A Força do Amor
3 Novos Tempos de Trevas
Notas iniciais
Distante da caverna que abrigava os dois guerreiros, uma nuvem densa e negra cobria o céu das Montanhas Sombrias. Trovões e raios ecoavam e ventos furiosos circulavam pelas encostas, tornando o cenário ainda mais assustador que o normal.
Novamente o mal havia dominado aquelas cordilheiras e outro bruxo criava agora seus feitiços.
Patrulhas Orcs haviam percorrido seus esconderijos, colônias e fortalezas, para novamente formarem um novo exército. Desta vez com mais fúria e sede de dominação. Planejavam derramar sangue, espalhar morte e destruição por onde passassem.
Era chegado o momento de se prepararem para uma nova grande guerra e no interior das montanhas forjavam-se armas e armavam-se soldados Orcs, sob o comando de um ser tão cruel e desprezível quanto Sauron. Um ser que tirava suas forças da dor e do sofrimento que causava.
Surgiu no púlpito da caverna central, onde a maioria dos Orcs se concentrava um homem alto de barba bem aparada e cabelos longos e negros, tão negros quanto seus olhos. Gorlock estendeu seus braços e, movimentando as mãos, lançou raios sobre o lugar. As chamas das forjas e dos caldeirões usados para derreter o aço tornaram-se labaredas, causando um frenesi entre os que o assistiam.
— Meus soldados!... O estrondo causado pelo seu vozeirão de maldade e profanação fez silenciar imediatamente todas as criaturas presentes... – Aproxima-se a hora em que dominaremos essas terras e não mais o homem será o Senhor. Nosso domínio será absoluto. Não precisarão viver escondidos, não serão mais fugitivos... Levarão o terror e a escravidão a toda parte e vocês se alimentarão do sangue e da carne daqueles que hoje os perseguem. Sob meu comando, o mundo será nosso.
Proferidas tais palavras, raios e trovões ecoaram ainda mais fortes pelas montanhas. Junto aos Orcs podiam ser vistos Trolls das Cavernas e Wargs e outras criaturas, que até então não existiam na Terra Média – Os Demônios de Kraken. Entre eles, havia ainda Lobisomens ferozes e cruéis, possuídos por espíritos apavorantes que o bruxo havia aprisionado naqueles corpos.
Ali, a vida e a luz eram sufocadas. O ar venenoso favorecia a multiplicação dos monstros, que se fortificavam sob o poder de Gorlock, enchendo seus corações de crueldade e do desejo de devastação e morte. Cercado de criaturas nefastas, o mal se propagava pelas sombras, rastejando como espectro envolto em fumaça e escuridão.
Gorlock ficou satisfeito com o que viu e se retirou para o interior da caverna. Seguiu por corredores até chegar a uma passagem negra, que, por encantamento, abriu-se para um grande salão lutuoso e macabro, cujo teto era sustentado por grossas colunas.
De um lado estava um trono negro, elevado por um altar. De cada lado do trono foram postas criptas de fogo sustentadas por cabeças humanas dessecadas. No centro do salão uma lareira no chão aquecia o lugar e do outro lado da lareira, em frente ao trono, numa parede de pedra pendia um anel de metal com três pontas para fora do círculo. Pelos cantos do salão monstros de pedra simbolizavam seres das profundezas do mundo, que continham nos seus olhares assustadores a face de tudo que era adorado pelo bruxo: terror e trevas.
No fundo do salão outro altar elevava um pedestal de pedra esculpida no formato de répteis, que abrigavam uma pedra negra adornada com dragões de ouro.
Quando Gorlock entrou no salão foi diretamente para a pedra e a tocou. Os dragões adquiriram vida, penetrando em seu corpo e a luz tornou-se intensa o envolvendo completamente, transformando-o numa criatura incandescente. Seus olhos eram duas labaredas brilhantes demais para qualquer um suportar olhar e nesta forma dirigiu-se para o anel.
Estendendo uma das mãos, o anel se incendiou e a parede por trás desapareceu, abrindo passagem para um mundo completamente em chamas. Rios de lava e fogo corriam entre as fendas rochosas de vales devastados sob um céu vermelho e negro. Dentro do anel projetaram-se imagens de todas as regiões da Terra Média e os povos que nela habitavam e Gorlock as observou atentamente.
— Por onde anda?... Pobre Kyara! Será que sofrera muito ao encontrar o elfo?... Logo aprenderá que está destinada a mim, minha bela indômita, a me servir e satisfazer meus desejos e a ninguém mais.
O bruxo gargalhou, fazendo vibrar as paredes do salão. Entretanto, por mais que procurasse não a encontrava. O poder da pedra não respondia ao seu propósito e Gorlock irritou-se. Voltou à pedra e a tocou mais uma vez. A intensa luz que o envolvia apagou-se e os dragões saíram do seu corpo, prendendo-se novamente na pedra.
Seu pensamento estava fixo na figura da Kyara, que a desejava mais que tudo. Retirando-se abruptamente do salão, Gorlock seguiu pelos corredores até chegar a uma escadaria de pedra em espiral, descendo até o final onde as paredes passavam a ser a própria rocha da montanha. O ar era fétido, insuportável de respirar e, no final desse corredor, dois Orcs guardavam uma grande porta, que se abriu com a aproximação dele.
Era a entrada para câmaras de tortura e homens eram mutilados e torturados pelas formas mais cruéis. Ouvia-se, a todo instante, os gritos de dor e pavor, enquanto o cheiro de carne queimada e sangue fresco impregnavam o ambiente. Em calabouços mais profundos, outros tantos eram mantidos acorrentados. Vez ou outra, uma respiração pesada imperava no ambiente tenebroso, onde dois olhos acessos surgiam no meio da escuridão e um lobisomem atacava, devorando um deles.
Ele circulou pelas câmaras extasiado com a cena de terror a sua volta e toda a crueldade que se praticava ali. De braços estendidos e semblante voltado para o teto da caverna, o bruxo se alimentava daquela maldade, que se erguia de cada dor, cada grito de horror, liberando-se na forma de espectros. Com gemidos assustadores, voavam ao redor do bruxo, como nuvem negra, até se entranharem na sua carne, fortalecendo-o cada vez mais.
Gorlock entrou em uma câmara que abrigava mulheres acorrentadas com seus corpos dilacerados pelas correias dos chicotes. Sob o poder do bruxo, suas almas haviam sido capturadas e agora estavam à mercê da vontade dele. Ele pretendia usar suas prisioneiras para a reprodução de mais Orcs ou, quem sabe, qualquer outra criatura infernal. Ao se aproximar de uma delas, Gorlock agarrou seus cabelos e arrancou o pouco de roupa que a cobria, deixando a mostra seu corpo nu, brutalmente ferido.
Ele a mordeu e a lambeu, servindo-se do sangue que escorria das feridas abertas. Depois pediu para que a desamarrassem e a colocassem sobre uma mesa de pedra. Tirou a túnica que usava, deitou-se nu sobre a mulher e possuiu seu corpo catatônico e quase sem vida. Ouvia-se a distância seus gritos e expressões evidenciando o prazer que sentia. Saciado, desceu da mesa, vestiu-se e autorizou os Orcs, que guardavam a sala, a se servirem da mulher como quisessem.
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No tempo em que Kyara e Legolas faziam seu percurso de viagem, Gorlock não descansava.
Quem poderia conhecer a fundo o pensamento de um ser das trevas? Quem poderia, seguramente, alcançar as suas ideias? Naquele momento estava sentado um ser sinistro, num trono sinistro, cercado de monstros em meio à escuridão.
O Bruxo muito buscou saber o paradeiro da Kyara e nada encontrou nas imagens reveladas pela pedra. Não acreditava que ela ainda não estivesse à caça dele. Gorlock desejava ardentemente o poder e aprisionar sua algoz, que se tornara sua obsessão. Seu pagamento de vingança. Para atraí-la, decidiu apresentar a Terra Média um pouco da sua força e do seu poder.
Profanaria e destruiria tudo que fosse bom e belo naquela terra, porque em cada uma dessas coisas ele via Kyara, e queria tudo a seu gosto e modo, assim como a ela própria. Contudo, Kyara era uma brava e poderosa guerreira e trazia consigo o poder de Tiria. Ela não poderia ser subestimada. Não querendo mais arriscar ser surpreendido com alguma façanha dela, o bruxo resolveu mandar grupos de Orcs percorrerem a Terra Média a procura da Kyara.
— Caçarão e matarão todo ser vivo que encontrarem. As fogueiras do terror queimarão altas em cada casa, cada abrigo, cada vilarejo... Quanto à mulher guerreira quero que a encontrem e tragam-na viva e intocada.
Assim, Gorlock fez estremecer as Montanhas Sombrias e uma nuvem negra cobriu o céu, tornando noite onde era dia, invadindo as imensidões, apavorando todos os povos que tinham sobre suas cabeças a negritude do bruxo. Das cavernas, grupos de Orcs e Wargs foram libertados em multidões, de uma forma que nenhum homem ou elfo ou mesmo anão esperava acontecer naqueles dias. A chegada do bruxo foi furtiva e silenciosa, assim como foram silenciosas as suas ações, até aquele momento.
As criaturas atacaram com voracidade, matando e queimando tudo que encontraram pela frente. O rastro de destruição foi grande e inesperado. Homens, mulheres, crianças e animais sucumbiram e vilarejos foram devastados.
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Uma das primeiras medidas tomada por Aragorn depois de assumir o trono de Gondor foi dar subsídios para o cultivo em áreas mais afastadas.Com isso, muitas famílias de Minas Tirith se mudaram para os campos e em pouco tempo essas áreas tornaram-se produtivas. Amplas lavouras e muitos pomares, fazendas com fornos e silos, currais e estábulos e muitos riachos ondulando através do verde descendo das regiões mais altas até o Anduim.
O vilarejo da Encruzilhada pertencia a essa região fértil e promissora e ali habitava um povo forte, alguns de descendência mesclada de Gondor e dos povos esquecidos que moraram na sombra das montanhas, antes da chegada dos reis, ainda na Primeira Era da terra. Quando o sol já despontava acima da colina que sombreava a rua de maior movimento da vila, há muito seus moradores já cuidavam dos seus afazeres matinais.
Os pastores e lavradores já estavam na lida desde antes do sol raiado. Em muitas casas havia fogo forte na lareira e fumaça em suas chaminés e o cheiro bom de comida farta pairava no ar. As crianças corriam e gritavam com suas costumeiras traquinagens, enquanto as mulheres e moças estendiam enormes lençóis brancos em seus varais, ou mesmo batiam os tapetes fora de suas casas, quando não estavam na horta colhendo algo para acrescentar ao almoço.
O sol estava quente naquela manhã de verão e o vento vinha do sul. Tudo estava muito viçoso e o verde novo brotava nos campos. Pai e filho agora caminhavam entre as plantinhas para mais uma vistoria, que logo se transformariam em um grande milharal.
Tudo era rotina naquela manhã fatídica e quem poderia imaginar ou mesmo esperar acordar com a surpresa da lâmina de uma espada lhe cortando a garganta? O som de rosnados ferozes e berros furiosos chegaram do norte e, como uma avalanche, o inimigo invadiu repentinamente o vilarejo. Antes que qualquer um pudesse perceber, o medonho saque se fez.
Os Orcs e suas montarias de Wargs assassinavam todos.
Os homens tentaram enfrentar esse horror com as armas que dispunham, para defenderem mulheres e crianças, mas foi em vão e morreram, violentamente. Sem ter quem pudesse conter toda essa crueldade, os moradores sucumbiram, rapidamente. Os pequenos foram os primeiros a serem massacrados.
Os monstros vasculhavam cada casa, cada celeiro, cada canto do vilarejo pilhando, incendiando e destruindo. Tudo estava perdido, com o pouco que sobrara de pé em chamas, as casas em ruínas, os campos em cinzas. Ao final de tudo, aquelas mulheres, que não haviam sido mortas pela espada ou queimadas, eles recolheram, e ainda um ou outro homem que, milagrosamente, havia resistido.
Todos seriam levados à servidão do bruxo.
Os Orcs marcharam arrastando aqueles pobres infelizes, pisoteando na lama o sangue dos inocentes.
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Gorlock gargalhava diante de todo aquele sofrimento e nunca considerou aquela gente e seus governantes oponentes a altura do seu poder. O único que a pedra mostrou ser capaz de destruí-lo, ele julgava estar morto. Então, sua ousadia não teve limites e manifestou seu poder em Gondor, fazendo jorrar enormes rios de chama que desciam da Montanha da Perdição, mais velozes que qualquer rio de água corrente, tal qual quando Sauron fora destruído.O ar de Gondor foi envenenado pela fumaça e seu rei, bem como seus súditos, temeram com a possibilidade do Senhor do Escuro estar de volta.
Apressado, o rei Aragorn logo reuniu os senhores das regiões vizinhas, em meio aos preparativos para sua festa de aniversário. Confabularam, incessantemente, sobre o ocorrido e nada pôde lhes dar clareza sobre o que ou quem os atacava.
Estiveram presentes os representantes do Folder Ocidental e Fenmark, acompanhados de Éomer, rei de Rohan; Riacho de Neve e Grimbol; Faramir, governante da província de Ithílien; Mestre Gimli, governante do povo anão, que passou a viver nas Cavernas Cintilantes do Abismo de Helm; a Casa de Elrond, representada pelos seus filhos Elrohir e Elladan, acompanhados do lendário guerreiro e conselheiro dos povos aliados, Glorfindel, e o príncipe Imrahil da província de Dol Amroth, do grande feudo de Belfalas, que estava em visita a Gondor.
Para aquele que era impiedoso e se alimentava do sofrimento alheio, seus atos deveriam ser sempre voltados para a destruição. Naquela mesma noite a manifestação do bruxo foi mais intensa e aterradora que das outras vezes. Um bando de dragões alados invadiu o céu de Gondor e lançou fogo sobre a cidade de Osgiliath e os campos de Pelennor.
Uma grotesca voz podia ser ouvida professando encantamentos e aqueles que ainda duvidavam puderam ter a certeza de que o mal voltara e sua manifestação naquela noite fora a mais terrível já presenciada por aquela gente.
O pânico foi total.
Todo o exército fora acionado e colocado em alerta e enfrentaram as criaturas aladas sob o comando do seu rei.
Dos muitos atos de bravura realizados sob o ataque dos demônios, pôde-se presenciar a ação dos filhos de Elrond e do guerreiro Glorfindel, com a hoste de Valfenda, que ainda permanecia na Terra Média para a guarda do seu povo remanescente.
Pela manhã, após o rei de Gondor fazer a abertura da reunião do conselho e seu capitão Bertrand relatar em detalhes os ataques que sofreram na noite anterior, às discussões sobre o assunto beiravam ao desespero, acreditando que estavam na iminência de uma nova guerra. Usando de prudência e sabedoria, Glorfindel tentou abrandar o ímpeto dos governantes que pretendiam se lançar para a batalha completamente às cegas.
— Se me permite um aparte majestade... Pediu a palavra Glorfindel sendo concedido prontamente pelo rei Aragorn... – A situação é bastante preocupante, levando-se em conta o poder que foi manifestado ontem à noite, além dos constantes ataques que as regiões próximas a Gondor vem sofrendo. Fica ainda mais preocupante, no entanto, quando não temos conhecimento de quem está por trás dessas maquinações. E por isso mesmo devemos ter muito mais cautela. Seria um erro imperdoável sairmos a ermo buscando a guerra sem ter nenhuma informação sobre o inimigo.
Quase todos tiveram reações de inquietação. Aragorn reparou que Gimli nem se mexeu. Continuava sentado no seu lugar, com seu cachimbo na boca e os olhos fixos na mesa de madeira polida da sala do conselho. Se não fosse pelas baforadas poderiam pensar que estava morto.
— Sabemos que os ataques estão concentrados nas regiões que cercam Gondor... E é evidente que logo se estenderão as outras regiões... Manifestou-se Faramir demonstrando inquietação.
— Aí está à questão... Devemos esperar sermos massacrados?... Rebelou-se Éomer, rei de Rohan... – Sim, porque o que aconteceu a noite passada não foi mero acaso. Alguém, seja um feiticeiro ou não, deseja nos destruir... O ataque agora foi em Gondor e logo chegará a Rohan, Ithílien, Belfalas e nas demais regiões.
Um pesado silêncio tomou conta da sala.
— A mim fica muito claro que estão nos testando e certamente sabem da nossa força. Quanto mais penso a respeito vejo que não nos temem... Manifestou-se Imrahil.
— Calma!... Amigos!... Retrucou Glorfindel... – É certo que temos um novo inimigo para confrontar, mas ganharemos mais se nos mantivermos em alerta e buscarmos compreensão sobre o que está acontecendo.
— Alguém aqui já pensou na possibilidade dos Haradhrim estarem envolvidos?... Perguntou Gimli se manifestando pela primeira vez, levantando novas suspeitas.
Todos silenciaram ponderando sobre essa possibilidade até Aragorn tomar novamente a palavra... – Por mais cruéis que sejam nada na cultura dos Haradhrim envolveu poderes como os que foram manifestados até o momento... No entanto, não descarto a possibilidade de uma aliança com os Haradhrim. Como bem disse o príncipe Imrahil, estamos sendo testados e por forças que têm conhecimento sobre nós. Saber o que ou quem é a grande questão e se tratando de magia temos que saber mais, saber como poderemos nos defender e atacar quando chegar o momento.
— Diante de sinais tão inquietantes, sugiro que precisamos de uma investigação ainda mais profunda e aprimorada... Glorfindel deixou que seus sentidos élficos lhe conduzissem tal qual quando profetizou a morte de Sauron na guerra da aliança... – Mesmo porque sinto que a verdade chegará até nós e isso não tardará.
— O que pressente, meu amigo conselheiro?... Perguntou Aragorn.
— Um grande mal por trás desses acontecimentos funestos. Tudo o que ocorreu até agora foi uma pequena demonstração do que teremos de enfrentar... Proferiu Glorfindel com uma sombra em seu olhar... – Muito perigo nos cerca, mas a cautela é necessária. Saber quem nos ataca é fundamental para o nosso sucesso.
— O caso é que nenhum de nós sabe onde a horda Orc se esconde e tão pouco esse dragões alados. A exceção das criaturas aladas de Sauron, quanto tempo faz que dragões não são vistos?... Observou Elrohir.
— É verdade. O último morto foi Smaug, mas conhecemos regiões e determinados locais que no passado já foram usados como esconderijo dessa corja. São nesses lugares que precisamos buscar as nossas respostas... Insistiu Glorfindel... – Vamos encarar a verdade, já faz muito tempo que estamos ignorando os Orcs. Ficamos aqui cuidando das nossas vidas, só olhando, enquanto eles cuidavam da sua própria sobrevivência, como uma maldita doença que não tem cura... Agora estão novamente de conluio com outro demônio, provavelmente.
— E o que propõe, então, Glorfindel?... Perguntou o rei Éomer.
— Um plano de ação em duas partes: primeira parte, procurar saber sobre a participação dos Haradhrim, o que acredito não se confirmar, mas temos que ter certeza para não sermos surpreendidos novamente. Devemos mandar um espião sondar as terras da Harad e Harandor até o rio Poros. A outra medida é definir as regiões e possíveis locais para formação da horda Orc... Qualquer movimentação suspeita nossos homens detectarão e será o nosso primeiro ponto de ataque.
— Com todo o respeito que o senhor merece, conselheiro... Interrompeu o príncipe Imrahil... Estaremos mandando esses homens para a morte e dificilmente obteremos respostas... Mal conseguimos transitar pelas estradas sem sofrermos ataques. Acredito que seja totalmente impossível alguém se aproximar de qualquer covil Orc. Sem contar que tais regiões ficam muito distantes de Gondor. Quanto tempo levaria para obtermos qualquer informação?
— Certamente que a tarefa não deve ser executada por um soldado treinado para o campo de batalha, mas alguém capaz de se infiltrar e passar despercebido... Insistiu Glorfindel... – Não conheço ninguém mais capaz que os Dúnedain.
— São excelentes homens de combate... Acaso não seria um desperdício mandar homens tão capazes e corajosos para regiões distantes buscando supostas informações?... Perguntou Faramir.
— É uma tarefa difícil e muito importante para nós. Reconheço que poucas pessoas podem realizá-la... Durante quase toda a minha vida fui um Dúnedain e digo que realizarão de muito bom grado essa tarefa... Concluiu Aragorn.
O silêncio tornou-se ainda mais pesado.
— E então? Precisamos de um espião morto? Como vamos saber de alguma coisa se os nossos forem capturados pelos Orcs?... Insistiu Éomer contestando a ideia de Glorfindel abertamente defendida por Aragorn.
— Se bem-sucedida será nossa melhor chance de atacar, mas desta vez sabendo o que estamos enfrentando e onde. Temos que arriscar... Glorfindel não titubeou calando todos os presentes.
— Pode ser que seja de fato um suicídio, mas estamos desesperados. Se for uma missão voluntária, não vejo nada de mal nela. Durante esses anos em que andei por inúmeros campos de batalha já vi coisa pior. Infelizmente, o risco faz parte... Declarou Aragorn.
— Não existe nada mais forte que o coração de um voluntário. Aquele que dá um passo a frente num momento de trevas... Completou Glorfindel em tom solene.
Ninguém piou e Aragorn percorreu a sala com os olhos.
— Não é uma decisão fácil, sei muito bem disso. Portanto, quero que levem o assunto aos seus comandados. Não quero ninguém, ouçam bem, ninguém obrigado a uma missão como essa. Será bem-sucedida se for realizada por pessoa capaz e que esteja verdadeiramente comprometida... Diante do silêncio profundo que se instalou, o rei de Gondor concluiu... – Aguardaremos o decorrer desta semana e a outra. Se alguém quiser assumir o ônus deste encargo, que venha falar comigo ou com qualquer membro do conselho.
— Quanto aos ataques às cidades, digo que deveremos aguardar em alerta o próximo passo do inimigo e proteger da forma que pudermos o nosso povo... Concluiu Imrahil.
Enquanto os demais se manifestavam favoráveis, Aragorn manteve-se um instante em silêncio recordando-se de algo que o preocupou... – Não há outra coisa a ser feita no momento. Se quisermos enfrentar nosso inimigo basta esperar que ele venha até nós, até termos a segurança de podermos contra-atacar.
— Aumentarei o meu contingente para patrulhar o máximo possível as terras de Rohan na tentativa de inibir o ataque dos Orcs... Decretou Éomer.
— Sim, devemos todos tomar a mesma medida... Faramir não escondia sua preocupação.
— Me ocorreu agora, Aragorn, que Legolas está viajando neste momento. Ele vem para cá sozinho... Preocupou-se Gimli.
— Pensei a mesma coisa... Respondeu Aragorn... – Espero realmente que ele passe despercebido por esse turbilhão todo e chegue logo.
— Afortunada a vinda do príncipe Legolas para o palácio. Se vier trilhando o caminho mais usual para essa viagem, certamente trará notícias. Deveremos contar dessa vez com a ajuda do povo da floresta e até mesmo recorrer a Lórien Oriental para somarmos esforços?... Perguntou Elrohir.
— Pode ser uma possibilidade, mas vamos aguardar os acontecimentos... Esse inimigo até o momento quis testar nossas forças. Foi feliz no ataque porque nos pegou desprevenidos, mas isso não se repetirá... Declarou o rei de Gondor.
— Elladan, sua clarividência não revela nada sobre esse ataque? Algo que possa nos dar uma ideia?... Indagou Éomer.
— Tento meu amigo, mas as imagens me chegam como borrões, como se estivesse com um véu sobre os meus olhos. O que percebo é que se trata de magia e aquele que a está controlando tem grande poder... Elladan calou-se relembrando suas visões... – Há algumas semanas pude ver, nitidamente, a imagem de uma moça, uma Edain bastante incomum eu diria. Não sei que relação ela pode ter com os acontecimentos, entretanto sua imagem ficou marcada. Uma coisa é certa: ela não se parece com uma Haradhrim... Gostaria que meu pai estivesse aqui agora para nos orientar. Seu poder de visão é deveras superior ao meu.
— Talvez devêssemos ir à fonte de Galadriel, para tentar alcançar uma visão melhor sobre o que ocorre às nossas costas... Saber por exemplo se as Terras Ermas sofrem com esses ataques... Sugeriu Elrohir... – Isso se não forem eles a precisar de ajuda.
Glorfindel inquietou-se diante da sugestão de Elrohir... – Digo que não. Correriam grande perigo e sem a certeza de sucesso. Vamos unir forças e aguardar o próximo passo do inimigo. Estaremos preparados para seu ataque dessa vez... Se as Terras Ermas estivessem precisando de socorro, Valfenda já teria sido avisada.
— Posso então afirmar que o Conselho deliberou?... Diante da afirmação de todos os presentes, o rei de Gondor continuou... – Sendo da concordância de todos vamos aumentar o contingente das patrulhas e unir forças para enfrentar esse inimigo desconhecido. Mandaremos voluntários percorrerem as regiões circundantes na tentativa de descobrir mais sobre a horda Orc... Bem como, as terras dos Haradhrim. Creio que se estiverem envolvidos logo saberemos. Às demais regiões, peço aos cavalheiros que busquem entre seus comandados voluntários para as investigações. Teremos dez dias para aguardar o pronunciamento dos voluntários e definirmos as regiões que serão investigadas... Os exércitos precisarão estar a postos para novos ataques... Decretou Aragorn com a autoridade a ele conferida como rei e líder dos povos livres da Terra Média.
O conselho se desfez na ânsia de colocar em prática as decisões tomadas em conjunto esperando nova reunião em dez dias. No entanto, o Mal não descansava.
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Não tardou muito e Gondor recebeu a notícia de que o vilarejo da Encruzilhada, pertencente às terras de Ithílien, fora devastado. De todas as regiões que o rei Aragorn havia incentivado o repovoamento, esse vilarejo era o mais promissor e populoso.
Uma região destinada à agricultura, com famílias numerosas habitando ali.
Tanto em Ithílien quanto em Gondor o pranto foi grande e o luto profundo, até mesmo entre os empregados do rei. Como se não bastasse, uma comitiva que partira de Rohan com chegada prevista em quatro dias fora atacada, restando apenas corpos amontoados e carbonizados.
As cabeças dos soldados foram decepadas e penduradas em lanças ao longo das estradas e trilhas de Rohan, como advertência. Os únicos que sobreviveram ao massacre foram um soldado e uma dama de companhia de uma das donzelas da comitiva.
Aragorn estava diante de novos tempos de trevas, incessante luta e muitas perdas. A ameaça misteriosa se apresentava terrivelmente no meio do seu povo e os murmúrios começavam a se transformar em clamor.
— Que força maligna era essa que se colocava sempre um passo a frente das nossas ações?... Perguntou-se Aragorn solitário em seu trono meditando sobre todas as desgraças que recaiam sobre seu reinado...— Nunca soube de uma ação tão articulada de Orcs. Quem quer que seja o mentor de tudo isso sabe bem o que faz. Como bravos e habilidosos soldados, como os filhos de Rohan, caem diante de uma força até então falha e covarde?... Éomer tinha razão. Os inimigos se alastravam por toda a Gondor e até Rohan sofria com seus ataques.
Diante dos fatos e da difícil situação que os povos da Terra Média enfrentavam, o rei Aragorn cancelou sua festa de aniversário. Agora, cada governante precisava se preparar para a guerra. Os únicos que permaneceram no palácio foram à hoste de Valfenda e seus senhores, além de Gimli, que havia mandado seus comandantes retornarem, enquanto ele mesmo permanecia em Gondor a espera de notícias de Legolas.
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