A Força do Amor
21 Marcha para as Montanhas Sombrias
Notas iniciais
Raiou o dia e as tropas já começavam a se movimentar para a partida.
No castelo os guerreiros se preparavam e, como havia prometido, logo que os primeiros raios de sol invadiam a imensidão da planície de Minas Tirith, uma batida incerta na porta quebrava o silêncio do corredor. Em instantes, a porta se abriu e Michelle se deparou com Imrahil vestido com uma calça preta e camisa branca com os cadarços abertos.
Ela entrou balbuciando de cabeça baixa um bom dia dirigindo-se imediatamente para a sala de banho, aguardando na varanda enquanto o príncipe se banhava.
Michelle sempre vestia Boromir para suas batalhas, geralmente depois de uma noite de amor e aquele momento a fez se recordar de coisas dolorosas do seu passado. Sentia-se estranha por cumprir, mais uma vez, todo um ritual depois de tanto tempo. E novamente se perguntava por que havia aceitado atender um pedido tão descabido.
Enquanto esperava, separou as peças e a vestimenta na cama. Imrahil retornou ao quarto com uma toalha na cabeça secando o cabelo vestido com a mesma roupa e sentou-se na cama. Por um instante ele se esqueceu da presença dela e se assustou quando ela se ajoelhou diante dele para calçar as botas.
— Eu posso calçá-las.
— Não, meu senhor. Deixe-me fazer o que me pediu. Trouxe comigo um óleo balsâmico. Ele ajuda a descansar os pés.
Ele não soube o que dizer e permaneceu em silêncio vendo-a massagear seus pés, agradecendo intimamente a gentileza daquela moça, porque a muito não desfrutava de um momento tão prazeroso, mesmo que breve. Depois a observou calçar e prender as fivelas das botas.
— Leve o vidro na sua bagagem. Sei que será muito útil... Perdoe minha distração. Deveria ter levado suas botas para lustrá-las ontem.
— Não é necessário. Certamente pisarão a lama e o sangue negro dos Orcs.
— Vossa majestade precisa estar apresentável para os seus homens.
— Bobagem!
Quando terminou, ele ficou de pé e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.
Ela amarrou os cadarços da blusa branca que usava e o vestiu com a cota de malha, prendendo os ganchos no pescoço e nas costas, depois uma túnica azul anil. Por cima da túnica, o colete de couro reforçado, com suas fivelas laterais. Por último, as braçadeiras e estendeu sua espada para o príncipe, deixando sobre a cama o elmo que ele usaria na batalha.
Olharam-se nos olhos por um instante antes que Imrahil se pronunciasse. Ela permitiu que ele segurasse uma das suas mãos.
— Suas mãos são pequenas, macias e delicadas... Pensei que me angustiaria com lembranças, mas não vi minha esposa e sim você, cujo nome nem sei.
— Michelle, senhor.
— Michelle!... Obrigado por sua gentileza... E beijou a mão que segurava.
Michelle sentia-se hipnotizada com o gesto do príncipe e nada respondeu. Por um instante, permaneceram presos ao olhar do outro.
— Não sei como lhe dizer e receio que seja mal interpretado... Deu uma pausa e um longo suspiro criando coragem... – Saiba que levarei este momento comigo para a batalha. Passarei minhas noites relembrando seu rosto e seus gestos.
Aquela revelação pegou de surpresa a camareira da rainha.
— Por quê?... Por que quer me guardar nas suas lembranças?
Ele sustentou seu olhar indagador, mas nada respondeu e Michelle se desesperou recuando alguns passos.
— Eu já estive neste mesmo lugar há tempos atrás e não quero reviver esse tormento. Sou apenas uma criada e já sofri muito pela minha ousadia ao amar quem nunca esteve ao meu alcance... Então, se me permite senhor, preciso me retirar. Não deveria ter atendido seu pedido estranho. É evidente que pensa estar me oferecendo estando somente nós dois aqui nos seus aposentos... Dizia ela aparentando pânico.
— Espere Michelle!... Por favor, acalme-se!... Não penso nada a seu respeito e muito menos pretendo me aproveitar de você ou mesmo magoá-la.
— Não me magoará se me deixar sair, senhor.
O olhar dela era de súplica e inesperadamente lágrimas desceram pela sua face.
— Quem neste castelo se aproveitou do seu coração? Diga-me.
Imrahil percebeu que o temor da moça vinha de lembranças tortuosas.
— Não importa. Deixe-me ir, por favor!
E ela pôs as mãos no rosto, tentando evitar as lágrimas. Toda a agonia que sofrera por um amor não correspondido a atingiu violentamente e ele a abraçou, solidário ao sofrimento da moça.
— Deixe-me sair. Não sou ninguém que valha sua compaixão... Insistiu ela tentando se desvencilhar.
— Shiii! Calma! Calma! Esqueça-se por um momento de quem somos e pense apenas que quero o seu bem, nada mais. Não quero vê-la chorar.
A voz do príncipe era serena e terna e Michelle, embora quisesse resistir, sentiu-se mais calma. Por um instante mantiveram-se calados embalados num abraço reconfortante para os dois.
— Tenho pleno conhecimento de histórias amorosas entre a realeza e seus criados, mas quero que saiba que eu não sou esse tipo de homem, Michelle. Não estou aqui para me aproveitar de você.
E, repentinamente, ela endureceu em seus braços.
— Perdoe-me pelo meu descontrole... Por certo deve me achar uma tola ou louca... E se afastou de cabeça baixa.
Imrahil, até então, estava incerto dos motivos que o levaram a pedir aquela moça para vir ao seu quarto naquela manhã. No entanto, naquele momento estava claro para ele que não queria vê-la partir.
Ela lhe parecia tão frágil e indefesa e sua vontade foi de protegê-la, envolvê-la em um novo abraço e senti-la próxima a ele.
— Você não é uma tola e muito menos louca... Quem a magoou é que era um cretino inescrupuloso por se aproveitar dos seus sentimentos... Seja quem for, ao que parece, já não está mais aqui. Por que não refez sua vida?
— Depois que essa pessoa se foi decidi me isolar do mundo e apenas fazer o meu trabalho. Foi a forma que encontrei para sobreviver.
— Por isso se esconde nestes trajes lutuosos?
Ela não respondeu. Ele caminhou até ela e a fitou.
— Meu coração também estava de luto, mas ontem percebi que passei muito tempo adormecido e você me fez despertar deste torpor... Michelle, hoje estou partindo para a guerra e se sobreviver eu a procurarei quando retornar.
— Não tem porque fazer isso.
— Tenho, sim. Depois da perda da minha esposa abaixei minha cabeça para a dor e sobrevivi apenas para os meus filhos e o meu povo, mas ontem descobri que estou vivo e ainda posso ser feliz... Até esse momento não sabia os motivos que me levaram a pedir-lhe que viesse aqui hoje. Temi o que poderia sentir vendo-a ocupar o lugar de quem tanto amei na vida, mas os fantasmas do passado não me assombraram mais. Pelo contrário, enxerguei você, sua beleza, sua delicadeza ao ponto de desejar que não fosse embora... Portanto, minha cara, digo que a procurarei quando retornar.
Michele sentiu o coração disparar e deu-lhe às costas para sair do quarto.
— Não fuja, por favor!
Ela parou no mesmo instante, mas manteve-se de costas sem coragem de encará-lo.
— Sei o quanto estou sendo ousado com minhas atitudes... Meu coração bateu forte quando a vi ontem, como bate forte agora e isso é o que me motiva.
Ele caminhou até ela parando às suas costas e puxou devagar a touca, libertando seus cabelos.
— Não me toque.
Disse ela sussurrando incerta do seu pedido. Ele a virou para si e ela engoliu em seco num misto de excitação e temor.
— Não tenha medo. Acima de tudo terá sempre meu respeito e jamais farei algo que não me permita... Ela abaixou o rosto e ele o ergueu novamente... – Deixe-me vê-la como realmente é.
Depois de tanto tempo vivendo às cegas para o mundo, o príncipe gentil contemplou a beleza singela da mulher a sua frente e seu coração se aqueceu.
—Seus trajes escondem sua beleza.
Ele segurou as pontas do cabelo dela vendo a forma como os cachos sedosos se enroscavam nos seus dedos. Ela o encarou e mesmo temendo sofrer novamente, desejou que aquele homem realmente a procurasse, que finalmente lhe fosse dada a oportunidade de amar novamente, mas desta vez ser amada, também.
— Perdoe-me. Simplesmente não consigo resistir a você.
Ele se aproximou um pouco mais e beijou com suavidade os lábios dela, que não o impediu. Fitaram-se intensamente por um instante e ele a enlaçou pela cintura apertando-a contra o corpo ao mesmo tempo em que a beijava mais uma vez. Um beijo doce e romântico.
A proximidade dos seus corpos os faziam perceber a carência que traziam consigo e o quanto seus corações batiam descompassados, completamente entregues, até Michelle se libertar com o semblante assustado e correr do quarto deixando a porta escancarada.
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Aragorn e Gimli estavam reunidos com os soldados quando Legolas apareceu devidamente trajado e armado para a guerra. Embora os homens já estivessem acostumados com o convívio dos elfos em Gondor, não havia quem não notasse a presença dele. Inevitavelmente destacava-se de qualquer um naquele pátio. Uma luz parecia envolvê-lo e seus cabelos brilhavam como se fossem o próprio sol, entretanto seu semblante estava distante e frio, e tanto Gimli, quanto Aragorn estranharam essa postura do amigo.
Aragorn se aproximou... – Algum problema?
— Saberei quando Kyara chegar aqui.
— Larhink, mellon¹!
Neste momento Kyara chegou ao pátio acompanhada da rainha.
— Não se preocupe. Sou uma mulher de palavra. Para ele cair esteja certa de que terei que cair primeiro.
— Você e seus exageros. Eu amo Aragorn, mas a tristeza também me abateria se algum de vocês não retornar.
— Como se diz em élfico: Eana gwiil nanefach, idra mellon-nin². Creio que seja isso.
Arwen sorriu... – Você está aprendendo rápido.
As duas se despediram com um forte abraço e Kyara desceu as escadas parando ao lado de Legolas. Vestida com seu traje negro de guerra e portando todas as suas armas, parecia ganhar trejeitos masculinos, que ainda assim não conseguiam esconder sua beleza.
Os soldados prestaram atenção a sua chegada e expressões de espanto e admiração foram inevitáveis. Logo depois chegaram os irmãos da rainha, com suas armaduras escuras de guardiões e suas capas élficas, e com eles o príncipe Imrahil e Glorfindel, ricamente trajado como sempre, mas desta vez usava, por cima das tradicionais túnicas élficas, uma cota de malha dourada e sua armadura prateada e dourada fabricadas em Gondolim, cujo símbolo era um sol raiado no meio do peito.
Aragorn, vestido com uma armadura idêntica ao seu exército e uma luxuosa capa vinho, despediu-se da sua amada rainha e se dirigiu as tropas.
— Guerreiros de Gondor! Mais uma vez cavalgaremos juntos para destruir outro ser maligno, que tem espalhado o terror novamente pela Terra Média, querendo nos escravizar e nos destruir. E mais uma vez mostraremos nossa força e coragem e seremos vitoriosos. Dessa vez contaremos com a ajuda de uma valorosa guerreira, vinda de muito longe para combater nosso inimigo. Esta é a princesa Kyara, que marchará conosco sob a bandeira de Gondor e a partir de agora é nossa irmã e companheira de batalha... Capitão! Para o porto de Anduim.
Betran, comandante das tropas de Gondor bradou para os soldados as ordens do rei... – Para o porto de Anduim!... E então o exército finalmente montou em seus cavalos para deixar a cidade.
Kyara deu um assovio e Athos se aproximou indo mordiscar sua mão. Ela lhe deu torrões de açúcar e acariciou a crina macia do belo animal enquanto conversava com ele.
— Como vai, meu amigo? Sentiu minha falta?... Athos relinchou alto... – Vejo que cuidaram muito bem de você. Sei que está entediado dentro de uma cocheira, mas é chegada à hora de outra batalha e mais uma vez contarei com sua força e coragem.
Athos sacudia a cabeça, batendo o casco no chão. Ela sentiu a vibração vinda do animal e o montou com uma elegância élfica, encarando Legolas, que a observava já montado em seu cavalo. Trocaram olhares sem dizer palavra.
Aragorn e Gimli puxavam o cortejo, seguidos de Legolas e Kyara, logo depois o príncipe Imrahil e Glorfindel e mais atrás os irmãos da rainha com os Dúnedain e, finalmente a cavalaria de Gondor.
Era uma tradição os cidadãos ofertarem flores aos guerreiros e naquela manhã não seria diferente. Toda a cidade amontoava-se pelos longos corredores em todos os níveis, jogando flores para o cortejo. Jovens enamoradas, esposas e famílias inteiras acenavam em despedida aos soldados.
No portão da cidade as tropas de Faramir e de Imrahil já estavam a postos, juntamente com a hoste de Valfenda, fortemente armada com suas capas e armaduras prateadas reluzindo a luz do sol, além dos cavalariços, a escuderia das tropas e Demétrio em uma carroça, com sua família ao lado. Quando Kyara avistou a família de Demétrio, desmontou.
— Não deveria ter feito o esforço de vir até a saída da cidade... Disse ela para Melissa.
— Não poderia perder a oportunidade de me despedir... Cuide-se!
— Você também. Michelle não permita que ela faça esforço. Ainda não está liberada.
Logo que o príncipe Imrahil passou pelo portão, avistou Michelle. Ele parou diante dela e desmontou.
— Sei que não tenho o direito, milady. No entanto, me atrevo a pedir que espere por mim se achar que sou merecedor da sua atenção e eu implorarei aos deuses para que me concedam mais essa vitória e a oportunidade de poder revê-la.
Todos se espantaram com a atitude do príncipe e voltaram à atenção para Michelle, que, timidamente, lhe ofertou uma flor vermelha de Amor Perfeito, significando um pedido de lembrança e implicitamente a indicação de um romance entre os dois. Ele apanhou a flor e a beijou. Montou novamente e seguiu adiante.
Kyara sorriu para Michelle... – A felicidade bate a sua porta. Não a desperdice.
Michelle devolveu o sorriso, mantendo-se calada. Kyara abraçou as duas irmãs, abaixou e beijou cada um dos filhos de Demétrio e pegou a bebê no colo e beijou-lhe a testa. Quando retornou para seu cavalo, Gael correu até ela agarrando-a pela cintura. Aquele gesto a deixou emocionada. Com os olhos marejados ela levantou o rosto do menino.
— Agora você é o homem da casa. Cuide da sua mãe e dos seus irmãos. Logo retornaremos.
— Meu pai já me disse isso.
Ela o abraçou forte beijando-lhe a face e montou novamente.
Legolas esperava por ela... – Você está bem?
Ela piscou tentando evitar as lágrimas... – Sinto como se estivesse me despedindo dos meus filhos. Vir para a Terra Média me fez entender muitas coisas e repensar minha vida.
Eles seguiam a trote enquanto conversavam... – E a que conclusão chegou?
— Que amadureci o suficiente para viver o que me falta: você, nossa vida juntos, filhos. Vou me completar quando tiver tudo isso, como Melissa e Demétrio. Eu também quero essa felicidade ao ponto de não me importar em mudar. Estou pronta para essa nova vida, construir um futuro para nós dois, formarmos uma família.
Legolas estendeu a mão para ela, que a segurou com força.
Apertaram o passo, cavalgando forte para alcançar a tropa. Os dois pareciam deuses feitos do dia e da noite, tal era o poder que vinha deles.
A tropa se juntou aos soldados de Riacho de Neve e Grimbol, que os aguardavam no porto do Rio Anduim e seguiram rumo a Fangorn, para se encontrarem com o exército de Éomer, os guerreiros do Folder Ocidental e os anões. Dali partiriam para o confronto nos campos alagados de Lis, aos pés das Montanhas Sombrias.
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De sua cabeceira nas Montanhas Nebulosas logo ao norte de Moria e Lothlórien, os pântanos dos Campos de Lis formavam um rio corrente que seguia para o leste até encontrar com o grande Rio Anduim.
No segundo ano da Terceira Era um evento crucial para a história da Terra Média foi encenado ali, pois esse foi o local que o rei Dúnedain Isildur foi morto e o Um Anel perdeu-se nos pântanos do rio.
Cavalgaram duro por sete dias, parando para descansar apenas quando o sol já tinha se escondido atrás das Montanhas Sombrias, cobrindo toda a Terra Média com o manto negro da noite. E antes que os primeiros raios de luz do novo dia pudessem aquecê-los, já estavam na estrada novamente.
O rei Aragorn não podia arriscar nenhuma perda de tempo, então não armaram tendas e as estradas estavam quase desertas devido aos recentes ataques dos Orcs. Os batedores haviam encontrado rastros pertencentes a um grupo de feras dois dias antes e o senso de perigo crescia mais negro na mente de Legolas e da Kyara a cada dia que passava.
Eles permaneciam sempre juntos quando cavalgavam, e, principalmente, quando estavam acampados, porém mantendo o máximo de discrição. Sentavam-se com seus amigos, observando os soldados bebendo e rindo ao redor do fogo e vez ou outra ouviam as histórias sobre os lares e famílias que haviam sido deixados para trás, contos de bravura e tristeza e toda aquela provocação insana que faziam uns com os outros.
Aragorn todas as noites fazia sua ronda pelas tropas e sempre dava um momento de atenção a um grupo ou outro, quando não se sentava com eles para enriquecer de detalhes as aventuras sobre a guerra contra Sauron.
Kyara admirava sua austeridade e firmeza no comando, porém sempre acessível. Ele irradiava força e determinação e seus homens e aliados bebiam daquela energia. Ela concluiu que Legolas havia poupado adjetivos para seu amigo.
Aragorn era um rei de valor incalculável e a admiração dela por ele aumentou ainda mais. Ele estava sempre próximo e atento a tudo e a todos. Um exército formado pela aliança de homens, elfos e anões. Povos tão distintos, mas que, sob a bandeira deste rei extraordinário, eram capazes de deixarem de lado suas diferenças e lutarem lado a lado pelo bem comum, vendo na figura de Aragorn um verdadeiro rei, um verdadeiro líder. Poucos, na história do seu mundo, foram capazes deste feito.
No oitavo dia juntaram-se ao exército de homens e anões liderados pelo rei Éomer, formando uma força de batalha com dez mil combatentes a cavalo. Mais cinco dias de viagem e finalmente montaram acampamento, contudo, Kyara notou que eles não se organizaram com nenhuma estratégia de combate e tudo indicava que, simplesmente, se levantariam ao amanhecer e cavalgariam até o confronto final.
Enquanto o acampamento se organizava, Legolas e Kyara ficaram com Aragorn todo o tempo e inevitavelmente cruzaram com Éomer, mas os dois o cumprimentaram com toda a deferência e o rei respondeu da mesma forma.
Kyara aproveitou um momento em que estava com Legolas na tenda de Aragorn, acompanhado de Gimli e Glorfindel para finalmente marcar presença nos preparativos dessa guerra.
— Aragorn, Legolas me disse que hoje à noite os comandantes se reunirão mais uma vez para rever os planos de combate de acordo com as informações que os batedores trouxerem das suas incursões. Até o momento não me manifestei, porque não queria causar alarido antes do tempo. No entanto a essa última reunião eu quero participar. Vocês precisam tomar ciência do que está por vir.
Aragorn percebeu que ela não pedia uma parte nessa reunião. Apenas a comunicava.
— Alguma coisa me diz que você nos surpreenderá. Não se ofenda, mas quero saber primeiro do que se trata.
Kyara pediu um mapa da região que se daria o confronto e revelou seus planos de guerra, quem seriam os inimigos, quais armas estavam em seu poder para o combate e todos ficaram realmente surpresos com as ideias que ela apresentava.
— Esteve esse tempo todo escondendo suas intenções de mim?... Repentinamente, Legolas se manifestou furioso... – Porque só agora você nos contou isso?
— Para evitar desgastes prematuros com reações como a sua... Disse ela aparentando calma... – Na verdade não surgiu a oportunidade para falarmos a respeito e achei melhor não tocar no assunto.
— Você tem ideia das implicações da sua estratégia? Quando você achou que, por um mínimo lampejo de loucura, eu permitiria que se arriscasse desta forma?... Esbravejou o elfo.
— Um momento, por favor!... Todos estaremos em risco aqui, principalmente você. O que achou? Que estando aqui me sentaria numa cadeira e esperaria as tropas retornarem?... Falou Kyara com firmeza... – Permitiu que eu viesse, então, se estou aqui significa que me envolverei nessa guerra como qualquer soldado.
— Nunca me senti tão traído. Todo aquele discurso de que abandonaria a batalha se eu pedisse era apenas para me ludibriar e eu acreditei em você... Foi muito esperta me fazendo crer que a escolha era minha. Por que não foi direta?... Por que a encenação?
— O que está dizendo? Que encenação?... Desta vez foi Kyara quem se surpreendeu... – Pensa que abri meu coração para você apenas para te enganar?... Ela engoliu seco... – Fique você sabendo que eu teria ficado.
— Então fique você sabendo que não a deixarei sozinha.
Neste momento ele deixou todo seu autocontrole de lado e esbravejou mais alto manifestando sua decisão. Os homens assistiam a cena estupefatos. Nunca sequer imaginaram Legolas reagindo como um mortal. Sua natureza élfica sempre controlada e equilibrada foi deixada de lado revelando um homem tomado pela ira e pelo desespero.
— O nosso sucesso dependerá inteiramente de você, Legolas. Preciso que vá. Talvez esse confronto nem aconteça porque você estará à procura da pedra e se achá-la há tempo ele não virá atrás de mim.
— Mais palavras, mais argumentação... Chega, Kyara! Que esse maldito viria atrás de você todos já sabíamos, mas que você se colocaria na condição de isca, isso eu não poderia esperar. Sabe o quanto temo por você. E se eu não encontrar a pedra a tempo? E se eu não conseguir nem encontrar essa maldita pedra?... Ele caminhava de um lado para o outro e parou diante dela argumentando enfaticamente tentando convencê-la... – Você não percebe que se expondo como pretende vai acabar morrendo?
— Se o bruxo vier para o campo de batalha e não me encontrar saberá que alguma coisa estará errada. Ele sabe que eu nunca ficaria de fora, mesmo se estivesse ferida. E nesse caso é você que correrá risco de morte ainda maior. Não entende que a única chance das tropas sobreviverem é atraindo-o para mim. Eu sou seu maior interesse... Contra-argumentou Kyara elevando a voz.
— Kyara, você está servindo de isca... Ele disse agarrando-a pelos braços... – Irá combater aquele monstro sem nenhuma proteção.
— Para que você tenha alguma chance... Disse Kyara aos gritos... – Certamente a pessoa mais protegida nessa guerra serei eu... Insistiu, abrandando a voz, porém, irredutível na sua posição... – Ele não pretende me matar, sabe disso. Além do mais tenho meus poderes. Ele não me vencerá tão facilmente.
Ele a soltou com brutalidade e sem mais paciência socou a mesa.
— Não! Você está se colocando em risco para me poupar? É isso que está dizendo? Se você quer levar isso adiante então outro que vá procurar a pedra. Eu ficarei aqui. Eu não vou deixá-la sozinha.
— Não poderá me proteger ficando aqui, Legolas. Nossas chances aumentarão se você for... Ela o segurou pelo braço tentando fazê-lo olhar para ela... – Eu só confio em você porque será a pessoa mais empenhada nesse propósito. Por favor!... Kyara o olhava com súplica.
— Você me enganou, Kyara. Se Aragorn não tivesse questionado suas intenções agora eu teria sabido só à noite junto com os outros... Legolas não escondia sua raiva e mágoa.
— Eu não o enganei.
— Sim!... Agora percebo que você nos manipulou o tempo todo. Esperou até o último momento para revelar o que pretendia.
Kyara recebeu aquelas palavras como um golpe.
— Me bata na cara, mas não diga que eu o enganei... Apenas não tive oportunidade para discutir esse assunto. Não queria ser intrometida e criar qualquer constrangimento com a minha presença.
— A mim, Kyara... Disse Legolas bufando... – Você não poderia ter escondido suas intenções de mim. Eu sou seu marido e você me manipulou... Ele suspirou sentindo um nó na garganta... – E eu cai na sua história como um idiota. Você não me contou porque sabia que eu não aprovaria. Fez isso de caso pensado... Ele riu... – No momento que me disse que ficaria em Gondor eu quase a beijei na frente de todos pela prova de amor que estava me dando e agora vejo que não passou de um engodo... Claro que eu permitiria sua participação. Da forma como colocou as coisas eu fui obrigado a aceitar.
Kyara manteve-se calada ouvindo o desabafo do marido sentindo a face arder.
— Você não acredita em mim... Prefere pensar que eu o ludibriei. Em que momento eu dei provas de que poderia enganá-lo como me acusa?... Seu semblante endureceu como pedra, mas as lágrimas de mágoa forçaram sua passagem e caíram dolorosas... – Minhas palavras são mentirosas... Minhas intenções são falsas. Pois bem, meu marido, ainda se arrependerá das suas palavras... Majestade! Eu aguardarei seu chamado para a reunião. Se pensar sobre minha proposta verá que é muito promissora, principalmente considerando o que teremos que enfrentar. Só lhe peço que analise com neutralidade e frieza e confie. Sei o que estou dizendo. Não podemos nos dar ao luxo de dispensar qualquer ajuda, mesmo a minha... Com sua permissão peço para me retirar.
Aragorn, por um momento pensou em intervir naquela discussão, mas vendo o semblante dos dois achou por bem esperar que os ânimos se esfriassem e consentiu sua saída com um aceno de cabeça e Kyara se retirou.
— Legolas! Você foi muito duro. Como pôde acusá-la assim?... Disse Gimli.
Legolas virou-se para Gimli fuzilando-o com os olhos.
— O que você me diz Aragorn? Concorda com Gimli?
Aragorn não respondeu de imediato e Legolas se impacientou.
— Vejo que sim... Vamos imaginar que Arwen queira se colocar diante de um demônio que deseja as piores atrocidades com ela, sendo a sua esposa a única capaz de sacrificar-se para salvar o mundo, você aceitaria isso com naturalidade?
Sempre com seu tom apaziguador e usando de bom senso, Aragorn respondeu... – Sinceramente, não. Mas são situações complexas e não devemos analisá-las de forma tão simplista... Legolas! Calma! Vejo que a presença dela é fundamental para vencermos, mas admito que seja muito arriscado. Por outro lado o melhor plano que poderíamos ter seria você recuperar a pedra, porque confrontar esse exército de monstros e o bruxo sem a Kyara poderá significar a nossa derrota... Você ouviu tudo o que ela disse. Então o que posso concluir, amigo, é que você terá que ser rápido. Eu poderia mandá-la de volta nem que usasse a força para isso, porque isso sim seria o mais sensato. Esta é a minha vontade, não importando se é a Arwen ou a Kyara... Entretanto, se perdermos, o maldito irá atrás dela de qualquer forma e sem ninguém para impedi-lo... Se não gostava da ideia de tê-la conosco, agora, depois de todo seu relato, temo ainda mais pela sua segurança e mais ainda pelo sucesso dessa empreitada sem a presença dela.
Aragorn dirigiu-se para o amigo e, colocando a mão em seu ombro, falou com toda a sinceridade.
— Deixando de lado seu temor e sua ira há de concordar que ela tem um ótimo plano, fala com a segurança de quem sabe o que faz e conhece o que nós não conhecemos. Sinto muito meu amigo, mas não podemos deixar de considerar a proposta dela.
— Aragorn tem razão, Legolas... Concordou Glorfindel... – Unindo forças teremos mais chances de vencermos. É justamente pensando na segurança dela que devemos levá-la conosco.
Legolas ouviu as sábias palavras dos amigos e calou-se. Ponderou por um tempo a situação que se encontrava e abaixou a cabeça resignado.
— O medo já tomou conta do meu coração. Se ela me escondeu suas intenções para me ocultar do bruxo tudo que conseguiu foi me deixar mais desesperado ainda... Ele suspirou angustiado... – Sinto que a perderei e não poderei fazer nada... Eu sequer estarei por perto para protegê-la.
— Não se você encontrar a pedra a tempo. Na verdade, ela pode ter omitido algumas informações, mas não creio que tenha tentado enganá-lo. Quando ela veio para nossas terras atrás desse bruxo sabia que seria um caminho sem volta. O melhor para ela será enfrentá-lo e a forma que encontrou para isso foi depositar todas as suas esperanças naquele em quem mais confia: você!... Insistiu Aragorn.
Legolas voltou seu rosto para a entrada da tenda tentando controlar seu coração disparado de temor. Momentos de trevas estavam por vir.
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