A Forma da Sua Alma
4 Dia 60
— Quando você tentou tirar a própria vida no corpo daquela criança, ainda tinha seu poder em sua potência completa: você realmente habitava o corpo do indivíduo — prossegue ele, me encarando firmemente. — Porém, depois da sua punição, é tudo uma ilusão, além da qual eu sou capaz de ver.
— Eu não entendo... — gaguejo, sentindo como se ultimamente é tudo o que sou capaz de dizer. — É como se houvesse uma capa por cima de você, entende? Com esse corpo, que você sente, que vê, que os outros veem. — Mas e o verdadeiro corpo? — pergunto, atordoado. — E o dono dele? E as pessoas ao redor? — Logan, essa magia é complexa demais até mesmo para alguém como eu, que conheço esses truques profundamente — responde ele. Pelo menos tem a decência de se fingir aflito. — Mas como posso destruir essa... capa? Como posso reaver meu corpo? Ele ri suavemente, ainda alisando o pulso. — Por que quer isso? — pergunta. — Para viver sua entediante vida em um corpo só, que vai com o tempo odiar e desprezar? — Eu odeio e desprezo essa situação! — exclamo, exaltado. — Eu quero meu corpo de verdade, poder me ver no espelho, saber que minha família me reconhece... Não sei mais o que falar. Não sei mais o que sentir. Estou completamente perdido. É como se tivesse finalmente conseguido abrir uma cortina que guardava um segredo... e descobrisse que o segredo apenas guarda um leque de outros segredo mais. Cruzo os braços. Minhas unhas afundam na pele suada, e começo a tremer. — Calma — O estranho franziu as sobrancelhas, parecendo preocupado. — Está tudo bem? — Claro — respondo, ofegante. — Acabo de descobrir que na verdade estou em meu próprio corpo, mas preso em uma ilusão que faz com que acredite que estou no corpo de um estranho! A única pessoa que pode me ajudar, para melhorar, só tira sarro de mim. — Está falando de mim? — Ele cutuca a unha. — Não sei como te ajudar. — Então por que eu te vejo sempre? Se não pode fazer nada por mim, por que continuava atrás de mim, me perseguindo? — Eu... — Ele morde o lábio, hesitando. — Eu estava de olho em você. Sabe, para o caso de algo acontecer. — Por quê? — Fui mandado. — Por quem? — Isso não importa. Meus lábios começam a tremer. Sinto como se ele tivesse esticado a mão e estivesse torcendo minhas entranhas; enjoado, sinto meus joelhos fraquejando. Me apoio na parede com uma mão. — Olha só, por que não conversamos em um lugar mais calmo? — pergunta o estranho. — Você parece a ponto de ter um colapso. Um zumbido domina meus ouvidos. De primeira, não entendo nada do que ele diz. Confuso, olho para seu rosto com os olhos apertados até que minha mente possa processar corretamente o que ele disse. — Onde por exemplo? — resmungo, nervoso. Não tenho um bom sentimento sobre este... o que quer que ele seja. — Tenho um loft perto daqui. — E por que eu te acompanharia? — pergunto desconfiado. Ele ri alto. — Ué. Não é você que queria saber como recuperar realmente seu corpo? — Você disse que... — Eu sei o que disse — Ele bufa impacientemente. — Que não tinha informações. Mas nem sequer sei suas perguntas. — Você com certeza é um estranho bastante preocupado — respondo, rosnando. O sorriso dele me lembra uma raposa esguia, ardilosa e cheia de querer. Não gosto. — Ah, claro — Ele estende a mão. — Sou Kim. Não aperto sua mão. Estou sendo defensivo, eu sei, mas esse cara está me dando razão atrás da outra para desconfiar. Sabendo coisas sobre mim, não querendo revelar como as descobriu... Por que vou na casa dele mesmo? Porém eu não consigo evitar. Olho para ele vejo uma chance. Sei que, se não acompanhá-lo, as perguntas irão surgir. E se ele tivesse uma informação valiosa? E se ele pudesse me ajudar? E se as intenções dele fossem boas? Minha cabeça continuaria a gritar e, novamente, eu não conseguiria calá-la. — Vamos — diz Kim. — Vamos até minha casa e eu lhe explicarei tudo o que puder. — Isso cheira como uma armadilha. — Por Deus, não imaginei que você fosse tão desconfiado! — exclama Kim, rindo. Ele joga a cabeça para trás; seu pescoço é muito pálido e esguio, gracioso como um pedaço de seda branca. — O que você faria se estivesse em meu lugar? Seguiria um estranho que te perseguia como uma adolescente louca até a casa dele? — Você é um adolescente — interrompe ele, franzindo o rosto. — Diga isso para essas pessoas que acham que eu sou um grandalhão bigodudo — Carrancudo descruzo os braços, e tento parecer entediado. Nunca foi um dos meus fortes ser uma pessoa durona. Kim ri alto. Esse cara está de bem com a vida, não está? Patético. — Pare de marra. Venha. — Quantos anos você tem? — pergunto, examinando o rosto dele atentamente. Não daria mais de vinte, talvez nem isso. Ele poderia facilmente se passar por um estudante de colegial. — O suficiente. — O que isso quer dizer? Que você já é crescido? Que você é, uau!, tão maduro!? — retruco, sarcasticamente. — Por que não vai até meu apartamento? — pergunta ele, arqueando levemente as sobrancelhas. — Posso te mostrar minha maturidade.
— Quanto à maturidade, não, obrigado — respondo friamente, embora saiba que vou acompanhá-lo porque sou eu e eu sou idiota e obsessivo. — Você com certeza parece bem maduro com essas suas respostas, tentando me distrair porque na verdade não sabe ser direto. Ele revira os olhos e, com passos lentos, começa a sair do beco. Irritado e bufando, não tenho nada a fazer a não ser segui-lo.
Notas finais
e.e comentem! eu fico muito triste em não ter comentários
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