A Força do Amor
20 Arrebatados pela Paixão
Notas iniciais
Kyara circulou pelo castelo a procura da Arwen e como não a encontrou resolveu visitar Melissa para tratar dos últimos acertos antes de partir para a guerra. Chegando lá, Melissa estava caminhando pelo jardim acompanhada do marido.
— Bom Dia!
— Bom Dia!... Você está com um ar de felicidade tão grande. Alguma novidade muito boa?... Porque acabei de receber a pior notícia da minha vida... Disse Melissa exagerando nas palavras.
— Qual notícia?
— Meu marido acabou de me comunicar que acompanhará as tropas para essa nova guerra que surgiu. Achei que a destruição do vilarejo fosse um fato isolado. Agora ele me diz que a Terra Média está sendo atacada mais uma vez.
— Sim, está. E acompanharei as tropas, também.
— Você?... Perguntou Demétrio não escondendo seu espanto... – Como assim? O que fará num campo de batalha? Seu marido permitiu?
— Eu o acompanharei... Respondeu Kyara, com um sorriso no rosto feliz por responder, agora se sentindo uma mulher casada, de fato sem mentiras... – A minha vinda para cá foi por conta dessa nova ameaça que veio da minha terra. Estou aqui para combatê-la e usarei meus poderes e minhas armas para tal. Mesmo que os homens estranhem minha participação não terão escolha... Ela suspirou tentando reunir um pouco de paciência... – Vocês não sabem, mas na minha terra eu sou uma guerreira guardiã da coroa e da magia do meu povo e uma curadora, também.
— Que você é uma curadora já sabemos. E a melhor em toda a Terra Média, mas... uma guerreira?
Demétrio não escondia sua incredulidade. No entanto, se tinha uma coisa que ele havia aprendido na vida era confiar naquela mulher.
— Desculpe-me o assombro. Para mim foi uma surpresa. Se disser que terá que participar eu acreditarei.
— Bom, sendo assim... Demétrio agora quero que vá e a proteja. Não deixe que nada aconteça a ela... Disse Melissa preocupada.
Kyara riu... – Nada de mal me acontecerá, Melissa. E meu marido estará lá comigo.
Demétrio se manifestou ainda incerto das suas palavras diante da revelação dela.
— Eu acompanharei as tropas apenas como o ferreiro e estarei lá para servi-los e preparar suas armas, mas esteja certa de que estarei pronto para qualquer coisa. Pode contar comigo.
Kyara viu nas palavras daquele homem alto e forte grande lealdade e amizade.
— Vocês se tornaram, para Legolas e eu, grandes amigos e sei que poderemos contar com você. Sinceramente, agradeço sua amizade e sua lealdade... Agora vamos entrar porque preciso examinar os curativos da sua esposa e tomar algumas providências para o tempo que ficarei fora.
— Que bom encontrá-los reunidos... A rainha se aproximava sorridente... – Conseguiu descansar um pouco Kyara?
Kyara corou... – Sim. Apesar de tudo consegui ter a melhor noite de toda a minha vida.
— Majestade!... Demétrio fez uma reverência.
— Como estão? Vejo que Melissa está ótima. Isso é muito bom. Logo poderá amamentar seu bebê.
— Já a liberei do chá e hoje mesmo ela já a amamentou... Foi muito bom você chegar. Vou examinar os curativos dela e certamente precisarei que retire os pontos para mim. Não estaremos de volta a tempo para isso. Posso contar com você?
— Claro que sim! Como devo proceder?
Demétrio pediu licença, fazendo mais uma reverência para a rainha e retornou para a estribaria e as mulheres entraram na casa. Depois de todas as explicações dadas e aproveitarem um momento a mais para pajearem a bebê, Arwen e Kyara retornaram para o castelo.
— O que devo esperar dessa guerra?
Kyara percebeu o quão temerosa sua amiga estava... – Não estou me envolvendo nas tratativas, porque não quero causar alvoroço antes do tempo... Até onde sei, seu marido está reunindo homens de diversas regiões da Terra Média. Legolas nos acompanhará parte do caminho e depois completará sua jornada só. Ele se infiltrará nas cavernas das Montanhas Sombrias a procura da pedra enquanto nós confrontaremos o exército do bruxo.
— Como se sente diante disso?
— Sinto medo... Kyara inspirou profundamente soltando o ar pela boca... – Um medo terrível vendo uma sombra crescendo cada vez mais em torno de nós dois.
— Conheço bem esse sentimento, mas me mantive firme até o fim porque acreditei na força do meu amor por Aragorn. Você precisará fazer o mesmo... E depois quando tudo estiver terminado? Como vocês dois ficarão?
— Eu não sei o que acontecerá depois... Eu agora sou movida pelo amor que tenho por Legolas. Não sei como ficaremos ou onde viveremos... Para ser sincera não pensei em nada. Percebi o quanto o amava e o quanto sofreria se partisse e passei do desespero a completa felicidade quando ele se foi e resolveu voltar... Ela riu... – Dormi no paraíso e acordei casada e se quer saber mesmo, tenho a sensação de que todos estão me olhando sabendo o que aconteceu conosco. É muito estranho.
— Kyara, não seja boba. Primeiro ninguém está sabendo de nada e mesmo que soubessem, não haveria nada para se encabular. Vocês se renderam ao amor e tudo o que aconteceu apenas consumou essa união. Não há mistério nenhum nisso. Um elfo pode passar toda sua existência sem conhecer o amor e isso não lhe faz falta, mas quando acontece é o mesmo que receber uma alma nova. Tudo que representa a manifestação desse sentimento é sagrado para nós. Portanto, não tem do que se envergonhar
— Diferente dos homens que só pensam em luxúria... Elas ficaram um momento em silêncio... – De repente me lembrei da minha família. Nem imagino qual será a reação do meu pai quando souber. Nem sei se voltarei a vê-lo ou minha terra, o castelo, a ilha... Ela olhou para Arwen pensativa... – Como é o reino de Legolas? Como é viver entre os elfos?
— Os reinos élficos são muito tranquilos, cercados de paz e magia. Acho que você gostará muito. O rei Thranduil tem um ar severo e não tolera a insubordinação. Sua palavra é lei. Mas, ainda assim é muito justo e bondoso, principalmente com quem considera amigo. Ele é adorado pelo seu povo. Um elfo da raça Sindar, descendente de Thingol Capa Cinzenta, o primeiro rei élfico dos Sindar... Ele tem muito orgulho da sua descendência. Meu pai e o rei Thranduil viviam tendo divergências devido à teimosia do rei, mas acabavam sempre chegando a um consenso. Cansei de ouvir meu pai dizer que com o pai de Legolas devemos usar sempre o argumento certo... Fique tranquila! Astuta como sei que é irá dobrá-lo, facilmente.
A rainha riu diante da expressão assustada da Kyara.
— Esteja certa de que ele é quem tem que se preocupar e não você... Agora vejo felicidade nos seus olhos, apesar de todo o perigo que terão que passar nos próximos dias. Gostaria de me sentir feliz, também, mas confesso que sinto meu coração apertado.
Kyara a abraçou... – Sei que teme por Aragorn, mas fique tranquila. Não permitirei que nada aconteça a ele. Embora seja o rei de Gondor, o alvo imediato do bruxo não é o seu marido. Então, não tema. Retornaremos sãos e a salvo. Como você mesma disse nós duas temos a força de que precisamos para suportar todas as adversidades.
Arwen sorriu e entrou no castelo.
Kyara empregou mais confiança nas suas palavras do que realmente sentia em seu coração. Temia, não por Aragorn porque sabia que ele ficaria bem, mas por Legolas. A angústia era o prenúncio de algo muito grave e o temor do seu marido não era exagerado. Contudo, teriam que seguir em frente a todo custo.
Enquanto Legolas participava da reunião do conselho, Kyara se dirigiu para o jardim do castelo. Passeando entre as árvores e as flores, ficou feliz por vê-lo um pouco mais verde. Inspirada pelo momento de felicidade que vivia, começou seu ritual de encantamento, rodopiando pelo jardim cantando uma canção e novamente o som de um assovio pôde ser ouvido, exatamente como Legolas a viu fazer na cachoeira logo que se conheceram.
As folhas secas e as flores caídas no chão rodopiaram com ela. A magia fluía dos seus poros infiltrando-se pelo jardim tomando conta de cada planta, cada árvore. O som da música se propagou pelo ar ecoando pelo castelo transformando tudo que era vivo e verde. As flores desabrochavam e as folhas secas das árvores reavivavam-se. Uma brisa leve corria por todos os lugares deixando um perfume suave e floral no ar.
Por um instante, Aragorn calou-se na reunião escutando o som de um instrumento de música ao longe e estranhou.
— Vocês estão ouvindo um som melodioso?
— Kyara!... Legolas sussurrou o nome dela reconhecendo o som que ouvia.
Aragorn entendeu as palavras quase indecifráveis de Legolas e se lembrou do jardim. Ele olhou para o amigo e sorriu discretamente dando continuidade a reunião.
Kyara se entregou àquele momento tão intensamente, irradiando sua luz poderosa e renovadora, como nunca havia feito antes e seu poder tomou conta do palácio, da cidade, espalhando-se pelas planícies de Pelennor.
Ela dançou freneticamente esquecida do tempo até parar subitamente sua dança, ofegante. Respirou fundo o ar puro e perfumado satisfeita sabendo que agora o jardim emanava vida.
Dirigiu-se, então, para as escadas da varanda do salão de refeições e se deparou com Éomer a observando.
Novamente o desejo estava naqueles olhos negros e ela se preocupou.
— Nunca vi nada mais encantador que a cena a pouco. Perdoe-me o atrevimento, mas acaso tem ideia de como fica ainda mais bela com a manifestação da sua magia?
— O encantamento certamente deturpou sua visão, majestade.
— Não se dirija a mim com essa formalidade, por favor!... Eu lhe tenho muito apreço, sabe disso.
— Sinto-me honrada... E lhe fez uma reverência... – Agora se me der licença preciso ter com a rainha.
Ela estava com pressa para sair dali, sentindo o perigo mais uma vez nos olhos daquele homem. Ao passar, Éomer a impediu de sair segurando o braço dela.
— Não se vá ainda. Fui insolente ao beijá-la e peço seu perdão se a magoei. Fugiu de mim não permitindo me desculpar... Ontem à noite deixou evidente que tem um grande amor guardado no coração e pelo que vi, está perdido pelos desafetos da vida... Preciso que saiba, também, o quanto me enfeitiçou com seus encantos.
Ele suspirou olhando-a com mais intensidade, segurando-a pelos dois braços, trazendo-a para junto de si.
— Você é uma mulher sem igual.
— Por favor, solte-me! Não quero ser rude.
Kyara pensava em usar a força para se desvencilhar preocupada com o rumo das atitudes dele.
— Não me tenha como um agressor e sim um homem apaixonado que não tem paz noite e dia com a sua lembrança. Você não imagina o poder que exerce sobre mim. Eu seria capaz de qualquer loucura por você. Não mediria esforços para fazê-la feliz.
— Majestade! Vou pedir pela última vez para me soltar.
— O que está acontecendo aqui?... Perguntou Legolas avançando pela varanda num rompante, surpreendendo-os.
— Não há nada para você aqui, Legolas... Disse Éomer, soltando os braços da Kyara.
Ela olhou assustada para o semblante de Legolas transformado pelo ódio.
— Afaste-se da minha esposa antes que eu perca todo o respeito que lhe tenho.
— O quê?... Éomer se assustou com as palavras de Legolas, não acreditando no que acabara de ouvir... – O que disse?
Kyara caminhou para junto de Legolas apreensiva e resolveu dar ao rei a merecida explicação.
— Esse segredo seria revelado somente depois que retornássemos da guerra.
Éomer arregalou os olhos para Kyara... – Então é verdade? Vocês...
Ele ficou atordoado sem entender olhando de um para o outro e deu as costas aos dois.
— Eu não... Não compreendo... Sua canção ontem à noite falava de um amor perdido. Não poderia se referir a ele.
— Perdoe-me, majestade! Deveria ter lhe dado alguma indicação da verdade quando tive oportunidade. O amor já existia, entretanto, nenhum de nós dois o havia revelado um ao outro quando chegamos aqui.
— Por favor, milady, não me deve explicação alguma... E virou-se para os dois encarando-os... – Eu... Éomer soltou o ar consternado com a situação... – Eu é que peço perdão pelo meu comportamento. Fui rude ao abordá-la como fiz e tomar a liberdade que tomei. Comportei-me indignamente, mesmo que não fosse comprometida. Jamais lhe dirigiria um olhar ou palavra que fosse se soubesse... Legolas! Perdoe-me... Sabia do seu amor pela princesa, mas não me ocorreu que fosse correspondido. Não entenda minha atitude como uma afronta ou desrespeito e em nome da nossa amizade peço que releve todo o ocorrido. Eu... simplesmente me comportei como um idiota.
Fazendo uma reverência, Éomer pediu licença e se retirou de cabeça baixa, visivelmente envergonhado.
Legolas caminhou para a sacada da varanda, ainda nervoso... – Se estivesse armado eu o teria esfaqueado aqui mesmo, sem pensar duas vezes... Disse mirando o vazio.
Kyara estava nervosa e constrangida pelos três. Não condenava a atitude de Éomer, porque afinal ele não sabia de nada. Tudo o que fez foi declarar seus sentimentos a alguém que acreditava amar, mas se sentia mal com a cena toda e o ódio que Legolas demonstrou a assustou.
— Eu não sabia o que fazer... Legolas olhe para mim. Entendo seu ciúme, mas não essa violência. Ele não sabia de nada.
Legolas a olhou mais calmo e a abraçou.
— Perdoe-me por minha reação, mas quando o vi segurando você dizendo todas aquelas coisas, eu simplesmente ceguei. Senti o mesmo ódio quando os vi nesse jardim há dias atrás... Ele me disse que estava apaixonado por você e que não mediria esforços para conquistá-la.
— Viu como ele saiu daqui completamente constrangido. Não pode negar que é um homem de princípios, um homem honrado. Não o condene por ter algum sentimento por mim. A culpa é minha... Deveria ter dito qualquer coisa na primeira vez que me abordou, para que não alimentasse qualquer esperança.
— Pode parecer absurdo, mas meu coração foi tomado pelo medo de perdê-la. Você não é uma elfa e sabe que isso pode, perfeitamente, acontecer... Que os Valar não permita que outro tire seu amor de mim.
Kyara não acreditou no que ouviu e olhou para Legolas indignada... – Como pode ser tomado por esse pensamento? Sei que não sou uma elfa, mas ainda assim meu amor é seu e pertencemos um ao outro. Não foi o que celebramos a noite passada? Como pode pensar isso quando o meu corpo ainda guarda o seu prazer?... Ela o abraçou forte... – Eu te amo, Legolas. E nada e nem ninguém mudará isso. Seu medo é infundado.
Ele agarrou os cabelos dela fazendo-a olhar para ele e mais uma vez admirou aquelas duas esmeraldas brilhantes, que o hipnotizavam com seu desejo implícito.
— É um sonho o que estou vivendo. Foi a mim que veio e se entregou há poucas horas?... De todos os homens no mundo, você realmente pertence a mim? E por mim declara seu amor?
— Sim!... Você é meu marido, eu sou sua mulher e estamos unidos para sempre aconteça o que acontecer.
— Ainda que o preço seja deixar sua terra e sua gente?... Sua vida não será mais como antes.
— Ainda que seja. Por mais que os ame, não serei feliz sem você.
— Vocês estão aqui... Entrou Aragorn na varanda... – Acabamos de encontrar com Éomer. Combinamos que partiria amanhã conosco, mas decidiu voltar agora para Rohan. Estranho ele ter decidido isso tão repentinamente... Legolas e Kyara se entreolharam e nada disseram... – Seguiremos com o plano. Encontraremos com os Rohirrim e o povo de Gimli em Fangorn.
Legolas balançou a cabeça afirmativamente tomando ciência da informação.
— Aconteceu alguma coisa?... Perguntou Aragorn estranhando o comportamento do casal.
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Como Éomer havia retornado para Rohan, o aconchego e o clima amistoso entre amigos no almoço foi suficiente para apaziguar os ânimos dos dois. Legolas já não pensava mais no incidente e se concentrava unicamente nas palavras da Kyara.
A troca de olhares a todo instante deixava no ar o que mais desejavam naquele momento.
Imrahil teve a oportunidade de conversar com Kyara e se mostrou admirado com as façanhas daquela bela moça, antes comentadas pelos seus amigos. Soube do amor que arrebatou o coração de Legolas e não se surpreendeu com o fato, reconhecendo nela uma mulher envolvente e de rara beleza.
Por sua vez, Kyara também se encantou com o belo príncipe gentil de porte altivo e traços semelhantes ao povo élfico. Soube que suas raízes eram Dúnedain e se surpreendeu quando soube que o príncipe era viúvo com filhos jovens. Pensou que ele deveria ter se casado muito cedo.
— Perdoe-me a ousadia, senhor, mas me espanta o fato de estar viúvo há tanto tempo... Um homem jovem e com suas qualidades. Não desejou se casar novamente?... Perguntou Kyara.
— Acredito ser seu coração generoso que veja em mim tantas qualidades... Comentou o príncipe sorridente.
— Ainda por cima modesto... Passar a vida no labor de governar pode não lhe dar a oportunidade para viver plenamente a vida... Aprendi uma lição ao vir para a Terra Média: a felicidade pode estar ao nosso lado e não sermos capazes de reconhecê-la... Temos que ficar atentos ao que nos cerca e às oportunidades que surgem... Disse Kyara entre sorrisos.
— Reconheço sabedoria nas suas palavras. A morte prematura da minha esposa me custou muito e não pensei sequer na possibilidade de um novo amor. Preferi me dedicar aos meus filhos e ao meu povo.
— Espero que repense sua decisão. Ninguém deve passar a vida sozinho.
— Palavras de um coração apaixonado... e os dois riram... – De fato. Quem sabe o que o futuro me reserva? Acaso a princesa não veio acompanhada por outra moça com a sua beleza?... E os dois riram mais uma vez.
Depois da refeição, Legolas permaneceu na companhia dos cavalheiros para o rotineiro ritual dos cachimbos e das taças de vinho, mas seu pensamento somente conseguia se concentrar na sua mulher sentada ao lado da rainha conversando sabe-se lá o quê.
Num dado momento, Arwen pediu licença e se retirou do salão. Aragorn logo depois também se recolheu, desejando mais que tudo poder estar a sós com sua amada. Pela manhã marchariam para a guerra e as horas que antecediam essa partida deixavam os corações apaixonados inquietos e temerosos.
Kyara sabia que a rainha estava apreensiva por seu marido. Ela mesma sentia seu coração pesado e obscuro. Levantou-se e caminhou até a sacada da varanda.
— Será que a bela dama gostaria de me acompanhar num passeio pelo jardim?
Kyara virou-se vendo Legolas lhe oferecer o braço, com um sorriso cativante. Caminharam pelo jardim, apreciando o colorido e o perfume das flores. Depois do encantamento, ele estava ainda mais vistoso e florido. Pararam na fonte e ficaram abraçados observando o movimento da água e seu som tranquilizador.
— Sinto sua angústia à distância... Disse Legolas ao beijar a testa da Kyara.
— Temo pelo que está por vir, pelo desconhecido.
— O futuro não nos pertence. Apenas o agora... Ele a olhou com ternura e acariciou seu rosto, como sempre fazia... – Não consigo mais saber do antes e, também, não saberei do depois se você não estiver comigo.
Contemplaram-se com o amor refletido nos olhos e ela deitou a cabeça em seu ombro.
— Fico em paz quando estamos juntos... Às vezes me invade um medo terrível e uma vontade louca de fugir com você antes que algo nos aconteça, antes que o destino nos separe... Ela olhou nos olhos dele... – Se só o agora nos pertence, então vamos aproveitar o tempo que ainda temos... Kyara deixou-se perceber aflita... – Meu coração pesa, no entanto não posso deixar que o medo me domine.
— Venha comigo... Legolas segurou a mão dela levando-a do jardim. Subiram as escadas e atravessaram o salão sem nada pronunciarem. Ao chegarem ao quarto, Legolas trancou a porta e caminhou até Kyara parada diante da cama. Carinhosamente, afastou os cabelos dela para lhe beijar a nuca e lhe massagear os ombros e ela se virou para ele.
— Seus olhos são como o oceano querendo me arrebatar para as profundezas... E eu quero mergulhar nestas águas. Ser um náufrago deste verde e acordar no teu corpo exausto de te amar... Disse ele apaixonado.
— Então vem pra mim, que tanto te espero... Só você pode aplacar a minha angústia. Vamos nos amar sem pensar no amanhã... Foi o convite que ela lhe fez como resposta.
Legolas a abraçou forte.
Nunca, em toda vida, Kyara poderia imaginar que encontraria sua felicidade na força de um homem, mais ainda, de um elfo. Uma criatura que, até então, sequer sabia existir.
Amaram-se esquecidos das horas.
Seus corpos suados deslizavam um no outro sentindo o calor de bocas que não se cansavam de provar seus contornos, formatos e sabores. Boca que percorria o caminho trilhado pelo suor no dorso feminino no momento em que mãos agarravam-se aos lençóis numa tentativa vã de controlar o êxtase. Bocas que expressavam com sussurros e gemidos o prazer da carne que explodia em gozo. E os dois amantes foram arrastados por um turbilhão violento contra o qual não havia possibilidade de resistência.
Era o amor gigantesco que sentiam sendo arrebatado pelas águas da paixão.
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Logo que Legolas e Kyara passaram pelo salão, o príncipe Imrahil, também pediu licença aos companheiros para descansar um pouco enquanto tinha oportunidade. Chegando ao corredor que o levaria para seus aposentos, deparou-se com Michelle saindo dos aposentos do rei e da rainha.
— Milady! Posso lhe pedir uma gentileza?
— Sim, meu senhor!... Respondeu Michelle reverenciando o príncipe.
— É possível providenciar água para um banho?
— Pois não, meu senhor. Imediatamente... E se retirou para providenciar o banho solicitado.
Michelle retornou com mais uma camareira trazendo água e, logo que bateu a porta, receberam autorização para entrar.
Encontraram Imrahil na varanda de costas para o quarto apreciando a vista. Ele tinha o pensamento longe, com as palavras da Kyara ecoando na sua mente. A camareira que acompanhava Michelle entrou na sala de banho e ela se dirigiu ao príncipe.
— Senhor! Precisa que eu o ajude a retirar sua vestimenta de guerra?
Imrahil vestia uma pesada cota de malha, túnica azul claro, braçadeiras e um colete de couro reforçado com gravuras de cisnes, símbolos do seu reino. Michelle estava acostumada a atender a realeza e seus caprichos, principalmente na época de Denetor, embora a rainha, depois que assumiu o trono, a tenha deixado como sua camareira particular. Entretanto, o rei não permitia que nenhum criado ou criada lhe fizesse esse tipo de trabalho. Sempre tinha os cuidados da sua amada para auxiliá-lo.
Ao virar-se para respondê-la, Michelle ouviu o barulho de água sendo derramada no chão da sala de banhos. Pediu licença para averiguar o que ocorria. Era sempre solicitada por ser cuidadosa e caprichosa em demasia.
Com a bagunça que a criada havia feito pediu que se retirasse e deixasse que ela mesma cuidasse de tudo. Enquanto secava o chão, pisou na barra de sabão e caiu de costas, batendo a cabeça com violência no chão de pedra. O tombo a fez gemer e ao tentar erguer-se a touca branca, que sempre usava, caiu, deixando seus cabelos soltos. Imrahil correu para o local certo de que algum acidente havia acontecido e encontrou Michelle deitada de costas no chão molhado com os cabelos soltos.
A vergonha que sentiu ao ver o príncipe à fez ficar completamente ruborizada. Imrahil fez um esforço para não rir da situação, sendo ele um cavalheiro e abaixou-se para ajudar a moça a se levantar.
— Por favor, meu senhor, perdoe-me! Tentando arrumar a bagunça que a outra criada fez acabei escorregando. Perdoe-me! Sou uma desajeitada... Repetia ela tentando se desculpar.
— Minha senhora, não se desespere por isso. Acidentes acontecem... Respondeu ele dando-lhe a mão.
Michelle aceitou a ajuda trêmula de vergonha, temendo que o príncipe fosse ralhar com ela. Detestava ser chamada a atenção. Mas, ao ficar de pé diante dele viu que, na verdade, se esforçava para não rir. Irritada por ser motivo de chacota Michelle abaixou a cabeça. Imrahil percebeu sua insatisfação e sentiu pena da moça.
— Eu vou trazer mais água para seu banho. Não demorarei.
— Não será necessário. Deixe assim. Quero apenas me refrescar e o que tem é suficiente... Machucou-se com o tombo?
— Não, meu senhor. Não precisa se incomodar. Estou bem. A água já deve estar fria. Eu não me demoro.
— Não, senhora. Quero que se sente aqui nesta cadeira e descanse um minuto. Pelo barulho deve estar com um belo galo na cabeça e pancadas assim são perigosas.
Ele a pôs sentada na cadeira diante da lareira e arrastou a outra, se sentando de frente para ela. Sua preocupação e gentileza eram louváveis, mas deixavam Michelle ainda mais nervosa e encabulada.
— Não se acanhe. Quero apenas me certificar de que está bem... Sente náuseas?
— Não, senhor.
— Tonteira?
Fazendo essas perguntas examinou as pupilas da Michelle e as reações do seu rosto. Apesar do rubor da moça, notou sua beleza, com olhos amendoados e longos cílios, os lábios rosados e seus cabelos longos de um cacheado dourado. Deveria ter uns vinte e poucos anos, e bela assim, provavelmente já deveria ser casada, pensou ele.
— Senhor, eu já me sinto péssima com todo esse transtorno. Sua preocupação me deixa ainda mais envergonhada.
— Não ficaria tranquilo sabendo que se feriu e eu não a acudi. Alguém da sua parte, seu marido, talvez, se preocuparia com uma reação tardia por conta da pancada. Quer ficar internada na Casa de Cura?
— Não sou casada e fique tranquilo porque não terei uma reação tardia. Estou bem... Ficarei bem se realmente se esquecer do ocorrido e permitir que eu cuide do seu banho como se deve.
Ela evitava encará-lo e não percebeu a curiosidade do príncipe, observando-a com certa indiscrição até.
— Muito bem, moça. Fique calma. Não estou incomodado com o que aconteceu apenas preocupado. Mas se realmente se sente bem, não serei eu a importuná-la.
— Precisa que o ajude a retirar sua vestimenta de guerra? A cota de malha, talvez?
Imrahil sentiu-se tentado a dizer que sim, somente para tê-la a sua volta um pouco mais e surpreendeu-se com as maluquices que lhe passavam pela cabeça. Lembrou-se, então, das palavras da Kyara. Sofrera tanto com a morte da sua esposa que fechou seu coração para o amor e durante todos aqueles anos nunca olhou duas vezes para outra mulher, fosse ela nobre ou meramente uma criada. Contudo, tinha a sua frente uma moça simples, com vestido de tecido fino, porém sombrio demais para sua beleza.
Ela era suave e delicada com seus gestos e os cachos mais curtos do seu cabelo farto tentavam lhe cobrir o rosto alvo.
— Sem dúvida uma bela mulher, graciosa demais para uma criada... Pensou ele.
Ela manteve-se calada esperando pela resposta, mas sua vontade era de correr dali. Tão cuidadosa fora a vida toda e nunca se envolvera em acidentes como aquele, agora estava louca de raiva e vergonha.
— Não será necessário.
Michele ergueu-se da cadeira e rapidamente caminhou em direção a porta até Imrahil lhe chamar.
— Mas... Se puder me atender num pedido apenas.
— Sim, meu senhor!... Voltou ela pronta para atendê-lo.
— Partiremos para a guerra logo que raiar o sol. Se já for o horário dos seus afazeres, poderia me trazer água para um banho e me ajudar a vestir minha armadura?
— Claro, meu senhor. Imagino que em seu reino deva ter alguém somente para ocasiões como essa. Sei que para um guerreiro esse momento é o mesmo que um ritual sagrado.
— Onde aprendeu isso?
— Sempre atendi a realeza de Gondor.
— Está certo, mas há muitos anos faço isso sozinho. O que lhe peço é apenas a oportunidade de relembrar um momento a muito esquecido... A pessoa que fazia questão de cumprir esse papel partiu desse mundo e me deixou solitário nessa tarefa e em tantos outros momentos da minha vida.
— Refere-se há alguém muito querido, pelo que vejo.
— Refiro-me a minha esposa falecida há muitos anos.
Ela se calou.
Ele tinha plena consciência de que estava se expondo a uma situação, no mínimo, constrangedora, que para os olhos de muitos seria muito suspeita, também. No entanto, não conseguia evitar o desejo de rever a bela moça.
— Mesmo sabendo disso ainda assim pode me fazer esse favor? Sei que é um pedido estranho, mas me faria muito feliz, talvez a última felicidade a que terei direito se me disser que sim.
Michele hesitou ao responder.
— Não quero impor qualquer tipo de obrigação, portanto, sinta-se livre para recusá-lo.
Ela o fitou num misto de dúvida e comoção e pela primeira vez reparou no semblante daquele homem gentil.
— Admito que seja um pedido incomum. Não pelo fato de ajudá-lo com sua armadura. Já estou mais que acostumada, mas os motivos que o levam a solicitar meu auxílio... Perdoe-me, senhor, pela minha hesitação. És um cavalheiro... Será uma honra poder atendê-lo.
Michele sempre ouvira que um olhar poderia capturar o coração de uma pessoa e neste instante deixou-se admirar por um homem jovem, belo e robusto, de olhos e cabelos negros presos por um rabo de cavalo. Trazia na face algumas marcas das batalhas que travou e, provavelmente, o sofrimento de perder sua amada, mas, ainda assim, deveria ser mais velho do que aparentava. A fama de nobre governante e inúmeros feitos de bravura o perseguiam. Um deles a própria batalha de Pelennor, cuja participação foi de suma importância para a vitória de Gondor.
Diante dele, ela sentiu-se pequena e frágil, deixando-se aprisionar pelo seu olhar. Imrahil cobriu a pouca distância entre eles, segurou a mão dela e a beijou e esse gesto fez com que o destino dominasse seus corações.
— Obrigado, senhorita!
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