geralmente eu precisava me preparar muito emocionalmente para lidar com seus abalos e oscilações emocionais depois, pois, às vezes, era intenso demais.
O restante do dia foi imerso em tristeza, ela enfim, se abateu com sua condição, e eu me senti culpado, a ponto de ligar para Dartanhã vir vê-la. Ele disse que estava na hora mesmo de contar, pois se ela descobrisse por outra pessoa ou de qualquer jeito, seria muito pior.
Ele também me falou que eu não poderia fugir disto, eu era a peça chave a respeito da reconstrução das lembranças de Valerie. Por isto eu precisava de acompanhamento também, pois, realmente, era uma coisa de extrema importância, o que eu fazia por ela, mas, eu precisava me estruturar, pois, eu também poderia acabar adoecendo, devido a todo o estresse do contexto e a pressão.
***
Percebo que todas às vezes que tenho de ir a Daggorhorn, quando volto, Valerie fica mais próxima a mim, e noto que ela sente minha falta, e isto me acalenta um pouco. Tenho precisado ir, quase toda semana, para poder acompanhar a evolução da Ferraria, ainda mais, agora, que ela passou pela reforma, e, que, a de Grewnville, já está em fase de projeto e planejamento de despesa.
Araon anda animadíssimo com a ideia, porém, compreende que ainda não acelerei o processo, pois, preciso me dedicar a Valerie. Cedrico, a meu pedido, começou a treinar outra pessoa para ajuda-lo e quando vou para lá, passo aquilo que compete a mim.
O projeto sobre montar as turmas de treinamentos para jovens, em Daggorhorn, foi aprovado pela Guarda. Na verdade, Aquiles havia me orientado a falar com Constantine sobre isto, para ver o que ele achava, e para ganhar o seu apoio para o que eu precisasse.
E, foi como Aquiles disse, ele levou ao conhecimento do Comando, e foi aceito e realmente eu receberia todo o apoio de que eu precisasse. Só que oficialmente, o projeto só nasceria após eu resolver as questões com a saúde de Valerie e de nosso casamento!
***
Em um dado intervalo, minha avó vem ver Valerie, e as duas passam dias maravilhosos, juntas. É bom ver que, mesmo sem as memórias, o carinho entre as duas, não se perdeu.
Já faz um mês e vinte dias que Valerie acordou do coma. E tudo caminha de forma estável, com poucas mudanças. Há dias perfeitos, porém, há dias angustiantes e de afastamento.
Embora eu esteja me esforçando, me tratando, e criando uma rotina variada para passar o tempo, cada dia que se passa, sem a possibilidade de que ela recobre a memória é torturante demais.
Procuro focar só na Valerie de agora. Mas, não é fácil.
Nossos momentos intensos quase não ocorrem mais, e quando ocorrem, são muito leves, visto que, desde que eu a afastei, logo no início, ela evita contatos que se aprofundem, por receio de se magoar ou me magoar. Mas, isto só amplia o meu desejo por ela. A cada dia ele é maior. Nem no dia do nosso primeiro duelo, houve provocações além do normal, embora, tivemos um tempo muito gostoso juntos no bosque próximo ao riacho.
Digo primeiro duelo, pois, houveram outros. E foram cada vez melhores. Todos nós nos encantamos em o quanto Valerie é realmente boa com a espada, e com adagas também, mas, não tanto.
Tio Heitor e tia Clara vêm algumas vezes ver Valerie e me ver também. Fiquei imensamente feliz, por que desde a primeira vez que vieram, Valerie os recebeu muito bem e sua afinidade com os tios foi exatamente à mesma da primeira vez. Ela se apegou a tia Clara, que por sua vez, cuidava com todo carinho de minha amada. Tio Heitor nem se fala, me aconselhou muito, conversou muito com ela. E me incentivou em tudo que precisava.
Para mim, foi ótimo, pois, eu realmente andava precisando desabafar, não num nível profissional como Dartanhã, mas, como num nível de um pai para filho mesmo, como sempre acontece comigo e com o tio Heitor. Ele me deu muitos conselhos que foram maravilhosos.
Aos Oxford’s, nem sei como agradecer, pois, estão cada vez mais próximos a nós e solícitos. E cada vez que tento falar sobre deixar a residência deles para dar-lhes privacidade, pelo tempo que estamos ali, e os incômodos que isto gera, eles não permitem se quer, eu terminar a conversa, os três são unânimes em dizer: “Amigos, e família, e é o que somos, são para estas coisas, vocês já fizeram demais por nós, nos deixem retribuir.” E encerram o assunto.
Gradativamente, as coisas têm ficado um pouco melhores. Mas, sabe aquela coisa de que sempre acontece algo, quando tudo parece ir bem? Infelizmente aconteceu algo terrível que mudou o rumo das circunstâncias, e das nossas vidas...
***
Certa tarde, durante meu treino com os rapazes, Constantine chega e vem até nós, ele fica muito feliz em ver minha proximidade com Valerie, e impressionado vendo-a duelar comigo.
Porém, infelizmente algo acontece, vejo que Louise também veio. Aquilo traz um desconforto diferente para mim. E vejo que para Valerie também. Porém, Valerie procura estar ao meu lado o tempo todo, visto que percebe que eu estou inquieto com a presença de Louise. Não sei, mas há algo diferente no semblante de Louise hoje, mas, não capitei o que é.
Valerie tem estado mais solicita a mim, embora mais pensativa e reflexiva ultimamente, às vezes eu tenho a impressão de que ela está tentando buscar suas memórias.
Aquilo me entristece, pois, sei que ela tem se esforçado, mas, eu confesso, tem dias que manter a esperança de que suas memórias voltarão, é difícil. Dartanhã diz que é assim mesmo. Mas, minha angústia por não saber quando e como tudo irá mudar e voltar a ser como era, a cada dia aumenta, creio que enfim, o Criador encontrou um meio de trabalhar minha ânsia por ter controle sobre tudo. Afinal, é mais confortável para mim assim.
Aliás, o Criador tem usado todo o meu contexto de vivencias com Valerie para trabalhar e resgatar muitas coisas em mim, não é fácil admitir isto, mas, todos estes sofrimentos, me ensinaram muito. Mas, a duras penas, talvez por eu demorar tanto, às vezes, para compreender seus propósitos, eu não sei. Isto seria o que minha mãe diria.
E por pensar nela, tenho sentido a sua falta, dos sonhos com ela. Ela sempre renova as minhas forças e esperança com suas sábias palavras. Tenho sentido falta também, de estar mais próximo do tio Heitor, ao que parece ele vem hoje para cá.
***
Houve um dia em que meu coração doeu muito, ao ver Valerie pensativa no riacho, sozinha. Aquiles a vigiava de longe e quando me aproximei, ela cantava baixinho com os olhos cheios de lágrimas, e quando perguntei o que era, ela disse:
— Queria tanto lembrar-me Henry!
Ela chora muito no meu peito e a cena é angustiante. Ela pede para ficar só, e eu insisto em ficar com ela, mas, ela diz que precisava ficar um pouco sozinha, me pede perdão por isto, e eu compreendo e saio, com meu coração muito dolorido e partido.
Ao chegar ao casarão, pude ver que Cosntantine me esperava lá, novamente, ele veio me ver, acho que percebendo o quanto tenho sentido falta de uma figura mais velha para conversar, que seria o tio Heitor.
Então, na ausência do tio, ele sempre procura estar à disposição. Ele realmente é um homem muito bom. Uma pena que com uma filha tão ardilosa. Eu sempre soube em meu íntimo, desde que reencontrei Louise, que ela me daria muito trabalho, mas, eu não esperava que fosse tanto...
Naquela tarde, ela, como sempre, veio junto, e em um dado momento em que deixei seu pai conversando com os rapazes e fui aos fundos do terreno ver a possibilidade de Valerie já estar voltando do bosque ela diz para mim, com sua voz, vindo da carruagem:
— Henry, por favor, me ajude a descer.
Eu imediatamente iria fazê-lo, mas, uma voz, dentro do meu coração disse: “Não! Não o faça!” Recuei bruscamente, ainda mais que a voz me fazia lembrar minha mãe, me repreendendo e alertando de algo, e dona Laura nunca errou nos seus conselhos. Assim, eu fiz diferente, chamei alto:
— Camelot?
Ele prontamente veio, e eu disse-lhe:
— Louise precisa descer da carruagem, e quer ajuda, ajude-a, por favor.
— Sim Senhor.
Ele prontamente foi fazê-lo e não muito feliz.
Todos ficavam insatisfeitos com as investidas de Louise sobre mim, o no caso de Camelot era pior, pois, Ananda a odiava. Mas, Aquiles que é o único solteiro, não estava ali, estava com Valerie. E estranhamente ao pensar nisto, um arrepio me percorreu...
Eu aprendi a controlar o meu ciúme, mas, foi muito difícil não notar, naquele momento, o quanto Aquiles tem passado mais tempo com Valerie, e que ela aprecia a sua companhia. Ela diz que os conselhos de Aquiles, por ele ser mais velho, a traz segurança, lembra o seu pai quando ela era mais nova, e antes de ele se afastar dela e de Lucie pela bebida. Esta percepção me incomoda, mas, procuro afastar os pensamentos.
Assim, a tarde corre naturalmente, mas, algo me faz ficar ainda mais receoso, Valerie e Aquiles voltam sorrindo do bosque, ela parece feliz, e o fato dela estar assim ao lado dele, me incomoda demais, por mais que eu lute contra.
Tio Heitor chega de surpresa, e percebe que não estou bem e que estou abalado e mexido e me chama para uma conversa, enquanto tia Clara passa tempo com Suzette e Valerie.
— Henry filho, eu estou preocupado com você, eu estou te sentido arredio com Aquiles e eu gostaria de entender o por que.
Conto a ele tudo o que eu estou sentindo, ele me diz com uma seriedade maior que o normal:
— Posso te dizer algo do fundo do meu coração de pai?
— Sim tio, Claro!
— Eu sinceramente não sinto o que sente Henry, ao contrário, eu vejo em Aquiles um homem de caráter e muito leal, mas, é claro que, eu não pediria para ignorar totalmente o que você sente, afinal, ela é sua noiva. Porém, tome cuidado, pois, eu percebo claramente, que a sua fragilidade emocional e física aumentou consideravelmente, o que é normal, pois, afinal, são quase dois meses só de Amnésia, fora os vinte e cinco dias de coma. Realmente o desgaste é comum, você tem falado sobre isto com Dartanhã?
— Sim e ele me diz que as minhas reações são absolutamente normais, dentro do contexto que eu estou vivendo, com este estresse e pressão toda.
— Pois é, mas, há algo que desta vez realmente me deixou aflito: Louise, Henry, ela ainda ronda você e seu estado de carência está enorme filho. Como anda indo você e Valerie?
Respiro fundo, e sou sincero:
— Dentro das circunstâncias em que estamos vivendo, até bem tio, temos mais contato e proximidade agora, embora haja dias como o de hoje, em que ela fica recuada e afastada. E é esta montanha russa emocional que me enlouquece. Não sei mais o que fazer ou dizer.
O tio me olha pensativo por um tempo e diz:
— Agora é a hora de a fé entrar em ação filho e pedir forças ao Criador.
— E o senhor acha que eu tenho tirado forças de onde? Aprendi a interceder a Ele com mais frequência tio. Acho que Ele deve achar até engraçado, que de um filho distante e que nunca conversava ou pedia nada, eu me tornei um filho, mais próximo, que conversa e pede socorro o tempo todo. Leio a Bíblia ainda, todos os dias com Valerie. Eu não tenho deixado de fazê-lo tio.
Ele me sonda e diz:
— Então, quer saber filho? Descanse no Senhor e confie, não importa o que aconteça, fique firme, ainda que as circunstâncias pareçam sair, às vezes, do nosso controle, quando entregamos as nossas causas a Ele, precisamos confiar que Ele está no controle e não o perde, jamais. Então, ainda que as circunstâncias venham a ficar, mais estranhas, os dias ainda mais sombrios e difíceis, confie e continue entregando, e, eu posso garantir Henry, ao final de tudo isso, você entenderá.
As palavras do tio Heitor me tranquilizam, porém, eu digo:
— Tio, eu tenho tanto medo de errar em algum momento, ou fraquejar, eu me sinto frágil demais.
Ele surpreendentemente, ri e diz:
— Absolutamente normal meu filho, e pode acontecer, somos humanos, e o nosso Deus sabe disto, e Ele é um pai amoroso, capaz de conceder perdão diante de um coração quebrantado e sincero, então, quando você sentir que falhou, e poderá passar por isto muitas vezes, simplesmente reconheça a Ele e peça que Ele estenda a sua Graça e misericórdia sobre você e Ele sempre o fará. Ele te ama filho, e é um amor que excede e muito o de sua mãe, e seu pai, o meu e de sua tia e seus irmãos, e até o de Valerie Henry. Ele é quem mais te ama.
Não consegui me conter mais. Toda a dor que eu tenho tentado conter para me manter forte, vem com força total e ali mesmo, nos fundos do terreno e sozinho, com o tio Heitor, eu desabo e sento-me ao chão, e choro muito, com a minha cabeça entre as mãos.
Eu acho que eu não tinha me dado conta, de o quanto realmente eu estava sobrecarregado desta vez, me sinto como no dia em que eu voltei do Vilarejo para cuidar de Valerie após a morte de Peter e acabei adormecendo no jardim, por tanto ter chorado e ter ficado entorpecido.
O tio senta-se ao meu lado, e ao olhá-lo seus olhos transbordam de lágrimas por contemplar meu sofrimento, e, ele faz algo que me quebra de vez, pois, há anos não me sinto tão indefeso e desprotegido.
Ele abre os seus braços e literalmente me toma em seu colo como um garotinho, e é exatamente assim que eu me sinto, um garotinho indefeso que precisa tanto de um colo de pai. E o tio Heitor me dá isto. E a sensação daquele colo, naquele momento, fecha uma ferida à muito aberta.
Somente ali, eu vejo como eu senti falta desses gestos do meu pai, pois, eu o afastei tanto de mim, quando mamãe se foi, que isto foi perdido entre nós, e incrivelmente, é o tio Heitor que veio me devolver isto hoje, miraculosamente.
Ele faz exatamente como o meu pai fazia, corre as mãos em meus cabelos, acaricia os meus ombros e diz:
— Estou aqui filho, sempre estarei, enquanto o Senhor me conservar em vida. Amo você Henry, eu, a sua tia e os rapazes, todos nós o amamos filho, muito, a sua avó também, e... – ele puxa o meu rosto para olhá-lo e diz: – a Branquinha também, eu tenho certeza! Tudo que ela sente está guardado em algum lugar. Acredite!
Fico em silêncio, absorvendo aquelas palavras que encontram os espaços que elas podem, preenchendo o meu coração e alma, há muito feridos. E, a paz me alcança e me envolve de uma forma maravilhosa.
Após aqueles momentos com o tio Heitor, eu me sinto mais leve e entorpecido.
A tarde passa, e a noite chega...
Tio Heitor, e Constantine passam um tempo juntos. Os rapazes, passam comigo e Valerie com Made e Ananda e Elise.
Louise é um caso a parte, porque, por mais que ela soubesse, que não era bem-vinda por suas atitudes, ela se mantinha impassível. Mas, a sua presença, de certa forma, tem-me trago um incomodo diferente.
Por pedido de Dartanhã, naquela noite, eu, Elise e Érion, contaríamos a Valerie sobre as habilidades que ela tem com o Alaúde. Ele nos disse que, há pessoas que continuam tocando normalmente, mesmo que não se lembrem de como aprenderam. Mas, também, há pessoas que não se lembram, depende muito do contexto.
Sabíamos que talvez não fosse algo fácil, conta-la primeiro, principalmente se ela não conseguisse tocá-lo. Então, montamos uma estratégia...
Após o jantar, eu, Érion e Elise, nós nos sentamos na Varanda com Valerie. Elise pediu que eu trouxesse o Alaúde. E eu o fiz.
Começo dedilhando-o e olhando para Valerie, depois de algum tempo, Elise me pede o alaúde. E agora ela dedilha. Por último Érion. E enquanto isto, nós conversávamos, os quatro. Em um determinado momento, Valerie diz:
— Acho lindo ver pessoas com talento musical como você Henry, Érion e Elise.
E aproveitando a deixa, Elise diz:
— Pegue um pouco Valerie e experimente.
Ela sorri constrangida e diz:
— Ah não, eu não saberia nem o segurar.
Porém, Elise diz:
— Você poderia se surpreender. Às vezes, nós temos talentos desconhecidos. Vai, só um pouquinho, ele não morde.
E Érion diz para confirma-la:
— Não vê com a espada? Você foi ótima e nunca se quer, a pegou antes.
Valerie, por fim, pondera, dá um sorriso e diz:
— Me dê então.
Érion o faz, já que o alaúde está em suas mãos. E, inacreditavelmente, até pela maneira de segura-lo nas mãos, já vemos diferença.
Então, ela nos surpreende: ela começa a dedilha-lo, e o som de uma música, preenche perfeitamente a varanda.
Ela nos olha encantada e com lágrimas nos olhos e pergunta:
— Desde quando eu toco?
E, é Elise que responde, emocionada!
— Desde que você chegou aqui Valerie, eu a ensinei a pedido do Érion, foi você que nos reaproximou e nos ajudou a nos acertar, eu a preparei para fazer uma surpresa para o Henry e para que você o ajudasse com algo. E aqui está você, tocando de forma belíssima com toda a sua arte intacta, graças a Deus.
Valerie sorria muito e também estava emocionada, na verdade nós quatro estávamos emocionados e eu disse:
— Amo você! Eu estou orgulhoso Valerie!
Ela sorri e Érion diz:
— Bem... Nós vamos deixar vocês um pouco a sós, para conversarem, pois, também queremos ficar a sós.
E ele e Elise sorriem para nós. Eu e Valerie retribuímos...
Passamos mais algum tempo juntos e vejo o quanto ela está maravilhada por saber tocar, e feliz demais, e aquilo é lindo de se ver.
As horas passam e eu percebo claramente, quando o seu semblante vai ficando marcado por cansaço e digo:
— Meu amor, hora do soninho. Vamos?
— Sim Henry, eu estou cansada.
Tomo o alaúde em minhas mãos e saímos.
Surpreendentemente ao chegarmos dentro de casa, Elise e Made e Suzette e tia Clara, cuidavam de uma Louise ao chão, desmaiada. Constantine faz menção de leva-la embora e as meninas, o aconselham a não fazer.
Aquilo me preocupa por ter que dormir com Valerie e ela num mesmo ambiente. Mas, eu deixo passar. Valerie ajuda as meninas com Louise e quando termina diz:
— Vamos Henry, eu estou liberada, Louise dormirá com a minha mãe e Made com a mãe dela.
Uma pena Sophie quase não estar vindo, pois, como ela ficou vários dias com Valerie no coma, tia Clara, prefere que ela fique em Grewnville para manter tudo em ordem. Sei também que é um pouco o ciúme do tio Heitor dela com Marverick por eles serem bem novos. Então, o tio Heitor mantém este namoro, debaixo dos seus olhos.
Eu e Valerie, realizamos a nossa rotina antes de dormir, inclusive lendo a Bíblia e quando estamos deitados, um do lado do outro, até que ela adormeça, ela diz:
— Henry, eu não estou confortável!
— Hum? Como assim amor? Por quê? O que houve?
Ela me olha nos olhos e diz:
— Percebeu que eu passei o dia inteiro, distante e diferente não foi?
— Sim amor, mas, eu compreendo. Mas, o que a incomoda tanto?
— Você! Eu tive um sonho esta noite, em que você me deixava... Na verdade que algo acontecia e acabava tudo! E desde este sonho, eu estou triste e atormentada, mas por que será?
Aquilo foi como um soco no meu estômago e me faltou o ar, levantei-me bruscamente, preocupado. Era um sonho de Valerie, e nenhum deles deveria ser ignorado e eu disse:
— Olha amor, eu não sei o que houve, mas, Valerie eu não posso te deixar eu a amo mais que tudo, eu não vivo sem você!
Ela me olha triste e diz:
— Você me disse isto no sonho, mas, eu... eu não te ouvi... o que acontecia nos afastava...
***
Valerie demorou muito a dormir, e consequentemente, eu quase não preguei meu olho, eu até tentei, mas, eu acordava há quase toda meia hora assustado com algo. A revelação do seu sonho para mim me angustiou demais.
Às vezes que eu acordei, eu pude observar, o quanto o sono de Valerie, estava agitado e aquilo me angustiou. Ela falava muito dormindo.
Ela chamou o meu nome algumas vezes, chorou... O que me fez levantar imediatamente e acariciar os seus cabelos, para reconforta-la. Seja o que for que ela estivesse sonhando, ela estava em agonia profunda. Houve um momento em que ela disse:
— Como você pode fazer isto Henry? Por quê? Você disse que me esperaria, e eu disse a você que eu não queria te prender, pois, eu temia criar esperanças e uma coisa assim, acabar acontecendo.
E aí, ela caia no choro novamente. Aquilo já estava tão angustiante, que eu estava à ponto de acordá-la.
Depois de algum tempo, ela ficou mais calma um pouco...
Eu fui acariciando os seus cabelos e beijando a sua cabeça. Eu estava sentado na beirada da cama. Por fim, quando ela realmente se acalmou, eu beijei os seus lábios e ela sorriu.
Assim, resolvi ir até a cozinha tomar água, pois, toda a agitação da noite, me deu sede.
Saí do quarto, quietinho e sem fazer barulho algum. Ao chegar à cozinha, acendi iluminação e fui direto a água.
Quando eu estava no terceiro copo, senti braços me envolverem, apesar do aperto não ser o característico de Valerie, quem mais faria aquilo?
Virei-me rapidamente, já com o copo vazio, envolvendo o corpo que me abraçava, enquanto ia direto aos seus lábios, só me dando conta que não era quem eu esperava, no momento em que a beijei...
Era Louise!...
Eu fiquei tão perplexo que perdi a capacidade de reação, enquanto seus lábios moviam-se sobre os meus... Eu estava em completo choque. Eu nunca imaginei passar por isto.
Aos poucos, a percepção, do que estava acontecendo, fez o meu sangue gelar. Porém, antes que eu dissesse, ou fizesse qualquer coisa, algo me fez congelar e estremecer...
— Henry! Mas o que é isto?
Era Valerie que havia acabado de chegar ali, a única coisa que eu processei, foi o meu copo indo ao chão, estilhaçando-se em mil pedaços...
POV VALERIE
Acordei com o corpo cansado.
Engraçado, eu tive a sensação do corpo do Henry próximo a mim o tempo todo, me tocando e confortando. Portanto, foi muito estranho acordar e não o ver no quarto. Como, eu estava com sede, eu fui direto a cozinha.
Só que no meio do caminho, como fiz tudo de maneira silenciosa, eu percebi que Louise estava indo pelo mesmo caminho, só que ela já estava no fim do corredor.
Assim, eu apressei o meu passo, e ao me aproximar e perceber que a luz da cozinha, estava acesa, eu fiquei preocupada, pois, imaginei ser o Henry, para Louise estar indo tão sorrateiramente assim, até lá. Se fosse ele, certamente ela estava o vigiando.
Apressei o meu passo e assim que ela adentrou no ambiente, eu pelo cantinho, pude observar tudo. Porém, nada me preparou para o que eu veria:
Sim era Henry, mas, ele estava de costas para nós duas, e ela de costas para mim. Ela sorrateira e sutilmente abraçou-o por trás...
Precisei de todo o controle, para não ir até lá e arrancá-la pelos cabelos. Porém, o que realmente me apavorou, foi Henry ter virando rapidamente já envolvendo a sua cintura e a beijando...
Notei que, quando ele percebeu que era ela, ele arregalou os olhos e seu olhar foi de decepção e desespero. No entanto, ela continuou o beijando e ele estava de olhos abertos e sem reação.
Minha mente estava a mil, minha cabeça automaticamente e inexplicavelmente começou a latejar. Eu estava um caos por dentro. Porém, eu não consegui entender o por que o Henry não reagia, nem para abraça-la ou para afastá-la.
Assim, a compreensão me atingiu: ele estava em choque! Eu precisava fazer algo. E, a única coisa que me ocorreu foi gritar:
— Henry! Mas o que é isto?
Henry se assustou como eu nunca vi e seu copo caiu, estilhaçando-se ao chão.
Já Louise, virou-se e olhou vitoriosa para mim, agarrando-se a ele. Henry imediatamente afastou os braços dela, com uma mão forte enquanto limpava a boca com a outra e disse furioso com ela:
— Sai de perto de mim Louise! Valerie, meu amor, não é nada do que você está pensando! Pelo amor de Deus, não se precipite!
Louise, como a boa atriz que é, disse:
— Mas Henry, por que agora você está me afastando? Ela precisa saber que você me deseja!
Aquilo deixou Henry possesso, e ele disse:
— O QUE? Valerie, querida é mentira!
Aquilo foi me enchendo de fúria e ódio, e a única coisa que eu registrei é que, a esta altura, com o barulho, havia mais gente ali.
Aquiles que pelo olhar que lança para o Henry e a Louise, sabia que havia algo errado. Vi também, o tio Heitor, a tia Clara com a mão na boca espantada, Marvel, Made, Araon, Camelot e Érion.
Todos estavam estáticos e Henry disse, apavorado:
— Eu posso explicar, não é nada...
Eu não o deixei terminar e gritei a plenos pulmões:
— CHEGA!
Todos ficaram ainda mais congelados! E eu respirei fundo e disse:
— Eu sei o que aconteceu Henry! E, pelo amor de Deus, eu sei exatamente o que eu vi!
Henry estava vermelho vivo e pelo que eu conhecia dele, eu sabia que ele estava queimando de vergonha de ter todos ali, o encarando.
Então, para resolver logo aquela situação constrangedora, eu aproximei-me dos dois e olhei profundamente nos olhos do Henry e o que vi ali, me provaria qualquer coisa, mesmo que eu não houvesse visto a verdade. Pois, eu vi medo, puro medo de me perder, puro medo de me magoar, então, eu disse:
— Eu não preciso me lembrar de nada do que eu vivi com você, antes do coma, para conhecer o seu caráter. Pois, eu o conheço desde pequeno, e se tem algo pelo qual você sempre foi honrado Henry, foi por seu caráter e sua honestidade. Eu sei que você não faria uma coisa destas, jamais, ainda que eu não houvesse visto o que ocorreu. Mas, ainda assim eu vi. Eu vi Louise vir sorrateiramente, até a cozinha e te abraçar pelas costas e você se virar beijando-a, pois, certamente achou que era eu, pois, quem mais faria isto? Com um homem comprometido, se não a sua noiva? Somente alguma mulher sem noção e desesperada por alcançar, a qualquer custo, o que não consegue por merecimento. “Uma qualquer”, pois, uma mulher que se presa, não sai por aí agarrando e beijando homens que pertencem a outra. Não é Louise?
Ela me olhava, de olhos arregalados, e cheia de medo.
— O QUE?
Desta vez foi Made quem gritou. Ela já estava ao meu lado. Juntamente a Marvel. Made, num piscar de olhos, estava com uma tocha dos cabelos de Louise nas mãos puxando-a para longe de Henry e de mim.
E foi uma gritaria de Louise, pois, aquilo deveria doer... quando ela já estava, do outro lado, Made gritou:
— Fora daqui! Aquiles pelo amor de Deus e tudo que é mais sagrado! Tire esta criatura daqui, antes que eu a mate! Eu não pedirei a Camelot, em respeito à Ananda, e mais, você é solteiro e ainda é amigo do pai maravilhoso, deste traste... Diga a Constantine quando a deixar em casa, que ela está terminantemente, PROIBIDA de pisar nesta casa! VOCÊ ME ENTENDEU Aquiles?
— Tudo bem!
Aquiles responde assustado com a postura de Made. E, Made diz:
— Agora, eu acho que todos nós, precisamos caçar os nossos rumos, porque Valerie e Henry precisam ficar a sós, vamos.
Nunca vi Made tão enérgica, e até Araon estava assustado. Antes de sair ela vem até mim.
Primeiro ela me olha e diz:
— Amiga, parabéns pela sua calma, quero pedir que continue calma, vocês precisarão disto, para conversar. Amanhã eu estou a sua disposição Valerie, minha amiga! Acho que o resto da noite é de vocês e para vocês conversarem, sem interferências.
Agora ela se vira para Henry e diz:
— Amanhã cedo, bem cedo, Lazar, eu quero falar com você, seriamente!
Então, Made sai. Só que ela se vira antes de sair:
— Deixe a bagunça para amanhã, por favor!
Em seguida, ela segue seu caminho, me deixando a sós com Henry!
Sinto minha respiração pesada e a de Henry também. Vejo que ele está estático, ainda sem reação.
Na verdade, eu acho que Henry jamais esperava viver algo assim. Pelo que eu conheço dele, ele está envergonhado ao extremo, com nojo de si, e com raiva de si mesmo, por não ter reagido. Mas o pior, é ver o medo em seus olhos, então, antes de conversar ou fazer qualquer outra coisa, eu o tomo pela mão e digo:
— Venha, vou fazer algo, antes de conversarmos.
Levo-o até o quarto abro o guarda roupa e pego outro pijama limpo, imediatamente coloco no banheiro, vou até Henry e o tomo pela mão e o conduzo ao banheiro e digo quando está lá dentro:
— Saia somente quando estiver pronto. Você pode levar o tempo que for preciso, sei como está e que no momento, você precisa ficar sozinho, para pensar.
E ele me diz num fio de voz:
— Obrigado!
Saio e fecho a porta, e imediatamente, eu vou até a cozinha, coloco um chá para fazer e enquanto fica pronto, limpo a cozinha. Eu não deixaria, de maneira alguma, para amanhã.
Quando eu já estou terminando, de guardar as louças que sujei com o chá, Aquiles chega. Ele me olha insondável, observa a ordem de tudo e o chá na mesa e diz:
— Como à senhora está?
Respiro fundo e digo:
— Ainda não sei Aquiles.
Ele me olha com compaixão e diz:
— E ele?
— Está no banho, acho que ele precisava de um tempo sozinho, fiz um chá para quando ele sair para podermos conversar e como foi com você?
— Eu a deixei lá, conversei com Constantine e ele garantiu que ela jamais porá os pés aqui novamente. Senhora, me desculpe a intromissão, parabéns por sua sabedoria. E pense no que irá fazer. Não os prejudique por Louise, não vale a pena e era o que ela queria. O Senhor Lazar ama você.
Eu dou-lhe um sorriso sem humor algum e digo:
— Obrigada Aquiles, por sua lealdade!
Ele sorri e diz:
— Sempre às ordens, senhora. Eu quero que se casem logo, de verdade, boa noite!
Aquiles sai me deixando sozinha. Pego o chá e a bandeja com as xícaras e vou para o quarto. Assim que eu chego, vejo Henry pronto sentado na beira da cama.
Coloco tudo na mesinha e digo:
— Eu também preciso de um banho.
Ele me olha com os olhos vermelhos e diz:
— Tudo bem, eu espero.
Vou ao guarda roupa e pego um pijama, entro no banheiro e o fecho.
Eu estava tensa. Não, a verdade, é que eu estava uma pilha de nervos.
Só de me lembrar da cena, tudo em mim doía.
Minha cabeça latejava e eu me lembrei, de que, eu não havia preparado a minha poção para dor.
Então, eu abri a porta novamente e olhei para o Henry, e quando o fiz, o meu coração perdeu duas batidas... Ele chorava silenciosamente, com a cabeça abaixada entre as mãos, mas o choro era tanto, que lágrimas pingavam aos montes.
Ele o fazia quase sem ruído, creio que, para que eu não visse, para não me preocupar. Ele estava sofrendo muito.
Não resistindo, fui lentamente até ele... Ele ainda, não tinha me notado.
Quando eu estava a sua frente, algo extraordinário me aconteceu: por que, exatamente ali, eu me dei conta, do quanto o sofrimento do Henry, era insuportável para mim.
O meu coração apertou-se de ver aquela figura enorme, geralmente tão seguro, tão protetor, pois, Henry inspira proteção em cada poro do seu corpo, tão indefeso e vulnerável.
Eu não podia mais ignorar isto, ali eu me dei conta, de que eu realmente estava me apaixonando por ele novamente. Eu não era mais, de forma alguma, indiferente a ele, e ao que eu sentia por ele.
E esta exata percepção, me fez enxergar que era o tempo de uma decisão...
Porque, se este realmente fosse o fato, era tempo de pensarmos sobre o que queremos. O Henry, principalmente, pois, ainda é claro que, a minha falta de memórias, o entristece, e, eu ainda tenho as minhas dúvidas, apesar de tudo o que ele fala, a respeito de que ele ainda irá me querer e me amar, da mesma forma, se eu nunca mais, recuperá-las.
Portanto, expor os meus sentimentos desta forma, permitindo que o que eu sinto por ele agora, se expanda, sem esta certeza, é um risco enorme para eu me machucar lá na frente.
E sei que ele irá sofrer, aliás, eu sei que irá doer nos dois, mas, este é um tempo de prosseguirmos sós, cada um, o seu caminho, para repensar as suas escolhas e decisões.
Sei que ele não irá entender fácil. Mas, embora eu saiba que ele não tem culpa do beijo de Louise, esta é uma oportunidade para tal.
Mas, eu sei que, eu precisarei de toda a determinação do mundo, pois, vê-lo vulnerável me quebrou completamente. Assim, aproximo-me mais...
Ele estava tão absorto em sua dor, que ainda não tinha me notado.
Hesitantemente, eu toquei a sua cabeça e seus cabelos e ele ergueu o rosto, banhado em lágrimas, para mim no susto. E, foi mais difícil do que eu pensei...
Sua dor refletia em mim, quando agora eu mergulhava em seus olhos.
Ah como eu queria poder sugar aquela dor para mim, para o meu coração, arrancando-a dele. Como eu queria... Respirei fundo, buscando forças e disse:
— Desculpe, eu abri a porta para te pedir algo, e te vi assim. Eu não resisti e quis vir te ajudar. Não fique assim Henry, não pelo que aconteceu. Eu sei de sua inocência. Eu acredito e confio em você, bem mais do que você possa imaginar. Seu caráter como homem, é algo incontestável para mim.
Ele respirou fundo e soltou o ar aliviado, e a própria expressão de alívio deo seu rosto, quase dissolveu a minha resolução. Assim, eu disse:
— Eu ainda preciso falar com você, nós precisamos conversar, mas, antes, eu te peço, se puder, faça um chá para dor para mim, bem forte, para fazer efeito logo.
Seu rosto ganhou um tom de preocupação, na hora.
Ele ergueu-se e tocou o meu rosto. E ao fazê-lo, os nossos corpos quase se colaram, só que eu não podia permitir, porque, se os seus lábios encontrassem os meus, eu não resistira e minha resolução iria embora.
Deus! Como ele já mexe comigo, com o meu coração e eu ainda, não tinha me dado conta!
E por incrível que pareça, diante de todo este caos, esta nova perspectiva, me deu paz. Ele disse:
— Está com dor? É a sua cabeça que voltou a doer?
— Sim...
— Me desculpe, eu...
— Acalme-se Henry, nós vamos conversar, mas, primeiro, eu preciso mandar esta dor incômoda embora, você pode fazer o chá para mim, enquanto eu estou no banho?
— Claro, agora mesmo. Já volto.
Ele, hesitantemente, beija o topo da minha cabeça e sai. E eu volto ao banheiro.
***
Ao sair do banheiro, e pronta, vejo Henry sentado na cama. Porém, aparentemente ele estava mais calmo.
Então, ele me serviu o chá e eu apontei para que ele servisse o chá comum que eu havia feito, para que ele pudesse tomar. Ele o fez.
Sentamo-nos um de frente para o outro nas camas, um em cada uma. Enquanto tomávamos os chás, olhávamos e sondávamos os olhos um do outro. Quando eu terminei o meu para a dor ele terminou o dele.
Henry recolheu a minha xícara com a dele e disse:
— Podemos agora?
— Sim, e eu quero começar te dizendo que, é um incômodo enorme te ver sofrer assim Henry. De verdade! Mas, eu quero que saiba que eu acredito em você, que você foi pego de surpresa e inocentemente, mas, o que aconteceu fez-me pensar algumas coisas.
Seu semblante que já estava se suavizando se alarmou e ele disse:
— Valerie, me perdoe você não tem ideia do nojo que estou de mim, da raiva, por eu não ter tido reação, mas, eu fiquei tão chocado. Eu não esperava, pois, nunca me passou pela cabeça que ela seria capaz disto...
Não o deixo terminar...
— Eu sei Henry! Tenho certeza disto. Mas, o que aconteceu fez-me ver que Louise só continuou suas investidas, pois, ela não acredita na solidez do nosso relacionamento. Não por você, pois, é incontestável o quanto você me ama para qualquer um, mas, infelizmente, depois do coma, as pessoas não podem ter esta certeza sobre mim. E, é isto que alimenta a esperança de Louise, ela vê a sua carência, a sua necessidade, e quer se apropriar disto para tentar te aproximar. Ela é uma mulher apaixonada e obstinada, que está se agarrando ao que tem em mãos!
Ele ficou vermelho-fúria e disse:
— O QUÊ? Valerie Louise é louca, nenhuma mulher sã e honesta, faria uma coisa daquela!
— Eu não disse que ela é honesta, Henry! Olhe, eu também não estou dizendo que eu gostei da cena, imagina como foi para mim, ver a boca que eu beijo e adoro beijar, beijando os lábios de outra mulher? Por mais que eu tenha acompanhado tudo, visto que você não teve culpa. Isto não é algo agradável, de se ver. E mais Henry, você nem a afastou, eu sei você disse que ficou chocado e sem reação, e eu mesmo vi isto, porém, não será isto uma resposta para a sua carência? E se eu não houvesse chegado? Ou intervindo. – Só de pensar nisto, meu coração quase sangrou. Henry respondendo ao beijo de Louise... – Será que você não teria correspondido? Sinceramente, eu não aguentei esperar. Eu não tive forças para isto.
Neste momento ele explodiu:
— O QUE? Você está insinuando que eu queria beijá-la? Você perdeu o juízo de vez Valerie? A única boca que eu desejo, fantasio, e tenho prazer em beijar é a sua!
Ele me queimava com o seu olhar, e suas palavras fizeram meu corpo arder de desejo, os meus lábios formigaram na hora.
Mas, eu respirei fundo espantando aquelas reações ou ao menos tentando espantar...
— Olhe, eu não estou querendo dizer nada! E, eu não o estou julgando você como você fez quando eu beijei o “rosto” do Érion que você mesmo me contou. Você, fantasiou as coisas em sua cabeça e creu nelas, e não era nada daquilo. Mas, aqui e agora, entre você Louise, é diferente! Você já foi para cama com ela e também ela estava o beijando na boca... E mais, você não a empurrou ou tirou ela de cima de você, ao contrário, ficou sem reação! É um fato Henry, não são suposições, um fato que no mínimo vai me querer fazer parar para pensar!
Achei que ele fosse ficar furioso, ou gritar, chorar, tentar me convencer, mas, surpreendeu-me a sua reação. Pois, ele estancou, com o rosto cheio de vergonha, vermelho ao extremo. O arrependimento transbordava de sua expressão.
Então, ele disse:
— Tudo bem! Você está certa! Realmente não é uma cena boa de se ver. E, realmente, a minha reação surpreendeu a mim, que dirá a você. Mas, quer saber? Sinceramente, eu acredito que você já queria esta conversa Valerie. Eu creio que, o que aconteceu só antecipou as coisas. Seja sincera, você está ponderando, mas, na verdade, a sua resolução é me afastar, não é?
Sua serenidade na voz me assustou. Ele sabia! Como se estivesse lendo os meus pensamentos ele disse:
— Eu sei. Conheço você, demais até! E você já fez isto uma vez, achando que era o melhor para mim, porém, naquele dia, eu te disse que foi a pior coisa que você poderia ter feito. Afastar-me de você, é me matar Valerie. É me ferir ainda mais, muito mais.
Ele respirou profundamente e prosseguiu:
— Eu errei. Aliás, eu tenho errado muito, às vezes eu até me pergunto: onde foi que eu realmente acertei com você? Eu queria saber sabe?
Aquilo me doeu, Henry estava se martirizando.
— Eu passo o tempo todo tentando proteger você, demonstrar a você o quanto eu te amo. Cuidando de você, tentando te poupar, realizando seus desejos...
A esta altura, mesmo com a calma em sua voz, suas lágrimas jorravam e os soluços vinham aos montes...
— Tentando cumprir as nossas regras. Para manter o nosso compromisso, reprimindo o meu desejo, pisando em ovos quanto ao que posso lembrar ou não, do nosso passado, juntos, temendo que alguma lembrança seja muito para você. Esperando, esperando sem prazo a sua recuperação. E sabe o que eu tenho feito comigo? Me permitido definhar dia a dia, sem ao menos poder demonstrar isto, mas, ainda sim, me regozijando em cada vitória, em cada progresso de sua saúde, pois, tudo o que me importa, tudo o que sempre importou para mim foi você. Por quê? Por que eu amo você enlouquecidamente e desesperadamente, e só de pensar na possibilidade de ter longe, me destroça completamente. Desde que eu perdi a minha mãe, a única meta que eu realmente construí e persegui, foi alcançar o seu coração, pois, eu sabia que apenas você, seria uma recompensa à altura da minha dor. E eu estava certo. Nada me deu tanta alegria quanto conquista-la. Nada. Mas, sabe Valerie, agora eu vejo se não houvesse o coma e a amnésia, isto nunca teria sido colocado à prova. Sabe, eu prometi uma vez a você que se algum dia um desistisse, e o outro estivesse forte o bastante para lutar, ele lutaria até que convencesse o enfraquecido a voltar e lutar por nosso amor. Porém, hoje eu te digo: Eu não tenho mais forças, não mais, eu estou um caco, esgotado, angustiado, sem saber o que fazer e totalmente vulnerável e exposto. Tudo que eu corri a vida inteira de experimentar, aconteceu-me, por isto eu me fechei em mim mesmo, eu temia isto, demais, como eu temia, pois dói, dói muito!
Seu choro aumentou mais e a esta altura eu também soluçava, pois, sua dor, me dilacerava.
Henry estava despedaçado completamente. Somente ali, eu me dei conta de o quanto ele tem suportado por mim, e o quanto eu o tenho feito sofrer. Com o fio de forças que ele tinha, ele termina.
— Tudo o que eu podia fazer eu fiz Valerie, sério, eu não consigo ver mais nada, aliás, eu só não tentei uma coisa, e é o que estou fazendo agora, desistir. Eu desisto, desisto de lutar, desisto de tentar, desisto de esperar, eu preciso de uma decisão sua. Não é fácil dizer isto!
O choro dos dois agora é de puro desespero.
— Eu desisto, pois, se não, eu irei morrer, porque eu não aguento mais, tanta dor. Não sei o que vai ser da minha vida, pois, eu nunca a imaginei sem você sabe? Nada do meu futuro tem sentido, pois, até ele eu tinha traçado e planejado ao seu lado. Mas... O que eu posso fazer? Porém, um dia eu te disse e disto você se lembra. Que eu prefiro viver uma vida inteira sem você, sofrendo, ou um dia se quer, ao seu lado por você ter pena ou compaixão de mim, eu quero, eu amo você e acho que isto nunca irá mudar, eu não sei, mas, eu só quero você, ao meu lado, me amando! Não menos que isto. Perdoe-me, eu sei que você ainda não me ama, mas, ao menos, me diga o que você quer de mim?
As palavras de Henry me deixaram sem reação. Por mais que eu saiba que no momento, este é o melhor caminho, eu não esperava que fosse doer tanto! Mesmo por que ficou claro que é algo praticamente definitivo.
Eu não conseguia falar eu não tinha forças, eu também sabia do risco de ele interpretar o meu silêncio, por mais que eu estivesse aos prantos, como indiferença, mas, eu não conseguia, e o que eu poderia dizer? O que eu poderia cobrar? Nada!
Em muitos aspectos eu estou em débito com ele, e acho que eu nunca serei capaz de quitar a dívida, nunca.
A única coisa que me veio à mente, foi retirar a aliança, o anel e o bracelete e entrega-lo, porém, quando ele percebeu o que eu iria fazer disse:
— Não faça isto... Não precisa! Foi realmente um presente meu para você Valerie, tudo o que foi feito nestas peças, foi pensado e idealizado para você, não há ninguém mais, que faça por merecer estes objetos, são seus. Se caso não os queira, venda, ou dê a alguém ou guarde, eu não os quero, os fiz com um único objetivo: Você! A mulher que eu sempre amei, e não tenho medo ou receio de dizer, eu amei, amo e sempre, sempre vou amar, não foi eu quem esqueceu, eu jamais poderia esquecer de você ou do que vivemos. Mais uma vez, eu repito, o que eu faço hoje, é por não suportar mais a dor de ver que, todas às vezes, que você não suporta algo, ou acha que está me causando sofrimento, você me afasta. Porque, este afastamento, ainda que temporário me destrói, assim, eu prefiro pensar a partir de agora, que é definitivo, pois assim, eu sofro tudo o que eu tenho de sofrer de vez. Pois, pelo seu silêncio e o seu gesto de querer tirar os objetos que representam o nosso compromisso, esta é a sua decisão, não é?
Ele queria palavras, mas, eu não era capaz de colocar em palavras, não agora que eu tinha a consciência que eu estava me apaixonando por ele novamente.
Então, eu desviei o meu olhar para os meus pés e disse, pois, eu não conseguia olhar em seus olhos:
— Me perdoe, eu jamais quis fazer você sofrer... Eu nuca poderia imaginar que tudo isto aconteceria.
Ele se aproxima, toma o meu queixo e diz quando detém o meu olhar:
— Eu sei, eu sempre soube. Quem sabe algum dia? É difícil admitir isto, mas quem sabe não é disto que estamos precisando Valerie? E, eu quero que fique tranquila, não te faltará nada. Medicações, Hospital, médicos, tudo continua... Escolta, tudo...
Eu já iria protestar, mas, ele foi incisivo...
— Sem direito a contestação Valerie, eu sou um homem e não um moleque! Eu jamais deixaria de continuar arcando com tudo. Eu realmente quero que você melhore! Quem ama, cuida, mesmo não a tendo perto, fiz isto minha vida inteira por você, esta foi a minha opção, e você não me deve nada por isto. Infelizmente, o que nos aconteceu foi uma fatalidade. Mas, como a minha mãe e o tio Heitor sempre disse, em tudo há um propósito. Cuide-se.
— Mas eu quero ir embora Henry, eu é que preciso sair...
Ele nem me deixa terminar.
— De maneira alguma, Valerie! Seu tratamento á aqui, você precisa dele, Dartanhã é daqui. Todos os recursos estão aqui. E no mais, eu é que tenho que voltar, pois, eu sim, tenho compromissos em Daggorhorn, a Ferraria, a minha avó e tudo mais.
— Tudo bem!
Respondo e ele se aproxima e diz:
— Tente dormir um pouco. Você irá precisar.
Ele toma a minha mão e conduz-me até a cama e espera eu me deitar e diz:
— Posso cantar para você?
Só consigo acenar com a cabeça, pois, as lágrimas que ainda caem sufocam minha voz.
Ele cantava sem o alaúde, mas, a voz ainda era linda e perfeita. Ouvindo aquela voz e sentindo as carícias do Henry em meus cabelos, adormeci...
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