A Forma da Sua Alma
3 Dia 60
Notas iniciais
Comentem! Amo vocês ^-^
Acordo, mas não abro os olhos. Ver as coisas ao meu redor torna isso mais real, e real é tudo que eu não quero que seja.
Levanto as mãos em frente ao rosto. Ouvi dizer que, quando você está sonhando, tem dedos a mais e as pessoas ao seu redor tem algum traço anormal. Infelizmente, tenho cinco dedos intactos em cada mão. Dedos gordos e vermelhos, de unhas ruídas e encardidas. Meu corpo é mais amplo que o último, e sinto dores na coluna que me fazem gemer. Me levanto vagarosamente e olho ao redor. Estou em um quarto nojento, sujo, com um forte cheiro de bebida barata impregnado no ar. Penso inicialmente que posso estar em uma casa do subúrbio, mas quando abro a persiana, percebo os carros circulando, as pessoas aceleradamente passando e batendo umas nas outras e descarto a ideia. Isso é no centro com toda a certeza. Uma batida na porta soa e congelo. Olho ao redor desesperadamente, as mãos tremendo, tentando descobrir se este quarto é compartilhado. — Alberto! Abra a porta, sua égua miserável! — ordena a pessoa de fora, em uma voz como um trovão. — Um minuto! — respondo, e percebo assustado que tenho uma voz impressionante. Abro a porta com as mãos tremendo. Um homem grisalho e pálido como uma barriga inchada me encara, enfurecido. — O nosso acordo era você sair em uma semana, mas ainda está aqui! — grita ele, assustando uma mulher franzina que passa atrás no corredor. Não sei o que responder então apenas improviso. — Eu não tive tempo de juntar minhas coisas. — Como se tivesse muitas! — O suficiente para não dar tempo de juntar. — Não me responda assim! — ele berra, cuspindo em meu rosto. Enjoado, me afasto alguns passos. — Olha, vou dar um jeito, e até depois de amanhã o quarto estará livre — respondo apressadamente, sem ver outra saída. Antes que o homem possa responder, bato a porta. Me encosto na parede, respirando aceleradamente. Momentos assim sempre me deixam apavorado; porém é inevitável. Antes que mais cobradores apareçam, tomo um banho no banheiro (imundo) do quarto, e saio, agarrando um paletó que parece limpo (se está já é outra história). Desço as escadas da pensão rapidamente, e quase caio no último degrau. Não havia espelho no banheiro, mas há um na recepção — se é que pode-se chamar assim — da pensão. Estou em um corpo grande de um senhor que aparenta ter uns cinquenta e poucos anos, com cabelos e um bigode negros e espessos e olhos apertados. A pele é morena como a minha, e as rugas em sua testa formam sulcos oleoso. É um corpo no mínimo desagradável. O centro cheira como sempre — gordura e poluição. Tento me localizar mas acabo esbarrando em algumas pessoas; peço desculpas e cutuco um estranho que está de costas, prestes a atravessar a rua. Ele se vira. Reconheço-o imediatamente, mesmo com a franja caindo nos olhos amendoados, mesmo com as pessoas nos empurrando apressadamente. Não raciocino; apenas agarro seu pulso e o puxo com força, levando-o para um beco entre a pensão e um consultório médico. Ele não resiste. — Quem é você? — pergunto; consigo ouvir minha voz tremendo pateticamente, mas não posso impedir, não agora quando estou olhando para o rosto que foi uma charada durante dois meses. — Quem é você e como continua aparecendo na minha frente todos os dias? Ele não responde. — Me diga! — sacudo-o violentamente. Ele bate as costas na parede manchada atrás de si e engasga momentaneamente. Aparentemente, o corpo em que estou é mais forte do que estou acostumado. — Por que quer saber? — pergunta o estranho, sua voz transperecendo ao mesmo tempo raiva e tensão. — Não é óbvio? — Solto uma risada cínica, pressionando-o contra a parede. — Quero saber como você sabe que sou eu mesmo quando estou em outros corpos, ainda mais porque não me lembro de tê-lo visto por aí antes de tudo isso... quando eu era eu mesmo. — Olhe, você não está fazendo o menor sentido — reclama ele; sua respiração está muito acelerada, o suficiente para que eu pense que seu nervosismo é falso. — Me solte e tentarei entender do que está falando. — Não! Você sabe do que estou falando! — Tento me controlar porém minha raiva contida é grande demais; já estou surpreso por minhas mãos não o estrangularem automaticamente. Não imaginei que a primeira vez que nos falaríamos seria assim. Imaginava algo mais... civilizado. — Tudo bem, que seja! — resmunga ele, os olhos me fuzilando. Ele tem olhos muito expressivos, percebo. — O que você é? O que sabe? — Me solte e eu falarei tudo. — Como vou saber que não vai sumir? Como vou confiar em você? Ele ergue as sobrancelhas. — Não vai. Penso sobre a resposta. Quero retrucar algo, mas minha boca permanece bem fechada, meus pensamentos travados, repassando as mesmas questões em um looping confuso. Então o solto, frustrado. Nos encaramos em silêncio. Vagarosamente, ele massageia o pulso onde eu estava apertando, enquanto olha para mim como se decidisse quanto podia revelar. — Isso... — ele aponta para mim. — Essa forma que você assume... é uma ilusão. Para você. Para os outros. Uma ilusão tão forte que você não pode ver através dela... por isso sente como se estivesse realmente nesse corpo. O enxerga quando se vê no espelho, e sente como se ele fosse o seu.
— Não entendo... quer dizer que ainda sou eu mesmo...? — Respiro fundo. Agora não estou fazendo o menor sentido. — O corpo em que estou agora ainda é o meu? — Sim... de certo modo — responde ele lentamente.
Notas finais
Gostaram?
Fale com o autor