A Força do Amor

2 A Encantadora de Elfos


Notas iniciais
Com vão, caros leitores? Como combinado, segue mais um capítulo da FIC. Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer àqueles que favoritaram a FIC, ainda mais no primeiro capítulo. Isso foi incrível! Espero não decepcioná-los. Agradeço também aos que estão acompanhando e comentaram e aos que não comentaram. Preciso agradecer a pessoas mais que especiais, que foram meu tudo quando me senti desencorajada a postar a estória, quando acreditei que seria uma experiência ruim. Escrever é solitário, mas essa minha amiga foi companheira, paciente, observadora, crítica na medida certa. Ninive! Meu muito obrigada, de coração. Obrigada por acreditar e não desistir de mim. Esse agradecimento eu estendo ao meu querido amigo Pedro Maia. Pedro, quando ler esse capítulo quero que saiba que, lá no início de tudo quando a estória estava se formando, você foi maravilho comigo. Deu a força que ninguém mais podê. Como a Ninive, você foi generoso e paciente. Sua visão crítica me ajudou a dar o equilíbrio que minha estória precisava. Amigos são preciosidades que a gente tem que guardar com todo o carinho do mundo. Esses dois amores estão no meu coração. Espero fazer muitos amigos aqui. Ao meu marido Marcelo e meu filho João, que por sinal fez a capa da FIC, vocês são a minha vida, meu chão meu porto seguro. Preparados? Encontro vocês nos comentários. Boa leitura! Bjs...

Intrigado com todo o suspense que cercava aquela mulher misteriosa, Legolas não poderia deixar de temer o que estava por vir.

— Você não pode me deixar assim sem saber o que está acontecendo. Se for um perigo tão grande quanto o que faz parecer, você precisa me dizer.

Kyara manteve-se calada. Ela não se sentia segura para revelar qualquer coisa a respeito da sua missão. Havia recebido informações da Senhora da Magia de Tiria sobre essa raça e sobre o homem elfo que salvara a vida. Sabia que ele era de confiança, mas até que ponto? Outra questão que a incomodava era a possibilidade de uma jornada a Gondor na companhia dele.

Legolas insistia com seus argumentos, tentando convencê-la.

— Pelo que percebo você andou se informando sobre os povos daqui e até tem informações a meu respeito. Nada do que foi dito a você não lhe dá a segurança necessária para me revelar alguma coisa ao menos?

Ponderando a respeito, Kyara chegou à conclusão de que não conseguiria se desvencilhar dele, revelando ou não qualquer informação sobre a missão. Afinal, como poderia partir e deixá-lo para trás ainda precisando de cuidados? Não esperava encontrá-lo tão cedo e agora que aconteceu, o jeito era se manter firme no seu propósito e seguir em frente.

— Está bem! Já que acreditou na minha palavra, também vou confiar em você e lhe contarei o que for possível... Mais tarde. Agora quero que beba esse chá. Ele é curativo. Usei as mesmas ervas para fechar suas feridas... O efeito será mais rápido se ingerido... É um pouco amargo.

— Grr... Um pouco amargo? Isso parece fel. É muito pior do que as ervas que já bebi.

— O que cura muitas vezes é ruim... Descanse e mais tarde conversaremos. Não se preocupe. No momento não estamos correndo perigo.

Não foi muito difícil para Legolas dormir. Depois da boa comida que recebeu, sentiu uma lombeira lhe dominar e aceitou aquela cama confortável, com muito prazer, deixando de lado suas preocupações.

Ao acordar, viu que estava sozinho. Levantou-se devagar. Constatando que se sentia bem aproveitou a oportunidade para tomar um banho. Retirou a calça, suas bandagens e entrou na água. Enquanto se banhava observou que seus ferimentos estavam fechados. Os homens elfos têm um poder curativo muito maior que os homens mortais, mas nada que fosse tão rápido e essa descoberta aguçou ainda mais suas desconfianças.

Que tipo de feiticeira e quão poderosa ela seria?... Quem em sã consciência viria sozinha para uma terra completamente desconhecida com a missão de combater o que parece ser um grande inimigo?... Todo esse mistério o deixava apreensivo e seus pensamentos voltaram a incomodá-lo. Ao se vestir, resolveu vasculhar as coisas dela na esperança de descobrir algo mais.

Legolas encontrou uma espada feita de um aço muito leve, com inscrições que nunca havia visto antes. A lâmina fora alongada para aliviar o peso. Ele sentiu um grande poder ao segurá-la. Se não fosse pelas inscrições, poderia dizer que era uma espada antiga dos altos elfos da extinta cidade de Gondolim – O povo do grande guerreiro élfico Glorfindel. Encontrou, também, embrulhado em um pano negro, um cinturão com facas de arremesso e uma adaga longa, muito parecida com as que ele usava. Certamente, as armas haviam sido forjadas especialmente para a mulher e estas descobertas deram-lhe a certeza de que ela falara a verdade ao dizer que era uma feiticeira que defendia sua magia com espadas.

— Essa espada chama-se Tellas. No antigo dialeto de Tanusia significa: Destino... Tellas aia tue asla ai sancrar mai deteniar hecer— Destino é o teu nome e poderoso será o guerreiro que empunhá-la. É isso o que diz as inscrições... Como pode ver, entre outras coisas, uso arco e flecha também, embora não seja minha preferência.

Legolas se surpreendeu com a voz da Kyara às suas costas e seu primeiro pensamento foi constatar que, pela segunda vez, era pego de surpresa. Virou-se para a mulher vermelho de vergonha por ter sido flagrado mexendo nas coisas dela. Kyara estava com os cabelos trançados vestida com roupas de couro, como um caçador. Luvas de couro protegiam suas mãos, deixando aparente seus dedos longos e delgados. Portava nas costas um grande arco de carvalho, ricamente entalhado e uma aljava carregada. Legolas disfarçou bem sua surpresa e admiração, mas olhava para ela guardando na memória cada detalhe que via daquela mulher exótica aos seus olhos.

— Perdoe-me por estar mexendo nas suas coisas. Não tenho esse hábito... Depois de tudo o que me aconteceu, estar aqui com você e seus mistérios... Ele se deu por vencido... – Admito que estou tenso com essa situação. Não tenho a menor ideia do que teremos que enfrentar e se está lá fora nesse momento.

Kyara olhou para o elfo com um semblante nada amistoso... – Será mesmo que devo confiar em você depois desse flagrante?

— Por favor! Não me julgue somente por esse ato impensado. Não pretendia lhe causar qualquer dano que fosse.

Kyara se pronunciou deixando transparecer um pouco da sua irritação... – Venha! Vamos acabar logo com esse suspense... Primeiro vou refazer seus curativos. Precisam ser bem cuidados depois do banho, para não inflamarem e em seguida lhe contarei toda a história. Talvez assim você pare de vasculhar minhas coisas.

Legolas a seguiu cabisbaixo pela vergonha e nada disse. Nem poderia, depois da sua atitude imprudente. Sentaram-se ao redor da fogueira e Kyara abriu um baú com um acervo bastante variado de plantas e raízes e outras quinquilharias. Algumas usadas para cura e outras totalmente desconhecidas para Legolas. A julgar pelo fato de estar vivo, a rapidez com que seus ferimentos responderam ao tratamento que ela lhe deu e a quantidade e variedade de coisas que carregava, deveria ser uma grande curadora. Ela retirou as luvas, lavou as mãos e começou a preparar um emplastro esverdeado. Depois de pronto, pediu a Legolas que ficasse de pé e retirasse o roupão que havia deixado para ele.

Legolas não se sentiu muito confortável ao atender seu pedido, mas não fazia sentido o recato diante dela depois de tudo que ela havia feito por ele. Ao despir-se até a cintura revelou-se forte, com seus músculos bem definidos, que se salientavam a cada movimento.

Kyara se surpreendeu com a tímida exibição do elfo. Depois de passar dias sem água e comida, sendo tão severamente castigado, ele deveria mostrar-se debilitado. No entanto, não foi o que aconteceu. As marcas das chicotadas, os buracos de flecha no ombro e abdômen e o talho da espada não passavam de manchas em contraste com a pela branca, que, mesmo assim, não conseguiam encobrir sua beleza.

Reparar nos detalhes daquele corpo masculino, que se exibia tão naturalmente, a deixou agitada e seu coração disparou quando ele postou-se diante dela, encarando-a. Kyara tratou do corpo daquele homem por cinco dias e somente conseguiu se concentrar no desespero de salvar-lhe a vida. Agora, o vendo de pé diante de si, não pôde deixar de admirá-lo e tentou disfarçar seu rubor tratando primeiro do dorso do elfo.

Legolas sentiu ardência logo que a mistura tocou seus ferimentos, mas a suavidade das mãos dela passando o emplastro com a ponta dos dedos, espalhando-o bem devagar, quase como uma carícia, o fez relaxar. De olhos fechados, o elfo se deliciou com aquele contato, duvidando da capacidade dela em manusear uma espada, tendo as mãos tão macias. Terminadas as costas, ela precisou repetir o procedimento na testa, no ombro, no peito, nas costelas e no abdômen.

Despercebido da sua indiscrição, Legolas não tirou os olhos da Kyara, que mantinha o semblante sereno, porém sem coragem para encará-lo. A cada movimento ele admirava um detalhe do rosto dela, o pescoço, os cabelos da nuca e seu perfume suave, as sobrancelhas tão perfeitamente desenhadas, os cílios longos, que só faziam realçar ainda mais seus olhos verdes esmeralda e sua pele alva, seu nariz fino e delicado, a boca rosada de lábios cheios.

Quando ela terminou, pegou novas faixas, pediu que ele levantasse os braços e começou a enfaixá-lo. Ela praticamente o abraçava para dar as voltas que precisava e aquele contato os deixou embaraçados.

— Pronto! Está terminado.

Pairava no ar uma sensação de desconforto e os dois se olharam com indisfarçado constrangimento. Mais uma vez, a tensão pesava. Legolas foi o primeiro a se manifestar, desviando a atenção dos dois.

— Não me cansarei de agradecer seus cuidados e sua confiança. Principalmente, depois da minha atitude estúpida. Eu... não sei como me retratar.

Kyara observou o elfo um instante em silêncio. De fato, sabia da sua nobreza. Ele se mostrava muito envergonhado e ela ponderou se não teria feito à mesma coisa caso estivesse no lugar dele. Legolas se inquietou com o silêncio da mulher e temeu não receber as informações que queria. Quando fez menção de dizer algo mais que pudesse convencê-la a confiar nele, ela o interrompeu com uma das mãos erguida.

— Não precisa dizer mais nada... Vamos esquecer, está bem? Sente-se!... Não esperava ter companhia durante a minha jornada a Gondor, mas já que está aqui... Kyara deu um suspiro de resignação... – Talvez seja melhor mesmo conversarmos... Como disse a você sou uma sacerdotisa e guardiã da magia e da coroa do meu país. Você nunca ouviu falar sobre o reino de Tanusia, porque ele não faz parte dos reinos da Terra Média. Cheguei aqui por meio dessa magia que defendo e que possibilitou a abertura de um portal que me transportou para cá. Infelizmente, esse meio também foi utilizado anteriormente por outra pessoa. Um bruxo chamado Gorlock, que roubou um artefato da ilha de Tiria, lugar onde se concentra a magia da minha terra.

— O que significa não fazer parte dos reinos da Terra Média? Sei que existem povos que não conheço... em regiões muito distantes daqui, além das terras de Rhûn e até do outro lado do oceano, mas... você disse que não se pode chegar ao seu país a cavalo ou barco.

— Venho de outro mundo, príncipe Legolas. Outra terra, que somente se tem acesso através da abertura desse portal.

Kyara já esperava pela incredulidade estampada no semblante do homem a sua frente, mas detalhar esse novo mundo inimaginável para aquele elfo seria o mesmo que contar outra história.

— Eu entendo sua surpresa... Ela suspirou... Infelizmente, falar sobre isso será bem complicado e a questão que importa aqui não é essa. Apenas, aceite o fato de que não venho de nenhum lugar da Terra Média... Esse artefato que o tal bruxo roubou, na verdade, é uma pedra de cristal. Fui designada por Gahya, a controladora de toda a magia de que lhe falei, para uma missão muito importante. Tenho que recuperar essa pedra e destruir esse bruxo. Caso contrário, ele deflagrará uma guerra sangrenta, que lhe dará controle sobre a Terra Média e sobre o reino de Tanusia. O bruxo reunirá um exército indestrutível formado pelos inimigos que você combateu... As informações que recebi sobre os povos daqui indicam o reino de Gondor sendo capaz de enfrentar essa força. Estava a caminho para falar com o governante quando encontrei você quase morto no bosque.

— Então, você está dizendo que a pessoa que me sequestrou e torturou foi esse bruxo? Com que finalidade?

— Não faço ideia. Certamente, ele tem informações que desconheço. Uma coisa é certa: você deve ter uma importância muito grande para ele ter tido tanto trabalho. Em outras circunstâncias, ele simplesmente o teria matado... Que recado é esse que ele quis passar, eu não sei.

— Por que temer tanto uma pedra?

— Não subestime o poder dela. A pedra pode abrir portais para lugares desconhecidos, pode revelar coisas do passado, do presente e do futuro, ela ainda aumenta o poder de quem a detém e Gorlock não é um bruxo qualquer. Pode estar certo de que agora ele é um inimigo poderoso e muito perigoso.

— Se ele pegou a pedra, como você conseguiu vir parar aqui e saber tanto a nosso respeito?

— A pedra que o bruxo roubou não é a única pedra de poder em Tiria. As demais que ficaram exercem poder ainda maior. Bastou Gahya consultar o Poço dos Ancestrais, de onde a pedra foi retirada, para ter toda a revelação de que precisava.

— É uma história bastante interessante, mas devo ser sincero... Kyara o interrompeu.

— Eu sei o que vai me dizer: tudo parece inacreditável demais, não é? Que provas eu teria?... Não tenho nenhuma nesse momento. Você terá que acreditar na minha palavra.

— Se tem apenas a sua palavra, como pretende convencer o rei de Gondor a mobilizar um exército inteiro para enfrentar esse tal bruxo?

Muito havia sido informado àquele elfo e agora ela se encontrava num impasse. Pensava se seria prudente usar o amuleto que Gahya havia lhe dado para provar a veracidade da sua história... – “Darei a você esse amuleto, Kyara, para que passe ilesa à maldade do bruxo. Use-o para conquistar a confiança do rei de Gondor, mas não o revele a ninguém antes da hora...” Kyara não estava inclinada a ignorar um conselho desses.

— Usarei minha magia... Não me peça para revelar essa prova agora. Farei o que for preciso na presença do rei de Gondor. Não antes.

Legolas ainda não se sentia convencido... – Se essa pessoa... Gahya... tem tanto poder por que ela mesma não veio combater o bruxo?

— Gahya jamais deixaria Tiria desprotegida por tanto tempo. Essa seria uma empreitada que pode durar um tempo indeterminado e ela tem a mim para essa tarefa. Por isso preciso da ajuda de Gondor... Eu sei que tudo parece loucura. Para você pode ser impossível passar pelo que passou sem ter uma explicação plausível, depois ser salvo por uma mulher armada com poderes de cura extraordinários e ainda por cima que lhe conta a história mais inacreditável que você já ouviu... No momento só posso pedir que confie em mim. Talvez agora você entenda minha relutância em lhe contar alguma coisa. O que tenho a revelar precisa ser feito... ao rei de Gondor.

Legolas ouviu tudo que foi dito pela Kyara e se manteve em silêncio ponderando se acreditava em toda aquela loucura. Kyara percebia a relutância do elfo.

— Eu não planejava ter companhia nessa missão e pretendia fazer meu percurso até Gondor sozinha. Não sei o porquê de o bruxo tê-lo capturado, torturado e o jogado na floresta para morrer. Se isso tem um propósito, só aquele maldito poderá esclarecer. O que sei é que vou para Gondor, com você ou não.

— Aragorn é o governante de Gondor... Posso levá-la até ele... Se tudo o que disse é verdade, então, temos que seguir viagem o quanto antes. Poderemos partir amanhã logo que amanhecer.

— Por certo que sim... Ocorreu-me que você não está recuperado o suficiente para viajar.

— Isso não importa. Temos que avisar Aragorn. Precisamos de notícias das terras que cercam Gondor para saber sobre a movimentação do inimigo. Se esse tal bruxo que você citou veio à procura de um exército, certamente utilizará Orcs para esse papel. Depois da batalha nos portões de Mordor, os que sobreviveram, espalharam-se... Venho percebendo uma grande concentração deles nas florestas onde habita meu povo.

— Orcs? O que são essas criaturas?

— Uma forma de vida terrível e arruinada, membros de uma raça descendente dos elfos. Eles foram modificados e pervertidos durante a Primeira Era da nossa terra, pela predisposição desses seres para a escuridão e para a maldade. Existem três tipos de raça Orc: os Orcs Comuns, também chamados de Goblins, os Uruk-hai e Meio-orcs. Os Orcs Comuns temem o sol e fazem suas habitações em cavernas nas profundezas das montanhas. Esses não serão propriamente nossos inimigos nesse confronto. Após o ressurgimento de Sauron, a tal criatura do mal que combatemos, começou a criar uma nova raça Orc capaz de agir independente e inteligentemente e a chamou de Uruk-hai. Os Meio-orcs foram uma criação horrorosa, nascidos de uma mistura entre homens e Orcs. Eles são frequentemente confundidos com os Uruks, mas são uma raça distinta pequena em número, muito capaz e mortal.

— Nada que uma espada não possa matar, então. Minha preocupação é o bruxo. Como eu havia dito, a pedra que ele roubou de Tiria aumenta o poder dele e o bruxo é cruel, muito cruel. Uma criatura sádica, que se alimenta do sofrimento que causa. Como todo ser perverso tem sede de poder, de querer escravizar tudo a sua volta. Ele será nosso maior problema.

— Como você pretende detê-lo?

— Terei que encontrar uma forma de recuperar a pedra que ele roubou se quisermos detê-lo. Com o bruxo de posse dela será quase impossível destruí-lo... Teremos que pensar numa estratégia bem planejada, porque o bruxo não é nada estúpido.

Houve uma pausa e os dois se deixaram levar pelos seus pensamentos. Legolas tentava digerir tudo o que havia sido revelado e Kyara pensava na sua chegada a Gondor. Sem dúvida, aquele assunto aliviou a tensão entre os dois.

— Agora que sei de tudo não consigo ficar aqui esperando. Temos que chegar a Gondor com urgência. Com uma montaria apenas será demorado demais.

— Não temos apenas uma montaria. Tenho dois cavalos comigo e há pouco consegui encontrar o seu cavalo. Pelo menos imagino que seja seu – Um alazão branco vagando por aí com uma bagagem, um grande arco e uma aljava carregada, além de duas longas adagas parecidas com a minha.

— É Arod, o meu cavalo. Então, o lugar onde fui torturado não deve estar longe daqui. Estranho terem deixado minhas armas.

— Andei por aí para saber se estávamos seguros e não encontrei nada que indicasse o lugar que você foi aprisionado ou qualquer movimentação. Estamos sozinhos aqui... Talvez o seu cavalo tenha andado um pouco mais do que imagina.

— Não saberemos. Sem dúvida foi muita coincidência ele vir parar aqui por perto.

— Não foi coincidência... Ele atendeu o meu chamado. Sou o que o meu povo chama de “Pathya Penien”, uma encantadora de florestas... Tenho o poder de me comunicar com os animais. Eu chamei seu cavalo e ele veio.

— Encantadora de florestas!... Mas... se nunca viu meu cavalo como conseguiu atraí-lo?

— A fonte do meu poder está em toda a parte. Tudo que faço é canalizar a energia que me cerca para meu próprio corpo e focar meu pensamento naquilo que pretendo realizar. Isso exige muita força mental. Necessariamente, não precisa ser nada já experimentado. No seu caso, imaginei que poderia haver um cavalo vagando, talvez a procura do dono e juntei sua imagem a desse cavalo... Você pode não entender, mas é uma energia poderosa demais para um animal resistir. Inevitavelmente, ele irá de encontro ao que o atrai.

— Isso sim é surpreendente!... Funciona com humanos, também?

— Se forem pessoas especiais... A grande maioria é totalmente desprovida de sentidos mais apurados. Acredito que poderiam sentir uma vibração, ou uma intuição para algo, que logo seria deixada de lado.

— É... incrível! Que outros poderes você tem?

— Também tenho o poder dos elementais. Eu posso manipular a vegetação e as forças da natureza: a terra, o ar, o fogo e as águas. Como sacerdotisa tenho conhecimento sobre ervas, remédios e feitiços, mas costumo usar minha energia vital para curas, também... Como fiz com você. Geralmente, ajuda na recuperação de ferimentos e doenças. No seu caso foi misteriosamente milagroso. Em uma pessoa comum levaria semanas para se recuperar, sem contar que ficaria marcado para sempre. Mas, você, em poucos dias as feridas se fecharam. Ainda que inspirem cuidados, logo desaparecerão.

— Talvez a combinação da sua magia com o poder dos eldar seja muito poderosa.

— A magia de Tiria é muito forte, realmente... Como aqui. Logo que cheguei compreendi porque a Terra Média. A pedra deve ter direcionado Gorlock para cá, talvez por causa da magia negra que a criatura que você combateu praticara aqui. Eu sinto uma energia muito grande em tudo, tanto boa quanto má. A Terra Média deve ter sofrido com muitas batalhas.

— Sim, muitas. Esse ser do mal, que conseguimos destruir, tinha um poder muito grande e causou muita destruição. Antes dele, o seu mestre, que foi ainda mais danoso.

— Mas, não é só energia negativa que senti. Eu, não só senti como vi, também, uma vastidão de belas florestas. São magníficas! Tudo transpira vida. O reino de Tanusia é lindo, mas até onde minha visão pôde alcançar posso dizer que a Terra Média também é belíssima.

— Você veria paisagens de tirar o fôlego, grandes cadeias de montanhas, florestas muito antigas, pequenos bosques, cachoeiras, planícies de uma relva verde como esmeralda e muitas flores silvestres... Certamente você ainda não visitou nenhum reino élfico.

— Da forma como fala os elfos devem ter muito apreço pela natureza.

— Temos uma grande preocupação com a sua preservação e sabemos valorizar o que ela nos dá... Digo que é nossa amiga.

— Fico feliz por isso... Temos algo em comum: o amor pela natureza. Ela é vital para mim, porque tiro minha energia dela. É a fonte do meu poder e a essência da minha vida. Sem ela eu morreria.

Houve um momento de silêncio e os dois permaneceram envolvidos pelas imagens que o desfecho daquela conversa havia proporcionado, deixando no ar uma sensação de bem estar. Mais tarde, Legolas vestiu suas roupas de viagem trazidas em sua bagagem e comeram o restante do caldo de peixe. Ela ainda deu mais um pouco do chá para ele beber e foram dormir. Com o raiar do dia, os dois partiriam.

...................................... >>>.........................................

Legolas despertou e viu que Kyara não estava na caverna. Resolveu sair armado para procurá-la, temendo que algo ruim pudesse estar acontecendo. Circulou o lago, caminhando pelas pedras encostado ao paredão, passando pela lateral da queda d’água e, ao sair, deparou-se com a cena mais encantadora que poderia contemplar. A lua cheia aparecia gigantesca e imponente, iluminando a floresta. Seu reflexo nas águas do rio, que seguia para o sul a partir da queda d’água, às tornavam um grande tapete brilhante. Ele avistou Kyara descalça e vestida de branco próxima à água. Os cabelos estavam soltos e sob a luz do luar ficavam ainda mais negros e brilhantes.

Vendo-a ali sob aquele cenário, fazendo movimentos leves numa dança suave, lhe pareceu uma visão, um encantamento. Ele podia ouvir um som, como um assovio ou um instrumento ensaiando uma música, que acompanhava seus passos e gestos. Tal qual uma estrela, ela começou a irradiar luz de beleza infinita e uma chuva de pétalas brancas girava ao seu redor, com um bailar de beleza insuperável. Poderia ser uma criação divina do próprio Eru.

Legolas permaneceu encostado a uma pedra observando Kyara hipnotizado. Ela não era somente encantadora de florestas, encantava homens também. Sejam eles elfos ou mortais. Nesta hora veio a sua mente o aviso da Galadriel... – “Não fuja do seu destino, por mais sofrido que possa lhe parecer...”.

Seus pensamentos foram longe e se questionou sobre aquela mulher misteriosa, que começava a perturbar a sua paz. Quando viu seu rosto pela primeira vez no espelho d´água de lady Galadriel em Lothlórien, Legolas teve uma sensação estranha de arrepio ao mesmo tempo em que seu coração acelerava suas batidas. Agora a mesma sensação se repetia.

A leveza dos seus gestos, a forma como seus cabelos a envolvia e se lançavam no ar. Esses detalhes o fizeram se lembrar da imagem dela se banhando, deslizando as mãos pelo corpo com a mesma delicadeza. Ele tentava trancar em seu peito as sensações que ela lhe despertava. Legolas sentia a imensa força que emanava daquela mulher tentando arrastá-lo, como as corredeiras de um rio bravio.

Ele precisava se concentrar nos perigos que estavam por vir e o primeiro passo era chegar a Minas Tirith o quanto antes. Mesmo lhe custando muito, ele achou melhor retornar para a caverna, querendo esquecer o que vira e o que sentira. Quando Kyara entrou nenhum dos dois fizeram qualquer comentário e ele ficou sem saber se fora visto na cachoeira.

— Já vai amanhecer. Vou arrumar minhas coisas e partiremos. Acha que consegue me ajudar a levá-las para fora?

— Claro! O que quer que eu leve primeiro?

— Pode enrolar as peles e levá-las. Amarre-as a montaria do corcel negro. Ele se chama Athos... É meu amigo e companheiro há muito tempo. Já enfrentamos muitas coisas juntos.

Enquanto conversavam, Legolas enrolava as peles de ovelha e Kyara juntava suas coisas. Quando ele saiu, ela tratou de se trocar rapidamente, vestindo a mesma roupa de couro e começou a transportar um dos baús para fora. Logo se aprontaram e partiram na direção sul rumo a Gondor.

À medida que seguiam o curso do rio, Legolas percebeu que se tratava de um afluente do grande rio Anduim e que o bosque de carvalhos ficava a, mais ou menos, uns dois dias da floresta de Lothlórien, seguindo para o sul em direção a Fangorn, a floresta dos Ents. Se não encontrassem obstáculos no caminho, a cavalo poderiam chegar a Gondor em, aproximadamente, vinte dias.

Kyara concordou com os planos do elfo sem saber que ele pressentiu um grande perigo os cercando. Desde que saíram da caverna, uma sombra pairava à distância, esgueirando-se em torno deles e o coração do homem elfo inquietou-se, mas ficou em silêncio guardando para si suas preocupações. Assim, começaram sua jornada à Gondor.

Notas finais
Muito bem! Já sabemos um pouquinho da Kyara e seus poderes. O que posso dizer é que estamos vendo apenas a ponta Iceberg. Agora, a revelação de um bruxo - Gorlock. Bem nome de bruxo, não concordam? Essa sombra espreitando nossos viajantes... Hum! O que será que estar por vir?