A Forma da Sua Alma
6 Dia 61
Notas iniciais
— Pare de se mexer.
— Eu não estou me mexendo.
— Sim, está se mexendo descontroladamente que nem um pinto molhado.
Bom, eu não posso evitar. Me sinto nervoso com isso. Com tudo isso.
Kim não está ajudando a me sentir melhor também.
Ele me explicou por cima como realizaria o procedimento. Primeiro, me colocaria para dormir; em seguida, utilizaria alguns... bem, não sei direito... para fazer com que eu permanecesse em um corpo fixo por alguns dias. Quando o efeito começar a passar ele pode fazer tudo de novo. Eu acordaria quando tudo estivesse terminado.
Estou deitado na cama dele, olhando para o teto. Meu coração está tão acelerado que me admiro que Kim não esteja ouvindo; mas ele parece concentrado. Está segurando uma espécie de saquinho de ervas envolvido por muitas correntes e colares cheios de símbolos. É como se estivesse usando o negócio para me escanear enquanto repetia baixinho algumas palavras. Eu sei que são em nossa língua mas ele murmura tão baixinho que eu não consigo entender muita coisa.
— Está com sono? — pergunta ele, baixinho. O quarto está na penumbra; iluminado apenas por dois abajures, um em cada lado da cama king-size de Kim. Ele parece viver luxuosamente; em um apartamento grande e espaçoso, dormindo em uma cama confortável com lençóis finos e uma lareira de mármore no canto.
É o tipo de lugar em que eu nunca imaginei que entraria.
— Sinto como se um cansaço estivesse me dominando — respondo finalmente. — Não exatamente sono. É como se eu estivesse a ponto de derreter.
— É, é assim que começa — diz ele, deixando de lado o saco de ervas. Ele me encara durante alguns segundos.
— Como é minha aparência? — pergunto. — Como estou? Eu, Logan.
Ele ri.
— Uma pergunta válida — diz, com um sorriso. — Seu cabelo está comprido. Passando das orelhas.
— Minha mãe odiaria me ver assim — digo, rindo. Estou sinto um calor no estômago, se espalhando por todo o meu corpo. Eu gostaria que alguém se deitasse ao meu lado e segurasse minha mão até que eu pegasse no sono.
— Acho que toda mãe reclamaria, até porque seu cabelo está bem desarrumado também — ele sorri. Seus olhos se fecham quando ele sorri.
— E minhas roupas?
Ele abre a boca e a fecha.
— Hm. Está usando as roupas do seu hospedeiro — ele ri.
— Ah. Ah! Nossa, devo estar rídiculo.
— Não sei como fazer para trocar, desculpe — ele ri alto, cobrindo a boca.
— Ah, tudo bem — murmuro. Estou sentindo o cansaço me tomando. Fecho os olhos.
— Logan? Logan? — ouço a voz de Kim como se ele estivesse muito longe. Algo toca minha mão. — Durma bem.
Então não ouço mais nada.
***
Quando acordo não sinto nada diferente. Os mesmos lençóis embaixo de mim, e o quarto na mesma escuridão suave. Sinto cheiro de sabonete masculino e algo doce. O lustre brilha um pouco mesmo apagado.
Viro a cabeça um pouco. Kim está sentado em uma poltrona quase encostada na cama, virada para mim, encolhido com o rosto enfiado em um livro. Seus cabelos estão molhados.
— Quanto tempo eu dormi? — pergunto, rouco.
Kim tem um sobressalto e fecha seu livro antes de responder.
— Umas sete ou oito horas.
— Não sabia que ia demorar tanto tempo assim — digo, me sentando preguiçosamente. Posso perceber que estou em um corpo masculino, magro e alto.
— É, imaginei que se te avisasse você poderia ficar com medo — diz ele, coçando o nariz.
— Estou é com fome — respondo. Poderia até ficar irritado com Kim por não ter me ado todas as informações, mas na verdade uma parte de mim esperava morrer dolorosamente enquanto ele ria de forma cruel nesse procedimento, então... acho que posso finalmente relaxar um pouco com Kim.
— Ah, sim, eu também — diz ele, esticando-se.
— Ficou sentado aí o tempo todo? — pergunto, franzindo as sobrancelhas.
— Hm, levantei para tomar banho — responde ele rapidamente, mexendo no cabelo. — Olha, acho que minhas roupas servem tanto em você quanto em seu hospedeiro.
— Hum. Não quero ficar com uma aparência rídicula — digo. Minhas orelhas esquentam quando lembro que Logan pode me ver como sou de verdade, a minha pele, as sardas, o cabelo, as mãos, os braços, meus dentes um pouco tortos, meus lábios cheios.
— Não vai, relaxe — responde ele, desviando os olhos. — Vá tomar um banho. Vou fazer uma gororoba pra gente comer.
— Só não me envenene.
— Se eu quisesse, já teria feito isso há muito tempo — retruca ele rapidamente, abrindo seu sorriso de raposa.
Sorrio de volta.
***
Quando saio do banho, descalço e secando o cabelo, encontro Kim na cozinha. Ele está de costas, virado para o balcão, mexendo em algo. Está descalço, de calça de moletom e uma camiseta gasta.
Não sei porque estou dando atenção a isso.
Estendo a toalha em uma cadeira e caminho até ele, apoiando os cotovelos no balcão.
— Ah, oi — responde ele. Está colocando montes de queijo ralado sobre panquecas, enrolando-as e colocando em uma tigela.
— Quer ajuda? — pergunto.
— Não, já estou terminando — responde ele, concentrado na tarefa. — Vou colocar essas no forno e depois vamos dar uma olhada no apartamento.
— Por quê?
— Bom — Ele enrola a última panqueca e a coloca delicadamente na tigela. — Acho que temos um compromisso agora não é? Eu devo te ajudar a recuperar sua antiga vida.
— E?
— Bom... não vai me incomodar se você viver aqui enquanto isso. Você não tem onde morar mesmo.
Reflito sobre o que ele disse. Mesmo que seja verdade... parece surreal. Ter uma casa, uma companhia, alguém para conversar, contato humano. Além disso... bem. Mal conheço Kim. Para mim, é como se ele fosse um estranho. Um estranho que sabe muito sobre mim, que me faz sentir confortável, que provavelmente tem meios de me ajudar. Mas um estranho mesmo assim.
Porém, eu sei que tudo isso não passam de reflexões sem sentido. Não posso recusar esse convite. Não se eu quiser recuperar o que restou de mim.
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