A sala em que estamos é minha favorita de todos os cômodos que Kim me mostrou até agora — e não foram poucos (embora o quarto em que eu vou ficar também tenha soado interessante... especialmente a cama).

— Acho que esse cômodo é meu preferido — digo, olhando para as paredes. O local é realmente fascinante, com vários quadros e documentos emoldurados nas paredes, uma escrivaninha de mogno pesada com vários objetos e uma cristaleira com finos adornos e taças e mais várias coisas pequenas e detalhadas. No canto, um divã de veludo escuro.

Ele está me olhando. Eu não sei o que fazer então mexo os dedos e o encaro em resposta.

— Ah, sério?

— Sim. Como conseguiu todas essas coisas?

— Eu apenas consegui — Ele se vira e abre a cristaleira delicadamente. — Venha aqui — chama, sem virar-se.

Me aproximo cautelosamente tentando ver o que há nas prateleiras. Repouso a mão na cintura de Kim para que ele se afaste um pouco; não consigo enxergar direito.

Kim recua para que eu possa ver e acaba batendo as costas em meu peito.

— Me desculpe — murmura ele. — Olhe isso.

Ele me mostra uma espécie de colar com um pendente grande e pesado. Ele está encarando-o. Eu estou encarando seus dedos longos e delicados como os de um pianista.

— O que tem essa coisa? — pergunto, sem entender. Logan ainda está de costas para mim e o observo pelo reflexo no vidro da porta.

— Um encantamento — responde ele, finalmente virando o rosto para me encarar. — Ele avisa quando o efeito de um ritual está prestes a acabar. Quero que use, para que eu saiba quando refazer.

Seguro o colar, o observando. Não entendi direito o propósito dele. Mas se Kim quer que eu use, obviamente isso vai me ajudar. Acho.

— Por que não posso simplesmente descobrir... — faço uma pausa para colocar o colocar ao redor do pescoço. — Quando o efeito passar?

— Isso facilita muito as coisas, Logan — responde ele, parecendo entediado.

Idiota da minha parte perguntar isso.

— Se você diz — Estou prestes a sair da sala quando toco o pendente distraído. Está... quente?

— Está morno! — digo, mais alto do que planejei.

— Sim — Kim respode. Seus lábios cheios se movem em um sorriso relaxado. — Eu não sei, mas ele tem essa peculiaridade. Olhe, agora que conhece o local... por que não tomamos algo?

***

A cama é tão macia. Ah. Eu não acredito que ela dorme com Kim toda noite. Que Kim dorme com ela. Nela. Ah, não sei.

Jogo a cabeça para trás e encaro o teto. Quero rir.

— Olha, sinceramente? — digo, para quebrar o silêncio. — Eu nem sei mais o que vale a pena. Você às vezes não pensa em desistir?

Dou um gole em minha taça. Mas não tem nada dela. Tomo a de Kim, em vez disso.

Ele se estica para pegar a garrafa de vinho que está sobre a mesinha de cabeceira e enche nossas taças. Seus movimentos parecem relaxados e ele está com um sorriso de raposa nos lábios e olhos sonolentos; as mangas de sua camisa (branca ou cinza?) estão dobradas.

— Eu já não deixei claro? Suicídio não é uma opção para mim, se fosse, eu já teria feito há muito tempo.

Me deito, tentando equilibrar a taça sobre a barriga.

— Você é bem mais forte que eu — digo, rindo. Não sei. Acho que sim.

— Você não exibiu muita força até agora, mas veja, tenho certeza de que pode ser forte. Só precisa aguentar até eu entender isso... quem fez isso e como desfazer.

Acho que ele está certo, mas eu estou acostumado a não pensar assim. Para mim, minha vida não é preciosa. Não tem valor. Se eu morresse agora, eu não me importaria.

Bem, talvez não agora.

Me sento para secar a taça. O vinho desce esquentando minha garganta, doce e vazio. Eu deixo a taça na mesinha e encaro Kim enquanto digo:

— A solidão é o pior. Às vezes, eu acho que vou enlouquecer. Porque estou todos os dias sozinho... porque passo as horas só com os meus pensamentos... porque ninguém sabe quem eu realmente sou, nem mesmo eu.

É assim que me sinto, eu acho. Eu devia rir porque minha situação é muito lamentável.

Kim subitamente encosta em meus braço. Queria estar sem blusa para que pudesse sentir seus dedos em minha pele.

Ah, o que estou dizendo?

— Você não precisa mais ficar sozinho. Eu posso ser seu amigo.

Eu o encaro. Eu não sei, mas algo soa errado nessa frase. Acho que no fundo ser seu amigo não me interessa.

— Amigo... amigo? Não quero ser seu amigo.

Rio alto. Não era minha intenção dizer isso. Droga.

Ele parece confuso. O vinho ri através dele. Solto gargalhadas e minha barriga dói. Quero me jogar em uma baheira de vinho. Com alguém.

Kim se mexe um pouco e acaba deitado de frente para mim. Seu rosto está perto do meu. Eu quero rir porque ele tem uma pequena cicatriz na raiz do cabelo e eu pensei que sua pele fosse perfeita.

Eu quero mais vinho então estico o corpo para pegar a garrafa.

— Acho que já bebemos demais — diz Kim com uma risada frouxa. Ele está deitado preguiçosamente, a mão sobre a barriga, me observando. Seu cabelo está todo desarrumado. Ele está suando um pouco.

— Eu não — Perdi minha taça — onde eu coloquei mesmo? — então tomo no bico.

Sinto um pouco de líquido escorrendo pelo meu queixo. Kim estica a mão e limpa.

— É... — diz ele. Espero para que termine mas ele não termina?

O vinho está pingando. A camisa de Kim está meio aberta. Em algum lugar uma música toca. O quarto está escuro. O vinho acabou.

— Ser seu amigo seria a pior coisa do mundo — digo, embora não saiba o motivo. Acho que é o vinho falando por mim. — Acho que sei onde é meu quarto. Obrigado pelo vinho.

Eu não lembro qual corredor devo pegar para ir até meu quarto, mas saio e não olho para Kim de novo.

Notas finais
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